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Posts tagged Rubem Braga

Autêntica investe na literatura brasileira

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Publicado no Impresso

Editora responsável pela caixa de Rubem Braga, Maria Amélia Mello chama a atenção para uma série de lançamentos de literatura brasileira que a Autêntica pretende colocar nas livrarias até meados de 2017.

A obra infantil de Chico Buarque faz parte do catálogo da Autêntica, editora fundada há 18 anos em Belo Horizonte. Em outubro, será relançado o primeiro volume, Os saltimbancos, com ilustrações de Ziraldo.

No fim do ano, para homenagear Clarice Lispector (1920-1977), chega às livrarias O rio de Clarice. A obra, de Teresa Montero (autora de Eu sou uma pergunta – Uma biografia de Clarice Lispector), é um guia sentimental sobre a vida da escritora no Rio de Janeiro. “O livro mostra o trajeto pelos lugares da cidade por onde ela passou – da chegada, nos anos 1920, na Tijuca, até a morte, na Lagoa Rodrigo de Freitas”, comenta Maria Amélia.

Também para este ano, celebrando o centenário de Murilo Rubião, a editora lança a correspondência do autor de O ex-mágico da Taberna Minhota com Otto Lara Resende. Outra efeméride que será comemorada, esta em janeiro, será o centenário de Antônio Callado. Serão reunidas em livro suas crônicas políticas de 1978 a 1985.

Já para meados de 2017, está prevista a publicação de Os três Andrades. O livro vai contar a relação de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. A publicação trará pequena antologia dos autores.

Caixa traz textos pouco conhecidos de Rubem Braga sobre política, música e artes

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Rubem Braga em 1984 Foto: Acervo

Rubem Braga em 1984 Foto: Acervo

 

Escritor alternava humor com acidez para revelar seu conhecimento sobre música, política e artes plásticas

Publicado no Estadão

O Rubem Braga cronista incomparável, aquele que redimensionou o gênero no Brasil, é amplamente conhecido. Também o Rubem Braga correspondente de guerra, o mesmo que conseguiu a proeza de apontar para aspectos tocantes durante momentos tão terríveis. E ainda o Braga ecologista, o visionário que defendia a natureza em uma época em que isso mais parecia um capricho, já foi, de idêntica maneira, muito bem divulgado. Mas o cronista capixaba tratou com igual clareza e sensibilidade de assuntos pouco lembrados, como política, música e artes visuais. São justamente esses temas que compõem a coleção de três volumes lançada agora pela editora Autêntica, Rubem Braga – Crônicas.

O cronista (1913-1990) deixou, em 62 anos de atividade profissional, a impressionante marca de 15 mil textos. Profissional da escrita, ele opinava sobre quase tudo com rara sensibilidade. Por meio de colunas escritas para a imprensa, Braga empenhava-se em defender a soberania do homem – e não apenas em crônicas líricas e delicadas. “O escritor capixaba sempre defendeu a democracia e os direitos humanos e criticou a desfaçatez dos donos do poder, a violência policial, a miséria dos trabalhadores rurais e a situação desastrosa da educação e saúde públicas”, atesta o também escritor Milton Hatoum, cronista do Caderno 2, no texto da orelha do volume Bilhete a um Candidato & Outras Crônicas Sobre Política Brasileira, organizado por Bernardo Buarque de Hollanda, convidado pela editora assim como os dois outros selecionadores.

Braga costumava diferenciar seus artigos de jornal do gênero da crônica, observa Hollanda, no posfácio da edição. “O primeiro tipo, para o escritor capixaba, era material efêmero, circunscrito ao interesse ordinário do dia a dia, cuja importância se esfumava com a passagem do tempo”, escreve. “O segundo, ao contrário, embora divulgado no mesmo suporte diário, era capaz de ter vida longeva, pelo significado mais amplo nele contido e projetado.”

De fato, neste volume, Braga discorre sobre o poder em textos datados da década de 1940 à de 1980, período que cobre desde o fim da ditadura de Getúlio Vargas até o incompleto mandato de Fernando Collor de Melo. É particularmente interessante a cortante ironia com que o cronista trata do caudilho gaúcho que, durante seu governo imposto, promoveu a prisão de vários intelectuais, entre eles, Braga. Em texto escrito para o Correio da Manhã e datado de 1951, o cronista aproveita o relato da inauguração de 8 mil casas a comerciários, cerimônia comandada pelo então presidente, general Eurico Gaspar Dutra, para apedrejar a pompa e circunstância que sempre marcaram as cerimônias chefiadas por Vargas, enquanto Dutra foi “acompanhado apenas de oito pessoas, além de dois moleques que andavam por ali e saíram no retrato”.

“Lidos em conjunto, os artigos ressoam com força nos dias de hoje, como se o cronista também olhasse para o futuro”, continua Hatoum que, como prova, destaca um trecho publicado em 1949: “Há uma cansativa tristeza, um tédio infinito nesse joguinho miúdo de combinação através dos quais se resolve o destino da pátria”.

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Um olhar arguto e também premonitório Braga revelava quando tratava de música, tema do segundo volume, Os Moços Cantam & Outras Crônicas Sobre Música, organizado por Carlos Didier. Apesar de se autodenominar um “homem de pouca música e nenhum ritmo” e de ser um “homem de ouvido grosso”, Braga foi um visionário. Didier lembra que ele já usava a expressão bossa nova cinco anos antes de ela se tornar corriqueira (“ontem à noite entrou com uma bossa nova de cantar”), além de ser um dos primeiros a notar o talento de um certo Chico Buarque (“a maior revelação da música popular brasileira dos últimos tempos”).

Se a política e a situação social do País podiam lhe deixar mais casmurro, a música representava um bálsamo para Rubem Braga, fiel frequentador da noite e cultivador de boas amizades. As crônicas do volume traçam um panorama completo do cenário da canção carioca, desde as boates mais badaladas como Sacha’s até o descompromissado Zicartola, onde, relata ele em uma crônica de 1964, antes de assistir a uma homenagem a Dorival Caymmi, conseguiu ouvir Cartola, Ismael Silva e Nelson Cavaquinho. “Cartola está com muita música boa, mas tive um ataque de saudosismo e pedi para ele cantar aquele samba que começa assim: ‘Não quero mais amar ninguém’, que ouvi de sua boca, em 1935, na Estação Primeira”.

Se era generoso com artistas e estilos (“O samba! Foi uma coisa que nunca me deixou desanimar do Brasil”, escreveu em 1948), Braga sabia também ser rigoroso até com as unanimidades. Como no artigo Um Bom Retrato de Vinicius, publicado em 1984, na Revista Nacional – o cronista é direto: “É claro que entre as letras de Vinicius há muitos instantes de boa poesia, mas a verdade é que a grande maioria, lida sem música, é da maior banalidade”.

Tal coragem artística também marcou sua produção sobre artes visuais, tema do terceiro volume Os Segredos Todos de Djanira & Outras Crônicas Sobre Artes e Artistas, organizado por André Seffrin. “Se no período em que mais escreveu sobre o tema, as décadas de 1950 e 1960, havia uma tendência concretista de julgar e estimular a arte, propondo procedimentos matemáticos e industriais de produção, a postura de Rubem está diametralmente oposta”, observa o escritor Miguel Sanches Neto, na orelha do livro. “Fixa-se nos perfis biográficos, valorizando não as teorias, mas o contato com os artistas (muitos de origem proletária) com o mundo, os fracassos diante da vida, as lutas para se construir uma trajetória de genialidade em um país ainda sem mercado para arte e sem instituições que a estimulassem plenamente.”

Durante meio século, Braga acompanhou a arte de forma crítica, ainda que escondido atrás do descompromisso. Fez perfis, olhou com precisão o trabalho de novos artistas e não relutava em apontar os caminhos que julgava mais corretos. “Todo analista de arte afina aos poucos suas ferramentas de trabalho, e Rubem foi muito mais que um bom analista de arte, foi grande poeta, e conheceu e conviveu com arte como qualquer crítico especializado do período”, disse Seffrin ao Estado.

Seffrin lembra que o cronista opinava sem medo de errar ou criar constrangimentos, e nunca pretendeu ser um crítico oficial. “Era um cronista que gostava de escrever sobre arte, o que fez com muita propriedade. Na maneira de escrever, Rubem nasceu pronto e, em matéria de arte, se fez aos poucos até dominar muito bem a matéria, assim como acontece com os críticos profissionais.”

O crítico fala ainda sobre a relação de Rubem Braga com Mario Pedrosa, um dos principais (se não o principal) crítico de arte do Brasil, com quem o cronista manteve uma amável discordância. “Foram amigos, e os atritos se davam apenas nos jornais, havia um respeito mútuo”, atesta Seffrin. “E sempre existiu atrito entre ‘poetas da crítica’ e ‘críticos oficiais’, estes em geral de perfil mais acadêmico. Como Rubem era um provocador e Mario um teórico, os atritos existiam, como também entre Pedrosa e Manuel Bandeira, que, nesses confrontos, se mostrava às vezes meio áspero, meio irritado. Já Rubem superava tudo isso com muito humor e em certos momentos até com sarcasmo.”

RUBEM BRAGA – CRÔNICAS
Autor: Rubem Braga
Organizadores: André Seffrin, Carlos Didier e Bernardo Buarque de Hollanda
Editora: Autêntica (736 págs., R$ 134,90)

 

Rubem Braga visita Jean-Paul Sartre

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Publicado por Revista Cult

Leia o perfil que o cronista brasileiro escreveu sobre o filósofo existencialista francês

O cronista Rubem Braga, que teria feito cem anos em 12/01/13

O cronista Rubem Braga, que teria feito cem anos em 12/01/13

Se estivesse vivo, Rubem Braga (1913-90) teria completado cem anos no último sábado, dia 12 de janeiro. Em comemoração, o selo José Olympio, do grupo Editorial Record, preparou o lançamento do livro Retratos parisienses, que chega às livrarias no final do mês. Organizado por Augusto Massi, professor de literatura na Universidade de São Paulo (USP), o livro traz uma compilação de textos escritos pelo cronista durante sua estada em Paris, em 1950.

A CULT teve acesso a um dos textos, inédito em livro. Leia abaixo “Visita a Jean-Paul Sartre”, perfil que o cronista escreveu sobre o filósofo francês.

Retratos parisienses
Rubem Braga
Organiz.: Augusto Massi
Grupo Editorial Record/ José Olympio Editora
160 p/ R$ 35

Visita a Jean-Paul Sartre
por RUBEM BRAGA

Os estudantes do velho Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, do Rio, querem levar uma peça de Sartre, Morts sans sépulture, sem pagar os direitos. O pedido vem às mãos de Roberto Assumpção, secretário da embaixada, que lida com as coisas culturais. Ele escreve a Sartre e recebe logo a resposta, marcando rendez-vous: meio-dia e meia, no apartamento do escritor. Vou também, como penetra.

Paulo Silveira me contou que o velho Anatole France dizia isso: “Se Deus acabasse com o mundo, mas deixasse a rua Bonaparte, ele ainda se conformava.” É na verdade muito sábia e gentil essa pequena rua que nasce na beira do Sena e vem atravessar o boulevard junto à igreja de Saint-German-des-Prés, para morrer logo depois de Saint-Sulpice, junto às árvores do Luxemburgo. Ainda hoje é bem doce bobear pela sua calçada estreita, entre pequenas livrarias e casas de antiguidade; e o miúdo comércio vulgar que ali se entremeia apenas lhe dá mais graça e vida: não é raro ver a moça, que desceu de sua mansarda para comprar um longo pão, se deter, sonhadora, diante de uma gravura ou de um bibelô antigo.

Sartre mora na esquina da rue de l’Abbaye, num quarto andar aonde se ascende por uma escada meio escura, em caracol. Esse solteirão de 45 anos vive com sua mãe, e tem um apartamento bem-arranjado. Eu melhoraria de estilo se escrevesse, como ele, nesse pequeno escritório cheio de livros, com duas janelas dando para o largo: à esquerda, a torre da igreja, à direita, o Deux Magots. Quem entra na rua aqui encontra, na segunda casa depois da sua, o hotel em que Auguste Comte concebeu seus três Estados; um pouco mais adiante, a casa onde nasceu Manet. (mais…)

Cazuza e Vinícius integram programação de 2013 do Museu da Língua Portuguesa

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Publicado por Catraca Livre

A poesia de Cazuza é homenageada na programação de 2013 do Museu da Língua Portuguesa - por Ana Stewart

A poesia de Cazuza é homenageada na programação de 2013 do Museu da Língua Portuguesa – por Ana Stewart

O Museu da Língua Portuguesa preparou para 2013 três exposições temporárias e cinco outras exposições. Entre os nomes homenageados, estão CazuzaVinícius de MoraesCarlos Drummond de Andrade e Paulo Coelho. Os ingressos para o Museu custam até R$ 6.

Em janeiro, o público pode conferir a exposição “Poesia Agora”, que apresenta a poesia contemporânea da geração de poetas, aproximando o leitor do autor e, por vezes, embaralhando esses papéis.

No fim do primeiro semestre, o Museu recebe a poesia de Cazuza. A mostra tem por finalidade estimular o interesse pelo cancioneiro do artista, além de promover o debate sobre a língua cantada como patrimônio cultural e sobre a poesia como forma de conhecimento.

Em novembro, quem recebe uma homenagem é Vinícius de Moraes. Na exposição dedicada ao poeta, o público vai conhecer diversas faces de Vinícius, como “Homem de Livro”, “Homem de Música” e “Homem da Imprensa”.

Além destas três exposições temporárias, o Museu terá mostras que abordarão a obra do poeta Carlos Drummond de Andrade, do cronista Rubem Braga e do escritor Paulo Coelho. Também integra a programação uma exposição sobre a origem dos nomes dos municípios paulistas.

Ainda em 2013, o Museu da Língua Portuguesa passará por uma reformulação em seu acervo, se adequando às novas regras ortográficas. A partir de janeiro, o Museu traz ao público a linha do tempo da evolução da ortografia brasileira com as principais mudanças já ocorridas.

Serviço

O Que: Programação 2013
Quando: de 01/01 a 31/12
Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 10:00 às 18:00
Quanto: R$ 6*
Onde: MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA
http://www.museulinguaportuguesa.org.br
Praça da Luz, s/nº
Luz – Centro
(11) 3326-0775
Estação Luz (Metrô – Linha 4 Amarela)

Estação Luz (CPTM – Linha 7 Rubi)
Obs: *R$ 3 (meia-entrada); entrada Catraca Livre aos sábados
As informações acima são de responsabilidade do estabelecimento e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio.

Os cem anos do sabiá

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Casa onde o cronista Rubem Braga passou a infância e morou até os 14 anos, em Cachoeiro do Itaperimirim (ES). (Foto: Ériton Berçaco)

Casa onde o cronista Rubem Braga passou a infância e morou até os 14 anos, em Cachoeiro do Itaperimirim (ES). (Foto: Ériton Berçaco)

Sérgio Augusto, no Estadão

Sugeri à Flip que em 2013 homenageasse Rubem Braga. Pelos 100 anos que ele faria em janeiro e pela dívida que a nossa mais importante festa literária precisa quitar com a crônica, o gênero literário mais apreciado no País e do qual Rubem foi, indiscutivelmente, o maior expoente. Os 60 anos de morte de Graciliano Ramos, afinal, prevaleceram na escolha do próximo homenageado, ficando a crônica e seu sabiá para uma futura Flip, quem sabe a de 2014.

Por falar em efemérides, a crônica está fazendo 160 anos este mês. Apesar da respeitável tese do historiador Jorge de Sá distinguindo Pero Vez de Caminha como seu introdutor nestas paragens, a primeira crônica genuína, não epistolar e sem ressaibo folhetinesco, teria surgido na imprensa brasileira em dezembro de 1852, no jornal carioca Correio Mercantil, assinada por Francisco Otaviano de Almeida Rosa. Dois anos depois, Almeida Rosa legaria seu espaço a dois discípulos, José de Alencar e Manuel Antônio de Almeida, que nele formataram o gênero, ampliando o horizonte profissional e a clientela de jornalistas, poetas e escritores.

A forte e inevitável influência de Eça e Ramalho Ortigão sobre os primeiros cronistas daqui levou Machado de Assis a duvidar que um dia nossa crônica pudesse se abrasileirar. Mas ela, graças sobretudo ao próprio Machado, abrasileirou-se. Aos poucos nos libertamos da canga lusa, do português castiço e engomado, incorporamos toda a graça e agilidade do coloquialismo, fundamos, sem exagero, uma nova língua a partir do português recriado nas ruas do Rio e nas conversas informais.

Uma nova língua a serviço da simplificação e da naturalidade, a contemplar a vida “ao rés-do-chão” (apud Antonio Candido) e a comentá-la através de uma conversa-fiada por escrito, redimensionando os objetos e as pessoas, captando em suas miudezas “uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas”.

Tivemos e ainda temos perseverantes observadores da vida ao rés-do-chão; nenhum, porém, com a mesma percuciência, desenvoltura e produtividade do Velho Braga (o apelido foi dado pelo próprio Rubem quando ainda bem moço) – opinião, de resto, compartilhada até por aqueles que, por motivos muito particulares, sentem mais afinidade com outros cronistas, como é o meu caso, que sempre tive um xodó não de todo inexplicável por Paulo Mendes Campos. Mas isso é assunto para uma prosa futura.

Captadas pelo olhar de Rubem, coisas só na aparência insignificantes do cotidiano e estados d’alma enganosamente banais ganhavam nobreza e transcendência. Sua prosa divagante, encantadoramente simples, doce e cristalina, melancólica e irônica, lírica sem pieguice, tinha o condão de transformar o que quer que fosse (uma borboleta, um passarinho, um pé de milho, um antigo cajueiro, a curva de um rio, uma jovem que passa distraída) em inesperadas epifanias. Só para Rubem era fácil.

Considerava-se, sem o menor complexo, um “escritor superficial”, que escrevia “de ouvido e de palpite” sobre o que via, sobre fatos e objetos concretos, mas carente de imaginação, motivo pelo qual nunca se aventurou a produzir a sério um romance. “Não sou um homem de inventar coisas, mas de contá-las. Seria preciso talvez dar-lhes um sentido, mas não encontro nenhum. As coisas, em geral, não têm sentido algum.” Foi o que disse a respeito, numa crônica sobre pescaria, publicada em 1957.

Bastou-lhe, pois, a faina jornalística: além de cronista, foi repórter, correspondente de guerra (a 2.ª Mundial) e paz (em Paris), editor e até dono de uma publicação no Recife de curta duração. Beneficiou-se de uma precoce ligação com os Diários Associados de Chateaubriand, que lhe deram acesso a leitores de Norte ao Sul do País. Publicou em quase todos os veículos importantes sediados no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, inclusive aqui, no Estado. Ter um texto do Velho Braga era sinal de distinção.

Rubem sabia o seu lugar e jamais invejou o maior prestígio acadêmico de contistas e romancistas. “Há homens que são escritores e fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam”, comentou num artigo para o jornal alternativo Manifesto, em julho de 1951, “mas o cronista de jornal é como cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai.” Tampouco perdia tempo e saliva teorizando sobre seu ofício. Ao primeiro repórter que lhe pediu para definir a crônica, respondeu: “Se não é aguda, é crônica”.

Também se autodepreciava como um “sujeito distraído e medíocre”, meio antipático (“Se eu conhecesse outro sujeito igual a mim, nossas relações nunca chegariam a ser grande coisa”), desajeitado e sonso – ou mocorongo e songamonga, como ele próprio gostava de dizer. Casmurro e rabugento, parecia de fato um urso, não polar, mas solar, apaixonado que era por dias claros e pela Praia de Ipanema que avistava de sua legendária cobertura agrícola na Rua Barão da Torre.

Mesmo alheio a fervorosas convicções ideológicas e espirituais, “nem cristão, nem comunista”, acabou envolvido em encrencas políticas antes e durante o Estado Novo. Antigetulista ferrenho, de uma feita precisou de salvo-conduto para atravessar a fronteira de Minas Gerais com o Estado do Rio e, safo, valeu-se, com êxito, de uma carteira de jogador reserva do Flamengo. Se verdadeira ou falsa, não sei. Sabe-se que foi um zagueiro viril, beirando o truculento, de um time de pelada das areias de Copacabana, no imediato pós-guerra, que no gol tinha Di Cavalcanti e, na linha, Fernando Sabino, Orígenes Lessa, Newton Freitas, Moacyr Werneck de Castro e Paulo Mendes Campos. Craque indiscutível, Rubem só o foi nas páginas de jornais e revistas.

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