Contando e Cantando (Volume 2)

Posts tagged Sadomasoquismo

Banidos, proibidos e queimados na fogueira

0

Publicado por Rolling Stone Brasil

1Não precisa de nenhum grau de clarividência para adivinhar que uma trilogia de apelo jovem que fala de sadomasoquismo e bate recordes de venda, no mínimo, levantaria sobrancelhas em semblantes mais conservadores. De fato, Cinquenta Tons de Cinza, da escritora britânica E L James, está dando o que falar. Os livros contam a história de um relacionamento de submissão/domínio entre uma estudante e um bilionário. Grupos de diversos lugares já se manifestaram contra a obra, e uma entidade de auxílio às mulheres que ajuda vítimas de violência doméstica anunciou uma queima de exemplares da obra no dia 5 de novembro.

Mas não são só livros de conteúdo sexual que foram banidos, proibidos, queimados e repudiados pela sociedade. Bruxaria, crítica religiosa, comportamento subversivo e outros temas (além do uso de expressões chulas, mesmo que dentro de um contexto) também já foram vítimas de censura, que armam fogueiras para os títulos, proíbem a existência deles nas bibliotecas públicas e condenam as escolas que incentivam sua leitura. Foram dezenas e dezenas de casos. Relembre alguns mais emblemáticos e que comece a caça às bruxas!

 

 

1

 

 

Saga Harry Potter, de J. K. Rowling – Livros que envolvem bruxaria enfrentam preconceito e não é pouco. Os religiosos mais fervorosos, que colocam no mesmo balaio os feitiços de Hermione e rituais que sacrificam recém-nascidos, caem em cima. E a regra é, quanto mais o sucesso literário, mais intensa é a caçada a ele, de forma que a American Library Association (Associação Americana de Bibliotecas) divulgou uma lista com os livros mais banidos do século e a série de Rowling estava em primeiro lugar.

 

 

 

 

 

 

 

1

 

 

Ratos e Homens, de John Steinbeck – O clássico de 1937, escrito pelo autor vencedor do Nobel John Steinbeck, conta a história trágica de George Milton e Lennie Small, dois homens simples e deslocados que migram de um lugar para o outro atrás de trabalho na área rural. A história se passa na Califórnia durante a Grande Depressão. A obra faz parte da lista de leituras obrigatórias de muitas escolas, mas desde aquela época é alvo frequente de censores, que repudiam a vulgaridade e a linguagem racial ofensiva do texto. A acusação principal é de que o livro promove a eutanásia (sem detalhes para não fazer spoiler). Foram 54 objeções ao título desde que ele foi publicado.

 

 

 

 

1

 

 

As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain – O livro saiu no Canadá, Reino Unido e Estados Unidos em 1885. Desde então, os norte-americanos encrencam com ele. Foi banido de muitas bibliotecas, recebendo críticas a respeito de como a linguagem era chula, obscena e, em geral, muito deselegante. Fosse hoje em dia, essa crítica viraria meme. Seu “livro-irmão” As Aventuras de Tom Sawyer passou pelos mesmos apuros.

 

 

 

 

 

 

1

O Apanhador no Campo de Centeio, de JD Salinger – Poucos livros trazem histórias tão curiosas em seus bastidores como esse, cujo autor se tornou notoriamente recluso posteriormente (e até o fim da vida), que nunca pôde virar filme e foi acusado até de ter tido influência no assassinato de John Lennon. Retratando a angústia juvenil de forma única, foi publicado em 1951 e sofreu críticas logo de cara. Entre 1961 e 1982, foi o livro mais censurado em escolas e bibliotecas em todos os Estados Unidos. Em 1960, uma professora foi demitida por dar o livro como leitura de classe, gerando comoção – ela foi recontratada, posteriormente. Em 1981, foi tanto o livro mais censurado, quanto o segundo título sobre o qual mais se deu aulas nas escolas públicas norte-americanas. Ele figura constatemente na lista anual da American Library Association até hoje. Os protestos dizem respeito, na maior parte, à linguagem vulgar usada pelo protagonista, Holden Caufield, referências sexuais, palavrões e o questionamento de códigos morais e valores familiares, bem como o “encorajamento da rebeldia” e o incentivo ao mundo de bebidas, cigarro, promiscuidade etc. A perseguição chegou a causar o efeito contrário – havia listas de espera para pegar o livro emprestado, em alguns momentos da história.

Um elemento que não ajudou a causa do livro foi quando Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, foi preso logo após o crime e tinha com ele uma cópia da obra de Salinger. Robert John Bardo, que perseguiu e matou a atriz Rebecca Schaeffer, e John Hinckley, Jr., que atentou contra a vida de Ronald Reagan, também eram grandes fãs do romance.

 

1

 

 

Crepúsculo, de Stephenie Meyer – Se os bruxinhos teen caíram nas garras da proibição, que chances tinham as criaturas mortas e chupadoras de sangue de escaparem ilesas? Os “problemas” com a saga, de acordo com a ALA, giram em torno dos mesmos tópicos de sempre: “explícito sexualmente” e “inapropriado para a idade do público alvo”. Os livros aparecem na lista da ALA desde que o primeiro volume chegou ao mercado mas, curiosamente, nenhuma das obras da saga está no ranking mais recente, de 2011.

 

 

 

 

 

 

1

 

 

Lolita, de Vladimir Nabokov – Sexo? Sim. Incesto? Sim. Menor de idade com apelo sexual? Sim. O autor russo caprichou nos conteúdos socialmente proibidos em seu livro mais conhecido. Tanto que ele nem estava conseguindo publicar a obra na Rússia. Encontrou uma editora na França que topou o desafio, em 1955. A obra foi logo considerada pornografia pura. Ainda assim, se espalhou pela Europa e alcançou os Estados Unidos três anos depois. Em cada país que chegava, sofria algum tipo de censura.

 

 

 

 

 

1

 

 

Catch-22, de Joseph Heller – O romance satírico se passa no final da Segunda Guerra Mundial. Ele começou a escrevê-lo em 1953, mas a obra só foi publicada oito anos depois. A expressão “Catch-22” entrou para a cultura pop, posteriormente, como sinônimo de uma “situação problemática para qual a única solução é negada pelas circunstâncias inerentes ao problema ou por alguma regra”. Mal traduzindo e simplificando, é um belo de um beco sem saída. A primeira grande razão para ele ter sido banido foi o uso constante da palavra “puta” para se referir às mulheres.

 

 

 

 

 

1

 

 

Versos Satânicos, de Salman Rushdie – A obra literária do escritor britânico de origem indiana Salman Rushdie saiu em 1988, retrata uma versão dele do Islã e faz críticas veladas a várias religiões. O autor foi acusado de “abusar da liberdade de expressão”, foi jurado de morte em fevereiro de 1989 em uma fatwa (edito religioso) do aiatolá Khomeini, dirigente espiritual do Irã. Rushdie acabou vivendo dez anos na clandestinidade.

 

 

 

 

 

 

 

1

 

 

Por favor Não Matem a Cotovia, de Harper Lee – Publicado em 1960, foi inicialmente contestado em 1977 (e temporariamente banido) por causa do uso das palavras “maldito” e “mulher puta”. Depois disso, foram mais dezenas de contestações de bibliotecas e escolas, tanto por causa de expressões específicas, quanto por causa do conteúdo. Retratando um acontecimento marcante em uma cidade sulista na década de 30, o livro de fato traz um retrato doloroso do racismo e muitas das expressões usadas não são nada politicamente corretas. Mas fazem parte do retrato que a autora pinta de uma sociedade terrivelmente imbuída de preconceito.

 

 

 

 

dica do João Marcos

Juiz de Macaé manda apreender livros eróticos nas livrarias da cidade

0

Publicado no Última Instânciacapa 15.6x23 aberta.indd

A Justiça do Rio de Janeiro no município de Macaé apreendeu livros eróticos à venda nas livrarias da cidade. Na segunda-feira (14/1), comissários da Vara de Família, da Infância, da Juventude e do Idoso foram a livrarias de Macaé e recolheram obras consideradas impróprias para menores de 18 anos e que não estavam em embalagens lacradas, como determina o artigo 78 do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente).

A Ordem de Serviço do juiz da Segunda Vara da Família, da Infância, da Juventude e do Idoso de Macaé, Raphael Baddini de Queiroz Campos, foi motivada pela trilogia “50 Tons de Cinza”, da britânica E. L. James, que já vendeu 40 milhões de cópias em todo o mundo. Rotulado de “pornô para mães”, “50 Tons de Cinza” narra a relação entre uma estudante e um bilionário com um festival de cenas de sexo explícito e sadomasoquismo. Diante do sucesso editoral, os direitos para o filme já foram comprados por Hollywood por um valor estimado em US$ 5 milhões. No Brasil, a trilogia foi publicada pela Editora Intrínseca e lidera o ranking das obras mais vendidas. Como é umbest-seller os livros são folheados na entrada das livrarias.

Em seu argumento, o juiz afirma que os livros com material pornográfico e só podem ser vendidos “lacrados e com classificação indicativa na capa”, ou seja, com a advertência de que são proibidos para menores de 18 anos. E determina a “fiscalização com devida aplicação da penalidade administrativa nos casos de constatação de infração”.

Na decisão, assinada no último dia 11, Campos determinou a apreensão dos títulos “Cinquenta Tons de Cinza”, Cinquenta Tons Mais Escuros” “ e “Cinquenta Tons de Liberdade”. Porém, quando os comissários entraram na Livraria Nobel de Macaé, todos estavam esgotados. Como a Ordem de Serviço determinava também o recolhimento de “outros [títulos] da mesma natureza e espécie, seja em meio físico ou digital, em língua nacional ou estrangeira”, foram apreendidos outras obras, entre as quais “Algemas de seda” e “50 versões de amor e prazer”, lançamentos da Geração Editorial inspirados no sucesso de “50 Tons”. “50 versões de amor”, por exemplo, é uma coletânea de 50 contos eróticos escritos por 13 autoras brasileira, organizada pelo professor de literatura da UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e escritor Rinaldo de Fernandes.

“Por ‘sorte’ já tínhamos vendido todos os livros da trilogia citada e a nova remessa encontrava-se em trânsito. Mas os comissários fizeram uma busca na loja e apreenderam outros títulos considerados por eles da ‘mesma natureza e espécie’”, afirmou Carlos Eduardo Coelho, proprietário da Livraria Nobel de Macaé.

A Geração Editorial informou que, seguindo a determinação do Ministério da Educação, informa devidamente, nas capas dos seus livros eróticos, que a leitura deles é recomendável para maiores de 18 anos. A editora ainda afirmou que “tem a preocupação de não expor imagens explícitas nas capas e no material de divulgação dessas obras.”

Na Ordem de Serviço n° 01/2013, expedida pelo magistrado, também é citado “que é dever de todos prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente e que ao Juiz da Vara Infância e da Juventude compete, de forma específica, prevenir acontecimentos de fatos que atentem contra estes direitos”. Na sequência, o juiz também solicita a fiscalização em bibliotecas e estabelecimentos de ensino, públicos e particulares, e similares.

Procurada pelo site Última Instância, a Intrínseca informou que só se pronunciará quando for notificada oficialmente. O juiz Campos não quis conceder entrevista.

dica da Fabiana Zardo

Go to Top