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Confira 10 momentos marcantes da Flip 2015 em 10 palavras

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Evento teve palco invadido, Machado ‘psicografado’ e poesia com pandeiro.
13ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty acabou neste domingo.

Cauê Muraro, Letícia Mendes e Shin Oliva Suzuki, no G1

A Festa Literária Internacional de Paraty encerrou a 13ª edição neste domingo (5) com diversos momentos marcantes, mesmo perdendo sua atração mais esperada pouco antes do início e com a cidade com menos turistas do que em outros anos.

O cancelamento da ida de Roberto Saviano deixou a Flip sem uma grande estrela internacional dos livros, mas a maior parte dos debates conseguiu empolgar o público.

Não foi uma edição tão política quanto a de 2013, que adaptou sua programação ao momento de protestos pelo país. Mas neste ano, nas vezes em que o tema foi evocado, a efervescência no público era perceptível.

O erotismo também esteve presente em diversos momentos desta Flip. Foi destaque também o interesse pelas mesas de ciência: em 2015, o cérebro e a matemática foram temas que atraíram uma grande multidão à tenda da festa.

Confira abaixo dez momentos marcantes da Flip em dez palavras:

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O salve (Foto: Editoria de Arte/G1) Roberto Saviano fala sobre sua ausência na Flip 2015 (Foto: Divulgação/Flip)

O salve (Foto: Editoria de Arte/G1)
Roberto Saviano fala sobre sua ausência na Flip 2015 (Foto: Divulgação/Flip)

Ele não veio. Mas esteve presente. Roberto Saviano, jurado de morte pela Máfia italiana, cancelou sua participação alegando questões de segurança. Mas emocionou o público com um vídeo de pouco mais de 11 minutos bastante contundente em que abordou sua condição de constante ameaça e atacou as conexões que possibilitam à indústria do narcotráfico uma condição cada vez mais forte.

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a invasão (Foto: Editoria de Arte/G1) O ator Pascoal da Conceição invade o palco vestido de Mário de Andrade na mesa de abertura da Flip (Foto: Divulgação/Flip)

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O ator Pascoal da Conceição invade o palco vestido de Mário de Andrade na mesa de abertura da Flip (Foto: Divulgação/Flip)

O ator Pascoal da Conceição, que interpretou Mário de Andrade na minissérie da Globo “Um só coração” (2004), em peças e performances, resolveu voltar ao papel na conferência de abertura e invadiu o palco da Flip 2015. Nada combinado. Ele andou pela plateia, segurando um buquê de flores e caracterizado como Mário de Andrade, e declamou um poema. Ao G1, falou: “Eu sinto, como ator, quase uma obrigação artística de estar presente”. Disse ainda que arcou sozinho com os custos da iniciativa, inclusive com os R$ 1,8 mil do terno.

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a psicografia (Foto: Editoria de Arte/G1) Reinaldo Moraes participa de mesa sobre erotismo da 13ª Flip (Foto: Divulgação/Flip)

a psicografia (Foto: Editoria de Arte/G1)
Reinaldo Moraes participa de mesa sobre erotismo da 13ª Flip (Foto: Divulgação/Flip)

O escritor Reinaldo Moraes “psicografou” Machado de Assis, acrescentou sexo – oral, inclusive – em “Memórias póstumas de Brás Cubas” e arrancou muitas risadas (e aplausos) do público da Flip. Em mesa sobre literatura erótica, ele leu em voz alta dois textos, feitos especialmente para o evento, em que crivou cenas pornográficas envolvendo os protagonistas do clássico de Machado. Fã de um trocadilho (nem sempre sofisticado), Reinaldo dividiu a mesa com Eliane Robert Moraes, especialista em Sade. Foi o encontro mais debochado do evento. E algum recorde de termos de duplo sentido mencionados por segundo deve ter sido quebrado.

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a comoção (Foto: Editoria de Arte/G1) O crítico literário, ensaísta e músico José Miguel Wisnik em conferência na Flip (Foto: Divulgação/Flip)

a comoção (Foto: Editoria de Arte/G1)
O crítico literário, ensaísta e músico José Miguel Wisnik em conferência na Flip (Foto: Divulgação/Flip)

Foi arrebatadora a conferência de encerramento da Flip 2015, ministrada pelo professor, ensaísta e músico José Miguel Wisnik. Na “aula”, ele juntou Mário de Andrade e política emocionando a plateia. Foi aplaudido de pé ao dizer que o Brasil não trata a cultura e educação como se fosse “um luxo [acessível] para todos” e “faz de tudo para jogar a juventude pobre e negra no esgoto das prisões”. Também cantou, comovido, o poema “Garoa do meu São Paulo”, do próprio Mário de Andrade, homenageado do evento: “Garoa do meu São Paulo / Timbre triste de martírios / Um negro vem vindo, é branco / Só bem perto fica negro / Passa e torna a ficar branco”. Terminou com voz embargada o último verso: “Garoa sai dos meus olhos”.

(mais…)

John Green e Nat Wolff dizem que ‘Cidades de Papel’ celebra amizade

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Autor disse que adaptação para cinema é melhor do que sua obra.
Escritor e ator estão no Rio para divulgar filme baseado em livro.

Cristina Boeckel, no G1

John Green e Nat Wolff lançam filme 'Cidades de Papel' no Rio (Foto: Cristina Boeckel/G1)

John Green e Nat Wolff lançam filme ‘Cidades de
Papel’ no Rio (Foto: Cristina Boeckel/G1)

Em encontro com fãs e a imprensa nesta quarta-feira (1), o escritor John Green falou sobre a adaptação para o cinema de seu livro “Cidades de Papel”, que chega aos cinemas no dia 9 de julho.

Acompanhado do ator Nat Wolff, que interpreta Quentin, o protagonista, ele afirmou que o sentido principal de seu texto foi preservado na adaptação. “A coisa mais importante era o entendimento da amizade é de como as pessoas são complexas. Isso era central”.

Ele atesta a qualidade do trabalho. “Muita gente diz que adaptações para o cinema são piores do que os livros, mas acho que esta é claramente melhor”.

John Green citou como destaque na narrativa a maneira como a personagem alvo romântico do protagonista é interpretada pela modelo Cara Delevigne. “Era importante mostrar que Margo não é um milagre, é uma pessoa. Humanizá-la era fundamental”.

Sobre a paixão de Quentin por Margo, Nat Wolff conta que a história de amor está relacionada com outros fatores da sua vida que Quentin não consegue observar. “Às vezes você está focado em uma coisa, mas é preciso olhar para os lados”.

Fascínio pela cartografia
O tema das cidades de papel, que são pequenas cidades criadas por cartógrafos para conseguir identificar cópias, foi escolhido por John Green sempre ser fascinado por esse trabalho. “Sempre fui encantado por este ofício de escrever, de desenhar o mundo como eles fazem”.

Nat Wolff mostra paisagem do Rio a John Green no lançamento de 'Cidades de Papel' (Foto: Cristina Boeckel/G1)

Nat Wolff mostra paisagem do Rio a John Green
no lançamento de ‘Cidades de Papel’
(Foto: Cristina Boeckel/G1)

Semelhanças com personagem
O escritor também enfatizou que adorou o trabalho de Wolff como o protagonista do filme. “Nat é muito esperto e estou satisfeito não só por ele fazer parte do elenco, mas por estar envolvido no processo como um todo”.

Wolff, em contrapartida, elogiou Green e destacou que Cidades é seu livro favorito do autor. “Eu me senti extremamente à vontade durante as filmagens”.

O ator contou que há semelhanças entre a vida de Quentin e a sua própria. “O filme foi como uma máquina do tempo. Eu também tinha dois amigos inseparáveis e uma paixão platônica. Foi como se eu voltasse no tempo. Eu também sigo acreditando que a amizade é algo muito importante na minha vida”.

Sucesso no Brasil
John afirma que nunca esperou o sucesso que seus livros fizeram ao redor do mundo. “Eu nunca imaginei que meus livros iam ser traduzidos para o português e se tornariam best sellers aqui, por exemplo.”

John Green filma jornalistas no Rio (Foto: Cristina Boeckel/G1)

John Green filma jornalistas no Rio
(Foto: Cristina Boeckel/G1)

Green fez questão de reverenciar os leitores brasileiros. “Eu nunca me considerei diferente dos autores que falam para os jovens, mas é maravilhoso estar aqui e até é um pouco estranho, pois é algo que nunca imaginei. Eu gostaria de agradecer aos fãs brasileiros”.

O escritor completou a sua fala mencionando a dificuldade de escrever para o público adolescente.

“É uma linguagem que não é para adultos e nem para crianças. É um meio termo. São linguagens que se encontram e, em algum momento, entram em conflito. É uma época diferente da infância, é uma época de primeiras vezes, de primeira paixão, de descobertas. Não são adultos, mas já abandonaram a infância”, afirmou John.

Mais uma livraria carioca vai fechar as portas: a Saraiva do Village Mall, na Barra

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Fachada do Village Mall, shopping que vai perder livraria – Guilherme Leporace / Agência O Globo (08/02/2013)

Em nota, empresa diz que seu foco atual é desativar lojas deficitárias. Espaço dará lugar a uma loja da grife Dolce & Gabbana

Simone Candida, no O Globo

RIO — A notícia acrescentou mais uma capítulo à triste saga das livrarias cariocas. Depois da Leonardo Da Vinci — que, após 63 anos no Centro, deve fechar por problemas financeiros —, agora é a vez de uma Saraiva entregar os pontos. Ou melhor, o ponto. E num luxuoso shopping da Barra da Tijuca. A livraria, no Village Mall, endereço voltado para o consumo da classe A, vai encerrar as atividades e dará lugar a uma loja da grife italiana Dolce & Gabbana, como antecipou na terça-feira a coluna Gente Boa, do GLOBO.

A rede, que tem 115 lojas em 17 estados brasileiros e é considerada um modelo de sucesso, não quis dar mais detalhes sobre o fechamento. Informou apenas, por meio de nota, que “o foco da companhia neste momento é a extração de maior valor dos ativos existentes e renegociação ou fechamento de lojas deficitárias em sua rede de varejo”. A data do encerramento das atividades também não foi divulgada. Entre os frequentadores do shopping, comenta-se que a megastore, de cerca de dois mil metros quadrados, costumava ficar bem mais vazia que as vizinhas lojas de grife. A Saraiva é a única livraria do Village Mall e uma das 14 que existem na Barra da Tijuca.

Para especialistas, a filial que será fechada é mais uma vítima da crise. Sergio Herz, Presidente da Livraria Cultura — rede que há três anos transformou o antigo Cine Vitória, no Centro, numa de suas unidades cariocas e virou ponto de encontro na região —, disse que a crise não vem atingindo só o setor, mas o varejo de um modo geral. E o caminho da sobrevivência, para ele, está justamente em adaptar o negócio aos tempos difíceis.

— Esses dois fechamentos são casos pontuais. Hoje as livrarias, assim como outras lojas de varejo, brigam pelo tempo do consumidor, que tem a facilidade de poder comprar tudo pela internet. É preciso encontrar formas de atrair esses leitores — diz ele.

A Livraria Leonardo da Vinci, aberta em 1952 no Edifício Delamare, na Avenida Presidente Vargas, e desde 1956 no subsolo do Edifício Marquês do Herval, na Avenida Rio Branco, lançou no início do mês uma liquidação para pôr fim a seu estoque de cem mil exemplares. Considerado um ícone carioca, o lugar foi frequentado por artistas que vão do modernista Carlos Drummond de Andrade ao punk Rogério Skylab, dois exemplos de poetas que citaram a Da Vinci em suas obras.

Milena Duchiade, herdeira do negócio, afirma que é impossível continuar operando com prejuízo. Numa tentativa de diminuir as perdas, a casa já desocupou duas das quatro salas onde funcionava. Segundo ela, o modelo de negócio se tornou inviável porque a livraria não tem café, nem vende artigos de papelaria e informática.

QUEDA DE ATÉ 10% NAS VENDAS

Segundo a Associação Estadual de Livrarias do Rio de Janeiro, nos últimos dois anos, 18 estabelecimentos encerraram suas atividades na cidade. E o mercado vem amargando, desde o início do ano, uma retração nas vendas entre 5% e 10%. Na página da associação, os livreiros divulgam as últimas notícias sobre aberturas e fechamentos na cidade (www.facebook.com/pages/Associação-Estadual-de-Livrarias).

— Com o aumento dos aluguéis muito acima da inflação, associado a uma elevação das tarifas públicas, as livrarias, principalmente as que estão localizadas em locais muito nobres, não estão suportando os custos. Tanto que muitas mudaram de endereço para tentar sobreviver — diz Gláucio Cunha Cruz Pereira, diretor da associação.

Ele, no entanto, argumenta que há uma leve reação das livrarias do Rio.

— Nos últimos dois anos, 18 fecharam, mas outras 15 foram abertas, incluindo a Saraiva do Village Mall, que agora vai fechar. A loja Baratos da Ribeiro, por exemplo, que ficava na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, mudou-se para Botafogo, onde os aluguéis são mais baratos — lembra.

CIDADE TEM CEM LIVRARIAS

Nesse mercado de poucas vendas, somente as lojas que oferecem algo mais que livros, como produtos de papelaria e de informática, DVDs e CDs — curiosamente, o perfil da Saraiva do Village Mall —, ou as livrarias mais especializadas estão conseguindo se manter abertas.

De acordo com o último levantamento da associação, que reúne 53 livreiros do estado, o município tem cem livrarias, sendo que 50 ficam concentradas no Centro, no entorno das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas. Entre as que resistiram, uma das mais antigas é a Livraria da Federação Espírita Brasileira, na Avenida Passos, no Centro. Ela é especializada em livros da doutrina espírita e foi fundada em 31 de março de 1897.

 

Quadrinhos com heróis da Baixada fazem sucesso em escolas e viram animação

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Quadrinistas da Baixada Fluminense se reúnem no selo Capa Comics - Leo Martins / Agência O Globo

Quadrinistas da Baixada Fluminense se reúnem no selo Capa Comics – Leo Martins / Agência O Globo

Capa Comics começou em 2013

Emiliano Urbim, em O Globo

O Superman vem de outro planeta e vira um deus na Terra. Batman e Homem de Ferro têm fortunas para bancar suas aventuras. Os X-Men nascem mutantes, são uma evolução do ser humano. Enquanto isso, Detrito é um professor que cai no Rio Sarapuí, na Baixada Fluminense, sai transformado num homem-fezes e tem de encarar monstros ainda mais nojentos. O contraste é proposital.

— Para ser verossímil, um super-herói da Baixada não pode ter origem e trajetória de super-herói americano — diz João Carpalhau, fundador da Capa Comics, que produz as histórias em quadrinhos de Detrito, Grafiteira, Não Tão Super, Polly & Pumpkins e outros personagens que compartilham o mesmo universo ficcional e geográfico.

O nome da editora, inclusive, é inspirado em Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta. Um dos heróis é um sujeito que ganha superpoderes após encontrar a capa que foi do político local.

O que começou em 2013 como uma ação entre amigos… segue uma ação entre amigos. As revistas da Capa e as HQs no site da editora foram criadas no amor (leia-se de graça) pelo coletivo de artistas, todos da Baixada. Agora, porém, há mais coisas acontecendo.

posterA turma da Capa já fez exposições mostrando sua(s) história(s), está produzindo um desenho animado de Detrito e um game que conta a origem do anti-herói Não Tão Super e foi selecionada para a prestigiada Feira Internacional de Quadrinhos (FIQ), de Belo Horizonte. Aos poucos, a agenda se enche com workshops e palestras em escolas. Estas, dizem os artistas, são as experiências mais gratificantes.

— Não tem grana que pague ouvir uma garota de 15 anos, que está começando a desenhar, falar: “Não quero ser da Marvel, quero ser da Capa Comics” — diz Hamilton Kabuna, criador da série de HQs Dimensão Baixada, que mostra a reação das pessoas normais aos heróis.

O mentor da equipe é Carpalhau, 35 anos, designer gráfico, morador de Duque de Caxias. Alfabetizado com gibis, ele traz no braço esquerdo uma tatuagem do personagem cult Rockeeter e no direito a palavra “Excelsior” — lema de Stan Lee, papa da Marvel.

Como o Professor X com os X-Men, coube a ele reunir jovens talentosos para realizar algo maior. O primeiro foi Cristiano Ludgerio, também de Caxias. Nas primeiras reuniões (em botecos, onde seguem ocorrendo), começaram a desenhar o futuro. A maior parte é de desenhistas, mas que mantêm outra ocupação e ainda não conseguem viver de quadrinhos.

— A gente iria dos traços punks do Carpalhau ao meu estilo mangá (quadrinhos japoneses) — diz Cristiano, criador da dupla Polly & Pumpkins, que sonha em tocar no festival Rockaxias. — O importante era criar histórias sobre a periferia, para a periferia.

— Nossa cultura é totalmente à margem. Criar algo daqui é resgatar um orgulho do cara da Baixada. É dizer para ele: tua vida não é só a página policial do jornal — ressalta Carpalhau.

A proposta conquistou artistas locais, que entraram na vaquinha de R$ 2 mil para bancar os 2.500 exemplares da primeira edição, de setembro de 2013. Um bar local também deu uma força. Na capa do nº 1, heróis enfrentam uma gigante na Praça do Pacificador, centrão de Caxias, sob a frase: “Da Baixada para o mundo!” No miolo, histórias que vão do sombrio ao cômico e trazem anti-heróis, jovens da periferia, paisagens suburbanas, muitos trens e ônibus, balões recheados de gírias e poemas de autores fluminenses.

Ferréz, escritor que retrata a periferia de São Paulo em seus livros, curtiu:

— De cara, me apaixonei pela revista, a linguagem me agradou muito. É um projeto que traz para as quebradas, via HQ, a importância da primeira leitura.

Professor de desenho da UFRJ e quadrinista, Octávio Aragão também elogia:

— Os meninos da Capa Comics dão mais do que voz à Baixada. Eles transformam, evoluem, transcendem limites e preconceitos.

Desde a estreia, as histórias terminam com “continua em capacomics.com” — site atualizado, também no amor, por Diego Berçacula, e principal ponto de venda das revistas. Se a falta de grana só permitiu imprimir três edições, mais distribuídas em eventos que vendidas, na internet o Universo Capa Comics pode se expandir à vontade. Veja o caso da Grafiteira, de Danilo Faria. A moça de Mesquita que abre portais mágicos com um spray só teve três páginas impressas, mas já tem 14 online e ainda participa de “Os Sintomas do Universo”, um importante crossover — jargão para reunião de heróis.

No lado multimídia, está adiantada a animação de Detrito, com dublagem de Ricardo Juarez (voz de Johnny Bravo e Capitão Planeta). A participação rolou graças a Beto Lima, também dublador e autor de parodias de personagens consagrados das HQs. Por falar em consagração, os superpoderes dos quadrinistas vão aos poucos se ampliando. Simone Carla, professora de artes visuais ligada ao grupo, diz que os alunos piram quando ficam sabendo que “os caras dos quadrinhos da Baixada” vão aparecer no seu colégio.

— Estão acreditando que nós somos os super-heróis — brinca Simone.

Benjamin Moser: O Rio não pode desistir da livraria Leonardo Da Vinci

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Milena Duchiade e sua mãe, Vanna Piraccini, na sede da livraria da Vinci, no Centro - Custódio Coimbra/28-5-2015

Milena Duchiade e sua mãe, Vanna Piraccini, na sede da livraria da Vinci, no Centro – Custódio Coimbra/28-5-2015

Frequentador da loja, escritor americano diz que cidade precisa preservar sua história para não se tornar uma província

Benjamin Moser, em O Globo

RIO – Há tempos que meus amigos querem me convencer de que o Brasil está pirando. Não acreditava muito, pois os problemas do país — políticos corruptos, populações raivosas — não me pareciam novidades, nem no Brasil nem no mundo. Mas quando li que a Livraria Leonardo da Vinci ia fechar, fiquei convencido. O Brasil está pirando.

Esse lugar havia sido um refúgio para mim. Vim ao Brasil aos 19 anos, quase por acaso, pois na faculdade era preciso estudar um idioma. Escolhi o chinês. Depois de duas semanas, desisti. Àquela altura do semestre não havia vagas em outros cursos e fui parar num curso de português, sem saber nada sobre o Brasil ou Portugal.

Ainda não sabia muito, além do idioma, quando tive a oportunidade de passar um tempo estudando em outro país. Pensei em ir ao Brasil, só por causa do idioma. Mas quando cheguei ao Rio e aluguei um apartamento térreo em Ipanema com uma discoteca barulhenta na frente, me dei conta de que não tinha nada para fazer.

Não conhecia nada, não conhecia ninguém. Assisti aos meus cursos sem entusiasmo, e vagueei pelo centro da cidade: isso também porque a Zona Sul dos anos 90 não tinha quase livrarias. Descobri os sebos da Praça Tiradentes e depois descobri a Leonardo da Vinci. Ainda lembro dessa felicidade, vinte anos depois.
Passei horas lá. Senti-me menos só naquela enorme cidade. Pelas recomendações, comecei, timidamente, a conhecer a literatura do Brasil: a literatura sempre foi, para mim, a melhor maneira de conhecer um país. E foi lá que eu comprei a obra quase completa de Clarice Lispector, que viraria um dos grandes eventos na minha vida.

E quando na minha cabeça não cabia mais português, ia lá comprar livros em inglês. A discoteca zunia perto de mim enquanto eu passava horas lendo as dezenas de clássicos que havia comprado em edições baratas. Boa parte de minha formação — no meu próprio idioma — devo a uma excelente livraria brasileira.

EM LIVRARIAS, RIO PERDE PARA SÃO PAULO E BUENOS AIRES

É por isso que fiquei tão triste ao saber que, após 63 anos, a Da Vinci fecharia. Não conheço os motivos precisos, além dos problemas habituais que uma empresa tradicional tem em se adaptar às mudanças que trazem novos tempos. Mas vejo que a livraria não está sendo vendida, o que lhe daria uma nova vida. Está sendo fechada.

Há tempos que o Rio enxerga um futuro cada vez menos de capital, cada vez mais de província. A combinação com o tradicional fatalismo do mercado de livros — que sempre vê mundo acabando — é quase mortal. Mas o Brasil melhorou bastante desde meus tempos de estudante. O mundo dos livros está irreconhecível.

Mesmo com a melhoria, uma cidade do tamanho do Rio tem uma enorme escassez de livrarias. Já está escandalosamente atrás de São Paulo — para não falar em Buenos Aires. Mas o que distingue uma cidade importante de uma cidade que simplesmente tem muitos habitantes é sua vida cultural. Praia existe em qualquer lugar.

É por isso que os cariocas não devem ficar apenas tristes com essa notícia. Há exemplos do que se pode fazer para preservar a instituição. Nos Estados Unidos, depois de anos de fatalismo — o e-book ia acabar com o livro, a pequena livraria ia ser devorada pela grande, a grande ia ser devorada pela Amazon — o mercado voltou a crescer.

Isso se deve em parte a iniciativas privadas importantes. Quando a livraria mais tradicional de Houston, minha cidade natal, estava ameaçada pela mesma situação que enfrenta a Leonardo da Vinci, minha mãe, junto com um grupo de investidores que contribuíram com relativamente pouco dinheiro, tomou conta.

Não era questão de construir um novo museu ou de fundar uma universidade. Bastava o trabalho e o compromisso de algumas pessoas. Ninguém ficou rico, mas também ninguém perdeu. E existe até hoje, guardado para a cidade e seus milhões de habitantes, um importante centro artístico e intelectual.

Não vejo por que alguns — três? quatro? — dos milhões de habitantes do Rio de Janeiro não poderiam intervir com um procedimento similar. Porque esses lugares não surgem à toa. Não devemos pensar que são facilmente substituíveis. É preciso gerações para construir uma história e um acervo como a da Leonardo da Vinci.

Agora, o paciente está às vésperas da extinção. Será preciso grande criatividade para reanimá-lo. Mas não está morto ainda. A dona, Milena Duchiade, tem dito nesse jornal que gostaria que a livraria continuasse e que está aberta a propostas. Que melhor desafio para quem quer contribuir para a vitalidade do Rio de Janeiro?

Quem tomaria conta disso teria já a maior parte do patrimônio. Teria a oportunidade de modernizar uma tradição carioca. E também teria uma resposta — concreta e pessoal — ao venenoso pessimismo que consiste em ficar reclamando de um Brasil cujos problemas são inevitavelmente a culpa de outra gente.

Porque desistir da Leonardo da Vinci é, de certa forma, desistir do Rio de Janeiro. É uma maneira de dizer adeus ao Rio de Drummond e de Clarice e aceitar que, daqui para a frente, a cultura é um negócio de São Paulo — e de aceitar que o Rio estará ficando cada vez menos cidade maravilhosa.

Benjamin Moser é autor de “Clarice, uma biografia” (Editora Cosac Naify), sobre Clarice Lispector. Atualmente prepara uma biografia da escritora e ensaísta americana Susan Sontag

dica do Marcos Florentino

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