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Posts tagged Russo

Romance que incendiou a Rússia no século XIX é lançado no Brasil

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‘O que fazer?’, de Nikolai Tchernichevski, inspirou a obra homônima de Lênin

Leonardo Cazes, em O Globo

RIO – Uma mulher casada se apaixona pelo melhor amigo do marido. O traído se atira de uma ponte para permitir aos dois viverem o seu amor. Ao ler as primeiras páginas de “O que fazer?”, de Nikolai Tchernichevski, publicado entre 1862 e 1863, parece difícil compreender como o romance marcou profundamente a sociedade russa e inspirou a obra homônima de Vladimir Lênin. Responsável por deflagrar o espírito revolucionário na juventude do país, o livro ganha sua primeira edição em português, com tradução direta do russo de Angelo Segrillo (Editora Prismas, R$ 70).

Segrillo, professor de História Contemporânea da USP, explica que o romance foi escrito num momento conturbado. Grande potência vencedora das Guerras Napoleônicas, no início do século XIX, o Império Russo sofreu um choque na Guerra da Crimeia, entre 1853 e 1856. Nos combates contra o Império Otomano, apoiado por França e Inglaterra, ficou evidente o atraso tecnológico do país frente ao Ocidente.

Capa da edição brasileira de 'O que fazer?' de Nikolai Tchernichevski - Divulgação

Capa da edição brasileira de ‘O que fazer?’ de Nikolai Tchernichevski – Divulgação

Uma das decisões tomadas pelo Czar Alexandre II para fazer o país avançar foi decretar o fim da servidão, em 1861. O desenvolvimento capitalista, entretanto, não foi acompanhado por uma abertura política. Para piorar, os ex-servos ganharam a liberdade e pesadas dívidas. Foi nesse contexto que Tchernichevski foi abandonando uma posição reformista para abraçar a revolução. Sua atuação política o levou à prisão em 1862, quando editava a influente revista literária “Sovremennik” em São Petersburgo. Impedido de escrever ensaios, no cárcere ele se dedicou à ficção. “O que fazer?” foi publicado em quatro partes na própria “Sovremennik”, entre o fim de 1862 e o início de 1863.

— O triângulo amoroso disfarçou o caráter político. Por exemplo, o narrador diz o tempo todo que odeia histórias de amor, como se chamasse a atenção do leitor para algo além na trama. O personagem Rahmetov é considerado o protótipo de Lênin, um sujeito que dedica sua vida à “causa”, mas ninguém sabe exatamente que causa é essa — afirma Segrillo.

Apesar de, em termos literários, o autor não alcançar o patamar de Tolstói e Dostoiévski, o professor defende que a linguagem só é simples na aparência. Na tradução, ele descobriu referências literárias e históricas, camufladas para driblar os censores. Mesmo a palavra “revolução” não aparece no romance. Para Segrillo, o autor anteviu que as contradições da modernização desembocariam na derrubada do regime czarista.

— Ao longo da segunda metade do século XIX estouraram protestos de camponeses, greves de operários e universitários, todas duramente reprimidas. Mas o czarismo só viria a sofrer um golpe no início do século XX.

Lições de Tolstói

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O escritor russo nos ensina em ‘Guerra e paz’ que apesar de todo o mau que há na vida, a humanidade vai deixando para trás, pouco a pouco, seu pior

Mario Vargas Llosa, no El País

FERNANDO VICENTE

FERNANDO VICENTE

Li Guerra e Paz pela primeira vez há meio século, em um volume único da Pléiade, durante as minhas primeiras férias remuneradas pela Agência France Presse, em Perros-Guirec. Estava escrevendo naquele período o meu primeiro romance, e vivia obcecado com a ideia de que, diferentemente do que ocorre com outros gêneros literários, a quantidade, no romance, era um ingrediente essencial da qualidade; de que os grandes romances costumavam ser também romances grandes –longos— porque abrangiam tantos aspectos da realidade que davam a sensação de expressar a totalidade da experiência humana.

O romance de Tolstói parecia confirmar milimetricamente essa teoria. A partir de um começo frívolo e mundano naqueles salões elegantes de São Petersburgo e de Moscou, com aqueles nobres que falavam mais em francês do que em russo, a história ia descendo e se espraiando por toda a complexa sociedade russa, expondo-a com toda a sua ilimitada gama de classes e tipos sociais, dos príncipes e generais aos servos e camponeses, passando pelos comerciantes e as senhoritas em idade de casar, os libertinos e os maçons, os religiosos e os aproveitadores, os soldados, os artistas, os arrivistas, os místicos, até envolver o leitor na vertigem de ter sob os seus olhos uma história na qual atuavam todas as variações possíveis daquilo que é humano.

Em minha lembrança, o que mais se destacava nesse romance eram as batalhas, a odisseia extraordinária do velho general Kutúzov, que, de derrota em derrota, vai aos poucos desgastando as tropas napoleônicas invasoras até que, com a ajuda do inverno brutal, da neve e da fome, consegue acabar com elas. Na minha cabeça, firmava-se a falsa ideia de que, se fosse preciso resumir Guerra e Paz em uma só frase, daria para dizer que se tratava de um grande mural épico sobre como o povo russo rechaçou as empreitadas imperialistas de Napoleão Bonaparte, “o inimigo da humanidade”, e defendeu a sua soberania; ou seja: um grande romance nacionalista e militar, de exaltação à guerra, à tradição e às supostas virtudes castrenses do povo russo.

Constato agora, nesta segunda leitura, que eu estava enganado. Longe de apresentar a guerra como uma experiência virtuosa na qual se forjam o moral, a personalidade e a grandeza de um país, o romance a expõe com todo o seu horror, mostrando em cada batalha –especialmente na alucinante descrição da vitória de Napoleão em Austerlitz— a monstruosa carnificina que ela provoca, a penúria e as injustiças que atingem os homens comuns, que constituem a maioria de suas vítimas; assim como a estupidez macabra e criminosa daqueles que detonam essas tragédias falando em honra, em patriotismo, em valores cívicos e militares, palavras cujo vazio e cuja pequenez se mostram evidentes aos primeiros disparos dos canhões. O romance de Tolstói tem muito mais a ver com a paz do que com a guerra. O amor à história e à cultura russa que indiscutivelmente o impregna não exalta em nada o som e a fúria das matanças, mas sim aquela vida interior intensa, cheia de reflexão, de dúvidas, a busca da verdade e o esforço em fazer o bem aos outros, tudo isso encarnado no bondoso e pacífico Pierre Bezúkhov, o herói do romance.

Embora a tradução de Guerra e Paz para o espanhol que estou lendo não seja excelente, a genialidade de Tolstói se faz presente a cada passagem, em tudo o que ele relata, e mais no que oculta do que no que explicita. Seus silêncios são sempre eloquentes, comunicam algo, estimulam a curiosidade do leitor, que fica preso ao texto, ansioso para saber se o príncipe Andrei finalmente declarará o seu amor a Natasha, se o casamento combinado realmente acontecerá, ou se o excêntrico príncipe Nikolai Andreiévitch conseguirá impedi-lo. Não há quase nenhum episódio no romance que não deixe algo no ar, que não se interrompa deixando de revelar ao leitor algum elemento ou informação decisivos, de modo a fazer com que sua atenção não diminua, se mantenha sempre ávida e alerta. É realmente extraordinário como em um romance tão amplo, tão diversificado, com tantos personagens, a trama é sempre conduzida com tanta perfeição por um narrador onisciente que nunca perde o controle, que delimita com absoluta maestria o tempo dedicado a cada um, que vai avançando sem descuidar nem preterir de nenhum deles, dando a todos o tempo e o espaço apropriados para fazer com que tudo avance conforme avança a própria vida, por vezes muito vagarosamente, por vezes em saltos frenéticos, com suas doses diárias de alegrias, tragédias, sonhos, amores e fantasias. (mais…)

Leitura on-line de Tolstói entra para o ‘Guinness’

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Maratona de leitura foi realizada em outubro de 2014 Foto: Google

Maratona de leitura foi realizada em outubro de 2014 Foto: Google

Projeto realizado em parceria com Google foi acompanhado em mais de 100 países.

Oleg Krasnov, na Gazeta Russa

O projeto de leitura on-line do romance “Anna Karenina”, realizado em conjunto pelo Google com a casa-museu de Lev Tolstói “Iásnaia Poliana”, foi acompanhado em 106 países e entrou para o Livro Guinness dos Recordes na categoria de “maior audiência de uma maratona de leitura pela internet”.

Com base no material da maratona “Karenina. Edição ao Vivo”, o Google criou um site que combina texto, vídeo, áudio, informações para consulta e um sistema prático de navegação. Pelo sistema de busca, é possível encontrar qualquer leitor por sobrenome, ler o romance desde o início ou escolher a sua passagem favorita.

“A leitura on-line está se tornando cada vez mais popular”, diz a coordenadora do projeto no Google Rússia, Svetlana Anurova. “Vamos realizar novos projetos que aliem patrimônio cultural e literário a novas tecnologias. Exemplo disso é o projeto conjunto de tour virtual no Teatro Bolshoi.”

A maratona de leitura foi realizada em outubro de 2014 e teve transmissão ao vivo pelo Google+. Mais de 700 pessoas participaram ativamente do evento, que durou 30 horas.

Entre os locais que tiveram participação de leitores estão o Teatro Bolshoi, em Moscou, o Palácio Peterhof, em São Petersburgo, os escritórios do Google em Londres e Dublin, os estúdios do Youtube em Tóquio e Los Angeles, a Casa Púchkin de Seul, e o Centro Russo de Ciência e Cultura em Paris.

A breve infância do pai de Lolita

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Vladimir Nabokov

Publicada pela primeira vez na íntegra, tradução da autobiografia de Vladimir Nabokov mostra como o encerramento de sua juventude aristocrática influenciou na criação do mito do sexo prematuro

Ana Weiss, na IstoÉ

Uma das lembranças mais vívidas do livro de memórias de Vladimir Nabokov é uma borboleta de asas cor de cereja, com um olho de pavão em cada uma delas.

O detalhe tocante, descreve ele em “Fala, Memória”, que sai agora no Brasil com o texto na íntegra, ficou por conta das asas um tanto deformadas do inseto, “porque havia sido retirada da prancha cedo demais, com ansiedade demais”. Os detalhes tocantes da autobiografia, na realidade, são muitos e passam por acontecimentos históricos que vão da década que antecedeu a Revolução Russa, em 1917, à ascensão nazista na Europa, através da lente de um dos maiores nomes da literatura de emigrante. E os pormenores voltam, durante o livro ao mesmo ponto: a beleza precocemente colhida, a infância interrompida antes do tempo, mote de sua personagem mais famosa, Lolita, que o tornou conhecido fora dos círculos literários.

Vladimir Nabokov nasceu numa família aristocrática, herdeira de terras em São Petersburgo. Amparados por 50 criados, os Nabokov dividiam o tempo entre suas casas na cidade e no campo, tendo a educação dos filhos delegada a preceptores em línguas diferentes, algo de grande serventia com a chegada da Revolução Russa, a onda que devastou a vida idílica do clã, que nunca mais retornaria à terra natal. “Minha velha (desde 1917) briga com a ditadura soviética não tem qualquer relação com questões de propriedade. É total o meu desprezo pelo emigrado que ‘odeia os vermelhos’ porque eles ‘roubaram’ seu dinheiro e sua terra. A nostalgia que venho alimentando todos esses anos é uma sensação hipertrofiada de infância perdida, não de tristeza por dinheiro perdido”, escreve ele no quinto

Sue Lyon como "Lolita"

NAS TELAS
Sue Lyon como “Lolita”, na versão de 1962 filmada por Stanley Kubrick. A menina
emancipada sexualmente pelo padrasto se tornou a personagem mais
famosa do escritor, que morreu em 1977 na Suíça

Lolita, de Nabokov

 

Não há como ignorar o ressentimento que conduz a narrativa. O autor russo vivia, até a chegada da revolução bolchevique, como um pequeno príncipe bajulado, que se distraía com as joias e as peles da mãe em sua cama “…aquelas tiaras, gargantilhas e anéis cintilantes pareciam para mim dificilmente inferiores em mistério e encantamento à iluminação da cidade durante as festividades imperiais”. Tinha orgulho de um tio materno, general na luta vitoriosa contra Napoleão Bonaparte. E lembrava do pai de farda, muitos anos depois de dispensado do serviço militar, assim vestido para o batizado cristão do primeiro filho. Aos 18 anos, o primogênito, que adoecia facilmente para receber presentes na cama, vivia em Londres distante dos parentes, exilados em Berlim. “As numerosas doenças que experimentei na infância aproximaram ainda mais minha mãe e eu”, conta nos capítulos dedicados às longas férias familiares na propriedade rural em Vyrna, sua “caverna primordial”. “Depois de 1923, quando ela (a mãe de Nabokov) se mudou para Praga e eu morava na Alemanha e na França, não consegui visitá-la com frequência; também não estava com ela quando morreu, o que se deu na véspera da Segunda Guerra Mundial.”

Aos 7 anos com o pai, Vladimir Dmitrievich Nabokov

ÁLBUM
Aos 7 anos com o pai, Vladimir Dmitrievich Nabokov,
filho liberal de uma tradicional família aristocrata

A culpa de Nabokov transcendia a intimidade familiar. Seus romances mais importantes, “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight” (1941) e “Lolita” (1955), foram escritos primeiro em inglês e só muito depois traduzidos para sua língua materna. Apesar do sucesso a partir dos anos 50, pagou as contas no estrangeiro ensinando literatura russa, atividade que deixou de exercer bem cedo. Nas suas aulas (leia ao lado) apontava como grande falha de colegas de profissão maiores que ele, como Nikolai Gógol e Fiódor Dostoiévski justamente a falta de conhecimento do povo que deixou para fugir do comunismo. O livro foi publicado pela primeira vez com o título “Prova Conclusiva”, que o autor mudou na edição de 1966 para o atual “Fala, Memória”, também em inglês. A tradução da Alfaguara traz pela primeira vez em português o 16o capítulo, um exercício em que Nabokov resenha o próprio livro como se fosse uma terceira pessoa. Um dos pontos destacados pelo texto crítico é o esclarecimento para os leitores ocidentais de quão livres as ideias e opiniões circulavam até 1917, época em que era possível capturar borboletas-do-pavão, espécie muito rara “em nossas florestas do norte”.

críticas de Nabokov a outros autores russos

Foto: The Kobal Collection/MGM; Acervo de família

‘É preciso se dedicar’, diz estudante da rede pública que domina 10 idiomas

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Nascido em Santa Lúcia, João sempre estudou em escolas públicas (Foto: Deivide Leme/Tribuna Impressa)

Nascido em Santa Lúcia, João sempre estudou em escolas públicas (Foto: Deivide Leme/Tribuna Impressa)

Fábio Rodrigues, no G1

 

“Nada é impossível. Se você se dedicar, você aprende”. É dessa forma que o estudante de uma escola pública de Santa Lúcia (SP) João Vitor Martinez de Oliveira, filho de um metalúrgico e de uma dona de casa, explicou a facilidade que tem para aprender idiomas. Além do português, o jovem de 18 anos domina outras nove línguas na leitura e na escrita: espanhol, francês, inglês, italiano, alemão, russo, japonês, coreano e mandarim, língua oficial da China, país onde fará intercâmbio por seis meses a partir de agosto após ser aprovado em um concurso.

Aluno do Centro de Estudos de Línguas (CEL), na Escola Estadual João Manuel do Amaral, em Araraquara, Oliveira sempre frequentou escolas públicas onde aprendeu inglês e mandarim, mas aos 15 anos começou a estudar sozinho em casa. “Eu procurava músicas, textos, vídeos infantis com músicas do alfabeto para saber soletrar certas palavras e fui aprendendo. Depois treinava com amigos nativos que vinham fazer intercâmbio no Brasil, então, eu perguntava como se expressar no idioma deles com gírias como a gente também usa aqui”, relatou o jovem da pequena Santa Lúcia, cidade com 8,2 mil habitantes.

Segundo ele, o mandarim é a língua preferida. “É também a mais difícil, porque não tem alfabeto, é preciso conhecer o ideograma”, contou. A paixão pelo idioma é tão grande que ele foi aprovado em primeiro lugar na região central em um concurso promovido pela Secretaria da Educação do Estado, em parceria com o Instituto Confúcio.

No próximo mês, ele embarca para Nanchang e ficará hospedado por seis meses na Universidade Jiangxi Normal University com tudo pago. O jovem também receberá ajuda de custo no valor de 1,5 mil iuenes, a moeda local (cerca de R$ 500). A única despesa dele será com as passagens aéreas, que custam cerca de R$ 3,5 mil ida e volta. O valor foi pago pelos pais.

Estudante de Santa Lúcia adora mandarim e irá para a China em agosto (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

Estudante adora mandarim e fará intercâmbio na China em agosto (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

Dedicação
Filho de um metalúrgico e de uma dona de casa, Oliveira tem uma irmã de 16 anos e outro de 23 e não se considera superdotado. “Tenho força de vontade, só isso. A maioria das pessoas não consegue aprender um idioma por falta de estudo”, explicou o jovem.

Apesar da dedicação, ele disse que estuda apenas uma hora por dia e que prefere conversar com os nativos que vêm ao Brasil aprender português. O contato permitiu que ele aprendesse com os estrangeiros até a cozinhar. “A culinária chinesa é fácil”, relatou.

Expectativa
Com a ajuda da internet, Oliveira frequenta as redes sociais chinesas e disse estar preparado para a nova aventura, apesar da ansiedade. “É um país com uma cultura totalmente diferente, então você tem aquele receio do choque cultural, mas estou confiante de que vai dar tudo certo”, disse.

Quando voltar, ele pensa em prestar vestibular para o curso de letras em alguma universidade pública. Um dos objetivos do estudante é se tornar professor de língua portuguesa na China. O outro é aprender grego.

A mãe do estudante disse que está contente com a novidade, mas triste porque o filho ficará mais de 17 mil quilômetros distante de casa. “Vai dar saudade, preocupação, mas acredito que vai dar tudo certo porque ele é responsável, se esforça, então ele merece”, afirmou a dona de casa.

João conversa conversa com chineses por meio de redes sociais (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

João diariamente conversa conversa com chineses por meio de redes sociais (Foto: Clausio Tavoloni/EPTV)

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