Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Sacanagem

Como se pronuncia Camus, ou por que é importante conversar sobre livros

0

Marcela Ortolan, no Livros e Afins

Sempre lembro de um livro que li quando tinha uns 11 ou 12 anos chamado Crescer é Perigoso, de Marcia Kupstas. Em vários momentos da narrativa não sabia do que o autor estava falando. Por exemplo, quando o personagem falava do livro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, dizendo que achava um máximo que a escola obrigasse a ler um livro que tivesse tanta sacanagem, só fui entender do que o personagem estava falando quando conheci e li (também obrigada pela escola) O Cortiço aos 14 anos.

Crescer é uma atividade  de alta periculosidade.

Crescer é uma atividade de alta periculosidade.

Algo engraçado desse livro é que eu não sabia o que era e não tinha a menor ideia de como se pronunciava a palavra walkman. Cheguei a procurar no dicionário, que sempre ficava por perto, e obviamente não achei. Só muitos anos mais tarde fui descobrir o que era e como pronunciava essa palavra misteriosa. Lembrei disso especialmente hoje por que estava lendo o texto Flerte da Caminhante Diurno em que ela relata a  de algo semelhante e do mesmo problema com o significado de uma palavra desconhecida. (Destaque especial para o video que ilustra o texto).

Alias, esse problema se repete até hoje comigo em diversas situações. Hoje é mais raro ter problemas com significado ou pronuncia de palavras, um pouco pelo extenso treino de leitura, mas principalmente pelos buscadores e dicionários on-line que nos deixam a par de significados inatingíveis há poucos anos.

O mais comum é errar a pronuncia do nome de algum autor. Demorei vários meses para descobrir que Camus se pronuncia “camí”. E essa dificuldade recorrente com nomes de autores me fez perceber o quanto é difícil de encontrar pessoas que gostam de literatura dispostas a conversar.

A Internet ajuda, mas, em geral a comunicação se da da forma escrita o que não colabora na descoberta da pronuncia correta.

Boa parte da experiencia de leitura de um livro acontece no momento em que conversamos com alguém sobre ele. Ao compartilhar as impressões sobre um livro visualizamos novas nuances da história, outras interpretações, enriquecemos com outros pontos e vista e amadurecemos como leitores. Eventualmente, até descobrimos a pronuncia correta de uma palavra ou nome. Por fim, tudo isso potencializa o poder da leitura.

Para ler mais e melhor cultive seus amigos leitores.

“A morte é uma sacanagem, sou contra”, diz Luis Fernando Verissimo em entrevista

0

Giuliana de Toledo, na Folha de S.Paulo

Há pouco mais de um mês de volta à sua casa, em Porto Alegre, o escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo, 76, não se recuperou totalmente do período de 24 dias de internação hospitalar –metade dele na UTI– em função de uma gripe que evoluiu para um quadro de infecção generalizada em novembro de 2012.

Do hospital, além da mobilidade prejudicada, ele trouxe lembranças de devaneios provocados pela medicação recebida.

“Tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez”, brinca.

O escritor Luis Fernando Verissimo (Zanone Fraissat/Folhapress)

O escritor Luis Fernando Verissimo (Zanone Fraissat/Folhapress)

No início deste mês, Verissimo voltou a publicar suas crônicas (nos jornais “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e outros pelo país). Faz tratamento intensivo de fisioterapia e espera pelo dia em possa voltar a tocar sax, instrumento que o acompanha desde a adolescência.

Leia a entrevista que o escritor deu à Folha, por e-mail.

*
Folha – Como está sendo o processo de recuperação? O sr. já recuperou a mobilidade ou ainda faz tratamento?
Luis Fernando Verissimo – Faço fisioterapia quase todos os dias. Já reaprendi a levantar, andar e sentar. Correr na São Silvestre ainda vai levar algum tempo.

Como tem sido sua rotina desde então?
A maior mudança foi do computador, que trouxeram para a parte de cima. Assim eu não preciso descer a escada para a toca no porão [como chama o escritório no subsolo de sua casa] onde normalmente trabalho.

Existe algo de que o sr. esteja privado a contragosto depois desse susto?
As privações são mais decorrentes da diabetes, não têm nada a ver com o ataque viral. Pudim de laranja, nunca mais.

O sr. já voltou a tocar sax?
Ainda não peguei o sax, mas acho que o fôlego não vai faltar. Os pulmões estão bem. É só eu conseguir ficar de pé.

A doença afetou a sua percepção sobre a vida? Em reportagem da Folha de novembro de 2011, o sr. disse que a morte é “uma injustiça”. Segue sendo essa a sua visão?
A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.

Além dos delírios descritos na primeira crônica após a alta (“Desmoronando”), teve outros durante a internação? Foram sempre angustiantes?
O problema é que eu não conseguia distinguir alucinação de realidade. Ouvia conspirações à minha volta, meu espírito, ou coisa parecida, andou até em Pelotas, que fica a 200 quilômetros de Porto Alegre, e tenho quase certeza de que não dancei uma valsa com a enfermeira que me ajudou a sair da cama pela primeira vez, na UTI.

O sr. pretende contar mais sobre esse período de internação nos seus textos?
Não. Mas, estranhamente, comecei a apelar para reminiscências quando recomecei a escrever. Talvez por uma vontade inconsciente de começar de novo, do passado.

Sentiu alguma dificuldade especial para voltar a escrever?
Dificuldade, exatamente, não. Mas não vou dizer que fazer crônica é como andar de bicicleta, a gente não desaprende. A analogia é boba. Nem andar de bicicleta é como andar de bicicleta. Sempre é preciso recuperar o equilíbrio.

Em dezembro, o seu livro “Jazz” saiu apenas em versão digital pela editora Objetiva. Em 2011, o sr. disse que o livro eletrônico “não é nada do que a gente gosta num livro”, porque lhe falta calor humano. O sr. gostou do resultado da publicação? Já adotou a leitura em dispositivos eletrônicos?
Ainda não aderi ao e-book, se é assim que se chama, e confesso que nem sabia que o “Jazz” eletrônico já tinha sido publicado. Mas não sou um bom exemplo. Ainda não aderi nem ao celular.

Há previsão de lançamentos para este ano?
A Objetiva quer republicar “A Mancha” [conto sobre a ditadura militar brasileira], que saiu há algum tempo pela Companhia das Letras com textos sobre o mesmo tema do Moacyr Scliar, do Zuenir Ventura e do [Carlos Heitor] Cony. A ideia é relançar “A Mancha” com mais três ou quatro contos meus. Ainda neste ano. Os contos adicionais são tão inéditos que ainda não foram escritos. Não tratarão do mesmo tema de “A Mancha”. Ou tratarão, não sei. Talvez um deles seja uma espécie de paródia do “Lolita” do [Vladimir] Nabokov. Veremos.

Go to Top