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Artista carioca recria rostos famosos da literatura com máquina de escrever

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Clarice Lispector pelas mãos – e dedos – de Álvaro Fraca

Clarice Lispector pelas mãos – e dedos – de Álvaro Fraca

Publicado por Glamurama

Os tipos de letra, as cores, a pressão feita da tecla no papel… Tudo isso imprimia personalidade em cada carta ou texto que saíam das antigas máquinas de escrever. Pois o artista carioca Álvaro Franca se apoderou desses detalhes para criar retratos de grandes personalidades da literatura usando teclas, tinta e papel. Álvaro Franca disse que escolheu seus autores favoritos para a série “Typewritten Portraits”, que ainda está em produção e que ele começou quando estudava na Cambridge School of Art, na Inglaterra. O resultado é impressionante. Confira abaixo!

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Jose Saramago no retrato de Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

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Clarice Lispector no retrato de Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

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Charles Bukowski no retrato de Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

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Jack Kerouac no retrato de Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

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J. D. Salinger no retrato de Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

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Processo de criação do artista Álvaro Franca / Créditos: Divulgação

E veja também o vídeo do processo de criação do artista.

Casa comprada por Elizabeth Bishop mantém viva a memória da escritora em Minas

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Localizada em Ouro Preto, a Casa Mariana serviu de residência temporária da poeta norte-americana até a sua morte, em 1979

Publicado no Uai

“Um caminhão Mercedes-Benz, enorme e novo, chega e domina a cena. Na carroceria, botões de rosa brilham, enquanto o para-choque anuncia: CHEGOU QUEM VOCÊ ESPERAVA. O motorista e o ajudante lavam o rosto, o peito, o pescoço. Lavam os pés, os sapatos, depois se recompõem.” Em duas das 16 estrofes de ‘Pela janela: Ouro Preto’, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop expõe observações cotidianas e banais que tinha de uma certa janela da Rua Conselheiro Quintiliano. Pois foi do alto do casarão da amiga Lili Correia de Araújo, a quem o poema é dedicado, que ela observou uma residência logo abaixo. O que lhe chamou a atenção da casa, então em péssimo estado, foi o telhado, “como uma lagosta emborcada.”

Quarenta e oito anos depois dessa observação, é outra senhora de cabelos brancos quem relembra a história. Bishop comprou em 1965 a casa, datada do final do século 17, início do 18. Durante três anos, empreendeu uma extensa reforma no imóvel de 500 metros quadrados, situado numa área de 7 mil metros. Ficou com a casa até sua morte, em 1979, mesmo que nos anos finais pouco a tenha frequentado. Linda Nemer, economista e socióloga aposentada, a comprou da herdeira da poeta, Alice Methfessel, em 1982. Desde então, pouca coisa mudou. À exceção das estantes abarrotadas de livros, que ocupavam a residência, que Bishop levou para os EUA quando retornou ao país natal, em meados dos anos 1970, boa parte dos móveis continua como na época de sua moradora ilustre.

Elizabeth Bishop (Miranda Otto) e Carlota de Macedo Soares (Glória Pires) no filme 'Flores Raras', de Bruno Barreto (Globo Filmes / Divulgação)

                                  Elizabeth Bishop (Miranda Otto) e Carlota de Macedo Soares (Glória Pires) no filme ‘Flores Raras’, de Bruno Barreto

A passagem da poeta pelo país é retratada no filme ‘Flores raras’, de Bruno Barreto, recém-chegado aos cinemas. Mas o que está em foco na tela é a relação de Bishop com Lota de Macedo Soares, arquiteta autodidata que planejou o Parque do Flamengo. A maior parte da narrativa, baseada no livro ‘Flores raras e banalíssimas’, de Carmen L. Oliveira, é centrada no período em que as duas viveram, entre os anos 1950 e 1960, em Petrópolis e no Rio de Janeiro. Ouro Preto é relegada a alguns momentos na parte final, quando o casal visita amigos na cidade histórica. A vivência de Bishop em Minas Gerais se intensifica depois da morte de Lota, em 1967. E é essa a mulher com quem Linda Nemer e sua família conviveram muito proximamente.

Foi o irmão caçula de Linda, o artista plástico José Alberto Nemer, quem primeiramente ficou amigo dela – ele chegou a ter, na Casa Mariana (o nome é homenagem à poeta Marianne Moore, mentora de Bishop), um quarto reservado. Linda logo se tornaria também amiga. Como a família Nemer é de Ouro Preto, os laços se estreitaram. Tanto que a poeta deixou de herança para Linda cinco salas comerciais no Rio de Janeiro. Para ela, Elizabeth, como a chama, sempre foi a senhora um tanto solitária, que bebia muito, mas era de uma delicadeza a toda prova. Capaz de providenciar um tecido que vinha do Norte da Europa somente para presenteá-la (isso depois que Linda elogiou o vestido) e de ir para a cozinha para preparar algo para os amigos.

O quarto que pertenceu a Bishop é o menor dos cinco da Casa Mariana (a cama, com cabeceira do chamado “pescoço de cisne”, é utilizada por Linda hoje em outro quarto). No vidro da janela está inscrita a data de nascimento do chef Jesse Dunfod Wood (22 de outubro de 1977), que teria nascido no quarto de Bishop a pedido do pai, o pintor Hugh Diarmid Dunford Wood, fã da poeta. Mas a porta desse ambiente cai num outro muito maior, o antigo escritório da poeta, hoje transformado em quarto de hóspedes.

Histórias

Detalhista, Bishop mandou vir dos EUA a grande banheira branca, que havia pertencido a um hotel. Da Inglaterra são a lareira da sala e o aquecedor do banheiro. Na sala principal, um detalhe, emoldurado, mostra a construção original da casa (pau a pique, com amarração em couro). Bem próximo está a escrivaninha que pertenceu a José Eduardo de Macedo Soares, fundador do jornal ‘O Imparcial’, precursor do ‘Diário Carioca’. Por sua antiguidade, a casa guarda histórias que não têm nada a ver com a passagem de Bishop por Ouro Preto. Há inclusive uma lenda que diz que a cabeça de Tiradentes teria sido enterrada ali – um importante maçom foi dono da casa em seus primeiros tempos e teria roubado a cabeça de Joaquim José da Silva Xavier.

Entretanto, é a passagem de Bishop que leva pesquisadores, turistas e curiosos a visitarem a Casa Mariana. Há alguns anos, Linda, que vive em Belo Horizonte, pensou em vendê-la, quem sabe para uma instituição “que fizesse dessa casa um museu da Elizabeth, que a mantivesse, a deixasse a salvo.” Como não apareceu ninguém, ela parou de pensar no assunto. “E meus sobrinhos vêm muito para cá, então fica para eles. Tenho 82 anos. O que vou fazer com o dinheiro nessa idade?” Mas se atualmente houvesse algum interesse que fizesse do memorial o lugar que ela imagina – e que Bishop, certamente, merece – Linda voltaria a pensar no caso.

A escritora norte-americana na Casa Mariana, em registro de 1970 (Arquivo/O Cruzeiro/EM/D.A Press)

A escritora norte-americana na Casa Mariana, em registro de 1970

Elizabeth por Linda

» Sem tradução

“Ela bebia muito. Às vezes chegava lá em casa carregada pelo motorista. Nessa época, em Belo Horizonte, morávamos na Rua Herval (na Serra). A gente cuidava dela. Eu saía para trabalhar o dia todo e a mamãe (uma libanesa que nunca foi fluente em português) cuidava dela. Um dia, quando cheguei, ela me falou: ‘Passei a tarde conversando com a sua mãe. Foi muito agradável’. ‘Sobre o que vocês conversaram?’, perguntei. ‘Não sei, porque ela não entendia a minha língua e eu também não entendia a dela’.”

» Amiga famosa

“Um dia, cheguei aqui e ela estava com uma caixinha de sapato amarrada com uma fita. Me disse: ‘Linda, você não faz confiança em mim, mas sou uma pessoa famosa. Se na velhice você precisar de dinheiro, venda esses papéis que vai ter um apoio’. Peguei a caixa e levei para casa. Como viajava muito, falei para mamãe, que de vez em quando dava uma limpeza e jogava papel velho fora: ‘Mamãe, esses aqui não pode jogar fora’.”

» Papéis velhos

“Uma professora veio me perguntar coisas sobre a Elizabeth. Mostrei para ela a caixa. Pois ela foi para Vassar (a faculdade norte-americana em que Bishop estudou e que hoje guarda grande parte de seu acervo) e contou dos papéis. Ligaram-me insistentemente até que concordamos que eu iria até lá levá-los. Quando cheguei a Vassar, tinha um professor de português me esperando, me hospedaram num quarto enorme na universidade. Era tão bem montado que tinha 14 lâmpadas, eu contei. Eu ficava assim porque para mim a Elizabeth era uma pessoa comum, uma amiga mais idosa, uma senhora estrangeira que tinha poucos amigos em Ouro Preto, que bebia e que a gente ajudava quando precisava. Pois a diretora da biblioteca de Vassar só deixou eu abrir a caixa numa sala que era à prova de fogo. Uns experts de Nova York viram que eram autênticos. Nós negociamos e eu os vendi por US$ 25 mil. Era uma caixa de papel velho, com ótimos manuscritos, rascunhos de poemas e reflexões.”

» Coisa de escritoras

“Antes de vir ao Brasil, uma vez ela perguntou a Marianne Moore (mentora de Bishop) o que ela queria do país. Disse para levar uma coisa vermelha. Elizabeth foi a um antiquário e achou rubis. Quando a Marianne já estava muito doente, foi visitá-la e a família falou para que escolhesse uma lembrança. Ela escolheu a abotoadura de rubi. E me deu depois. Então, fui a uma solenidade em Petrópolis com o Affonso Romano e a Marina Colasanti, muito meus amigos. Durante o jantar, bati no copo, todo mundo fez silêncio. Contei essa história e dei as abotoaduras para a Marina. ‘Coisa de escritoras, fica para vocês’.”


 

 

 

 

10 Lugares que nós lemos – e porquê nós lemos neles!

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Monique Almeida, no Literatortura

A leitura é um prazer que nos é transmitido por meio dos pais, professores, mestres, bibliotecários, enfim, todos aqueles que de uma maneira ou outra aproximam o nosso contato com o sentimento de folhear páginas lotadas de letras e, às vezes, imagens.

Chega um nível, porém, em que o hábito atinge tamanha proporção que não se restringe mais a lugar nem hora, então ler se torna uma necessidade sem fronteiras. Nisso, precisamos adaptar diferentes locais para satisfazer o vício, mas você sabe quais são os 10 lugares preferidos dos leitores e o motivo da escolha?

Provavelmente o que mais te agrada está nessa lista, se não, coloque nos comentários abaixo os “cantinhos de leitura” que te acompanham no dia-a-dia.

Bem, a divisão é feita entre locais “públicos” e “privados”.

PÚBLICOS:

Parques: Os parques com seu aspecto de calmaria, o sol no rosto e a brisa suave, com certeza não poderiam deixar de integrar essa lista. Seja por causa de um piquenique com a família, ou apenas para se divertir num final de semana à tarde, a leitura no parque é sempre boa por relaxar e deixar os ares abertos para imaginação, além de, nas pausas, possibilitar que você tente encontrar seus personagens favoritos nos contornos das nuvens.

Livrarias/Bibliotecas: Um lugar clássico, onde o silêncio é lei. Nas bibliotecas a leitura te devora, afinal, quem não sente aquele estímulo de folhear um bom livro quando rodeado de tantas obras? A energia do lugar já é propícia, sem contar que se você estiver numa livraria, pode aproveitar e levar o seu “mais novo amigo” consigo para casa.

Cafeterias: Um lugar aclamado por hipsters, a cafeteria é sempre uma ótima opção, principalmente em dias frios. Lembro-me de um dia na Paulista entrar no Starbucks para comprar chocolate quente e aqueles sofás, junto ao calor do ambiente, implorarem para que eu sentasse e abrisse um bom livro. Quem nunca teve essa sensação, não sabe o que está perdendo.

Ônibus/Trens: Apesar de às vezes ser difícil manter a concentração, por causa daquela senhora que decidiu fazer todas as suas lamentações por telefone ou de algum mal humorado querendo discutir com o cobrador, os transportes públicos são sempre um lugar mágico para a leitura. Eles podem complementar o cenário dos livros, além da diversão em olhar o rosto das pessoas e imaginar se elas parecem ou não com os personagens daquela página. Quantas vezes já não foi encontrada “aquela (ou aquele) inspiração” apenas numa viagem de ônibus?

Praças: Mais comuns no interior dos estados, as praças também fazem parte dos lugares públicos preferidos. A atmosfera é tomada por lazer, com jovens conversando e senhores jogando xadrez ou damas, o que torna as praças bem parecidas com os parques, só que em uma versão reduzida. Além do mais, sentar nos bancos brancos ou acinzentados e apreciar uma grande obra é um sentimento renovador.

PRIVADOS:

Cama: Se você é daqueles que consegue se manter acordado quando opta por ler nesse local, então com certeza a cama é um dos seus lugares preferidos para leitura. A versatilidade com que podemos nos mover para encontrar a posição mais confortável e a sensação de um lugar seguro com o qual já estamos familiarizados torna a cama um clichê, mas dos bons, para apreciar seu título favorito.

Banheiro: Apesar de parecer engraçado, a associação sobre revistas X no 2 fez com que o banheiro se tornasse um excelente local para leitura. É silencioso e não oferece muitos elementos para distração, a não ser que você tenha vizinhos que adoram deixar o som alto, enfim, uma opção de um dos locais mais privados para ler.

Sofá: O parque está para a praça, como o sofá está para a cama. A vantagem do sofá é também termos a possibilidade de procurar a posição mais confortável, só que com menos riscos de ler mais páginas e acabar dormindo. Isso sem contar que o sofá é um espaço que não tem hora para um bom livro, seja chegando tarde do trabalho, depois do almoço ou apenas para relaxar antes de começar o dia.

Carro: Em grandes metrópoles, o carro se tornou item obrigatório nessa lista. O motivo? Quando você se depara com 300 km de trânsito, com certeza não há programa de rádio que seja suficiente para vencer o tédio de olhar a escuridão do lado de fora e se manter a 0 km/h. Não obstante, você também não pode cochilar dentro do carro, então é sempre uma alternativa para trânsitos infinitos ou viagens longas para os que não se sentem enjoados com o movimento do veículo.

Special Spot: Um coringa para essa lista, o special spot (ou lugar especial) faz parte somente da seção de locais privados porque todos nós temos o nosso canto íntimo para leitura que pode ter sido esquecido. Pode ser o prazer de uma escrivaninha, quando se precisa de uma leitura que requer mais atenção, ou aquele quartinho que você dedicou para ser sua biblioteca pessoal, enfim, os special spots são aqueles não citados que você pode deixar no comentário ou que esteve pensando com carinho enquanto lia essa matéria.

Escritora Jane Austen estará nas próximas notas de 10 libras britânicas

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Publicado por AFP [via Folha de S.Paulo]

A nova nota de 10 libras, com o rosto da escritora Jane Austen (1775-1817)

A nova nota de 10 libras, com o rosto da escritora Jane Austen (1775-1817)

A escritora britânica Jane Austen (1775-1817) terá seu retrato estampado nas futuras notas de 10 libras, uma vitória para centenas de feministas britânicas.

A autora de “Orgulho e Preconceito” substituirá Charles Darwin nas notas a partir de 2017, anunciou nesta quarta-feira (24) o Banco da Inglaterra.

Desde 1970, personalidades podem estar nas notas britânicas, além da rainha Elizabeth 2ª, cujo rosto está representado em todos as notas e moedas em circulação.

Jane Austen é a terceira mulher a ser escolhida para receber esta homenagem.

O anúncio em abril da substituição em 2016 nas notas de 5 libras da reformista do século 19, Elizabeth Fry (1780-1845) por Winston Churchill (1874-1965) irritou muitas feministas, que passaram a temer que a rainha fosse a única mulher presente nas notas.

Uma petição, que recolheu 35 mil assinaturas, foi lançada para que uma mulher fosse escolhida para a nova nota de 10 libras. Suas iniciadoras comemoraram a escolha de Austen como um “dia excepcional para as mulheres e fantástica para o poder do povo”.

“Sem esta campanha, sem as 35 mil pessoas que assinaram nossa petição, o Banco da Inglaterra teria varrido as mulheres da história”, declarou a jornalista Caroline Criado-Perez, que lançou a petição.

Jane Austen, que publicou seis grandes romances de sucesso, incluindo “Orgulho e Preconceito”, morreu em 1817 aos 41 anos.

EXPLICAÇÕES

O Banco da Inglaterra assegurou nesta quarta-feira que nunca teve a intenção de banir de suas notas figuras femininas.

A instituição convidou a população a propor ideias para melhorar o processo de seleção das figuras históricas.

“Queremos que a população confie em nosso compromisso com a diversidade”, declarou o novo diretor do Banco, Mark Carney.

“Jane Austen merece seu lugar no círculo de figuras históricas representadas em nosso dinheiro”, acrescentou, ressaltando que a escritora é “reconhecida como uma das maiores da literatura inglesa”.

A redação do Enem

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Imagem: Google

Imagem: Google

Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo

Sabe todo mundo que escreve, até mesmo os jornalistas, os mais humildes funcionários da palavra, da necessidade de um texto arrebentar de brilho na abertura e se encerrar retumbante, com aquilo que os antigos do soneto chamavam de chave de ouro. O miolo, bem, o miolo dá-se um jeito.

A literatura mundial está cheia de casos assim. Frases incríveis na página um de livros que depois, coitados, o escritor vai se cansando, a falta de imaginação se sobrepondo à sua pequena estatura intelectual, e tudo escorre ladeira abaixo até ele acordar na última linha para o dó de peito estilístico, levantador de plateias.

Eu quase escrevo “ladeira abaicho”, pois este texto pretende se solidarizar, pelo menos entender e dizer não é ‘fássil’ pra ninguém, com os estudantes que fizeram as provas de redação do Enem. Eles ‘enxeram’ os textos desses ‘orríveis’ erros ‘hortográficos’ e sofreram o mesmo drama dos profissionais da escrita. O que, caraca!, que 1linguissa1, caramba!, botar entre o brilhareco da frase de abertura e o fecho de ouro?

Teve estudante que colocou o hino do Palmeiras, outros, a receita de miojo. Eu aproveito o ensejo, já que estamos chegando ao miolo, para dizer que lá em casa tem um bigorrilho e que esse bigorrilho fazia mingau, foi ele quem me ensinou a tirar o cavaco do pau.

Em baixa dramaturgia, como a que é praticada na novela das nove ou na moderna literatura brasileira, o problema desse bigorrilho sem nexo é vulgarmente identificado como barriga. O nome é perfeito. No ser humano designa aquele estrupício cheio de longas tripas entre o rosto angelical e o delicioso parque de diversões da sexualidade. Em arte, é o ronco das tripas do leitor reclamando a grana de volta.

Na novela da Globo, a barriga é escancarada naquelas cenas em câmera lenta, diálogos intermináveis, com zero de acontecimentos, no ar apenas para que ela se estique e chegue aos 180 capítulos regulamentares, e pague a produção.

No romance, a barriga está nas páginas e mais páginas, geralmente descritivas da luz ao pôr do sol, feitas apenas para que o livro saia da definição menos comercial de contos ou ganhe solidez física. Editores adoram encomendar livros que fiquem de pé no balcão da Travessa. Pedem “algo em torno de” 400 páginas, pois acham que paralelepípedos aparentam força intelectual. Na verdade, esses tijolaços sinalizam que é grande o risco de se estar comprando uma obesidade narrativa.

Ninguém quer carregar uma barriga, mas, como todos sabemos, não só os que escrevem, elas aparecem insistentes mesmo malhadas diariamente com o ferro das abdominais.

Os estudantes, amadores de texto, erraram apenas em evidenciar, com os hinos clubísticos e as receitas de alta caloria, que seus textos eram portadores desse mal terrível. Um autor de hai-kai, por mais genial, não passaria no vestibular. Uma novela de três linhas do Dalton Trevisan também teria poucas chances. Estamos num país onde a verborragia é elogiada, a oratória barroca do deputado baiano é mito intelectual. Na contramão desses delírios, Drummond dizia “escrever é cortar palavras”.

Na prova do Enem, os estudantes sabem que os professores gostam de volume. E foi o que eles deram, um punhado de palavras significando nada. Um levou nota mil. Outro, 500.

O Brasil adora uma barriga, uma encheção de linguiça. Drummond seria reprovado. Rubem Braga, sempre aconselhando “palavras curtas”, também não iria longe. Eu li os textos barrigudos do Enem e notei, além da necessidade de esticar o assunto, de se esticar também as palavras. Quanto maiores elas forem, mais a impressão dão de se estar inconstitucionalissimamente dizendo algum coisa.

A prova de redação do Enem é a melhor crítica literária da relação do país com a sua maneira de ler, escrever e reconhecer mérito.

Os estudantes perceberam que a verborragia insaciável e sem sentido (“sou deputado baiano, eu quero é falar”, dizia a marchinha) agrada a plateia. Mandaram brasa, com o repertório que tinham para preencher a falta de assunto. Sabiam que ninguém presta atenção (como parece ter sido o caso dos professores encarregados de pontuar o que não estavam lendo). Sem citar nomes, passavam adiante os ensinamentos dos grandes mestres nacionais da língua, gênios como o José Luiz Datena, o Sílvio Santos, o Faustão, o Galvão Bueno, metralhadoras verbais que passam horas no ar dizendo… o quê mesmo?

Fala-se pelos cotovelos, há gordura por todos os cantos dos textos — é o normal da civilização brasileira —, e os professores do Enem não precisaram nem ler. Diante da evidência caudalosa de que estavam diante de imensas barrigas literárias, deram dez, nota dez. Este é o país em que o presidente Juscelino Kubitschek, para encher de pompa os discursos, pedia ao redator: “Espalhe umas borboletas entre os parágrafos”. Estudantes, anarquistas graças a Deus, espalharam miojo e banha de porco.

dica do Ailsom F. Heringer

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