Contando e Cantando (Volume 2)

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Filme da Universal sobre resgate em caverna na Tailândia será adaptação de livro

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O estúdio comprou os direitos da obra “Into the Dark”, ainda inédita, sobre o time de futebol juvenil que ficou preso em Tham Luang em junho de 2018.

Jacqueline Elise no Cinema com Rapadura

De acordo com o Deadline, a editora Ballantine Books adquiriu os direitos de distribuição, em inglês, do livro “Into the Dark: The Dramatic Story of the Thai Cave Rescue” (“Na Escuridão: a História Dramática do Resgate na Caverna Tailandesa”, em tradução livre), que contará a história dos garotos presos em uma caverna na Tailândia em junho de 2018. Além disso, a Universal Pictures, que já tinha planos de adaptar a história para os cinemas, fará o roteiro do futuro longa com base na obra literária.

“Into the Dark” será escrito pelo jornalista e autor Ellis Henican. O livro usará o recurso de narração em primeira pessoa para retratar o que aconteceu com os meninos durante o tempo em que ficaram presos até seu resgate bem sucedido. Os narradores serão, além dos resgatados, os mergulhadores Dr. Craig Challen e Dr. Richard Harris, além do treinador de futebol Ekkapol Chantawong, que acompanhava os garotos quando entraram na caverna. “Into the Dark” ainda não tem data de lançamento.

O resgaste na Tailândia foi um dos acontecimentos de maior repercussão deste ano. Em 23 de junho, a equipe de futebol dos “Javalis Selvagens” e seu treinador ficaram presos na caverna de Tham Luang, por causa das fortes chuvas na região. O time era composto por 12 meninos,com idades entre 11 e 16 anos. Felizmente, todos os atletas e o técnico foram resgatados com vida ao longo de três dias, em uma operação de resgate que aconteceu entre 8 a 10 de julho.

O longa da Universal Pictures será produzido por Michael De Luca e Dana Brunetti, que já trabalharam juntos em “A Rede Social”, “Capitão Phillips” e na trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”. Além deste, havia sido divulgado que o governo tailandês recebeu propostas de várias produtoras internacionais, que manifestaram o interesse em produzir filmes sobre o resgate. Jon M. Chu (“Podres de Ricos”) estaria cotado para dirigir um desses projetos.

Sobre a produção da Universal, por enquanto, não há mais informações sobre elenco ou data de estreia.

Todo o Dinheiro do Mundo | Livro que inspirou o filme será lançado no Brasil

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Cesar Gaglioni, no Jovem Nerd

A editora HarperCollins anunciou que lançará no Brasil o livro Todo o Dinheiro do Mundo, de John Pearson, que inspirou o filme de mesmo nome dirigido por Ridley Scott.

A publicação conta a história de John Paul Getty, um dos maiores magnatas dos EUA no século 20. Ele se tornou conhecido mundialmente após se negar a pagar o resgate de seu neto, John Paul Getty III, que foi sequestrado por criminosos italianos, que, na tentativa de pressionarem a família do rapaz, cortaram uma de suas orelhas e a enviaram para o avô por correio. Além de falar sobre o sequestro, Pearson tenta traçar um perfil dos Getty e de sua relação com o dinheiro e com o poder.

O livro será lançado em 26 de fevereiro.

O sequestro que inspirou Agatha Christie em Assassinato no Expresso do Oriente

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collagelindbergh

Publicado no Literatura Policial

Via The Sun – Sarah Barns – Assassinato no Expresso do Oriente, suspense que apresenta o detetive Hercule Poirot investigando um crime a bordo de um luxuoso trem transcontinental de passageiros, volta aos cinemas em uma nova adaptação, desta vez estrelando Kenneth Branagh, Johnny Depp, Penelope Cruz, Judi Dench, entre outras estrelas. Mesmo que a história ainda seja considerada um clássico após 80 anos desde sua publicação, muitos leitores não sabem que foi inspirada num evento da vida real.

Em 1927, o famoso aviador norte-americano Charles Lindbergh tornou-se o primeiro homem a fazer, sozinho, um voo transatlântico sem escalas no mundo. Cinco anos depois, seu filho de vinte meses, Charles Augustus Lindbergh, Jr, foi roubado do berço no meio da noite, na casa de Lindbergh em Nova Jersey. A imprensa acompanhou exaustivamente o caso, e os sequestradores exigiram um resgate de U$ 50.000 pelo retorno seguro da criança.

(Imagem: Literatura UOL)

(Imagem: Literatura UOL)

Os Lindberghs pagaram o resgate usando notas marcadas, na esperança de identificar os sequestradores posteriormente. Porém, o corpo de Charles Jr foi encontrado em decomposição na floresta apenas dois meses depois, a poucos quilômetros da casa da família. A polícia afirmou que a causa da morte teria sido uma fratura no crânio.

Durante esse período, Agatha Christie examinava histórias nos jornais em busca de ideias para suas próprias tramas. Em Assassinato no Expresso do Oriente, há claros paralelos entre o crime fictício e o da vida real, isso porque Agatha se inspirou nas circunstâncias desse sequestro ao descrever no livro o rapto de Daisy Armstrong, uma menina de três anos que é sequestrada e cuja família também paga um resgate, porém seu corpo é encontrado tempos depois. Segundo a escritora disse na época, ela incluiu mortes adicionais para aumentar a tragédia e também para fins de enredo.

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Quando Agatha escrevia Assassinato no Expresso do Oriente, em 1933, o crime ainda não tinha sido resolvido, mas em 1934 a polícia fez novas descobertas quando conseguiu rastrear o dinheiro marcado de volta a um imigrante alemão chamado Bruno Hauptmann, um investidor de Wall Street. Uma empregada inocente, Violet Sharp, foi levada ao suicídio depois que a polícia suspeitou que ela estivesse envolvida.

Tempos depois, Hauptmann foi julgado e condenado pelos crimes de sequestro e assassinato. Ele se declarou inocente até a morte, quando foi executado na cadeira elétrica da prisão estadual de Nova Jersey em 3 de abril de 1936.

Autora Carolina Maria de Jesus é celebrada em feiras e relançamentos

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Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, onde viveu até lançar 'Quarto de Despejo' (foto: Divulgação/Audalio Dantas)

Carolina Maria de Jesus em 1958 na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, onde viveu até lançar ‘Quarto de Despejo’ (foto: Divulgação/Audalio Dantas)

Karla Monteiro, na Folha de S.Paulo

Aos 60 anos, a professora Vera Eunice de Jesus Lima está descobrindo, “estupefata”, como ela gosta de dizer, a “força e a poesia” de sua mãe, Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Até então, Vera se via apenas como personagem de uma fábula de miséria e glória, que começa em 1958, na favela do Canindé, nos arredores do estádio da Portuguesa, em São Paulo, e termina silenciosa em um sítio em Parelheiros, zona sul da cidade.

“Não tinha dimensão da importância dela. Só agora, com este rebuliço, é que fui reler tudo o que ela escreveu. É como se eu estivesse conhecendo a minha mãe agora”, diz, sentada na sala do apartamento de dois quartos, em condomínio de Interlagos.

O “rebuliço” tem razão de ser: uma série de eventos marcam o centenário da escritora negra, favelada, semianalfabeta, nome acidental e revolucionário da literatura brasileira, que desapareceu das estantes das livrarias.

Carolina Maria de Jesus será a homenageada da edição deste ano da Flink Sampa, festival de literatura negra que acontece neste sábado (22) e domingo (23), no Memorial da América Latina. Haverá o relançamento de dois de seus livros: “Quarto de Despejo” (Ática, 200 págs., R$ 34,90) e “Diário de Bitita” (Sesi-SP, 216 págs., preço a definir).

Ela é também a homenageada da Balada Literária, com eventos que vão até domingo em SP. E no Rio, foi a estrela da Flupp (Festa Literária Internacional das Periferias), na semana passada.

Na segunda (17), foi lançado, na Câmara Municipal de SP, o livro “Onde Estaes Felicidade?”, com dois contos inéditos e apoio do MinC.

“Para o grande público, é um resgate de Carolina”, diz Uelinton Farias Alves, professor de literatura brasileira da Universidade Zumbi dos Palmares e curador da Flink.

“Hoje há muitos autores de periferia, como o Paulo Lins. Ela é a precursora. Abriu um precedente na literatura”.

CONFIRA DESTAQUES DA FLINK SAMPA

Sábado (22)

14h – Mesa Carolina Maria de Jesus, com Audálio Dantas, Vera Eunice e Elzira Perpétua

16h – Conversa com as misses negras Deise Nunes, Yitayish Ayenew (Israel) e Leila Lopes (Angola) e Paulo Borges

Domingo (23)

14h – Lançamento do livro “O Leito do Silêncio”, da escritora angolana Isabel Ferreira

16h – Palestra com a ativista Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, em defesa das mulheres e crianças

FLINKSAMPA
QUANDO sab. (22) e dom. (23), das 9h às 19h
ONDE Memorial da América Latina, av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, tel. (11) 3823-4600
QUANTO grátis
CLASSIFICAÇÃO livre

 

Tragédias pontuam história de amor dos pais de Adriana Falcão, agora narrada em livro

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Homenageada da Fliporto deste ano, a roteirista e escritora resgata desde o primeiro encontro entre Caio e Maria Augusta, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Fellipe Torres, no Diário de Pernambuco

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Ao caminhar na orla da praia de Boa Viagem, de tempos em tempos, a carioca Adriana Falcão, 54, sente-se mais perto dos pais, cujos restos mortais estão enterrados no Cemitério de Santo Amaro. Na memória, os anos vividos no Recife desde 1971, quando o patriarca da família veio instalar uma fábrica de papelão na cidade, até 1991, quando a mãe morreu depois de abusar de remédios, vodca e uísque. Treze anos antes, o pai havia se suicidado ao tomar 400 comprimidos para dormir, mesmo período em que a mulher ameaçava atear fogo no próprio corpo com um isqueiro e uma garrafa de álcool, que explodiu em sua mão. Era a culminância de uma vida atribulada. Ela, Maria Augusta, uma provável bipolar. Ele, Caio, depressivo.

Acompanhada de perto por tragédias, a história de amor entre os dois estaria esquecida se não fosse resgatada pela filha no livro Queria ver você feliz (Intrínseca, 160 páginas, R$ 29,90). Resgatar a vida em comum dos pais foi como uma terapia (“além da que já faço semanalmente e os antidepressivos que tomo”). Há cinco anos, a roteirista de A grande família acreditava levar uma vida perfeita junto ao marido, o cineasta João Falcão, e as filhas. Mas uma separação repentina gerou uma crise pessoal. “Era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Tive que me reinventar, repensar tudo”.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Parte dessa reinvenção terapêutica está em uma noite em claro, no Rio de Janeiro, acompanhada pelas duas irmãs e regada a “risadas, choros e Rivotril”. Juntas, elas abriram o baú onde ficam guardadas as correspondências dos pais, muitas delas reproduzidas no livro. Foi o ponto de partida para tornar pública a intimidade do casal. “Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis… Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo”.

Para se distanciar e evitar sentimentalismos, Adriana deu voz ao amor e o colocou como narrador da história do casal. Um amor arrogante, ácido, irônico. Essa entidade é responsável por esmiuçar a combinação entre personalidade exuberante de Maria Augusta e a melancolia de Caio. A obra dá conta desde o primeiro encontro entre os dois, em 1947, até o enterro da mãe, no começo da década de 1990. Ao ler o livro em primeira mão, o genro Gregório Duvivier disse nunca ter entendido tão bem a mulher, Clarice Falcão. Juntos, eles gravaram e postaram vídeo no YouTube cantando Learnin’ the blues, música favorita de Caio e Maria Augusta. “A gente termina tendo orgulho dessa ancestralidade maluca, que suplanta todo o resto”.

ENTREVISTA >>> ADRIANA FALCÃO

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Você escolheu o amor para ser narrador desse livro, que promete uma história bonita e oferece uma sequência de socos no estômago. O amor é mesmo tão cruel?
O narrador é um amor arrogante, não é? Acho que estou fazendo um desserviço à humanidade (risos). O mais incrível é que toda essa historia é verdadeira, com exceção de algumas coisas de quando eu não era nascida. São detalhes, como a data do noivado deles, que eu não sabia. Mas todas as cartas trocadas entre eles estavam dentro de um baú. A história de um tempo para cá todo mundo sabia, até porque a gente viveu isso tudo. Eu e minhas irmãs, que ainda moram no Recife.

Foi doloroso trazer à tona essa vida marcada por tragédias?
Obviamente foi muito duro. A gente sempre teve sensação de tanta gratidão por ter esses pais. Apesar de tanta tristeza, tanto conflito, eles foram tão fortes, tão lindos, tão difíceis também. A gente herdou da minha mãe o senso de humor. Lembro que no dia do velório dela, uma das minhas irmãs disse que Deus não iria aguentar minha mãe no céu e iria mandar ela de volta. E aí a outra respondeu que ela é que não iria aguentar viver lá no céu sem controlar a vida da gente e iria voltar. Mais tarde eu transformei isso em ficção, no livro A comédia dos anjos, em que uma mãe manipuladora morre e volta à vida.

Como foi a abertura desse baú e o contato com as cartas?
Quando mamãe morreu, fiquei muito mal. Fomos dividir as coisas, e eu não queria nada, estava muito agoniada. Quando achamos o baú, eu disse que queria, e tenho ele até hoje. Vez ou outra eu abria e mostrava a minha filha algumas coisas engraçadas (óbvio que não mostrei a carta de suicídio do meu pai). Mas sempre foi algo que me deu um pouco de medo. Há três anos, minhas irmãs estavam comigo aqui, no Rio de Janeiro. Com elas, me sentia mais segura. E aí passamos a noite em claro lendo, rindo, chorando, tomando Rivotril. Foi quando elas me disseram que eu precisava fazer um livro, pois tinha uma história muito rica.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Houve medo de se expor demais?
Passei por todas as crises. Pensei se não seria expor demais, se deveria ou não tornar essa história pública, até chegar à conclusão que, se eu e minhas irmãs, que somos herdeiras dessa história, concordávamos em dividir com os outros… Por que não? Também tinha a sensação de que meu pai e minha mãe opinariam a favor. Claro, muita coisa ali é como um soco no estômago, mas é tão a realidade… Uma realidade que às vezes é cruel, mas às vezes é tão linda, engraçada, e cruel de novo… mas é a realidade.
Teve um momento que fiquei na dúvida se incluía a carta de suicídio de meu pai, que é bem carinhosa, bem pratica, mas eu tinha um pouco de medo de expor isso. Mas conversei com minhas irmãs e elas me deram força. Por toda a minha vida cansei de dizer que meu pai se matou e ouvir alguém responder: “ah, coitado! Está queimando no inferno.” Essas coisas de quem não compreende o tamanho da dor de alguém que se mata. Nunca discuti, porque sou uma pessoa conciliadora, muito pacificadora, mas me incomodava muito quem não via o lado dele. Quando ele cometeu suicídio, tinha duas filhas grávidas, eu e minha irmã mais velha. Pra muita agente era uma coisa louca. Como um pai se mata e deixa a família assim? Mas só quem viveu a dor dele pode entender. Tenho certeza que pela posição política, social e emocional dos meus pais, eles gostariam que eu contasse essa história.

Como tocou a vida após a morte de sua mãe e deixar o Recife?
Depois de toda essa tragédia, logo depois vim morar no Rio de Janeiro com João e as meninas. Durante muito tempo escrevi A grande família, livros infantis, vivi uma fase muito bem, com a família feliz, com tudo indo bem no trabalho, tudo direitinho. Mas em 2009 a gente se separou. Eu não queria. Tinha uma paixão imensa, parecida com a que minha mãe tinha pelo meu pai. Foi difícil. Hoje em dia a gente é super amigo, e eu entendo perfeitamente o direito de escolha dele, aos 50 anos, de querer viver, experimentar outras coisas.
Absolutamente compreendi. Mas dentro de mim causou uma coisa muito forte, porque era como se eu, aos 49 anos, visse acabar a vida que eu tinha e amava ter com essa família. Foi uma crise pessoal. Me colocou em uma posição que tive que me reinventar, repensar tudo. E fui muito feliz em manter a união da família, nas conquistas profissionais. Fez parte desse esforço esse mergulho no meu passado, como uma espécie de terapia. Não basta a terapia que faço semanalmente e os antidepressivos que tomo. Tive que dar um mergulho lá dentro, reinventar Adriana.

As vidas da sua avó, de seu pai e de sua mãe foram marcadas por tragédias. Em algum momento houve receio de uma “herança maldita”?
Todas nós temos, eu, minhas irmãs, todos os nossos filhos adultos. Nós somos muito sensíveis, já tivemos crise de pânico, fizemos terapia, tanto nos três quanto nossas filhas. Mas com o tempo esse medo foi se transformando numa coisa maluca, em um orgulho de a gente ser assim. É engraçado… Quando o Gregório (Duvivier, marido de Clarice Falcão, filha de Adriana) leu, disse assim: “Meu Deus, entendi a Clarice como nunca”. (risos) Também teve o namorado da Isabel, o músico pernambucano Mateus Torreão, que falou algo sobre uma “ancestralidade maluca”. Achei bonitinho. A partir dessa ancestralidade maluca, a gente pega o que tem de melhor, o senso de humor, o talentos para as coisas. Herdamos muito da felicidade da minha mãe, que deveria ter sido escritora, para botar a agonia para fora de alguma maneira. Ela teve uma vida muito careta para a personalidade dela. Foi funcionária pública e se aposentou cedo para se mudar para o Recife. Viveu como dona de casa e não se aguentava desse jeito. Mas sinto que há uma herança bendita que engole a herança maldita. Minhas três filhas escrevem. A Clarice escreve, compõe, canta… É óbvio que todas as noites eu rezo pelo bem-estar emocional de todo mundo. Não é fácil. Às vezes uma das minhas meninas tem crise de pânico.

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Foto: Editora Intrínseca/divulgação

Como a família tem reagido ao livro?
Clarice e Gregório gravaram um vídeo cantando a música que meus pais gostavam. É como eu disse, a gente termina tendo orgulho dessa coisa… dessa ancestralidade maluca. Acho que isso suplanta o resto. Quando o livro foi lançado no Rio de Janeiro, estava lá a irmã do meu pai, com 83 anos, a família da minha mãe, todo mundo muito feliz de reencontrar com essas duas pessoas que eles amavam tanto. Com o livro, puderam entender melhor, ter acesso à vida deles. Hoje eu acordei com o telefonema de um primo meu, aos prantos. Ele era muito ligado à minha mãe. Ele disse: “o livro é lindo, estou aqui pensando nela”. É quanto eu me toco que realmente o livro tem esse lado punk.

E suas filhas?
Cada uma reage de um jeito. As meninas foram as primeiras a ler. Tatiana, a mais velha, disse: “Mãe, você conseguiu uma coisa inacreditável. Mas o final é assim mesmo? A gente vai ficar desacreditando de tudo mesmo?” Eu disse que não, que tudo tem suas dificuldades. Ela conviveu muito com a avó, então o que ela acha inacreditável é como a alma de mamãe ficou ali. Clarice tem uma relação mais próxima do humor. Fica lendo trechos das cartas de amor, em que minha mãe dizia: “Querido Caio, o ‘querido’ vou tirar porque na carta anterior você me tratou como quem vai me vender uma empresa ou um terreno em Jacarepaguá” (risos). Clarice fica morrendo de rir com essas passagens.
Já Isabel, que estuda letras, vai mais pela literatura. Comenta que foi um grande acerto tirar de mim a narrativa e colocar nesse amor que tem personalidade tão forte. Porque, caso contrário, poderia resvalar em um sentimentalismo no meu coração. Ao tentar colocar daquela forma, com um narrador tão ácido, tão crítico, coloco as coisas de uma maneira mais realista.

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