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Fenômeno de vendas, Delphine de Vigan mistura autoficção e thriller psicológico

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SC A escritora francesa Delphine de Vigan, autora de "Baseados em fatos reais" - Delphine Jouandeau / Divulgação

SC A escritora francesa Delphine de Vigan, autora de “Baseados em fatos reais” – Delphine Jouandeau / Divulgação

 

‘Baseado em fatos reais’ é seu 1º romance lançado no Brasil

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – Delphine é uma escritora francesa que alcançou estrondoso sucesso ao contar a história da sua própria família em detalhes. Após virar best-seller, a autora passa a receber cartas ameaçadoras, que parecem ser escritas por um parente, acusando-a de não ter dito toda a verdade. Vivendo ainda uma crise em relação à escrita, Delphine conhece L., que ganha a vida como ghost-writer de celebridades e rapidamente se torna sua melhor amiga e confidente. Esse é o ponto de partida de “Baseado em fatos reais” (Intrínseca), o primeiro livro de Delphine de Vigan lançado no Brasil. Assim como a protagonista do seu romance, Delphine se transformou em um fenômeno na França ao contar a história da sua mãe, Lucile, em “Rien ne s’oppose à la nuit” (“Nada se opõe à noite”, em tradução livre), lançado em 2011 e que vendeu quase 1 milhão de exemplares.

As semelhanças entre a Delphine real e a de “Baseado em fatos reais”, que vendeu cerca de 500 mil exemplares na França e ganhou os prêmios Renaudot e Goncourt des Lycéens, não param por aí. A escritora nunca tinha demorado tanto tempo entre a escrita de um romance e outro. Em entrevista ao GLOBO, por Skype, Delphine admite que o sucesso se tornou intimidador e acabou por definir o tema do romance:

— Os dois livros estão ligados de alguma maneira. Talvez “Baseado em fatos reais” seja o único livro que eu poderia escrever depois de “Rien ne s’oppose à la nuit”. Tenho amigos escritores que, quando colocam a palavra “fim” ao terminar um romance, são capazes de começar outro. Eu não sou assim, preciso de um bom tempo de latência, um tempo para eu me voltar para a vida. Para mim, a escrita é muito solitária. No caso desse livro, precisei de mais tempo do que o normal. Provavelmente porque foi muito intimidador escrever depois de tamanho sucesso.

As aflições da protagonista se confundem com as da sua criadora, apesar desta garantir que se trata de uma obra de ficção. Em “Baseado em fatos reais”, L. se torna a única pessoa com quem Delphine (a da ficção) consegue conversar sobre o seu “bloqueio criativo”. As duas estabelecem uma relação de simbiose que, no desenrolar da história, se desdobra em dependência e manipulação. Como uma boa ghost-writer, L. parece à vontade para assumir as tarefas que Delphine se vê incapaz de fazer. Até chegar ao ponto de se passar pela própria em uma palestra numa escola no interior da França.

BUSCA PELA VERDADE

Um dos grandes dilemas que angustiam Delphine no livro é o tema do próximo livro, o primeiro após o enorme sucesso. No romance, ela busca manuscritos antigos, tramas começadas e nunca terminadas, mas é sempre desencorajada pela melhor amiga. L. afirma que Delphine precisa mergulhar ainda mais fundo na própria vida e na da família. É isso que os leitores querem, diz. Se a literatura não falar a verdade, perde a sua razão de existir. No entanto, as duas Delphines, a real e a da ficção, discordam. A autora queria explorar esse desejo de realidade do público.

— Eu não concordo com L., e Delphine também não. O que eu busquei, através da personagem L., era abordar algo que me parece muito importante hoje: a valorização das histórias verdadeiras. Como se uma trama se tornasse mais interessante por estar baseada em fatos reais. É a razão pela qual boa parte dos filmes hoje é lançada com a menção “baseado em fatos reais”, que funciona como um argumento comercial — afirma a escritora. — Na literatura, cada vez mais vejo escritores partindo de documentos reais para criar suas histórias. No exterior, a literatura francesa tem muito essa imagem de uma literatura um pouco narcísica, autocentrada. Eu queria brincar um pouco com isso.

“Isso é verdade? É tudo verdade?” foram as perguntas que Delphine mais ouviu após o lançamento de “Rien ne s’oppose à la nuit”. Os leitores encontraram e divulgaram na internet um documentário sobre a família de sua mãe, além de fotografias de Lucile em anúncios publicitários de quando ela era criança. Esses episódios são narrados no romance autobiográfico. A partir dessa experiência, Delphine resolveu jogar com o código da autoficção em “Baseado em fatos reais”.

— Eu conversei com alguns leitores e perguntei: por que isso é tão importante? Vocês gostaram do livro? Vocês riram? Vocês choraram? Então, obrigada. Mas é assim tão importante verificar se tudo nessa história é verdade? Esses questionamentos e essas trocas com os leitores fizeram nascer “Baseados em fatos reais”. Meu objetivo foi fazer o leitor se perder nessa confusão entre ficção e realidade.

Se o romance começa como uma obra de autoficção, aos poucos vai se transformando num thriller. Na abertura de cada uma das três partes do livro — “Sedução”, “Depressão” e “Traição” — há uma epígrafe de Stephen King, sendo duas de “Misery — Louca obsessão”. Delphine afirma que os textos são mesmo chaves de leitura de “Baseado em fatos reais”. A proposta de cruzar os dois gêneros no mesmo livro estava presente desde o início da arquitetura do romance. A autora francesa tem por hábito fazer um plano bastante detalhado da trama antes de começar a escrever propriamente e diz ser fã do escritor americano:

— O que eu gosto muito nos seus romances é que muitas vezes há uma reflexão sobre a escrita e a condição do escritor. Stephen King trabalhou muito sobre o duplo também, essa ideia de que talvez um outro escreva quando você escreve, de que alguém nos escreve também. Esse é um tema muito importante em “Baseado em fatos reais”.

Dois de seus romances anteriores já foram adaptados para o cinema (“No et moit”, lançado em 2010) e para a televisão (“Les heures souterraines”, de 2015). Agora, “Baseado em fatos reais” será levado para as telas sob a direção de Roman Polanski e com roteiro de Olivier Assayas. Delphine afirma que Polanski era o seu nome favorito, apesar de não ter influência na escolha nem na adaptação. Ela agora se dedica a um novo romance, e conta ter escrito as primeiras linhas na segunda-feira da semana passada, horas antes da entrevista ao GLOBO. Seu “período de latência” foi bem menor desta vez. Perguntada se L. realmente existiu, e se teve alguma coisa a ver com o longo tempo em que ficou sem escrever, Delphine desconversa:

— Eu não posso responder a essa questão. L. existe de uma forma ou de outra. Cabe a você descobrir que forma é essa.

LEIA UM TRECHO DE ‘BASEADO EM FATOS REAIS’

“L. continuava me impressionando com sua capacidade de captar os estados de espírito dos outros, em apenas um instante, e de se adaptar a eles. Ela sabia desarmar a contrariedade de um garçom em um café ou vencer o cansaço de uma vendedora de padaria como se percebesse o humor deles no instante em que entrava pela porta. Sempre estava um passo à frente. Em um lugar público, era capaz de começar uma conversa com qualquer pessoa e, em menos de três minutos, colher suspiros, suscitar confidências. Mostrava-se indulgente e tolerante, dava a sensação de poder entender tudo sem julgar.

L. sabia encontrar as palavras para consolar e acalmar.

L. fazia parte do grupo de pessoas para o qual, por instinto, nos viramos na rua para perguntar onde fica um lugar ou pedir informações.”

Conheça o romance francês com mais de 220 páginas que não utiliza a letra E

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Perec

Rodrigo Casarin, no Página Cinco

Você já pensou em escrever – tá, ler já serve também – um romance inteiro sem a letra E? Pois foi justamente isso que o francês Georges Perec (1936 – 1982) realizou em “O Sumiço”, livro publicado originalmente em 1969 e recentemente traduzido pela primeira vez para o português por José Roberto Féres, o Zéfere, mestre em literatura comparada pela Sorbonne, em tradução literária pela Paris 8, doutor em literatura e cultura pela UFBA, professor e também poeta.

o-sumico-210x300A narrativa, lançada aqui pela Autêntica, conta a história do sumiço de Anton Voyl, um entusiasta de jogos de palavras. Não por acaso, evidentemente, a vogal mais utilizada na língua francesa também desaparece das páginas da obra. “A ambição do ‘Scriptor’, o propósito, digamos, o alvo, sua visada contínua, foi, acima de tudo, criar um produto final tão original quanto instrutivo, um produto apto a propulsionar ou, quiçá, a vir a proporcionar um impulso instigador à construção, à narração, à fabulação, à ação, ou, digamos, numa palavra, ao padrão da narrativa longa atual”, escreve Perec, também autor de “Prix Médicis: A Vida Modo de Usar”, dentre outros, no posfácio – que, como é possível perceber, também abre mão do E.

o sumicoE quem imagina que o escritor optou por algo breve, o que poderia facilitar as coisas, engana-se: a história traduzida ocupa mais de 220 páginas. Com uma empreitada tão grande e desafiadora quanto a de Perec pela frente, Zéfere começou a verter “O Sumiço” para o português em 2008, enquanto fazia seu mestrado, e só foi conclui-lo em 2015.
“Antes de mais nada, antes de estudar as minúcias do livro e investigá-las ainda mais nas dissertações de mestrado e tese de doutorado que escrevi em torno de Perec e sua obra, senti a necessidade de experimentar essa restrição com a língua portuguesa, fazer exercícios textuais sem o E. Meu primeiro teste foi, então, reescrever lipogramaticamente, sem a letra E, alguns versos de Manuel Bandeira, o que resultou em ‘Caio fora pra Pasárgada’’”, conta o tradutor.

O resultado é uma prosa com uma estética um tanto estranha para o leitor. Veja esse trecho como exemplo: “Na ponta, surgiu um sacristão com uma túnica da cor limão agitando um turíbulo do ouro mais maciço, aí uma padraria (um trio) brandindo um crucifixo sob um baldaquim um pouco baranga, com babados a frufrulhar, aí cinco funcionários da casa mortuária Borniol, içando um caixão acaju com alças cromadas. Um dos funcionários tropicou: o oblongo caixão balançou, caiu, abriu: danação! Hassan Ibn Abbou havia sumido!”

O próprio tradutor assume que foi obrigado a buscar “estratégias e estruturas que implicam a construção de um outro português, ou, ao menos, a sua reconstrução, a sua reciclagem, reativando potencialidades latentes ou adormecidas, colocando em relação termos que jamais ou raramente se encontrariam no nosso falar cotidiano, reformulando grande parte dos pensamentos e falas que nos saem, em geral, tão naturalmente, que sequer nos damos conta do que estamos realmente dizendo”.

Os desafios da tradução

Para Zéfere, a maior dificuldade do trabalho esteve principalmente na necessidade de se criarem jogos de linguagem que apontem constantemente para a ausência da letra. “Foi essa a jogada de mestre do autor, a sua grande sacada: escrever um livro sem o E, mas que fala, exatamente, do sumiço do E. Quanto à fidelidade da tradução, precisei refletir a cada momento sobre aquilo a que eu deveria ser fiel, e sempre optei por oferecer ao leitor lusófono jogos que não se prendiam, necessariamente, àquilo que estava explícito, mas mais ao implícito, isto é: não me deixei limitar pelo dito, busquei explorar igualmente o não-dito, ou melhor, o interdito entredito, o proibido exibido nas entrelinhas”, conta.

Como exemplo cita o jogo que existe em uma das passagens. “O protagonista, Anton Voyl, antes de sumir e, consequente, colocar todos seus amigos aflitos em busca de uma solução para o mistério do seu sumiço, instala no seu carro um dispositivo antirroubo, ‘anti-vol’; só que esse ‘vol’ de ‘anti-vol’, em francês, pode ser pronunciado como Voyl, o sobrenome do personagem, sob o qual, nas entreletras, lê-se a palavra ‘voyelle’, vogal, ou seja: o dispositivo era não somente antirroubo mas, igualmente, anti-vogal, duplo sentido que não se produz num simples ‘antirroubo’ em língua portuguesa”, diz, expondo um dos problemas que encarou.

A solução encontrada para tal foi também trabalhar com uma dupla interpretação. Rebatizou Anton Voyl para Antoin Vagol – um nome relativamente conhecido dos brasileiros, Antoine, mas sem o E, acompanhado de um sobrenome que é um anagrama da palavra ‘vogal’ – e no lugar do dispositivo antirroubo, colocou na tradução “uma invocada ignição ativada por discriminação vocal”. “É algo um tanto quanto futurístico, sim, anacrônico, talvez, mas que garante, implicitamente, que se diga o indizível, que se apresente a ausência da vogal, graças à polissemia de ‘discriminação vocal’, que pode significar reconhecimento por voz e, quem sabe, atitude discriminatória em relação a uma certa vogal”, argumenta.

E, ao cabo, o que Zéfere achou da experiência? “Uma coisa é certa: ninguém sai ileso de um trabalho como esse, e muito menos a língua! Foi engraçado me ver tão profundamente habitado por esse sumiço, que me peguei escrevendo até mesmo artigos acadêmicos em que eu evitava certas palavras, sem perceber, porque elas continham E”. Sorte que a vogal já voltou ao vocabulário do tradutor.

Flip: autor de ‘Trainspotting’ quer ‘virar’ série

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PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

PARIS, FRANCE – APRIL 30: Scottish writer Irvine Welsh poses during portrait session held on April 30, 2014 in Paris, France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)

 

Autor lança romance no festival literário e negocia adaptação de outros livros para TV e sala escura

Rafael Aloi, na Veja

Irvine Welsh é um dos principais nomes da Flip 2016, que tem início nesta quarta-feira e segue até domingo, em Paraty, com homenagem à poeta brasileira Ana Cristina César. O escritor escocês participa de uma mesa nesta quinta sobre a dependência química na literatura nos Estados Unidos e no Reino Unido, tema que debate com o americano Bill Clegg, de Retrato de Viciado quando Jovem (Companhia das Letras).

Antes de sua chegada ao Brasil, Welsh conversou com o site de VEJA para falar um pouco sobre o livro que lança no país durante o festival literário, A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas (tradução de Paulo Reis, Rocco, 416 páginas, 48 reais), que se passa em Miami, um local distante do seu cenário preferido, a terra natal, Escócia. “Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pelo próprio corpo, e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso.”

O escocês também falou sobre o seu livro mais famoso, Trainspotting, lançado em 1996, que foi adaptado para os cinemas e rendeu dois livros derivados. “É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, e eles são muitos especiais para mim”, confessou o ator.

Welsh também mostrou que conhece um pouco da literatura tupiniquim. Apesar de não se lembrar do nome do livro que leu – pela descrição da trama, pode ser Dias Perfeitos, de Raphael Montes –, ele disse ter gostado e sugeriu que mais histórias fossem vertidas para o inglês. “O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso”, analisou.

Confira a entrevista completa com Irvine Welsh:

Você escreveu Trainspotting em 1996. Lançou a sequência Pornô em 2002, e a prequel Skagboys em 2012. No ano passado, resgatou um dos personagens no livro The Blade Artist (O Artista Afiado, em tradução direta). O que o encantou tanto naquela história criada na década de 1990 que o fez revisitá-la tantas vezes? Eu amo esses personagens. É como se fosse a sua primeira namorada, e você nunca vai esquecê-la entende? Foram os primeiros personagens que eu criei, eles são muitos especiais para mim.

E o que fez os leitores gostarem tanto da história? Acredito que é porque mostra uma sociedade em transição. Uma transição para um mundo que nós não queríamos. A tecnologia mudou tudo o que fazíamos, e o capitalismo destruiu o que sobrou.

A-vida-sexual-das-gemeas-siamesas-431x620No Brasil, você está lançando A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas. O romance se passa em Miami, um local bem diferente da Escócia e do Reino Unido, onde suas outras histórias eram ambientadas. Por que você decidiu fazer essa mudança? Eu estava escrevendo um livro sobre uma obsessão compulsiva pela imagem do próprio corpo, e Miami e os Estados Unidos têm uma cultura muito viciada nisso, o que a Escócia não tem. Então, eu tive que escolher Miami, porque era o melhor lugar para essa história.

Você agora está morando nos Estados Unidos, como vê a diferença entre a cultura americana e britânica? Estou aqui na Escócia há um mês, e o que percebi é que aqui as pessoas bebem mais (risos), festejam mais. Eu adoro quando vou aos Estados Unidos e depois retorno ao meu país, porque aqui as pessoas berram uma com as outras, se abraçam, brigam, sempre com uma bebida na mão. São mais calorosas.

E você prefere falar sobre a cultura do seu país natal ou da América, onde mora agora? O mundo é muito grande, então eu busco não me limitar a um único tipo de cultura. Mas sou apegado ao local de onde venho, e é um lugar em que sempre posso me aprofundar sobre quando escrevo. Gosto daqui, pois há coisas únicas. Mas há sempre muita coisa acontecendo no mundo sobre as quais posso escrever.

Como já falamos, o seu novo livro se passa em Miami, um lugar que tem muita cultura latina. Você estudou essa cultura, ou já conhecia alguma sobre ela? Vocês aí na América Latina são gente fina, escutam músicas muito boas, usam roupas legais, gostam muito de festejar, beber, têm comidas ótimas, não tem o que não gostar daí. Talvez um dia eu escreva um livro que se passe nessa região, mas vocês já têm muitos escritores bons por aí. E com certeza eles fariam um trabalho melhor do que o que eu.

Você conhece algum autor brasileiro? Há um tempo, conheci um rapaz que me deu um livro, um livro bem estranho, sobre um cara que sequestra a namorada e a prende em uma mala, e a obriga a fazer uma viagem com ele. Eu não lembro agora nem o nome do livro nem do autor, mas era bem interessante. O problema é que muitas coisas produzidas aí não são traduzidas, o que se torna um obstáculo. É uma pena. Muito dos romances em inglês são traduzidos para o português, ou para o espanhol, mas o inverso muitas vezes não acontece. Isso não é um problema só com o português, mesmo idiomas como o italiano ou o russo sofrem com isso.

E quais autores inspiraram você? Eu não tenho um nome específico. Na verdade, eu gosto dos que são ruins, aqueles que eu realmente não gosto do que li, porque eles me encorajam a pensar ‘Eeu preciso fazer algo melhor do que isso’. Enquanto os autores muito bons, às vezes desencorajam a gente, pois não sei se conseguiria fazer algo tão bom quanto eles (risos).

Você fica incomodado quando as pessoas o chamam de “o autor de Trainspotting? (Risos) Não. Eu vejo isso de uma forma positiva. Eu me sinto lisonjeado que meu livro ainda seja tão lembrado.

Você está envolvido de alguma maneira com a sequência produzida por Danny Boyle? Ah, claro. Eu sou o produtor executivo do filme. Outro dia mesmo estive nos sets de filmagem conversando com os atores.

O roteiro do filme é realmente baseado em Pornô? Um pouco. Mas é mais evoluído, pois Pornô já está um pouco velho, tem quase 15 anos. Tivemos que atualizá-lo e torná-lo mais contemporâneo. O filme trará os principais elementos do livro, mas também tem muita coisa nova e mudanças grandes. O que eu acho que ficou mais interessante, pois eu não quero ver exatamente a mesma história que criei, prefiro ver algo novo.

Que outros livros seus você gostaria de ver no cinema? Eu gosto de Filth, que já ganhou um filme em 2013, e acho que fizeram um bom trabalho nele. Eu já fui procurado sobre uma adaptação de A Vida Sexual das Gêmeas Siamesas, mas ainda estou avaliando. Há ideias para transformar Skagboys e Crime em séries de TV, também.

Beija-Flor oficializa enredo sobre o romance Iracema no Carnaval do Rio de 2017

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Estátua de Iracema, na lagoa da Messejana. mauri melo/ o povo

Estátua de Iracema, na lagoa da Messejana. mauri melo/ o povo

 

Neste domingo, 19, será entregue a sinopse aos compositores, no barracão da escola

Publicado em O Povo

Agora é oficial. O romance Iracema, escrito pelo cearense José de Alencar, será enredo da escola de samba carioca Beija-Flor de Nilópolis, no Carnaval 2017. A informação foi divulgada pela assessoria de comunicação na manhã desta sexta-feira, 17.

Em entrevista ao O POVO Online, o carnavalesco Fran Sergio Santos, que atua no comando de toda a parte artística da Beija-Flor, contou que neste, 19, domingo será entregue a sinopse aos compositores, no barracão da escola. Fran Sergio havia antecipado a informação no último dia 30 de março, em entrevista ao O POVO Online.

Na ocasião, o carnavalesco havia revelado a sua predileção para que o romance se tornasse o enredo da escola, considerando sua importância na literatura nacional. “A gente está muito interessado e prefere Iracema pelo teor cultural e social que a história tem. É uma bela história de amor que conta o início do Brasil, e este é o momento para falar disso”, disse Fran.

A história de amor do conquistador português com a “virgem dos lábios de mel”, escrita há 150 anos, concorria com nomes ligados à cultura, como o de Abelardo Barbosa, o comunicador popular Chacrinha.

Beija-Flor

A Beija-Flor de Nilópolis tem 67 anos de tradição, com 13 vitórias no desfiles de Carnaval do Rio de Janeiro. Este ano, a escola cantou uma homenagem ao Marquês de Sapucaí, nome popular do Sambódromo onde ocorrem os desfiles.

O amor na literatura se rende aos likes

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Mais de 400 anos após sua publicação, Romeu e Julieta ainda é referência. Paramount/Divulgação

Mais de 400 anos após sua publicação, Romeu e Julieta ainda é referência. Paramount/Divulgação

 

Obras recentes abordam o lado digital dos relacionamentos contemporâneos

Breno Pessoa, no Diário de Pernambuco

Esteja você solteiro ou acompanhado, apaixonado, indiferente ou desiludido, é quase impossível não ser bombardeado pelo amor no Dia dos Namorados, quando tudo parece convergir para imagens de corações e cupidos, buquês de rosa, jantares à luz de velas etc. Na ficção, também não é fácil se desvencilhar do romantismo: o sentimento é dos temas mais abordados na literatura. Uma busca pelo termo no site da Amazon do Brasil, por exemplo, indica mais de 131 mil obras relacionadas, seja no título ou temática. Já na página da Livraria Cultura, foram listados mais de 97 mil livros, entre edições físicas e digitais.

O escritor Marcelino Freire tem um palpite sobre o tema estar em tantas obras: “Porque ou é o amor ou é a morte. Preferimos o amor. Mesmo sabendo que um dia ele vai morrer”. E a literatura é realmente cheia de representações do ideal romântico. Dos clássicos Anna Karenina (Liev Tolstói) e Senhora (José de Alencar) a obras contemporâneas, como A culpa é das estrelas (John Green) ou o recém-lançado O amor nos tempos de #likes (Pam Gonçalves, Bel Rodrigues, Hugo Francioni e Pedro Pereira), as relações amorosas são a questão central ou pano de fundo de narrativas dos mais diversos gêneros. Mas será que a maneira como o amor é representado nos livros muda de acordo com a época? Casais ficcionais clássicos, como o Sonhador e Nástienka, de Noites brancas, romance de Fiódor Dostoiévski publicado em 1848, diferem tanto de pombinhos modernos da literatura, como Emma e Dexter, de Um dia (2009), de David Nicholls?

Partindo do pressuposto que as próprias relações afetivas na sociedade mudam, sim. “A definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda”, diz o filósofo Zygmunt Bauman em seu livro Amor líquido, na qual defende que o significado do termo tornou-se mais flexível e menos idealizada na atualidade. “É assim numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea”, defende o autor.

"O amor virtual é mais real", opina o escritor Marcelino Freire. Virgínia Ramos/Divulgação

“O amor virtual é mais real”, opina o escritor Marcelino Freire. Virgínia Ramos/Divulgação

Marcelino Freire segue uma linha de pensamento parecida. “Agora o amor ganhou nudes, ganhou fotos explícitas via Whats, ganhou pimenta virtual, ganhou compartilhamentos. Isso está pulsando nos livros. Hoje o amor é vira-lata. Não é mais duradouro. É coisa de um dia às vezes”, opina, completando que gosta dessa nova visão: “O amor virtual é mais real”. “A principal diferença que eu vejo é no aumento de possibilidades de abordar o sentimento com liberdade. Hoje se produz mais e se fala mais. Esta é uma diferença crucial”, afirma Cecília Garcia Marcon, linguista e colaboradora do 30:Min, podcast especializado em literatura.

Mestranda em sociologia, Cecília também acredita que a literatura contribui na formação do imaginário popular sobre o amor. “É fácil perceber isso quando notamos Romeu e Julieta sendo citado largamente mesmo que não se tenha lido a peça. A extensão da arte é imensurável”, defende.

Conectividade
Obras recentes abordam a conectividade em tempo integral, como o norte-americano Chad Kulten, em Homens, mulheres & filhos (Record, 352 páginas, R$ 35). Embora não seja focada em histórias de amor, a obra fala sobre como tecnologia interfere nas relações, a partir de personagens como o pai de família viciado em pornografia online, uma mulher que agenda encontros com desconhecidos pela web, adolescentes descobrindo a sexualidade e interagindo entre si a partir de redes sociais e mensagens de smartphones ou uma garota que busca fama postando fotos sensuais num blog etc.

Para compartilhar

Mais ameno, O amor nos tempos do blog (Companhia das Letras, 96 páginas, R$ 32,90), de Vinicius Campos, tem como personagem Ariza, um garoto de 13 anos que decide escrever em blog sobre a paixão da escola, garota que encontra na biblioteca no momento em que vai devolver O amor nos tempos do cólera, leitura de férias. Outras duas blogueiras estão por lá: a Deusa Cibernética, que se define como divertida e popular, e a Ciderela Virtual, romântica em busca do seu príncipe encantado. De título quase idêntico, O amor nos tempos de #likes, lançado neste mês, tenta atualizar três clássicos (Orgulho e preconceito, Dom Casmurro e Romeu e Julieta) para releitura na era virtual. Entre os protagonistas dos contos, youtuber famosa que tem receios em se abrir para relacionamentos, dois garotos que moram em cidades distantes e se conhecem através do Facebook e garota que saiu de um relacionamento abusivo e acaba conhecendo seu vlogger favorito.

É por postagem
Posts em redes sociais e mensagens de celular são elementos narrativos de Confusões de um garoto (Verus, 168 páginas, R$ 24,90), de Patrícia Barbosa, publicado em edição revista e ampliada. O romance juvenil faz retrato contemporâneo da adolescência entre selfies, a descoberta da paixão e até a questão do cyberbulling.

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