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Mia Couto aponta reinvenção do português como processo político

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Publicado por Folha de S.Paulo

Um dos mais celebrados autores de língua portuguesa na atualidade, o escritor moçambicano Mia Couto, vencedor do prêmio Camões e autor de livros como “Terra Sonâmbula”, participou de encontro no último sábado no teatro Geo, em São Paulo.

Em quase duas horas de conversa, Couto falou sobre sua maneira de reinventar a língua portuguesa ao escrever, seu envolvimento com a luta pela independência de seu país, a relação dos africanos com o Brasil e os estereótipos que rondam a África e a literatura do continente.

No evento organizado pela Folha, o Fronteiras do Pensamento, a Companhia das Letras e a Livraria da Vila, Couto foi entrevistado por Raquel Cozer, repórter e colunista da Folha, e Eliane Brum, escritora e colunista da revista “Época”.

O escritor Mia Couto durante o encontro / Zanone Fraissat/Folhapress

O escritor Mia Couto durante o encontro / Zanone Fraissat/Folhapress

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

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Língua portuguesa

Hoje o português é a língua nacional dos moçambicanos, mas a maior parte deles tem outra língua materna. É uma língua em constante movimento, e isso para um escritor é muito sedutor. Essa reinvenção da língua ocorre como um processo social.

João Guimarães Rosa foi uma grande influência. Era como um sinal verde que na literatura se pudesse fazer esse processo de reinvenção da língua. É a reinvenção da nação como linguagem. E Guimarães dá conta desse Brasil ameaçado pelo moderno. É uma coisa que vivemos em Moçambique. A linguagem vira campo de resistência.

Força das mulheres

É como se as personagens femininas se impusessem em minha obra. Mesmo sendo de uma geração em que era preciso dar provas de ser homem, eu venci o medo de encontrar essa mulher em mim.

Eu escutava as histórias que as mulheres contavam sentado fazendo o dever de casa no chão da cozinha. Eu me fiz escritor ali. Via as suas saias passando, ondulando. As mulheres produziram em mim essas memórias.

Imagem da África

O Brasil tem uma ideia muito mistificada da África. A gente imagina que, por ser negro, um brasileiro teria mais intimidade com a África, mas isso é uma bobagem.

Essa visão reducionista e simplificada também é uma coisa que os próprios africanos adotaram. Muitos deles traduziram uma África que os próprios europeus criaram.

Não houve a África do bom selvagem, em que todos viviam em harmonia até a chegada dos colonizadores. Houve uma mão de dentro até na escravatura, cumplicidades entre africanos e europeus.

Quando [os escritores] saímos do estereótipo da África com seus bichos e feiticeiros, enfrentamos outros preconceitos. Mas a África tem de fazer esse esforço.

Prosa e poesia

Sou mais poeta quando escrevo prosa do que quando escrevo poesia. Quando vejo algo que me espanta, escrevo até num guardanapo, em notas de dinheiro, em coisas que nem posso dizer. Tem de haver uma urgência naquilo.

Teor político

Minha literatura é política porque quero dizer coisas com a intenção de produzir um mundo melhor. Fiz parte de uma geração que lutou pela independência e venceu. Tem esse sentimento épico.

Alunos do Colégio Bandeirantes (SP) vestem saias durante protesto

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Publicado por Folha de S.Paulo

Mais de 50 alunos e alunas do colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, foram à escola vestindo saia na manhã desta segunda-feira (10).

Foi um protesto pelo fato de o colégio ter censurado o comportamento de dois alunos que usaram saia, um na quinta-feira (6), durante uma festa junina, e outro na sexta (7).

Batizado de “saiaço”, o ato foi articulado na sexta, depois que um aluno do terceiro ano do ensino médio, de 17 anos, foi mandado de volta para casa por usar saia.

Ele, por sua vez, havia se vestido assim em apoio a um colega censurado no dia anterior por ir de menina em uma festa junina. Esse aluno não foi punido, mas a diretoria pediu que ele colocasse roupas “mais adequadas”.

O estudante diz que foi retirado da sala e levado à coordenadoria do colégio, na penúltima aula do dia. Ouviu que o traje ia contra os “costumes”.

Cerca de 50 estudantes resolveram usar saia durante o protesto ocorrido na manhã de segunda-feira no colégio

Cerca de 50 estudantes resolveram usar saia durante o protesto ocorrido na manhã de segunda-feira no colégio

Mauro de Salles Aguiar, diretor-presidente da instituição, que cobra mensalidade média de R$ 2.400 e tem entre seus ex-alunos o prefeito Fernando Haddad (PT-SP), disse que ficou surpreso ao ver o aluno de saia.

“Confesso que inicialmente interpretei como atitude de confronto contra a escola”, disse o diretor. “Tenho mais de 60 anos. Um rapaz vestido de saia não é uma coisa que você espera ver na Vila Mariana [bairro de classe média] às 10h e pouco da manhã. Ele não está numa galeria de arte, está numa escola.”

“Me perguntaram se não estava preocupado com o que meus amigos iriam dizer”, afirmou o jovem. “Respondi que não via problema algum, porque acho algo normal.”

SEGURANÇA

O diretor do colégio disse à Folha que a proibição do uso de saia pelo estudante durante as aulas foi feita para protegê-lo. No Bandeirantes, os estudantes podem sair para a rua nos intervalos das aulas.

“É altamente irresponsável e leviano por parte dos pais expor o filho a esse laboratório de experiências sociais. Se eles não têm preocupação com a segurança, o colégio tem que ter”, diz ele.

“Se estavam tão preocupados com sua segurança, não teriam mandado ele embora para casa”, rebate a mãe, que foi buscá-lo antes do término das aulas. O garoto pediu para esperá-la na rua, e o colégio deu a autorização.

“Não vejo como uma saia longa, até os pés, poderia ofender alguém. A atitude do meu filho é um reflexo do movimento que discute a indumentária por gênero.”

O diretor diz haver um grupo de trabalho no colégio estudando a questão da diversidade. “A instituição não é isenta de preconceitos, porque ninguém é, mas está procurando entender e se adaptar às mudanças.”

O colégio enviará carta com recomendação de que os alunos não adotem o vestuário, mas permitindo o uso de saias, desde que a responsabilidade jurídica pela segurança do adolescente seja transmitida aos pais, por meio de termo de compromisso.

USP

No dia 24 de abril, Vitor Pereira, 20, calouro do curso de têxtil e moda da USP (Universidade de São Paulo), vestiu uma saia e foi à aula, no campus da zona leste de São Paulo. Por isso, foi alvo de críticas, e chegou a receber ofensas no Facebook.

Pereira, então, decidiu criar uma página na rede social –chamada “Homens de saia”– para defender o uso da peça por ambos os gêneros e ganhou vários adeptos na universidade.

Em manifestação contra as ofensas à Pereira, estudantes da USP organizaram o protesto “USP de saia!”, e decidiram ir às aulas e passar o dia de saia.

No dia 16 de maio, alunos se reuniram em campi da USP vestindo a peça de roupa para apoiar a causa.

Carta divulgada por estudantes durante o protesto ocorrido no Colégio Bandeirantes contra o uso de saias para alunos (Divulgação)

Carta divulgada por estudantes durante o protesto ocorrido no Colégio Bandeirantes contra o uso de saias para alunos (Divulgação)

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