A decisão radical de um escritor para dedicar mais tempo aos livros – e o que podemos aprender com seus conselhos

Danilo Venticinque na revista Época

Já imaginou se, depois de dedicar um ano inteiro à leitura, você percebesse que não conseguiu aproveitar nada do que leu? Descrita assim, a experiência parece ser a premissa de um livro de ficção científica ou uma doença neurológica à espera de um diagnóstico. Mas é um fenômeno comum. Entre atualizações de redes sociais, posts de blogs e notícias curtas, uma pessoa com acesso à internet dedica várias horas de seu dia à leitura. A quantidade de informações fragmentadas é grande e difícil de reter. Há uma enorme probabilidade de que este texto seja inútil – e de que, daqui a poucos meses, você não se lembre nada do que escrevi aqui.

A vida de um leitor, desde o início do dia, é uma maratona de decisões. Na internet ou no papel, a oferta de textos diferentes sobre os mais diversos assuntos é enorme. Como sei que o tempo de leitura é escasso, vou pular a parte óbvia deste texto em que eu diria que é impossível ler tudo. Também vou resistir à tentação de dizer que tipo de leitura é indispensável: cada leitor tem a sua resposta para essa pergunta, e o que é imprescindível para alguns pode ser menos importante para outros. Passo, então, para a questão principal: quais são os textos que não merecem o tempo que gastamos com eles?

O escritor suíço Rolf Dobelli acredita ter a resposta. Em seu livro A arte de pensar claramente (Objetiva, 210 páginas, R$ 29,90, tradução de Karina Janini), ele afirma que as notícias são o principal inimigo do leitor. Elas estão fazendo mal para nossos cérebros, e todos nós deveríamos desistir de lê-las.

“As notícias são para a mente o que o açúcar é para o corpo: apetitosas, fáceis de digerir – e muito destrutivas no longo prazo”, diz Dobelli. Ele afirma que somos estimulados por informações chocantes, escândalos e fofocas, mas nos sentimos desmotivados diante de textos complexos. A vontade de atrair a atenção do público levaria os meios de comunicação a privilegiar o conteúdo mais superficial. Com o tempo, as notícias deixariam de ser relevantes, e o sensacionalismo nos tornaria incapaz de lidar com as sutilezas da vida. É uma análise pessimista, mas que faz algum sentido quando estamos lendo a trigésima notícia do dia… e já nos esquecemos da primeira.
saiba mais

Qual é o seu livro favorito?
Amor e ódio aos best-sellers
Como conversar com um escritor

O autor começa seu libelo contra as notícias com um pequeno exercício de estatística. “Nos últimos doze meses, você provavelmente consumiu cerca de dez mil trechos de notícias”, diz ele, numa estimativa de origem duvidosa. “Cite uma boa decisão – na vida, na carreira ou nos negócios – que você não teria tomado se não tivesse acesso a uma notícia. Ninguém a quem fiz essa pergunta soube citar mais do que duas – em dez mil. É um resultado miserável.”

(mais…)