A jornalista Joselia, nova curadora da FLIP. Foto: Arquivo pessoal

A jornalista Joselia, nova curadora da FLIP. Foto: Arquivo pessoal

 

A edição 2017 da festa literária será comandada pela jornalista Josélia Aguiar, autora de biografia de Jorge Amado com lançamento previsto para o mesmo ano

Jamyle Rkain, na Brasileiros

A Festa Literária Internacional de Paraty terá uma mulher no comando da 15ª edição. Nesta sexta-feira (07), o nome de Josélia Aguiar foi anunciado para curadoria da FLIP 2017. Depois de dez anos tendo homens à frente do evento, a presença de uma mulher é extremamente importante para a organização, que foi acusada de ser machista e racista nas últimas edições.

Josélia é uma jornalista e historiadora nascida em Salvador. Vive em São Paulo há alguns anos, onde cursou o mestrado e agora o doutorado. Como jornalista especializada em literatura, com passagens pela revista mensal EntreLivros e os jornais Folha de S.Paulo e o Valor Econômico, marca presença na FLIP desde a primeira edição da festa, realizada em 2003. Entregou recentemente o livro Jorge Amado – uma biografia, o qual levou cinco anos para conceber, entre pesquisas e escrita. “A estreia mundial terá de ser em Salvador”, diz, bem-humor da, à Brasileiros. O livro sairá pela Editora Três Estrelas e está previsto para 2017, antes da FLIP.

A primeira e, até então, única mulher a comandar a FLIP foi Ruth Lanna, em 2005 e 2006. Em uma de suas curadorias, Ruth convidou a jornalista para mediar uma mesa no evento. “É mais fácil para uma mulher ver a outra naquela posição”, referindo-se ao fato de que a curadoria e a mediação são posições altas na hierarquia de grandes eventos literários, geralmente condicionadas aos homens.

Para além da questão de gênero, Josélia acredita que existem outras demandas de representação na FLIP, como as pautas do movimento negro, dos nordestinos, dos LGBTs, entre outros. Na edição deste ano, por exemplo, o evento foi acusado de racismo e elitismo ao não escalar autores negros para as mesas mais importantes. Josélia aborda essas questões desde sempre em sua carreira, por isso acredita que não será um desafio. “Até porque sou baiana e mulher”, pontua.

Para ela, o maior desafio será trazer novidades à FLIP. No começo, pelo ineditismo de feiras e festas literárias pelo Brasil, o trabalho era mais fácil: “O desafio é tentar inventar coisas interessantes para que a festa continue sendo referência”. Diante da atual diversidade de eventos com a mesma finalidade, Josélia imagina que a escolha curatorial da edição de 2017 contribuirá para que haja pontos de vistas diferentes.

A FLIP deve anunciar o homenageado de sua 15ª edição no próximo mês. Josélia não esconde seu preferido: Lima Barreto. Enquanto fazia as pesquisas para a biografia de Jorge Amado, a jornalista descobriu o amor do autor de Capitães da Areia pela obra de Barreto. Decidiu, então, conhecer um pouco mais sobre o autor e ficou fascinada pela história do carioca, pois em meio a situação adversa do preconceito que encarava por ser negro e pobre, conseguiu manter-se firme e construir uma obra imponente, que a baiana considera genial. “Ele achava que o fato de ser negro e pobre impediria que ele acontecesse. Era a imagem da pessoa deslocada na sociedade”, comenta. Em 2013, quando passaram a especular os nomes da edição de 2014, Josélia fez uma campanha no Twitter para que Lima Barreto fosse o autor homenageado. Segundo ela, foi apenas uma brincadeira, mas ganhou grande repercussão com a ajuda de outros jornalistas e escritores. Josélia segue na torcida por seu favorito, mas pretende fazer um lindo trabalho, independentemente de quem seja o escolhido – ou a escolhida, claro.