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Como começar a ler Stephen King?

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Scott Eisen

Investigando qual é o melhor livro para conhecer a obra do Mestre do Horror – na perspectiva de alguém que ainda não leu nada dele

Arthur Eloi, no Omelete

Stephen King celebrou 72 anos de vida neste sábado, 21 de setembro. O autor tem bastante a comemorar, com sua obra passando por uma renascença recheada de novas adaptações na TV e cinema. Assim, é natural que muitos se interessem por conhecer seu trabalho literário, mas… isso não é uma tarefa tão fácil assim. Na ativa desde a década de 1970, King tem 61 obras publicadas, sem contar os mais de 200 contos espalhados por aí. Ler Stephen King exige certa pesquisa para os interessados – e eu me encaixo nisso, já que nunca li nenhuma obra do Mestre do Horror. O momento é perfeito para corrigir isso.

A escolha do livro que marcará o primeiro contato é um passo importante. Afinal, a impressão inicial tem peso na motivação para consumir o restante. Assim como tantos autores com longas carreiras, é certo que a qualidade oscila. Além disso, King é conhecido por escrever alguns bons calhamaços, como It: A Coisa de 1210 páginas, ou A Dança da Morte, de 1269 páginas. Muitos dos romances do autor também se passam em um universo compartilhado, o Multiverso, portanto cair de paraquedas em algo como A Torre Negra pode estragar a experiência de um leitor desavisado.

Acredito que o primeiro contato ideal é aquele que passa uma ideia do estilo e temática do escritor de forma concisa, para quando eu, eventualmente, for pegar uma leitura mais longa, fazer isso já tendo uma noção do que esperar. Para não encarar esse desafio sozinho, decidi buscar ajuda de quem entende do assunto.

“Eu sei que muita gente tem começado a ler as obras mais recentes do King justamente porque estamos novamente numa fase muito prolífica de adaptações, tanto pro cinema quanto pra TV”, me falou Niia Silveira, do 101 Horror Movies. “Dessa forma, muita gente acaba tendo o primeiro contato por conta disso e acaba procurando esses livros mais recentes. Claro que toda a bibliografia do cara vale a pena ser lida mas a gente precisa entender que são fases muito diferentes da vida do autor, e isso reflete na sua escrita. Eu sempre recomendo que se leiam os livros mais antigos dele, se quiser conhecer de fato quem Stephen King é. É naquela fase que o horror parecia muito mais genuíno e grandioso, ao mesmo tempo que simples. Cujo é um grande exemplo disso”, recomenda.“É um livro simplório, sem ares sobrenaturais, mas ao mesmo tempo, é tão complexo, tão claustrofóbico. E tem muito dessa coisa do King de fazer o horror se tornar crível. Ser atacado por um cão raivoso é algo que pode acontecer com qualquer um. Louca Obsessão também é um desses, é o horror vindo do ser humano. King é ótimo descrevendo monstros cósmicos ou entidades fantasmagóricas, mas também pode ser excelente quando decide calcar na vida real. Por isso os dramas dele fazem tanto sucesso quanto as novelas de terror.”

Jéssica Reinaldo, do Fright Like a Girl, concorda com a abordagem de ir pelo o que é conhecido, e recomenda começar com pequenas doses. “Acho que uma dica legal pra começar a ler King é ver se tem algum filme que você goste muito e foi inspirado em uma obra dele. Às vezes, se você já está familiarizado com a história, a narrativa pode fluir melhor. E, acho que indicaria contos, e não os romances. Meu primeiro livro de contos dele foi Bazar dos Sonhos Ruins, e cumpriu bem o trabalho de me manter ligada em tudo que ele fez.“

Já Marcelo Miranda, jornalista, crítico de cinema e apresentador do podcast Saco de Ossos (por sua vez, nomeado de acordo com um romance do King), é direto nas dicas: “De romances, ótimos começos são Carrie, O Iluminado e O Cemitério. Quem quiser ter uma ideia mais rápida dele, os livros de contos Tripulação de Esqueletos e Sombras da Noite são boas opções. E quem quiser conhecer um King menos terrorífico e mais próximo do suspense ou do drama, os contos do livro Quatro Estações e os romances À Espera de um Milagre e Jogo Perigoso vão muito bem.”

Ponto de Partida

Pesquisar a obra de Stephen King significa fazer intermináveis listas de recomendações, já que muitos de seus livros ficaram grandes na cultura pop. Portanto, mesmo já tendo algumas boas dicas, decidi olhar para as primeiras obras do autor como um ponto de partida lógico. Acontece que King já teve um excelente começo de carreira: sua primeira obra (publicada sem pseudônimos) foi nada menos do que Carrie, a Estranha, em 1974. O escritor então se consagrou novamente com A Hora do Vampiro (1975). Ambos não só são romances queridos, como também renderam boas adaptações cinematográficas. Faz sentido começar por aqui, certo?

“Eu conheço muita gente que começou por Carrie e A Hora do Vampiro”, explica Jéssica Reinaldo. “Eu mesma, meu primeiro romance do King, depois de ter lido alguns contos, foi A Hora do Vampiro, e se tornou um dos meus livros preferidos. São boas escolhas pra começar e entender um pouco da cabeça do King. A Hora do Vampiro é um livro incrível, a narrativa, o ritmo, é demais. E Carrie é uma das histórias mais conhecidas dele, o impacto da obra no gênero do terror é imenso”. Marcelo Miranda reforça: “Acho que são dois romances muito bons pra ter um contato com King, sim, porque são histórias bem diretas e de uma fase inicial dele. Carrie, seu livro de estreia, já indica praticamente todas as temáticas que ele vai trabalhar a vida toda, desde a descrição da juventude como uma fase violenta e sofrida, passando pelas opressões familiares e chegando aos elementos sobrenaturais que desestabilizam a vivência de uma pequena cidade até então pacata, ainda que cheia de segredos e perversidades, que esse elemento sobrenatural explícita.”

Miranda continua: “A Hora do Vampiro é bem parecido nesse sentido, apenas deslocando o enredo pra uma releitura do Drácula de Bram Stoker, é de fato quase um remake literário. Aqui o King insere a figura monstruosa que inferniza um determinado grupo de personagens, outro encaminhamento narrativo que vai aparecer em quase toda sua obra”. Rodolfo Stancki, jornalista e pesquisador de cinema de horror, adiciona mais alguns títulos aos dois: “Tanto Carrie quanto A Hora do Vampiro são bons livros mesmo para começar. Na verdade, incluiria ainda no pacote de recomendações títulos como Christine, A Zona Morta, A Incendiária e O Cemitério. Isso porque são narrativas mais simples e rápidas e que não dialogam com a complexidade da mitologia que o Stephen King vai criar mais tarde. A Zona Morta, por exemplo, é a porta de entrada para o universo de Castle Rock. Tem coisas em Cujo que funcionam melhor se você conhecer o que se passa nesse primeiro livro.”

Niia Silveira, por outro lado, discorda e oferece uma alternativa: “Eu particularmente acho Carrie um dos livros mais fracos do King, pra ser honesta. Ele é como um diamante bruto, tem sua beleza, mas poderia ter ainda mais se fosse melhor lapidado. Mas mesmo assim consigo ver os méritos pela obra, já que foi dali que ele se sentiu confiante o suficiente pra continuar tentando publicar seus livros. Mesma coisa com A Hora do Vampiro, que é uma declaração de amor ao Drácula. A gente vê muito de Bram Stoker ali, mas também conseguimos sentir aquela assinatura de King, que ele tava começando a moldar. São livros de um escritor iniciante que ainda estava se encontrando. Pra mim, é com O Iluminado que ele, definitivamente, se encontrou naquilo. É um dos meus livros favoritos, e acho que um dos melhores de horror já escritos.”

E qual a hora de começar a explorar o Multiverso? Segundo Rodolfo Stancki, o leitor iniciante ainda não deve pensar nisso: “Pessoalmente, acho que uma série como A Torre Negra deve ser consumida com alguma intimidade com as narrativas do King. Tem umas referências bem legais a outros livros, como A Hora do Vampiro, que funcionam melhor se você leu o livro antes”.

O Veredito

Como esperava, não há um consenso sobre qual é a melhor obra inicial, mas há alguns nomes recorrentes que ajudam a esclarecer as coisas. Tanto Carrie, quanto O Iluminado e Cujo parecem boas apostas, com a coletânea Bazar de Sonhos Ruins como uma ótima pedida para quem procura algo ainda mais conciso. O próprio King, afinal, é um grande entusiasta de contos, continuando a escrevê-los mesmo quando consagrado por seus romances.

Isso, é claro, é apenas a parte um de uma jornada. Enquanto eu corro atrás das recomendações, o importante é prestigiar Stephen King pelo seu aniversário e, claro, pelo enorme impacto na cultura pop.

Os cinco livros mais importantes de Toni Morrison

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Toni Morrison: escritora produziu romances com temas tabus para a época (Timothy Greenfield-Sanders/Bloomberg)

Primeira negra a ganhar o Nobel de literatura, escritora morreu nesta terça-feira, 6, aos 88 anos

Publicado na Exame

Ganhadora de um Nobel de Literatura e de um Prêmio Pulitzer e uma gigante da literatura afro-americana, a escritora Toni Morrison tratou do legado da escravidão nos Estados Unidos com uma voz poética e ao mesmo tempo crua, influenciando gerações de autores.

Abaixo, algumas de suas principais obras:

‘O olho mais azul’ (1970)

Primeiro romance de Morrison, publicado ao 39 anos, este livro conta a história de uma garota negra na década de 1940 em Ohio, que sonha com ter olhos azuis. Para a menina, um sinônimo de brancura e de beleza em um mundo assombrado pela escravidão.

Vívido, sensível, mas também duro e sem filtros, o livro foi descrito pelo jornal “The New York Times” como “uma prosa tão precisa, tão fiel ao discurso e tão carregada de dor e assombro que o romance se torna poesia”.

À época, teve uma resposta ambivalente do público, com baixas vendas. Começou a ganhar reconhecimento, após ser incluída em uma lista de leitura de uma universidade.

Desde então, enfrentou desafios legais e chegou a ser banido em escolas de vários estados americanos por tratar de temas tabu como incesto e abuso sexual infantil.

‘Canção de Salomão’ (1977)

Segundo romance de Morrison, ganhador do prestigioso US National Book Critics Circle Award, mistura realismo mágico, folclore e sociologia para contar a história de uma adolescente que tenta esquecer de seu passado como uma escrava.

Apresenta um dos temas caros à escrita de Morrison: a complicada busca por identidade em um mundo hostil.

‘Amada’ (1987)

Com seu quinto livro, Morrison virou uma celebridade do dia para a noite, ao dramatizar a dolorosa história real de Margaret Garner, uma escrava fugitiva que matou a filha em 1856 para salvá-la de uma vida de servidão.

“É uma obra-prima americana, a qual repensa, de um jeito curioso, todos os grandes romances da época em que é escrito”, escreve A.S. Byatt, no jornal “The Guardian”, por ocasião do lançamento.

Em decisões polêmicas, “Amada” foi preterido em dois dos principais prêmios americanos da área ao ser publicado, levando 48 escritores a assinarem uma carta aberta na “New York Times Book Review”, denunciando o não reconhecimento de Morrison.

Em 1988, veio, então, o Prêmio Pulitzer, adaptado para o cinema dez anos depois como “Bem-amada”, estrelado por Oprah Winfrey como a mãe, Sethe.

‘Paraíso’ (1998)

“Paraíso” completou a trilogia de romances de Morrison, iniciada com “Amada” e seguida por “Jazz” (1992), desafiando a leitura dominante do passado, ao explorar, especificamente, a história afro-americana desde meados do século XIX até os dias atuais.

Primeiro livro escrito depois de ser agraciada com o Nobel de Literatura, em 1993, “Paraíso” apresenta seu típico estilo de múltiplas vozes narrativas com saltos temporais para abordar as causas de um brutal assassinato em uma cidade de Oklahoma nos anos 1970.

‘Voltar para casa’ (2012)

“De quem é esta casa?” é a pergunta que abre este romance, que trata de um outro tema recorrente no trabalho de Morrison: o que é um lar e como isso nos molda, ou nos dilacera.

Nele, conta a história de um rapaz nos seus 20 anos que volta para casa, em Seattle, depois de lutar na Guerra da Coreia. Um jovem que deixa “um Exército integrado” para retornar para “um país segregado”, como escreveu o jornal “The New York Times” em uma resenha na época do lançamento.

Sucesso de Julia Quinn consagra nova tendência da literatura para mulheres

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FINAIS FELIZES - Julia Quinn: série adaptada por Shonda Rhimes para a Netflix (Claudia Morillo/VEJA)

A onda do momento são os romances de época em que destemidas heroínas lutam pelo amor

Raquel Carneiro, na Veja

Aos 13 anos, a americana Julie Pottinger levou uma bronca do pai: ele não gostava da literatura apreciada pela filha, que devorava romances açucarados, alguns com cenas de paixão ardente estampadas na capa. O motivo não era puritanismo, mas sim a qualidade do texto — a família prezava a formação intelectual. Para contornar o mau humor paterno, Julie disse que o interesse pelo gênero decorreria, na verdade, de sua meta de escrever ela própria um romance naqueles moldes. Resultado: foi desafiada pelo pai a fazê-lo. A adolescente teceu, então, sua primeira novela — nunca publicada, mas valorizada por Julie hoje como um primeiro passo para tomar gosto pela escrita. Anos depois, ela mudaria seu nome para Julia Quinn (Julia para soar mais adulta e Quinn para, na ordem alfabética das estantes das livrarias, ficar perto da autora romântica Amanda Quick). Conquistou seu primeiro contrato com uma editora ao mesmo tempo que era aceita no curso de medicina em Yale. “Decidi dar um tempo na faculdade para me dedicar ao livro, mas logo bateu o desespero: ‘E se não der certo essa história de ser escritora?’. Voltei para Yale, mas fiquei só dois meses”, contou Julia a VEJA.

Hoje, aos 49 anos e 37 livros depois, ela não tem arrependimentos. Autora de romances femininos ambientados em cenários históricos, Julia contabiliza mais de 10 milhões de cópias vendidas no mundo, sendo 1,15 milhão só no Brasil — sim, seu principal mercado fora de países de língua inglesa é aqui. Seu novo livro, Um Cavalheiro a Bordo (Arqueiro), chega às livrarias nesta semana. A saga, ambientada no século XVIII, é derivada de outra trama da autora, a bem-sucedida Os Bridgertons, sobre uma família aristocrática formada por oito irmãos (quatro homens e quatro mulheres) conduzidos por uma sábia matriarca. A trama foi eleita por Shonda Rhimes para integrar seu portfólio na Netflix — no acordo de 150 milhões de dólares entre a produtora de Grey’s Anatomy e a plataforma de streaming estão oito seriados de estilos variados. “Um representante da Shonda ligou para perguntar se os direitos dos meus livros ainda estavam disponíveis. Eu respondi aos berros: ‘Sim!’ .Sou uma grande fã, fiquei chocada”, afirma Julia. Com pretensão de ser uma nova Downton Abbey, a série deverá estrear em 2020. Até agora, só um nome do elenco foi divulgado: ninguém menos do que Julie Andrews, na pele de Lady Whistledown, uma cronista social de língua afiada. Um pontapé inicial e tanto.

O sucesso de Julia Quinn ilumina as novas tendências de um segmento editorial tradicionalíssimo. Com a ascensão feminina no mundo do trabalho e sua afirmação na cultura pop, a literatura para mulheres tomou um banho de loja: moças ingênuas e sonhadoras deram lugar a heroínas emancipadas e mulheres, vá lá, “de carne e osso” (leia o quadro na pág. 90). Nas listas de best-sellers figuram distopias sobre mulheres em luta contra a opressão, como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, e dramas psicológicos com anti-heroínas às voltas com a depressão, como a protagonista de Sharp Objects, de Gillian Flynn. Mesmo na era do feminismo, no entanto, há indícios de que certas coisas mudam na forma, mas continuam iguais na essência. As fantasias sexuais da personagem de Cinquenta Tons de Cinza, de E.L. James, são dosadas para não ferir suscetibilidades. Da mesma forma, as histórias açucaradas sobrevivem nos livros de Julia Quinn. Só que agora as moças casadoiras têm sede de autonomia e a ambientação de época garante que a atmosfera romântica se revele crível para a leitora de hoje.

Leve, bem-humorado e com uma sensualidade liberada a conta-gotas, o estilo de Julia chegou a ser comparado pelas fãs ao da incomparável Jane Austen (1775-1817). O exagero é reconhecido — ainda bem — pela própria. “Jane fez um retrato profundo da época em que viveu. Eu simplesmente viajo ao passado e imagino protagonistas fortes.” Viagem parecida tem sido feita por outras autoras do filão, como Lisa Kleypas, de Os Hathaways, e Diana Gabaldon, de Outlander. Quem percebeu o potencial do gênero no Brasil foi a editora Arqueiro, selo da Sextante que abraçou os romances femininos de época para surfar em números expressivos — a exploração do gênero já rendeu mais de 2 milhões de livros vendidos. No topo do filão, Julia reina absoluta. “No catálogo da editora, ela já figura junto de autores como Dan Brown e Nicholas Sparks”, conta Nana Vaz de Castro, executiva da Sextante.

A fórmula do sucesso é facilmente identificável: casal se conhece, se repele, participa de bailes pomposos, se apaixona e se casa. Mas o que acontece entre a primeira página e o final feliz de um romance enlatado é o que faz uma autora distanciar-se das outras na lista dos best-sellers. Julia ganha pontos por seus personagens carismáticos. Os homens são ríspidos, mas elegantes — todos, no frigir dos ovos, exibem excelente trato com as damas. As mulheres revelam-se afiadas, ainda que às vezes sejam desajeitadas, e buscam um amor verdadeiro — que raramente acontece à primeira vista, mas nunca deixará de se consumar antes da última página.

Para Julia, famílias felizes não são entediantes (diferentemente do que escreveu Tolstoi no célebre início de Anna Karenina). Ao contrário: são sua fonte de renda. “Os leitores gostam de mães que não traumatizam os filhos e de homens que não maltratam as mulheres”, diz a autora, que conheceu o marido há trinta anos. “A única coisa que me irrita quando criticam meus romances é dizerem que crio expectativas muito altas nas mulheres em relação aos homens. Ora, imaginar uma relação longa e monogâmica entre duas pessoas que se respeitam seria um exagero?” Sua função social, por assim dizer, seria justamente alertar sobre relacionamentos abusivos. “Muitas leitoras perceberam que estavam em namoros ruins”, diz. Exaltar heróis masculinos com conduta de bad boys está fora de sua cartilha. “Não entendo o apelo de alguém que trata a mulher como lixo. Um romance precisa de homens bons.” E bonitões, claro.

Curtindo Chernobyl da HBO? Conheça três ótimos livros sobre o assunto!

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Gabriel Faria, no Torre de Vigilância

Minissérie composta por cinco episódios criada por Craig Mazin e produzida pela HBO, Chernobyl está sendo transmitida atualmente e caminhando para seu encerramento. Adaptando fielmente os fatos do maior desastre nuclear da história, na usina ucraniana que dá nome à série, crítica e espectadores no geral vêm elogiando o desenrolar e os aspectos técnicos da produção.

O desastre ocorrido em 1986 já foi tema de muitas produções, sejam elas televisivas, cinematográficas ou literárias. O drama vivido pelas famílias e trabalhadores na então União Soviética, a tentativa banal de acobertamento dos fatos por parte do governo tentando evitar o caos, entre outras situações desastrosas que expõem os principais problemas do ser humano, vieram à tona e vêm sendo discutidos semanalmente com a exibição de novos episódios.

Abaixo, recomendaremos três elogiados livros sobre o assunto, para que algo tão memorável negativamente na história humana permaneça sempre em discussão.

Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear

Livro mais conhecido e premiado sobre o desastre, Vozes de Tchernóbil foi escrito por Svetlana Aleksiévitch, escritora e jornalista bielorrussa. Neste livro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana se utiliza das múltiplas vozes – de viúvas, trabalhadores afetados, cientistas ainda debilitados pela experiência, soldados, gente do povo – para construir uma narrativa arrebatadora, a um só tempo, relato e testemunho de uma tragédia quase indizível.

Cenas terríveis, acontecimentos dramáticos, episódios patéticos, tudo na história de Tchernóbil aparece com a força das melhores reportagens jornalísticas e a potência dos maiores romances literários. As palavras de seus personagens, que dão corpo à narrativa em forma de relato, apresentam dores incomparáveis.

Nina: Desvendando Chernobyl

Livro finalista do Prêmio Jabuti de 2018 na categoria “Conto.”

Em Desvendando Chernobyl, Ariane Severo retoma o assunto abordado por Svetlana (em seu livro Vozes de Tchernóbil) com outras qualidades. Trata-se de um romance onde Nina, psicanalista brasileira nascida em Moscou da união efêmera de um casal de bolsistas gaúchos, volta à então capital da União Soviética com o desejo de ajudar “pessoas que sofrem com a catástrofe de Chernobyl“.

Ariane recria os fatos com absoluta veracidade, sem nunca perder a ternura, principalmente em relação aos seres humanos mais humildes (e seus animais e plantas) destruídos pela irresponsabilidade dos poderosos envolvidos na catástrofe.

Chernobyl 01:23:40: The Incredible True Story of the World’s Worst Nuclear Disaster

Ainda não disponível em português, Chernobyl 01:23:40 do autor inglês Andrew Leatherbarrow narra em detalhes como o reator nuclear da usina apresentou uma falha crítica e como funcionava anteriormente. O narrador também apresenta descrições e sentimentos acerca de uma ida à Pripyat, vilarejo mais próximo à usina, e demonstra em palavras as emoções que o local transmitem nos dias de hoje e que o motivaram a escrever este livro mesmo não sendo da área.

O material apresentado exigiu muita pesquisa e faz jus aos fatos reais. Os eventos que levaram ao desastre são narrados de forma contínua e muito clara, tornando-se uma leitura fácil para qualquer um, até mesmo um leitor descompromissado que deseja saber mais sobre o assunto.

Existem dezenas de outros livros que falam sobre o desastre de Chernobyl, seja em forma de romance com ficção ou a história real. A série de TV tem reavivado a discussão, beneficiando o questionamento e expondo fatos que agora alcançam um novo público. Da mesma forma, a literatura permanece com relatos eternos de tanto sofrimento em um dos momentos mais sombrios da história humana.

Insegurança da leitura: efeitos nocivos da Internet vira estudo e são comparados com livros

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Muitos dizem que ler artigos pela Internet não se aproxima à qualidade de uma leitura em papel. Mas parece que nem sempre foi assim

Thais Ribeiro, no Showmetech

Parece ficção mas ainda há uma grande parcela da sociedade que questiona a legitimidade da leitura online. Não somente isso, mas a coloca em xeque em comparação aos livros. O que parece escapar pelos dedos, e, assim como as páginas amareladas desgastadas, não faz tanto tempo assim que a legitimidade de romances foi, em seu próprio tempo, questionada, insultada e esnobada.

Muitas vezes, eram acusados de levarem seus entusiastas mais fervorosos a erros inexcusáveis e, para todos os efeitos, capazes de arruiná-los para a praticidade da vida real. Soa familiar?

Essas expectativas, e também os preconceitos em ambas modalidades de leitura, tornou-se estudo na universidade. Afinal, tecnologia e literatura possuem muito em comum. Em seu ensaio sobre o chamado fenômeno “insegurança da leitura”, Katy Waldman descreve o clima atual como um resultado inevitável da oralidade.

Mas vai além disso, porém. O que seu estudo tenta não é condenar a leitura da internet em detrimento da leitura clássica, mas sim estabelecer um paralelo entre as duas modalidades, como forma de documentar histerias acerca dos hábitos da juventude.

Leitura e a fonte confiável

Parte do sentimento de que a leitura online é inferior à chamada leitura tradicional não é conceito existente somente por se tratar de um hábito dos jovens. Mesmo que isso seja a fonte de alguns dos preconceitos. Quanto a isso, Katy argumenta que “livros e artigos investigam a maneira como lemos agora” e “uma longa série de estudos sugere que as pessoas leem a Internet de maneira diferente como leem romances”.

Katy vai além e faz paralelos à leitura em contexto histórico, observando que a linguagem falada sempre foi retratada como não confiável, isso pode ser especialmente verdadeiro em relação à linguagem falada por mulheres. Waldman escreve:

“Eu não posso deixar de pensar que o grande debate em torno da ‘oralidade e alfabetização‘ – a natureza escorregadia de um versus a autoridade estável do outro – está de volta, mais ou menos. Desta vez, lançamos a nova tecnologia como não confiável e o livro impresso parecido com uma relíquia como a fonte confiável”.
Katy Waldman – A Insegurança da Leitura.

O que acaba por abrangir o debate talvez seja o fato de que, inevitavelmente, o que faz com que os livros hoje gozem de certos status são os mesmos motivos nos quais eram condenados em seu tempo. Muitos deles relacionados à sua capacidade de engajamento e a forte relação com a prática oral e a juventude.

Madame Bovary à frente de seu tempo

Vale lembrar que nem mesmo os romances que marcaram história conseguiram escapar da régua da condenação. Não podemos esquecer que, em seu tempo, o romance absoluto, Madame Bovary (1856) fora condenado entre os seus. E foi além, já que para muitos, o que parecia uma grande celebração do amor romântico era nada mais que uma crítica afiada.

Em seu romance, Gustave Flaubert descreve uma adolescente Emma Bovary que “sujou as mãos com livros emprestados de velhas bibliotecas”. Tudo o que Emma lê é excitante em comparação à sua vida. Antes do casamento, ela se achava apaixonada; mas a felicidade que deveria ter seguido esse amor não chegou, e ela, por sua vez, se sentiu enganada.

O que ela não encontrou em seu casamento, Emma tentou descobrir o que é felicidade, paixão, arrebatamento, que lhe pareceram tão belas em livros, em tantos outros lugares. Nos braços de outros homens. Adultério. Escandâlo. Um romance a frente de seu tempo.

No conflito de Emma Bovary e seus devaneios, Flaubert está canalizando um século de preocupações sobre jovens mulheres particularmente suscetíveis às fantasias que encontram nos romances e nas seduções da leitura.

Para Katy Waldman, o enredo de Madame Bovary não é despropositado. Já que, do final do século XVIII até a metade do século 19, ela acrescentou, as mulheres eram consideradas em risco por não serem capazes de diferenciar ficção e vida.

Em Madame Bovary, Flaubert pode estar elaborando algumas de suas próprias ansiedades, estando realmente dividido entre essa imaginação romântica e uma espécie de realismo, que sucederia essa vanguarda.

Parte de Madame Bovary é Flaubert tentando exorcizar sua própria imaginação romântica realmente poderosa. E a alienação cujos efeitos colaterais são realmente poderosos. Ao criticar Emma, ele critica a todo uma sociedade obcecada na superficialidade.

Austen e a histeria dos excessos

Andando na marcha ré, vem Jane Austen, que, seguindo o exemplo de Flaubert, foi outro romancista que brincou com ideias sobre leitura. Em A Abadia de Northanger (1817) Austen conta a história de Catherine Morland, uma amante de romances cuja leitura a faz acreditar que um homem com quem ela está hospedada é um assassino.

Catherine é uma jovem típica que não consegue distinguir entre fato e ficção. Mas, ela não ousa criticar tão ferrenhamente sua protagonista. Pelo contrário. Austen é uma espécie de mestre em satirizar os excessos, mas ela também está elogiando a capacidade dos romances de cultivar o julgamento e gosto.

A leitura de mulheres, especialmente as adolescentes, sempre fora associada ao inflamar das paixões sexuais; com idéias radicais e liberais; com arrogância; com a tentativa de derrubar o status quo. A Abadia de Northanger ridiculariza a noção social que retratava as mulheres como tão estúpidas que elas não seriam capazes de distinguir realidade e ficção.

Um paralelo que podemos traçar, por exemplo, com todo o preconceito acerca das comunidades de fanfiction. Quem já não se viu criticando esse estilo de leitura online? Ou até mesmo com aquilo que lemos em redes sociais. Embora os medos de hoje sejam diferentes dos tempos de Austen – mais focados no que encontramos na Internet do que em como interpretamos o que lemos -, há uma semelhança afinal.

Nossas ansiedades contemporâneas em relação à leitura refletem uma desconfiança de que o indivíduo seja capaz de diferenciar materiais bons de materiais ruins ou usar as informações que eles absorvem de forma produtiva, construtiva e segura.

Do outro lado da moeda, o que antes era visto como um risco nos livros é agora elogiado como uma força a ser reconhecida. Hoje, muitos valorizam romances por promover direcionamento, foco. O que, para alguns dos críticos do romance dos séculos XVIII e XIX, perder-se era exatamente o problema.

Claro que não seja de todo modo preocupante a maneira na qual nos permitimos alguns meios de comunicação nos absorverem. Um eco talvez distante das preocupações anteriores sobre jovens e romances podem tecer um paralelo ao atual discurso sobre jovens e videogames.

Porém todo o imaginário de que os livros podem ser perigosos parece ter caído no esquecimento, o que levanta a questão de como as novas fontes de entretenimento e informação atuais irão parecer para os críticos e estudiosos do futuro.

Daqui 50 anos, talvez lamentemos nossa incapacidade de ler online de maneira satisfatoriamente eficiente. Quais serão os estímulos que o futuro nos reserva? Por ora, basta fazer apostas e, por via das dúvidas, pegar carona na nostalgia.

fonte: New York Times

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