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10.000 livros tomam conta de uma rua em Toronto

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Felipe Chaves, no Green Me

Um recente projeto de artístico de um grupo de intervenções urbanas chamou bastante atenção recentemente pela proposta real e tocante sob a ótica da arte. Intitulado originalmente como Literature Vs Traffic (ou “Literatura vs Tráfego” em tradução literal) a intervenção atribuiu novos valores de uso a uma movimentada via de trânsito da cidade de Toronto, no Canadá e gerou efeitos visuais memoráveis.

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A intervenção consistiu e cobrir uma rua com livros luminosos. Toda a rua foi coberta com a utilização de 10.000 livros. Luzinterruptus, grupo responsável pela intervenção urbana, recebeu os livros do Exército da Salvação. Além disso, mais de 50 voluntários trabalharam por mais de 12 dias para preencher a rua com os livros.

A visão final do trabalho é realmente impressionante, tendo aspectos magistrais da plena realização da intervenção. Em seu site, o grupo relata a experiência: “Desta maneira, uma área da cidade que é normalmente destinada à velocidade, à poluição e ao ruído, se tornará por uma noite um lugar de sossego, calma e coexistência, iluminado pelas luzes suaves que saem das páginas dos livros”.

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O grupo diz ainda que a proposta da intervenção é que as pessoas se apropriem dos livros conforme desejarem, dando vida própria às alterações da obra, “Os livros estão lá para aqueles que querem levá-los. Desta maneira a intervenção vai se reciclando e durará tanto quanto as pessoas quiserem que dure”.

Para quem pode contemplar a intervenção, não ficou dúvidas da clara genialidade do que fora proposto. Em uma fruição de aspectos mais gerais, a rua continua cumprindo seu claro papel de via, de transporte, enquanto os livros são a fonte de todo conhecimento que emanam a luz, eliminando as sombras da ignorância. Afirma-se então que este caminho só é possível através dos livros. De fato, a proposta torna a cumprir não somente o seu papel artístico, mas também um necessário papel social que a arte também pode desempenhar.

Iniciativas assim são de extrema importância para a sociedade como um todo. Quando não há espaço para a criação artística, não há espaço para o conhecimento. É importante que haja o incentivo à arte constantemente, principalmente quando lidamos com as crianças. A arte ensina a expressar, criar e principalmente a raciocinar. Assim, o projeto Literature Vs Traffic é um exímio exemplo de como a arte, sem perder o seu significado poético e própria função artística, pode atender a demandas de constatação das crises urbanas.

No vídeo, podemos ver a obra “em prática” e cumprindo seu papel objetivado. Em tempo acelerado, o vídeo mostra como lentamente os livros vão desaparecendo da instalação, reafirmando então a intenção de seus criadores. A instalação da intervenção durou por uma noite inteira:

O grupo Luzinterruptus é anônimo e é bastante conhecido por suas intervenções com luzes. Diversos outros projetos podem ser verificados em sua página com registros fotográficos. Segundo a descrição de seu site, as luzes são de fato o principal foco de seus trabalhos: “Somos um coletivo artístico anônimo, e realizamos intervenções urbanas em espaços públicos. Utilizamos a luz como matéria-prima e a noite como tela.” diz a página do grupo.

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O grupo surgiu em 2008 e é formado por pessoas que vêm de diferentes áreas, como arte e fotografia. Fizeram sua primeira intervenção em Madri, na Espanha, ou seja, realizam intervenções nos mais variados países e cidades. O nome do grupo é uma referência a palavra luz e também interrompimento, uma reafirmação de como os objetivos artísticos serão realizados, através da condução de luzes.

A Poesia Marginal: 10 belos poemas da “Geração Mimeógrafo”

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Diego Santos, no Literatortura

Durante a dura repressão do regime militar brasileiro, muitos artistas tiveram que encontrar meios alternativos para manifestar sua arte ou seus protestos.

Entre tantos artistas, os poetas tiveram um grande destaque a partir do que se chamou “Geração Mimeógrafo”. Como as obras de tais artistas não eram aceitas por grandes editoras ou eram censuradas por órgãos repressivos, eles acabaram aderindo ao mimeógrafo, que era uma tecnologia mais acessível na época.

O mimeógrafo é aquela máquina que faz cópias de papel escrito em grande escala e utiliza na reprodução um tipo de papel estêncil e álcool.

Desta forma, os poetas divulgavam e vendiam seus trabalhos a preços baixíssimos em universidades, praças e ruas.

No ano de 1975, a editora Brasiliense publicou um livro intitulado “26 Poetas Hoje”, divulgando obras e nomes à margem do circuito editorial estabelecido. Esta arte foi chamada de Poesia Marginal e reuniu grandes nomes, até hoje muito estudados!

Nesta lista, você conhecerá 10 poemas e poetas que marcaram toda essa geração e esta história de resistência à ditadura.

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RÁPIDO E RASTEIRO
Chacal

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida

JOGOS FLORAIS
Cacaso

Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.

(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)

COGITO
Torquato neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

UMA NOITE
Afonso Henriques Neto

o tio cuspia pardais de cinco em cinco minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada

mais os vazios passos
de ela própria menina.

a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.

o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos

nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.

RECEITA
Nicolas Behr

Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

TIRA-TEIMA
Bernardo Vilhena

Tire a faca do peito
e o medo dos olhos
Ponha uns óculos escuros
e saia por aí. Dando bandeira

Tire o nó da garganta
que a palavra corre fácil
sem desculpas nem contornos
Direta: do diafragma ao céu da boca

Tire o trinco da porta
liberte a corrente de ar
Deixe os bons ventos levantarem a poeira
levando o cisco ao olho grande

Tire a sorte na esquina
na primeira cigana ou no velho realejo
Leia o horóscopo e olhe o céu
lembre-se das estrelas e da estrada
Tire o corpo da reta
e o cu da seringa
que malandro é você, rapaz
o lado bom da faca é o cabo

Tire a mulher mais bonita
pra dançar e dance
Dance olhando dentro dos olhos
até que ela morra de vergonha

Tire o revólver e atire
a primeira pedra
a última palavra
a praga e a sorte
a peste, ou o vírus?

MUITO OBRIGADO
Francisco Alvim

Ao entrar na sala
cumprimentei-o com três palavras
boa tarde senhor
Sentei-me defronte dele
(como me pediu que fizesse)
Bonita vista
pena que nunca a aviste
Colhendo meu sangue: a agulha
enfiada na ponta do dedo
vai procurar a veia quase no sovaco
Discutir o assunto
fume do meu cigarro
deixa experimentar o seu
(Quanto ganhará este sujeito)
Blazer, roseta, o país voltando-lhe
no hábito do anel profissional
Afinal, meu velho, são trinta anos
hoje como ontem ao meio-dia
Uma cópia deste documento
que lhe confio em amizade
Sua experiência nos pode ser muito útil
não é incômodo algum
volte quando quiser

SONETO
Ana Cristina César

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

AMOR BASTANTE
Paulo Leminski

quando eu vi você
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro

minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.

Movimento Entusiasmo pede integração entre as escolas e as ruas

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Coletivo promoveu em São Paulo a ‘Virada Educação’ no primeiro semestre
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Por Stéfano Salles, O Globo

RIO – Responsável pela ‘Virada Educação’, evento que mobilizou São Paulo no primeiro semestre, o Movimento Entusiasmo pretende transformar a rua em ambiente de aprendizado e trocas entre os estudantes e a sociedade civil. Idealizador do coletivo que promoveu mais de uma centena de atividades, entre palestras, apresentações artísticas e oficinas, o jornalista André Gravatá esteve no Rio neste sábado para participar do segundo dia do encontro internacional Educação 360, promovido pelos jornais GLOBO e Extra na Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá. No encontro, ele destacou os objetivos do grupo, que pretende estimular iniciativas semelhantes pelo país.

— Nós entendemos que a rua é um espaço de interações, trocas e aprendizado. Temos que levar a rua para dentro da escola e a escola para a rua, para que essas trocas aconteçam de verdade — explica o jornalista, que fundou o coletivo ao lado de outros quatro jovens amigos que se conheceram durante atividades ligadas à defesa de reformas na educação.

Durante o evento, as escolas abrigaram atividades que geralmente encontro amplo apelo na juventude, mas que costumam ser encaradas com resistência pelas instituições de ensino, como oficinas de skate e rodas de funk.

— A escola precisa incorporar essas atividades de alguma maneira, porque elas prendem a atenção do estudante que, geralmente, acha chato ir para um lugar que não abre espaço para nada do que ele gosta — afirma.

Para a primeira edição do evento, o grupo conseguiu arrecadar cerca de R$ 20 mil em contribuições recebidas pela internet. Agora, para uma segunda edição, eles já conseguiram o apoio de uma fundação privada, no mesmo valor, e buscam encorajar ativistas de outros estados a produzirem suas próprias edições do evento, para as quais promete oferecer apoio logístico.

— Esse não é apenas um evento nosso, nós queremos que ele se espalhe, que o conceito se reproduza. Qualquer um pode usar o nome, a marca, não há problema. Queremos apenas que a iniciativa se difunda, porque acreditamos na lógica que vai por traz dela — resume Gravatá.

O Brasil das placas…e o Brasil das ruas

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O novo livro de Laurentino Gomes, ‘1889’, disseca o início da República. O que esse período pode ter de inspirador para o Brasil de hoje

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João Gabriel de Lima, na Época

1No romance Esaú e Jacó, Machado de Assis conta a história de uma placa – e, usando sua famosa “pena da galhofa”, zomba da Proclamação da República. No livro, o personagem Custódio encomenda um letreiro para seu estabelecimento comercial, a “Confeitaria do Império”. Ao saber que Dom Pedro II está prestes a cair, despacha uma mensagem para o pintor, pedindo que interrompa a confecção da placa: “Pare no d…”. A mensagem chega tarde demais, e Custódio tem de mandar pintar um novo letreiro. Pensa em mudar o nome da loja para “Confeitaria da República”, mas o novo regime não lhe parece muito sólido. “Confeitaria do Governo” – mas o que fazer com os clientes da oposição? No final, a placa que pendura sobre a porta de entrada leva um nome desprovido de controvérsia: “Confeitaria do Custódio”.

No livro 1889 (Globo Livros, 416 páginas, R$ 44,90), o jornalista Laurentino Gomes lembra que a Proclamação da República abriu muitos postos de trabalho justamente para eles, os fabricantes de placas. Logo depois que o novo governo tomou posse, 46 logradouros públicos mudaram de nome só na capital do país, o Rio de Janeiro. Até hoje, várias ruas e praças do país levam nomes de republicanos, ilustres ou desconhecidos. Da Praça Serzedelo Correa, no Rio, endereço de estabelecimentos decanos da boemia de Copacabana, à Avenida Benjamin Constant, em Campinas, onde ficam a Biblioteca Municipal e o Museu de Arte Contemporânea. Da Avenida Sena Madureira, em São Paulo, onde se situam várias clínicas e hospitais, à Avenida Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, endereço do mercado público e da popular Temakeria Japesca. Ironicamente, ou coincidentemente, várias dessas ruas – a começar pela Júlio de Castilhos – abrigaram passeatas no último mês de junho. É irresistível a pergunta: o que o Brasil das placas, que iniciou a República, tem a dizer ao Brasil das ruas, que pretende revigorar nossa democracia?

Algumas respostas possíveis estão em 1889, último capítulo da trilogia que tornou 1808 (sobre a vinda da família real portuguesa ao Brasil) e 1822 (sobre a proclamação da independência) best-sellers que venderam, somados, 1,5 milhão de exemplares. Como em suas obras anteriores, Laurentino pousa sobre a História um olhar de jornalista. O livro reconstitui, de maneira precisa e detalhada, fatos que todos acham que conhecem, mas na verdade poucos conhecem direito. Deles emergem os campeões de nomes de ruas. São três heróis improváveis que, no livro, protagonizam um enredo de quartelada bufa: Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto e Benjamin Constant. Três militares que em nada lembram os pais fundadores de outra república, a americana, inspiradora do novo nome do país: Estados Unidos do Brasil.

O marechal que fundou a República, Deodoro da Fonseca, na verdade não era republicano. Admirava o imperador Dom Pedro II e hesitou até o último instante em promover a mudança de regime. Outro militar, Floriano Peixoto, surge no livro como um agente duplo. Ajudante general do Exército, era o responsável pela segurança dos integrantes do governo imperial, a quem devia fidelidade. Ao mesmo tempo, conspirava com Deodoro contra os “casacas” – os líderes do poder civil. E Benjamin Constant, o ideólogo da República, tinha pouco da ideologia democrática dos “pais fundadores” americanos, como Thomas Jefferson ou Benjamin Franklin. Influenciado pelo filósofo francês Augusto Comte, achava que a República deveria, como o comunismo, iniciar-se com uma fase autoritária – uma paradoxal “ditadura republicana”.

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Havia clima no país para uma mudança de governo. O imperador estava cansado e doente. O Império perdera o apoio de parte dos grandes proprietários de terra quando, em 1888, a princesa Isabel aboliu a escravatura. Perdera também o apoio da caserna, devido a um punhado de brigas regionais que ficaram conhecidas como a “questão militar”. Por que o poder foi parar justamente nas mãos dos republicanos, gente boa de pena, como os jornalistas Quintino Bocaiúva e Júlio de Castilhos, mas péssima de política? Existem várias explicações possíveis. A proposta por 1889 é que, no mínimo, eles agiram rápido e com senso de oportunidade. Uma ala dos republicanos recorreu a um general literalmente de pijama. Atormentado pela aterosclerose, o herói de guerra Deodoro da Fonseca, aos 62 anos, era o único capaz de unir o Exército em torno dele. A data do golpe, previsto para 20 de novembro, foi antecipada porque os republicanos tinham medo de que Deodoro morresse de uma hora para outra.

Inicia-se aqui o enredo bufo – e os percalços do Custódio do romance, que tinha razões para ficar desconfiado. Quando o velho marechal resolveu marchar, deram-lhe um cavalo cansado que não o derrubasse. Deodoro manteve-se na sela, liderou o levante, valeu-se da traição dos comandados por Floriano, tomou o poder do Visconde de Ouro Preto, primeiro-ministro de Dom Pedro II – e não proclamou a República. Ficou em dúvida entre atender aos apelos de Benjamin Constant e devolver o poder ao imperador Dom Pedro II, a quem admirava. Derrubou o governo e voltou para a cama. Segundo o historiador Hélio Silva, citado no livro, só se decidiu a proclamar a República quando soube quem Dom Pedro II cogitava nomear para o lugar de Ouro Preto, caso recuperasse o poder: o gaúcho Gaspar Silveira Martins. Deodoro e Silveira Martins eram inimigos desde que haviam disputado o coração da viúva Maria Adelaide de Andrade Neves, a baronesa do Triunfo. Silveira Martins, capaz de citar sonetos de Shakespeare em inglês, levou a melhor com a beldade, que ainda por cima era sua conterrânea. Deodoro, mais afeito à ciência militar que aos versos elisabetanos, nunca se recuperou da ferida no cotovelo. Segundo Hélio Silva, a República foi proclamada, entre outras coisas, por esse desejo de vingança pessoal.

A República trouxe inegáveis avanços institucionais ao Brasil. Na primeira Constituição, de 1891, foram reconhecidos três poderes independentes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Ao contrário do que acontecia no Império, o Executivo não podia dissolver o Legislativo quando bem quisesse. Deodoro, primeiro presidente do regime republicano, reclamou bastante desse item. O direito de propriedade foi aperfeiçoado, e o direito a voto foi estendido. Na prática, nada disso funcionou direito. Tanto Deodoro quanto seu sucessor, Floriano Peixoto, governaram de regime de exceção em regime de exceção, perseguindo a imprensa e matando os opositores.

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O calculista Floriano, sempre retratado em cartuns como uma cobra ou um sapo, costumava dizer que havia momentos em que era necessário trancar a Constituição numa gaveta, para depois devolvê-la limpa à população. “Examinando a História em perspectiva, Deodoro, Floriano e Benjamin Constant são figuras menos relevantes que Dom Pedro II ou Getúlio Vargas, que deixaram realmente uma marca no país”, diz o historiador José Murilo de Carvalho, autor de dois clássicos sobre o assunto: A formação das almas e Os bestializados. E efêmeras. Depois de romper com estardalhaço, com direito a desafio para duelo, Benjamin Constant e Deodoro da Fonseca morreram, respectivamente, em 1891 e 1892. Floriano Peixoto morreu em 1895, pouco depois de passar o poder ao paulista Prudente de Morais, o primeiro presidente civil.

Outros brasileiros do século XIX, igualmente elevados ao status de nome de ruas, deixaram contribuição intelectual mais duradora. “Não deixa de ser irônico que as cabeças mais avançadas do período estivessem do outro lado, o Império. Casos de André Rebouças e Joaquim Nabuco, por exemplo”, afirma o historiador Marco Antônio Villa. Nabuco era um liberal cosmopolita, que acreditava em instituições que funcionassem de verdade – como na Inglaterra e nos Estados Unidos, países que conhecia e admirava. Laurentino cita em seu livro uma frase de Nabuco: “A escravidão não permitiu que nos organizássemos e, sem povo, as instituições não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerces”.

Sob o eco da frase de Nabuco, é o caso de voltar à pergunta inicial: o que o Brasil das placas tem a dizer ao Brasil das ruas? Com a palavra, Laurentino. Na última página do livro, ele lembra não as manifestações de junho de 2013, mas as de 1984 – que, segundo ele, fundam um novo período na República: “Ruas e praças de todo o Brasil foram palco de coloridas, emocionadas e pacíficas manifestações políticas, nas quais milhões de pessoas exigiam o direito de eleger seus representantes. A Campanha das Diretas, que pôs fim a duas décadas de regime militar, abriu o caminho para que a República pudesse, finalmente, incorporar o povo na construção de seu futuro”.

O Brasil de hoje ainda vive enredos bufos com consequências trágicas. É só pensar no mensalão ou nos escândalos do Congresso. Como diz Laurentino, é outro país. A começar por um fato: ao contrário dos tempos de “ditadura republicana”, em que a ameaça de quarteladas estava sempre no ar, somos responsáveis pelos políticos que elegemos. Se nos decepcionarmos, podemos retirá-los do poder mediante voto. Só 100 anos depois de 1889, depois de superar uma enraizada cultura autoritária, elegemos o primeiro presidente da nova fase. Se o Brasil das placas tem uma lição a dar ao Brasil das ruas, talvez seja esta: a democracia é uma construção demorada, difícil – mas quem foi às ruas lutar por ela sabe que o esforço vale a pena.

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Diário de um menino

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“Bem que a mãe me avisou”, pensou ele, despedindo-se das ruas, dos brinquedos, do Nescau e do gibi.

Mariana Weber, na Época

“Ela vai ficar tão triste. E bem que me avisou.”Do banco traseiro do carro, dava para ver o cabelo castanho ondulado da mãe, solto atrás e enroscado na gola do casaco do lado direito. Ele sentiu um aperto. Olhou pela janela, começou a ler placas em voz alta. “Bilhar Augusta. A Arte da Boa Mesa. Retificadora Flora.”

(Foto: C_Dave / Flickr)

(Foto: C_Dave / Flickr)

“Tudo bem na escola, Antônio?”“Tudo.”

“Muita lição de casa?”

“Não.”

Tinha, mas não ia fazer. Pra quê?

Sentiria saudade também da tia Iara, nem achava tão chato quando ela passava lição. Mas não ia mais fazer.

“Só Botas. Pão Gostoso. Você com Saúde.”

“Ei, tá pensando na morte da bezerra? Chegamos, filho!”

Desceu do carro, mochila pendurada no ombro direito, e subiu direto para o quarto.

A Carminha, que dormia enrolada em cima do baú de brinquedos, começou a se espreguiçar, bunda para cima e patas dianteiras bem esticadas. Fez carinho na cabeça da gata. “O baú vai ser só seu, Carminha.” Pegou o cacto que ficava na janela e foi até a pia do banheiro regar a terra. Voltou com o vaso ainda pingando. Jogou dentro dele os cinco tatuzinhos que tinha recolhido no pátio da escola e guardado no estojo de lata.

Viu Carminha cheirar os bichos, que não se mexeram, e logo perder o interesse.

Em cima da cama, brincou um pouco com o carrinho vermelho, presente do pai. Leu a última história de um gibi. Na frente do espelho da porta do armário, engoliu saliva uma, duas, três vezes, tentando perceber algo diferente.

Desceu para a cozinha. A mãe esquentava vagem refogada no fogão. No forno, torta de sardinha.

“Mãe?”

“Diga, filho.” Ela mexia a panela. “Antônio?”

“Demora?”

“Tá quase, pode ir lavando a mão.”

Estava bom, e tinha morango de sobremesa. Depois, os dois viram novela no sofá da sala. Durante o intervalo, o coração de Antônio bateu forte. O ar faltou, a visão escureceu. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe, fechou os olhos e, aos poucos, se acalmou.

Quando a novela acabou, foi escovar os dentes sem a mãe pedir. Deu um beijo de boa noite e foi para a cama, triste.

Acordou com a mãe chamando.
Como sempre, se arrastou para o banho, colocou o uniforme que a mãe tinha deixado em cima da cama, tomou leite com Nescau, comeu pão com requeijão, escovou os dentes, pegou a lancheira e a mochila. Saiu de casa preocupado porque não tinha feito a lição de português e ainda não tinha morrido.

Então viu o ponto branco no chão do carro. Será? Sim, era o chiclete. O chiclete que ele comprou escondido da mãe, com o dinheiro que ela deu pro lanche. Um lanche especial, da cantina. O chiclete que ela disse que ele não podia mascar. Porque chiclete faz mal pros dentes e é perigoso. O chiclete que ele comprou mesmo assim. Comprou no recreio, escondeu no bolso e, no meio da aula, tomou coragem para tirar do papel e colocar na boca.

Mascou com cuidado, devagar, saboreando o suco de cada mordida. Guardou, já sem gosto, na bochecha direita, na esquerda, debaixo da língua. Aproveitou o segredo até que, dentro do carro, na volta da escola, percebeu que não tinha mais nada na boca. “Engoli.” Ia morrer sufocado. E não podia contar para a mãe que tinha comprado o chiclete.

Agora, ao descer do carro, Antônio sorria. Não morreria mais.

A partir de hoje obedeceria a mãe em tudo – não pularia o muro para a casa do Pedro, não daria pedaços do bife para a Carminha nem leria escondido depois que a mãe fechasse a porta do quarto à noite. Só parou de sorrir quando viu a tia Iara e lembrou da lição de português.

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