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19 livros que todo mundo leu na infância

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Momento nostalgia: relembre obras que você leu e releu anos atrás

Publicado no Terra

Todos nós lemos livros na infância que marcaram nossas vidas. Quem não se lembra daquele em que Branca de Neve teve sete filhos e junto de outras princesas escreveu a história de feiurinha? Ou do Menino Maluquinho , de Ziraldo; Romeu e Julieta , de Ruth Rocha e A Bruxinha Atrapalhada, de Eva Furnari?

Impossível lembrar deles e não sentir saudade. Por isso, o Guia da Semana listou 19 livros para você recordar! Confira:

1. O fantástico mistério de Feiurinha – Pedro Bandeira

Neste livro, Branca de Neve, já grávida do seu sétimo filho, reuniu as amigas do reino para encontrar a princesa Feiurinha, que havia desaparecido. Acabaram descobrindo que ela não tinha autor, não tinha história, nada, pois sua história não tinha sido escrita ainda – só transmitida oralmente. A história de Feiurinha foi então escrita e todos viveram muito felizes para sempre.

2. O menino Maluquinho – Ziraldo

Na grande obra infantil de Ziraldo, verso e desenho contam a história de um menino traquinas que aprontava muita confusão. Alegria da casa, liderava a garotada, era sabido e um amigão. Fazia versinhos, canções, inventava brincadeiras. Tirava dez em todas as matérias, mas era zero em comportamento. Menino maluquinho, diziam. Mas na verdade ele era um menino feliz.

3. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias – Ruth Rocha

O livro mostra situações reais do cotidiano de um jeito que procura ser simples e de modo colorido. Os personagens dos três contos que compõem este livro são crianças que vivem no espaço urbano. Elas resolvem seus impasses com muita esperteza e vivacidade; Marcelo cria palavras novas, Teresinha e Gabriela descobrem a identidade na diferença e Carlos Alberto compreende a importância da amizade.

4. Lúcia, já vou indo – Maria Heloísa Penteado

O livro conta a história da lesminha Lúcia, que é muito devagar. Para ir a uma festa, tem de sair com uma semana de antecedência. Se alguém a apressa, ela responde que já está indo.

5. A bruxinha atrapalhada – Eva Funari

Este livro apresenta uma das personagens mais cativantes da literatura infantil, a Bruxinha. Com uma linguagem própria – sem a utilização de palavras, só imagens – a autora cria uma bruxinha realmente atrapalhada, que pode realizar seus desejos com a ajuda de uma varinha mágica, sofrendo as mais inusitadas e engraçadas conseqüências. Dez historinhas formam o livro. Em algumas a bruxinha alcança um final feliz, em outras, não é tão feliz em suas mágicas. As imagens permitem ao leitor criar seus próprios diálogos, imaginando a história à sua maneira. Uma excelente pedida para crianças em estágio de alfabetização. Esta obra recebeu diversos prêmios e participa de programas de bibliotecas públicas em vários países.

6. A droga da obediência – Pedro Bandeira

O livro aborda a história de uma turma de adolescentes que enfrenta o mais diabólico dos crimes! Num clima de muito mistério e suspense, cinco estudantes – os Karas – enfrentam uma macabra trama internacional: o sinistro Doutor Q.I. pretende subjugar a humanidade aos seus desígnios, aplicando na juventude uma perigosa droga! E essa droga já está sendo experimentada em alunos dos melhores colégios de São Paulo. Esse é um trabalho para os Karas: o avesso dos coroas, o contrário dos caretas!

7. As anedotinhas do bichinho da maçã – Ziraldo

As anedotinhas do Bichinho da Maçã conta anedotinhas que agradam as crianças de todas as idades. Um dos maiores sucessos infantis de Ziraldo.

8. Romeu e Julieta – Ruth Rocha

Esta obra conta a história de um reino colorido e cheio de flores, onde as coisas são separadas pelas cores.

9. Bisa Bia, Bisa Bel – Ana Maria Machado

O livro conta a história de Bel, uma menina cheia de imaginação e questões. A partir de um velho retrato, ela desenvolve um relacionamento imaginário com a bisavó e, a seguir, com sua futura bisneta. O diálogo de Bel com o passado e o futuro é uma mistura do real com a fantasia, levando o leitor a perceber as mudanças no papel da mulher na sociedade.
10. O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry
Foto: Guia da Semana

O livro é um romance do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943, nos Estados Unidos. O Pequeno Príncipe, que vivia em um planeta tão pequeno, onde só existia ele, uma rosa e seus vulcões, resolve viajar por outros planetas. Nessa grande aventura, o pequeno príncipe conhece pessoas diferentes e vive momentos nunca antes vividos.

11. A bolsa amarela – Lygia Bojunga Nunes

A Bolsa Amarela já se tornou um ‘clássico’ da literatura infantojuvenil. É o romance de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades (que ela esconde numa bolsa amarela)- a vontade de crescer, a de ser garoto e a de se tornar escritora. A partir dessa revelação- por si mesma uma contestação à estrutura familiar tradicional em cujo meio ‘criança não tem vontade’- essa menina sensível e imaginativa nos conta o seu dia-a-dia, juntando o mundo real da família ao mundo criado por sua imaginação fértil e povoado de amigos secretos e fantasias.

12. O gênio do crime – João Carlos Marinho

Seu Tomé é um homem bom, proprietário de uma fábrica de figurinhas de futebol. Existem as fáceis e as difíceis, fabricadas em menor quantidade. Quem enche o álbum ganha prêmios realmente bons. Mas surge uma fábrica clandestina que fabrica as figurinhas difíceis e as vende livremente. O número de álbuns cheios aumenta e seu Tomé não tem mais capacidade de dar todos os prêmios. Há uma revolta, as crianças querem quebrar a fábrica. Edmundo, Pituca e Bolachão, e mais adiante, Berenice, entram em cena para descobrir a fábrica clandestina. Acontece que não se trata de simples bandidos, a quadrilha é chefiada por um gênio do crime, e os meninos terão de botar a cabeça para funcionar se quiserem resolver a situação.

13. O mistério do cinco estrelas – Marcos Rey

Em ‘O mistério do 5 estrelas’, um homem é assassinado no apartamento 222 do Emperor Park Hotel. O único que viu o corpo foi Léo, o mensageiro. Mas ninguém acredita (mais…)

Afinal, Harry Potter é literatura?

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Cristine, no Cafeína Literária

Segundo Ruth Rocha, não. emoji

A autora, com mais de 120 livros infantis publicados, em entrevista ao portal iG há uma semana (27/04/2015), afirmou categoricamente:

“Não acho errado ‘Harry Potter’ fazer sucesso, mas não acho que seja literatura.”

Como assim?!

Há algum tempo, escrevi sobre uma declaração que Paulo Coelho fez a respeito de Ulisses, de James Joyce (leia aqui). Não faz diferença a opinião dele ou de outra pessoa sobre a obra, se gostou ou não gostou é algo pessoal. O que incomodou na declaração dele, entre outras coisas, foi o subtexto do tipo “não li e não gostei”. Se foi por autopromoção ou não, é difícil entender que um escritor – por mais raso que seja o que ele escreve – emita uma “não-opinião” feito essa.

Não é por gostar de Harry Potter que eu estou me pronunciando a respeito. Não li Ulisses – na verdade, já comecei três vezes – e ainda assim me senti compelida a contestar as afirmações feitas por PC. E, por mais rasos e clichês que sejam os textos dele – que me desculpem seus fãs -, eles são literatura. Não necessariamente excelente literatura mas, ainda assim, literatura. E, mesmo não gostando, não é por isso que sairei falando por aí que não é literatura.

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O GLOBO (EXCLUSIVO) SÃO PAULO 02.06.2009 – PROSA E VERSO – RUTH ROCHA FOTO:SERGIO BARZAGHI/DIARIO

Voltemos a Ruth Rocha. É isso que ela parece estar dando a entender com suas declarações: que leu, não gostou e que por isso não é literatura. Em certo ponto, inclusive afirma “eu sei que não é bom.”

“Isto não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar. Criança deve ler tudo, o que tem vontade, o que gosta, mas eu sei que não é bom.”

E continua:

“O que eu acho que é literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova. Esta literatura com bruxas é artificial, para seguir o modismo. Acho que o Harry Potter fez sucesso e está todo mundo indo atrás.”

Percebam o quanto essas frases soam contraditórias. Ao mesmo tempo em que a autora afirma que ‘criança deve ler de tudo’, cria uma barreira a uma parte desse tudo, já que pela sua lógica Harry Potter não deve ser lido pois não é literatura.

E mais contraditória ainda é sua resposta quanto a não gostar de Harry Potter:

“Não acho errado os livros fazerem sucesso. Eu gosto porque acho que as crianças leem, mas eu não gosto de ler “Harry Potter”, não acho que é literatura.”

E aí, gosta ou não gosta? Criança pode ler tudo, mas não deve ler Harry Potter? Mas, afinal, Harry Potter é ou não é literatura?

Comecemos pela definição de literatura feita pela própria autora:

“Literatura é uma expressão do autor, da sua alma, das suas crenças, e cria uma coisa nova.”

  • Harry Potter é uma expressão do autor?
  • Harry Potter é uma expressão da alma do autor?
  • Harry Potter é uma expressão das crenças do autor?
  • No caso de J.K.Rowling, basta assistir a qualquer entrevista com a autora para saber que a resposta a essas três perguntas é “Sim!”.

  • Harry Potter cria uma coisa nova?
  • Por mais que a história do bruxinho pareça familiar, por mais que seja impossível escapar da jornada do herói, não há dúvida que a forma de contar a história e a concepção do universo de Hogwarts são uma coisa nova. “Sim” também para essa questão.

    Então, pela própria definição de Ruth Rocha, Harry Potter é, sim, literatura.

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E podemos confirmar isso não apenas tomando como base suas declarações. O conceito de Literatura já foi descrito e discutido por vários estudiosos. Vejamos o que escreve Massaud Moisés, professor titular da Universidade de São Paulo, autor de vários livros sobre Teoria Literária:

“A literatura é a expressão de conteúdos da ficção ou da imaginação por meio de palavras de sentido múltiplo e pessoal.

Vale lembrar que para ser um texto literário, deve-se preencher alguns requisitos: a questão de valor já é outra história. Desde um soneto comum escrito por um adolescente sonhador, publicado num jornal acadêmico, até a Divina Comédia, tudo é Literatura. Pode ser que o soneto necessite de valor artístico ou de qualidade, mas irá satisfazer aquelas condições implícitas ou explícitas nas considerações feitas até agora.

(…) podemos concluir que somente a poesia, o conto, a novela e o romance pertencem à Literatura, por satisfazerem àquele requisito básico: Literatura é ficção expressa por palavras polivalentes.”
MOISES, Massaud. A análise literária. 17.ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2005

Então, a menos que eu esteja redondamente equivocada, Harry Potter encaixa-se perfeitamente no conceito de Literatura descrito acima. Além de tudo, literatura é arte. E arte não é algo estanque, imutável, binário, é ou não é. A arte transborda, trespassa, sensibiliza.

Eu poderia dar muitas outras referências e outros exemplos e todos desmentiriam a afirmação inicial de Ruth Rocha. E ela poderia simplesmente ter dado sua opinião, afinal gosto não se discute. Poderia inclusive ter exposto argumentos baseados em teoria literária que (talvez) demonstrassem que Harry Potter não é tão boa literatura quanto a maioria dos leitores considera.

É possível que ela tenha se referido ao embate antigo entre literatura de entretenimento e literatura “de verdade” e que, no seu entender, Harry Potter não se encaixa na segunda classificação. Mas existe mesmo essa distinção? Muitas obras hoje consideradas clássicos, foram literatura de entretenimento na época em que foram inicialmente publicadas. Shakespeare, por exemplo. Será que Ruth Rocha diria que Shakespeare não é literatura “de verdade”? Bom, mas isso é assunto para outro post.

Enfim, a autora de inúmeros livros que embalaram tardes de leitura durante minha infância pisou na bola. #xatiada

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50 anos de carreira de Ruth Rocha: “Harry Potter não é literatura”

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Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Aos 84 anos, a premiada autora infantil vai celebrar as bodas de ouro na literatura com três adaptações para o teatro, um documentário e exposição

Publicado no Tribuna da Bahia [ via IG]

Antes de começar a escrever, Ruth Rocha, autora de mais de 120 livros infantis, gostava mesmo era de contar histórias para sua filha. Foi ao ouvir um dos contos que inventava na hora para a sua criança — “minha filha falava: ‘agora conta uma história sobre aquele pote’” — que uma amiga, editora da revista “Recreio” nos anos 1960, teve a ideia de pedir um texto para Rocha. “Eu falava que não sabia escrever ficção, mas um dia fui na casa dela, ela me trancou e só me deixou ir embora depois que eu entregasse o texto”, conta rindo em entrevista ao parceiro iG.

Ruth Rocha comemora, a partir do ano que vem, os 50 anos de seu casamento com a literatura. A festa de bodas de ouras terá as adaptações teatrais das histórias “O Reizinho Mandão”, “Dois Idiotas Sentados Cada Qual em seu Barril” e “Romeu e Julieta”. A estreia do documentário e exposição “Ruth Rocha 50 anos: A Aventura de Ler” completam a celebração.

A comemoração não poderia ser pequena, uma vez que tramas suas como “Marcelo, Marmelo, Martelo” e “A Primavera da Largatinha” formaram o gosto pela leitura e alegraram a infância de pelo menos duas gerações. “Ouço sempre histórias de gente que aprendeu a ler com os meus livros e agora leem para seus próprios netos”, ela comenta.

Aos 84 anos e com o livro mais recente, “Solta o Sabiá”, lançado em 2012, Ruth está longe de se aposentar, mas também não está planejando novas histórias para um futuro próximo. Ela tem se dedicado a sua coleção de livros para educação infantil “As Pessoinhas” e para o relançamento de seus livros, principalmente a série “O que é O que é?”.

A autora, porém, também não se mantém longe do universo infantil e não tem papas na língua na hora de massacrar os atuais best-sellers infanto-juvenis. “Não é literatura, é tudo besteiras”, a paulista diz. “Não acho errado ‘Harry Potter’ fazer sucesso, mas não acho que seja literatura”, categoriza. Ela também ataca a falta de incentivo dos pais na hora de levar os filhos a uma livraria: “vejo pais gastando R$ 1 mil em um celular, mas não R$ 1 mil em livros”.

iG: Foi difícil começar a escrever para crianças?
Ruth Rocha: Foi uma coisa fácil e natural para mim. Sei que é difícil, porque sei o quanto que a gente erra. Para mim foi uma coisa mais ou menos natural. Aconteceu, porque eu tinha uma amiga que fazia a revista “Recreio” e ela começou a insistir para eu escrever história. E eu dizia para ela que eu não sabia escrever e ela pediu que eu colocasse no papel as histórias que eu contava para a minha filha. Um dia fui na casa dela e ela me sentou lá, me trancou e fez eu escrever.

iG: Então você criava histórias para a sua filha?
Ruth Rocha: Minha filha pedia para eu inventar história. Ela dizia assim: “Eu quero a história daquele pote”. Um dia, ela me perguntou porque o preto é pobre, tive uma conversa com ela e escrevi “Romeu e Julieta” para ela. Na verdade, a minha formação é sociologia, eu tenho esta coisa com preconceito me incomoda muito. Neste dia eu fiz essa história por causa da minha filha.

iG: Você disse que os escritores infantis erram bastante. Que tipo de erro é mais comum?
Ruth Rocha: Há vários. Um deles é achar que a criança é muito pequena e não sabe nada. O outro é achar que ela é grande e sabe tudo [risos].

iG: Você está completando 50 anos de carreira. Acha que a criança mudou muito desde quando você começou a trabalhar, nos anos 1960?
Ruth Rocha: Olha, o que eu sei é que o meu livro que mais vende é o “Marcelo, Marmelo, Martelo”, um dos primeiros que eu lancei, em 1969. E até hoje, quando saiu em livro, começou a vender muito. A criança não muda tanto assim. O que mudou muito são os adolescentes. Porque o adolescente é quando se abre o leque da personalidade. E quando são crianças eles são muito parecidos.

iG: Mesmo com a tecnologia?
Ruth Rocha: São instrumentos, o iPad, o iPhone são instrumentos para as pessoas agirem. Precisam de mudanças muito profundas. A tecnologia é boa e é ruim. Tecnologia é bom, mas o uso dela precisa ser mediado por uma educação boa. E a educação está meio frouxa. A família não está educando muito, a escola não tem condição. A gente precisa de uma revolução da educação.

iG: O que acha destes novos best-sellers, que misturam fantasia, com a presença de vampiros e bruxas?
Ruth Rocha: Isto não é literatura, isto é uma bobagem. É moda, vai passar. Criança deve ler tudo, o que tem vontade, o que gosta, mas eu sei que não é bom. O que eu acho que é literatura é (mais…)

Ruth Rocha defende a formação do leitor sem o moralismo das fábulas

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Ruth começou a carreira de escritora em 1967, ao publicar artigos sobre educação para revistas - DIVULGAÇÃO

Ruth começou a carreira de escritora em 1967, ao publicar artigos sobre educação para revistas – DIVULGAÇÃO

Prestes a completar 50 anos de carreira, escritora construiu uma obra marcada por ideias profundas

Publicado no Cruzeiro do Sul

A grande comemoração vai acontecer em 2017, quando de fato, ocorrem os 50 anos da escrita de Ruth Rocha. Mas os festejos já começam no próximo dia 29, quando será oficialmente anunciado, no Itaú Cultural, o projeto 50 Anos Ruth Rocha. Trata-se de uma série de ações culturais em homenagem a uma das principais autoras de literatura infantil do País.

“Eu sabia que daria certo quando, ao propor o projeto, percebi um brilho nos olhos dela”, conta o ator e produtor Jô Santana, idealizador da ação, que vai contar com a montagem de três peças infantis baseadas em livros de Ruth, um documentário já em fase de produção, dirigido por Evaldo Mocarzel, e uma grande exposição que terá a cenografia de J. C. Serroni. No encontro do dia 29, Regina Duarte vai ler um texto em homenagem à escritora e ocorrerá a leitura da peça O Reizinho Mandão.

Uma justa homenagem para a autora de mais de 130 livros que valorizam a criança como um ser inteligente e dotado de espírito crítico. O mundo criado por Ruth Rocha está distante do universo das fábulas e sua rígida divisão entre bons e maus – são borboletas coloridas, reizinhos mandões e meninos que criam palavras esquisitas. Tipos que, por meio de uma linguagem lúdica e direta, passam noções de igualdade racial, democracia e liberdade de expressão. Sem forçar.

“E olha que comecei tarde, aos 38 anos”, ela comenta, balançando em sua cadeira favorita, com aquele sorriso generoso de sempre, capaz de transformar quase cinco décadas de trabalho em um alegre passeio. Aos 84 anos, Ruth Rocha pode se orgulhar de ter construído uma obra marcada por uma linguagem simples e ideias profundas.

Tudo teve início em 1967, quando começou a escrever artigos sobre educação para revistas. Um texto específico, em que utilizava o método criado por Ana Maria Poppovic para determinar a maturidade mental de cada criança, despertou atenção: colegas da redação queriam conhecer a autora, enquanto chegava uma enxurrada de cartas elogiosas. “Fui convidada então para escrever histórias para criança. No início recusei, até ser surpreendida por um problema em casa”, relembra. “Certo dia, eu brincava com minha filha pequena, Mariana. Tudo ia bem quando ela me perguntou por que preto é pobre. Foi quando percebi que era chegado o momento de eu começar a escrever.”

Caminhos para o ser humano

Era 1969 e Ruth trabalhava como orientadora pedagógica de uma nova revista, Recreio, destinada às crianças. O regime militar arregaçava as mangas e impunha seu poder à força. Em meio a uma acirrada censura, a edição de número 10 da Recreio trazia uma história sobre preconceito. Romeu e Julieta mostra a difícil convivência entre duas borboletas apaixonadas, mas impedidas de se amarem por serem de cores diferentes, uma azul, a outra amarela. “Uma história ingênua, mas que funcionou bem entre as crianças pequenas.”

Foi o ponto de partida para uma coleção de narrativas criativas (O Dono da Bola, Catapimba e Sua Turma, Teresinha e Gabriela, Meu Amigo Ventinho). Algumas, como Marcelo Marmelo Martelo, transformaram-se em clássicos e best-sellers (mais de um milhão de exemplares vendidos).

“Ruth Rocha não conta apenas “historinhas para as crianças””, atesta o também escritor Pedro Bandeira. “Seus textos são umbilicalmente formadores, apontam caminhos para o ser humano em construção, fazendo-o perceber-se como alguém a quem ninguém poderá mandar calar a boca, ninguém poderá ocultar-lhe informações sobre a vida e sobre o mundo, alguém que crescerá com a consciência de que poderá vir a ser o que quiser, alguém que poderá tornar-se um adulto livre.”

Essa vertente, na verdade, é um dos aspectos mais interessantes na obra de Ruth. Em O Reizinho Mandão, por exemplo, ela foi mais longe, quase beirando o protesto explícito ao mostrar um reino em que ninguém é feliz por conta de um monarca autoritário. A provocação chegou a intimidar certas escolas que, temerosas, vetaram a leitura do livro por seus alunos.

O curioso é que Ruth não se julga uma escritora teórica, que pensa exaustivamente antes de começar a escrever. “Quem é assim é Ana Maria (Machado). Ela é uma schollar, uma intelectual, enquanto eu sou mais intuitiva”, diz Ruth sobre outra grande escritora para jovens e que foi, aliás, sua cunhada. Depois de refletir um pouco, completa: “Sou mais distraída” e abre o famoso sorriso.

Já faz algum tempo que Ruth não escreve ficção para crianças, ainda que mantenha um caderno onde anota potenciais ideias. “Mas ainda não usei nenhuma”, confessa a autora, que tem se empenhado, ao lado da também escritora Anna Flora, em projetos pedagógicos como o Pessoinha, destinada a crianças a partir de 3 anos.

A ficção, no entanto, continua imbatível – as vendas de seus livros para os mercados público e privado em 2014 foram de cerca de 580 mil exemplares, o que dá uma média de mais de 1.500 livros por dia. Desde 2009, a obra de Ruth Rocha é editada pela Salamandra, que coleciona recordes: só nessa casa, Marcelo Marmelo Martelo já vendeu 700 mil exemplares. (Ubiratan Brasil – AE)

‘Computador não faz com que se leia menos’, diz Ruth Rocha; leia entrevista

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Ruth Rocha

Bruno Molinero, na Folha de S.Paulo

 

Há 45 anos, em setembro de 1969, Ruth Machado Lousada Rocha teclava uma máquina de escrever trancada no quarto. Acostumada a criar textos para adultos, ela tentava terminar a sua primeira história infantil, para a revista “Recreio”.

Só abriu a porta quando finalizou o conto “Romeu e Julieta”, sobre duas borboletas de cores diferentes. Como uma lagarta que sai do casulo,”nascia” ali também a escritora Ruth Rocha.

Mais de 200 livros depois e 12 milhões de exemplares vendidos, Ruth Rocha, 83, conversou com a “Folhinha” em seu apartamento, em São Paulo.

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Folhinha – A infância mudou nesses 45 anos?
Ruth Rocha – As crianças são muito parecidas. Por isso, livros infantis mais antigos e contos de fadas ainda encantam gente do mundo todo.

Mas hoje tem o computador e outras tecnologias.
O problema não é o computador ou a TV, é o uso excessivo deles. Tem criança que fica o dia inteiro com as telinhas ligadas. Não pode. É preciso ter hora para brincar, estudar, sair, comer e, claro, também para o computador e a TV. Tem que ter disciplina.

As escolas atuais estão colocando a disciplina em segundo plano?
Por um lado, as escolas estão muito caretas. Não são nada divertidas. Mas há muitos colégios metidos a modernos que vão para o lado oposto. Como o autoritarismo no passado era grande, eles acabam jogando fora o respeito e a disciplina. Essas escolas também estão erradas. A criança tem que ter regras, senão fica impossível. Ela pede por limites, quer ouvir um “não”, seja dos pais ou do professor.

Brincar na rua faz falta?
Faz falta, claro. Mas hoje é muito perigoso. E a criança inventa brincadeiras onde estiver. Quando meus netos eram pequenos, por exemplo, eles transformavam tudo o que eu tinha na sala de casa em pista de carrinho. A imaginação é muito forte.

Usar o computador faz com que as crianças leiam menos?
Não acho. Nunca se vendeu ou produziu tanto livro. Na minha época, não tínhamos opções, meus colegas não conversavam sobre literatura e as escolas não tinham bibliotecas. Conhecíamos só as histórias do Monteiro Lobato. Hoje há mais opções.

Há muitas opções ruins nas livrarias.
Pouca coisa de qualidade é produzida. Existem duas pragas atualmente nos livros: o “bom mocismo” e o politicamente correto. Eles estão matando a literatura infantil brasileira. Ninguém pensa em livros bons para crianças.

A sra. lia muito quando era criança?
Muito. Quando eu tinha 13 anos, decidi ler todos os livros de uma biblioteca circulante que ficava na avenida São Luís. Claro que não consegui. Mas acho que li a biblioteca inteira do colégio Rio Branco, onde estudei e trabalhei.

E ouvia muitas histórias também?
Meu avô era um grande contador de histórias. Era um velhinho engraçado que adorava contar contos de folclore, dos irmãos Grimm, fábulas, histórias das “Mil e Uma Noites”. Já meu pai só sabia três histórias: do Aladim, de um homem com a perna amarrada, que eu não sei de onde ele tirou, e outra que não lembro. E minha mãe, quando descobriu o Monteiro Lobato, lia várias histórias para a gente.

Há algum tema impossível de escrever?
Já fiz histórias sobre preconceito, autoritarismo e até adaptei a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero (700 a.C.). Só não consigo fazer histórias tristes. Preciso de esperança.

Quais seus planos para o futuro?
Voltar a escrever. Tive que parar por um tempo, pois deu um trabalho muito grande fazer a reedição da minha obra de ficção pela editora Salamandra. Foram quase 120 livros.

Planeja fazer lançamentos em livro digital?
O livro digital não pegou no Brasil. Eles geralmente não aproveitam a tecnologia que têm à disposição. Eu vendo muito livro, mas minhas obras disponibilizadas em e-book não vendem nada. Talvez um dia o livro físico acabe, mas esse movimento ainda não começou.

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