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Posts tagged Salman Rushdie

Inclusão de autores americanos no Man Booker Prize causa polêmica

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Boatos dizem que principal prêmio literário da comunidade britânica vai aceitar escritores dos EUA
Críticos reclamam que láurea vai perder a identidade

Publicado em O Globo

RIO – O mundo literário britânico ficou atordoado com a notícia (ainda não confirmada oficialmente) que o Man Booker Prize vai permitir a participação de escritores americanos a partir do próximo ano, com autores questionando se o prêmio não vai perder sua “identidade” ou mesmo impedir o aparecimento de novos talentos britânicos. O Man Booker, que hoje aceita a participação de autores do Reino Unido, da Irlanda e da comunidade britânica, é o mais prestigioso prêmio da literatura da terra da rainha. A lista de vencedores inclui nomes como Salman Rushdie, Iris Murdoch e J.M. Coetzee. No domingo, surgiu a informação que romancistas dos Estados Unidos serão permitidos pela primeira vez, a partir da próxima edição. Jim Crace, finalista da edição deste ano, com seu romance “Harvest”, se pronunciou sobre o assunto.

— Em princípio, eu deveria achar que todos os prêmios serem abertos para todos. Mas acho que eles precisam ter sua própria personalidade e, às vezes, essa personalidade é definida pelas limitações dos prêmios — disse.

Uma porta-voz do Man Booker, no domingo, não quis comentar o assunto, mas afirmou que mudanças nas regras do prêmio seriam anunciadas esta semana.

— Abrir o prêmio para todos que escrevem em inglês daria um panorama fantástico da literatura escrita nessa língua, mas faria o prêmio perder o foco. Gosto muito da ideia de uma comunidade britânica. Há algo disso que se perderia caso o prêmio seja aberto para autores americanos — afirmou Jim Crace.
O locutor da Rádio BBC Melvyn Bragg acrescentou que o prêmio perderia sua “distinção”.

Susan Hill, finalista da edição de 1972 e membro do júri do Man Booker de 1975 a 2011, disse não ver razão para a mudança nas regras.

— Por que não podemos ter um prêmio só nosso? De todo modo, tenho pena dos pobres jurados. São eles que ficam sob pressão — disse Susan.

Kazuo Ishiguro, vencedor do prêmio em 1989, por “Os resíduos do dia” (Companhia das Letras), ouviu sobre as mudanças “há alguns meses, por alguém muito antigo da organização do prêmio, e o argumento era que as normas não eram rígidas o suficiente”. Ishiguro é a favor das mudanças.

— No começo, era bastante ambíguo. Por um lado, é triste, por conta da tradição do prêmio. Posso entender que algumas pessoas sintam-se um pouco ofendidas, mas a sociedade mudou, não faz mais sentido dividir o mundo literário dessa forma — afirmou o autor.

A mudança nas regras do prêmio de £ 50 mil (R$ 181 mil) é uma surpresa, uma vez que o diretor literário da Booker Prize Foundation, Ion Trevin, botou panos quentes sobre o boato, na semana passada.

— É um dos assuntos que sempre são discutidos. Mas, no momento, não temos planos de anunciar nenhuma grande mudança — disse Trewin na ocasião.

Fontes sugeriram que os organizadores do prêmio acham a ausência dos autores americanos anacrônica. O Man Booker também pode mudar as regras como reação à criação do Folio Prize, aberto para todas as nacionalidades, que acontece pela primeira vez em 2014.

— Acho que é uma reação ao Folio Prize. Minha preocupação é o grande número de romances que podem ser eleitos. Teria que haver um método para decidir que livros seriam levados ao júri, e o Man Booker perderia sua abertura — disse David Lodge, finalista em 1984.

A lista com os finalistas de 2013 foi anunciada semana passada. Jim Crace era o único britânico. Os críticos da mudança acham que ficaria ainda mais difícil para romancistas britânicos serem notados.

Alguns escritores reclamaram no Twitter. Nikesh Shukla, autor de “Coconut unlimited”, disse que autor como ele seriam “empurrados para fora do mercado.” Stuart Evers, que escreveu “Is this is home”, afimou que os autores da comunidade britância seria prejudicados. Will Wiles, autor de “Care of wooden floors”, chamou a mudança de “um chute na cara”.

Comenta-se que a lista de finalistas deste ano já aponta a inclusão de autores americanos, uma vez que quatro escritores na final moram e trabalham nos Estados Unidos. Uma das autoras, Jhumpa Lahiri, descedente de indianos nascida em Londres, é considerada uma autora americana.

‘Não queria fazer carta de amor para Nabokov’, afirma Lila Azam Zanganeh

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Escritora falou sobre ‘entrevista’ com russo: ‘Sonhei várias vezes com ele’.
Francesa foi o centro das atenções de mesa na manhã desta sexta, na Flip.

Candidata a “musa” da Flip a francesa Lila Azam Zanganeh (Foto: Flavio Moraes/G1)

Candidata a “musa” da Flip a francesa Lila Azam Zanganeh (Foto: Flavio Moraes/G1)

Letícia Mendes, no G1

Teses das obras do russo Vladimir Nabokov e do francês Roland Barthes parecem temas menores para uma discussão perto da presença da autora francesa Lila Azam Zanganeh, que participou da mesa “O prazer do texto”, na manhã desta sexta-feira (5), na 11ª Flip, ao lado do brasileiro Francisco Bosco.

O mediador Cassiano Elek Machado apontou as semelhanças entre os dois convidados: “Ambos têm 36 anos, são professores e têm desenvolvido novas formas de praticar o gênero ensaio”, disse. Porém, a franco-iraniana foi o centro das atenções do debate.

Lila é filha de iranianos, mas nasceu em Paris. Quando bebê, durante a Revolução Islâmica de 1979, sua mãe ficou presa em Teerã e quase não conseguiu deixar o país. Aos 20 anos, se mudou para os Estados Unidos e, com 23, já ministrava aulas de literatura e cinema em Harvard.

Ela colaborou com os principais jornais e revistas do mundo e seu livro, “O encantador: Nabokov e a felicidade”, foi elogiado por nomes como Orhan Pamuk e Salman Rushdie. Segundo o mediador, Lila viaja frequentemente a São Paulo, é fã do molho vinagrete, do limão verde, do bar Mercearia São Pedro e seu livro favorito é “Contos de Nabokov”. A escritora ainda é fluente em seis línguas e conversou com o público da Flip em português.

Francisco Bosco participa da mesa denominada 'O prazer do texto' (Foto: Flavio Moraes/G1)

Francisco Bosco participa da mesa denominada ‘O
prazer do texto’ (Foto: Flavio Moraes/G1)

Quando Nabokov morreu, Lila tinha apenas dez meses de idade, mas isso não a impediu de “entrevistá-lo” para seu livro. “Sonhei várias vezes com ele. Ele não era perfeito, tinha muitas ideias erradas, e não gostava de escritoras e tradutoras mulheres. Eu queria falar com ele. Dedicar um livro a um artista que a gente ama não pode ser somente uma carta de amor, como “Nabokov, te adoro”. Eu queria saber como, depois de dois exílios, falecimento do pai e outras tragédias, ele encontrou outra vez a felicidade nos EUA”, afirma.

Lila conta quando teve que ler seu livro para o filho de Nabokov, Dmitri, para que ele pudesse conceder os direitos autorais. “Ele estava muito doente e tive que ler em voz alta. Foi a coisa mais edificante da minha vida. Ele ficou bravo e disse ‘Por que você inventou essa coisa?”, mas no final ele me ajudou”.

Por sua vez, Bosco, autor de “Alta ajuda”, relacionou o tema da mesa com as manifestações que estão acontecendo pelo país. “Barthes tem uma relação forte com a política. No livro ‘O prazer do texto’, ele declara uma renúncia ao conflito. A linguagem dos protestos é a dos cartazes, com palavras de ordem, e a de Barthes é subversiva e sutil”, disse.

Lila Azam Zanganeh é filha de iranianos, nasceu em Paris e vive agora nos EUA (Foto: Flavio Moraes/G1)

Lila Azam Zanganeh é filha de iranianos, nasceu em Paris e vive agora nos EUA (Foto: Flavio Moraes/G1)

Escritor Salman Rushdie narra tensão dos anos de condenação e perseguições

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Roberto Midlej, no Correio

Era 14 de fevereiro de 1989, Dia dos Namorados na Inglaterra. O escritor anglo-indiano Salman Rushdie, que vivia em Londres, não chegou a festejar a data com a mulher, a romancista americana Marianne Wiggins. O casamento deles, que tinha pouco mais de um ano, já estava em crise e o clima não permitia comemorações.

A vida de Rushdie, 65 anos, ficaria muito pior naquele mesmo dia, quando ele recebeu uma ligação de uma jornalista, lhe dando uma notícia que transformaria sua vida num imenso “túnel escuro”, como ele mesmo classifica. A repórter perguntou: “Como você se sente sabendo que foi condenado à morte pelo aiatolá Khomeini, líder supremo do Irã?”. Rushdie respondeu parecendo menos preocupado do que realmente estava: “Não me sinto bem”.

Começava naquele dia um período de trevas na vida do escritor, que duraria quase dez anos. A condenação acontecera porque, segundo o aiatolá Khomeini (1900-1989), Rushdie, no romance Os Versos Satânicos, havia blasfemado contra o líder dos muçulmanos, Maomé.

O livro Joseph Anton – Memórias (Companhia das Letras/R$ 54,50/616 págs), com lançamento mundial, trata desse período após a condenação, chamada de fatwa. A autobiografia ganhou esse título porque, durante o período em que viveu sob a condenação, Rushdie usou o pseudônimo Joseph Anton.

O nome, além de contribuir para a sua proteção, servia para homenagear dois autores: o inglês Joseph Conrad (1857- 1924) e o russo Anton Tchecov (1860-1904).

Nômade
Enquanto a fatwa permaneceu em vigor, Rushdie viveu um período de extrema privação. Os contatos eram raros até com o filho, Zafar, que tinha nove anos quando o escritor soube que sua cabeça estava a prêmio. Ele passou a viver como nômade, mudando-se de cidade com frequência e sob proteção da Scotland Yard, a poderosa polícia londrina.

Com o apoio do governo britânico, Rushdie se tornou a terceira pessoa mais protegida da Inglaterra, atrás somente da Rainha Elizabeth e do primeiro-ministro britânico. Ele passou a ter à disposição dois carros, dois motoristas e dois agentes de proteção que permaneceriam ao seu lado durante anos.

O livro, como uma biografia tradicional, segue a ordem cronológica e conta a vida de Rushdie desde o período em que viveu na Índia, passando pela vida de estudante na Inglaterra e início da carreira profissional como publicitário após formar-se em história. Apaixonado por literatura, Rushdie decidiu deixar a carreira de redator numa agência publicitária, que lhe pagava muito bem, para se dedicar exclusivamente à escrita.

Projeção
Mais tarde, ele provou que tinha razão na troca. Já em seu segundo livro, Filhos da Meia- Noite, o autor venceu o Booker Prize em 1981, o mais importante prêmio da literatura de língua inglesa. Rushdie só ganhou grande projeção internacional com Os Versos Satânicos, não exatamente pela qualidade literária, mas pelas consequências que o livro lhe traria.

O período posterior à condenação de Rushdie toma mais de 80% da biografia e é aí que o autor acerta, já que isso é o que mais interessa ao leitor. Narrado como um romance, como ele mesmo reconhece, o livro, escrito em terceira pessoa, ganha toques de suspense e, embora saibamos desde o começo que Rushdie terminará vivo, em alguns momentos chegamos a duvidar disso, tamanha a tensão que ele cria.

E acabamos nos perguntando como ele sobreviveu, já que até um tradutor japonês de Os Versos Satânicos acabou assassinado. Sua sobrevivência, além de ter contado com a competência da polícia inglesa, teve, sem dúvida, uma boa dose de sorte.

‘Versos Satânicos’ não seriam publicados hoje, afirma Rushdie

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Salman Rushdie foi obrigado a se esconder em 1989 após reação ao seu livro ‘Os Versos Satânicos’

Publicado originalmente na BBC

O livro Os Versos Satânicos, que em 1989 provocou a ira de muçulmanos pelo mundo e levou o escritor Salman Rushdie a ter que viver escondido, não seria publicado hoje no atual clima de “medo e nervosismo”, segundo avalia o autor.

“Um livro crítico ao Islã dificilmente seria publicado hoje”, afirmou Rushdie em entrevista à BBC, em meio às manifestações antiamericanas no mundo islâmico deflagradas pela divulgação do vídeo Innocence of Muslims, considerado difamador contra o profeta Maomé.

Para o escritor indiano-britânico de 65 anos, a única maneira de resolver a questão é com os editores assumindo uma postura mais corajosa. “A única maneira de viver em uma sociedade livre é sentir que você tem o direito de dizer e fazer coisas”, diz Rushdie.

Muitos muçulmanos consideram Os Versos Satânicos blasfemos, e o livro ainda é proibido em diversos países, incluindo a Índia.

‘Efeito assustador’

Rushdie afirma que a proibição de seu livro e as ameaças contra sua vida criaram um “efeito assustador de longo prazo”.

Ele foi obrigado a viver vários anos escondido e sob proteção policial após o então líder supremo do Irã, aiatolá Khomeini, ter publicado uma fatwa (decreto religioso) pedindo a execução do escritor.

Publicação de ‘Os Versos Satânicos’ geraram protestos em países muçulmanos em 1989

Rushdie afirma que a perseguição a escritores permanece um problema sério em vários países muçulmanos, incluindo Turquia, Egito, Argélia e Irã.

“Se você observar a maneira como a livre expressão está sendo atacada pelo extremismo religioso, as coisas pelas quais essas pessoas são acusadas são sempre as mesmas – é blasfêmia, heresia, injúria, ofensa – é um vocabulário medieval”, afirma.

“Estamos em uma posição difícil, porque há muito medo e nervosismo por aí”, diz.

Ele cita como exemplo o fato de que na semana passada o canal de TV britânico Channel 4 foi obrigado a cancelar a exibição de um documentário intitulado Islam: The Untold Story (Islã: a história não contada, em tradução livre) após sofrer ameaças.

“O fato de que um documentário sobre o Islã pode ter sua exibição cancelada porque alguém teme suas consequências é uma indicação disso (do clima de medo)”, observa.

Otimismo

O autor observa, porém, que há alguns anos, no 20º aniversário da fatwa contra ele, muitas pessoas que haviam ajudado a organizar os protestos contra ele disseram aos jornais terem se arrependido de suas ações.

“Algumas pessoas pareciam aceitar o argumento da livre expressão e entendiam que se tinham o direito de dizer como se sentiam, era errado evitar que as pessoas que tinham sentimentos diferentes pudessem se expressar”, diz.

“Se isso for correto, talvez possamos sair deste clima de medo”, diz.

O escritor se prepara para lançar um livro de memórias intitulado Joseph Anton (o nome que escolheu – em referência aos seus autores preferidos, Joseph Conrad e Anton Chekhov – a pedido da polícia, no período em que viveu sob proteção), no qual conta como foi forçado a viver escondido após a fatwa de Khomeini em 1989.

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