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Arthur Japin virá à Flip para lançar romance sobre Santos Dumont

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Alberto Santos Dumont na cesta de um balão, no momento da decolagem. - Arquivo

Alberto Santos Dumont na cesta de um balão, no momento da decolagem. – Arquivo

 

Autor best-seller faz do livro uma investigação sobre coração do aviador

Guilherme Freitas, em O Globo

RIO — Depois do suicídio de Alberto Santos Dumont, em 1932, no Guarujá (SP), o legista encarregado de embalsá-lo tomou uma daquelas atitudes que fazem a realidade parecer mais fantástica do que a ficção. Por motivos nunca esclarecidos, removeu em segredo o coração do inventor do 14-Bis e o guardou, preservado em formol. Só o devolveu ao governo 12 anos depois — desde então ele está a salvo em um monumento no Museu Aeroespacial, no Rio.

O roubo do coração de Santos Dumont é o ponto de partida do romance “O homem com asas”, que o holandês Arthur Japin lançará, pela editora Planeta, na 14ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 29 de junho e 3 de julho. Com 20 anos de carreira, nove livros publicados e centenas de milhares de exemplares vendidos na Europa, o autor de 59 anos encontrou naquela cena insólita uma porta de entrada para escrever sobre um personagem que o fascina há anos: o de um homem deslocado, tímido e solitário que, no entanto, alcança a façanha do primeiro voo mecânico da História.

— Sempre me interessei por personagens que não se encaixam direito no mundo e, por isso mesmo, dão um jeito de transformá-lo para realizar seus sonhos. Santos Dumont cresceu acreditando que poderia voar. Quando diziam a ele que ninguém era capaz disso, ele pensava: “eu serei” — diz Japin ao GLOBO, por telefone.

“O homem com asas” é construído como uma investigação sobre o coração do aviador. Na trama de Japin, o legista se revolta contra a tentativa do governo Getúlio Vargas de acobertar o suicídio de Santos Dumont, que teria se matado pelo desgosto de ver aeronaves sendo usadas pelo regime para bombardear São Paulo durante a Revolução de 1932. Com a polícia em seu encalço, o médico tem a ajuda de amigos do aviador para proteger o coração.

Ao mesmo tempo, o romance narra a vida de Santos Dumont, da infância na rica fazenda de café do pai, em Ribeirão Preto (SP), em fins do século XIX, aos experimentos com dirigíveis e aviões em Paris, no início do século XX. Japin mostra como a imaginação do jovem Alberto foi influenciada pela moderna maquinaria do cafezal e pelas aeronaves mirabolantes dos livros de Jules Verne, autor de clássicos da literatura fantástica como “A volta ao mundo em 80 dias” e “Viagem ao centro da Terra”.

DESILUSÃO COM AVIÕES NA GUERRA

O escritor holandês Arthur Japin - Divulgação / Corbino

O escritor holandês Arthur Japin – Divulgação / Corbino

Lançado em setembro na Holanda, “O homem com asas” já vendeu mais de 30 mil exemplares no país. E pode fazer ainda mais sucesso, a julgar pelas vendas expressivas de romances anteriores de Japin. Inspirado em uma das amantes do poeta italiano Casanova, “Os olhos de Lúcia”, único livro seu editado no Brasil até hoje (pela Companhia das Letras), vendeu 380 mil cópias em todo o mundo. Outros de seus romances históricos, como “Vaslav”, sobre o dançarino Nijinski, tiveram números parecidos. Japin diz ter se impressionado com a reação dos leitores holandeses à história de Santos Dumont.

— As pessoas ficavam fascinadas e me diziam: por que nunca tínhamos ouvido falar dele? Infelizmente, pouca gente fora do Brasil conhece essa história. Todo mundo acha que os irmãos Wright são os pais da aviação, mas eu adoro defender Santos Dumont. Hoje, posso dizer que ele é mais conhecido na Holanda.

Para reconstruir a vida de seu personagem, o autor veio várias vezes ao Brasil, guiado por seu companheiro, o escritor americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, que também participará da Flip. Japin buscou ainda detalhes curiosos que iluminassem a personalidade de Santos Dumont. Quando se mudou para Paris, por exemplo, o aviador pendurou a mesa e as cadeiras no teto da sala, a dois metros do chão. Os convidados precisavam subir escadas para se sentar, mas faziam as refeições como se estivessem em pleno voo.

— Foi o detalhe das cadeiras que fez com que eu me encantasse por Santos Dumont. É como se ele tivesse uma necessidade profunda de se descolar do chão — diz Japin, que usou a imaginação para preencher as lacunas nas biografias do aviador, criando personagens e diálogos. — A ficção começa onde terminam as pistas dos arquivos.

Uma das lacunas nas biografias de Santos Dumont é sobre sua sexualidade, motivo de debates entre pesquisadores até hoje. No romance, Japin retrata o aviador como homossexual e sugere um relacionamento entre ele e o mecânico Albert Chapin, que trabalhou com o brasileiro em suas principais invenções. Japin diz que o tema não deveria ser tratado como tabu.

— Para mim, não há dúvidas de que Santos Dumont era gay. Por algum motivo, no Brasil, algumas pessoas não gostam de ouvir isso. Mas há muito material da época sobre seu jeito feminino e o preconceito que sofria por isso.

Além do preconceito, o aviador sofreu com o destino dado à sua criação. No início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, chegou a visitar chefes de Estado para defender que o avião fosse usado em missões de paz, não bombardeios. Japin acredita que essa desilusão fez com que o brasileiro desistisse de disputar com os irmãos Wright o crédito pela invenção e, por isso, acabasse menos lembrado que os americanos. Cenário que o holandês espera mudar com seu romance.

— Mais que o avião, o legado inspirador de Santos Dumont é sua bravura. Enquanto muitos tentavam voar e fracassavam, ele foi em frente. Vocês já o conhecem bem, mas para mim é um prazer trazê-lo de volta para o resto do mundo. Como escritor, tudo que você espera é que o leitor ame seu personagem tanto quanto você.

 

Safra recente de romances históricos reimaginam passado brasileiro

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Safra recente de romances históricos reimaginam passado brasileiro

Por estarem situadas em períodos emblemáticos da história do país, narrativas ficcionais são encaradas com cautela por acadêmicos e escritores

Publicado no Diário de Pernambuco

Nas civilizações antigas, literatura e história eram uma coisa só. Não havia diferença entre mitos, versões oficiais dos fatos, ficções. Apenas narrativas. Com o avançar dos séculos e a divisão entre ciência e arte, as duas maneiras de abordar a realidade (e a imaginação) tomaram caminhos distintos, mas nunca deixaram de conviver e se influenciar mutuamente. Ainda hoje, história é história, seja ela uma fábula ou o retrato de uma época. Frutos da longa relação de intimidade, os romances históricos marcaram a produção literária mundial. Híbrido por natureza, o gênero usa o vasto conhecimento a respeito de algum período passado como ponto de partida para a fantasia. Por isso (ou apesar disso) contribuem para o povo conhecer e refletir sobre a própria história.

A safra mais recente de obras situadas no Brasil cobre desde os primeiros anos do período colonial até o regime militar. Na última década, episódios emblemáticos serviram de inspiração para escritores, como as invasões holandesas ao país, a Inconfidência Mineira e a Revolução Pernambucana. Sobre o último, o jornalista Paulo Santos de Oliveira publicou A noiva da Revolução (Centro Vivo Recife, R$ 38), relançado neste mês após três edições esgotadas e 7 mil exemplares vendidos. Com pouca fantasia e larga pesquisa histórica, o livro narra o amor proibido de um casal em meio aos atos revolucionários de 1817, no Recife. O autor acredita ter influenciado diretamente na escolha do Dia da Bandeira do estado, em 2007, e da Data Magna de Pernambuco, em 2009. Outros títulos com olhar regional são Olinda abrasada, de Waldênio Porto, Feliciana, de Melchiades Montenegro e Invasão a Pernambuco, de Aydano Roriz.

Fazer o casamento entre ficção e história é, contudo, um passo arriscado. Raramente se passa pelo crivo de quem atua na área. Para o historiador e mestre em literatura Rafael Monteiro, o livro de Paulo Santos está mais para exceção. “Pela bibliografia e pelo rigor do texto, dá para perceber o compromisso com os fatos, algo desprezado por muitos. Quando há apenas dados aleatórios sobre um período, sem representação da realidade, a obra pode ser um desserviço. Para evitar isso, é preciso deixar clara a predominância da ficção”. Embora sublinhe a falta de comprometimento do romance histórico com a ciência, Monteiro é entusiasta do gênero. “Por preconceito, leio poucos livros do tipo, mas são muito válidos. A população conhece pouco de história”.

O entusiasmo é compartilhado pelo professor da UFPE Lucas Victor Silva, defensor do romance histórico como “elemento aguçador da curiosidade”. Para ele, é saudável ler as obras como “simulações” do passado. “Sou fã de romance histórico, mas sei separar bem da realidade. É um limite muito instável. O escritor de ficção é livre de restrições científicas, usa a imaginação à vontade, enquanto o historiador está restrito a princípios, críticas acadêmicas, procedimentos”. Na opinião de Lucas, pesa contra as obras de história a dureza do texto, enquanto romances históricos são mais palatáveis. “O sucesso desses livros desafia historiadores a escreverem com sedução”.

Safra recente de romances históricos reimaginam passado brasileiro

O equilíbrio é perseguido há muitos anos por Frederico Pernambucano de Mello, historiador reconhecido e crítico ferrenho dos romances históricos. Para ele, as obras salpicadas de ficção servem de “ração” para saciar o apetite das pessoas e são responsáveis por afastá-las de obras realmente compromissadas com os fatos. “Quando a ficção diz respeito somente ao âmbito da intimidade, do pessoal, o dano é menor. Mas não é o comum. A questão central é saber regular a fantasia. A própria história usa a imaginação, mas de uma maneira controlada. No romance histórico, esse percentual se perde”. Autor de obras de não ficção como Guerreiros do Sol, o pesquisador vê com bons olhos o sucesso editorial de livros-reportagens dos jornalistas Laurentino Gomes (1808, 1822, 1889) e Lira Neto (Getúlio), obras marcadas pela linguagem acessível, vasta pesquisa documental e busca da fidelidade aos fatos retratados.

>>> ENTREVISTA – Paulo Santos Oliveira, autor de A noiva da revolução

Foto: Acervo Pessoal

Foto: Acervo Pessoal

Fazer romance histórico requer cuidados especiais?
Do ponto de vista do rigor histórico, varia de autor para autor. Cada um tem direito de escrever o que bem quiser. Está liberado a romancear, é a função dele. No meu caso, sigo rigorosamente os fatos e romanceio alguns eventos. Muitos não são assim, mas não os critico. O romance histórico cumpre a importante função de explorar bem os fatos da história. Em primeiro lugar, os romances têm obrigação de serem atraentes. Minha opção é seguir a realidade, me esforçar na pesquisa. Inventar é muito mais fácil.

Em O general das massas, você informa ao leitor tudo o que é verídico e o que não é. Por quê?
No livro sobre Abreu e Lima, falo muito sobre a vida pessoal dele. Sabe-se que era um homem muito namorador, mas não há detalhes dos casos amorosos, então precisei inventar. Criei namoradas, mas isso não interfere na narrativa histórica.

Você é fiel aos fatos históricos e investe pouco na ficção. Por que não escrever livros-reportagens?
São dois caminhos, dois produtos diferentes. Há muitas maneiras de lidar com informações históricas. Poderia fazer uma abordagem científica, como Evaldo Cabral de Melo, jornalística, como Laurentino Gomes, mas abordo na forma do romance. É uma opção. Tenho certa restrição pessoal sobre o livro com linguagem jornalística. Acho que o jornal tem a característica própria de ser consumido e logo descartado. É a principal característica, é a essência do jornalismo. Ninguém lê jornal de ontem. Quando você conta nesse formato, corre o risco de o leitor terminar o livro e não se lembrar de absolutamente nada. Não tiro o mérito de quem faz, mas o romance pega o leitor pelo lado emocional, faz ele se identificar, guardar aquilo, fixar, relembrar. A abordagem jornalística informa, mas não emociona.

Você acha que, com mais romances históricos, o povo conheceria mais a história de Pernambuco e do Brasil?
Sim. Há carência de livros. Se fala muito pouco de história, uma coisa importantíssima. O povo precisa da história para se situar politicamente no mundo. Há uma desinformação monumental, principalmente em Pernambuco. Falta memória. Quanto ao romance histórico, sou aficionado por esse tipo de coisa. Nada contra a ficção pela ficção, mas é muito mais interessante ter, além do prazer da leitura, da técnica literária, informações sobre o passado. É muito rico. Se você analisar a literatura de Balzac, Dostoievski, Cervantes, todos eles se baseiam na vida social. Escreviam sobre a realidade de mundo em que viviam.

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