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5 livros estrangeiros para ler nas férias

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Fonte: Shutterstock

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Veja o que você pode ler para se distrair e aumentar sua bagagem cultural

Publicado no Universia Brasil

A leitura é algo extremamente importante para aumentar a bagagem cultural dos leitores e até mesmo fazer com que eles escrevam melhor. Muitos títulos tornam-se muito famosos em diversos locais do mundo e, ao entrar em contato com eles, os leitores passam a ter uma experiência sobre novas culturas por meio das páginas dos livros. A seguir, confira 5 livros para ler nas férias:

1 – O Nome da Rosa, Umberto Eco

Esse livro italiano foi traduzido para diversas línguas e conseguiu até mesmo uma adaptação cinematográfica em 1986. O enredo do livro trata sobre uma morte em um monastério italiano na idade média, relatando um pouco sobre a realidade da época e fazendo com que o leitor aprenda mais sobre esse universo.

2 – O Pequeno Príncipe

A obra francesa é um clássico da literatura infantil, mas também encanta muitos adultos. O livro é mundialmente conhecido e foi traduzido para diversos idiomas. Escrito por Antoine de Saint-Exupery, o foco é tratar de amor, amizade, solidão e perdas.

3 – Ensaio Sobre a Cegueira

O livro de José Saramago, autor português ganhador do Prêmio Nobel, fala sobre uma cidade que é acometida por uma cegueira coletiva, da qual ninguém consegue escapar. Por meio de suas páginas, o autor encanta os leitores e faz com que aprendam muito mais sobre a vida em si.

4 – As Viagens de Gulliver

Escrito pelo irlandês Jonathan Swift, o livro tornou-se bastante famoso em muitos luagres de mundo, sendo que muitas pessoas conhecem, ao menos, o título da história criada por Swift. O enredo fala sobre um rapaz, Lemuel Gulliver, que gostava muito de viajar. Em uma de suas viagens, ele é pego de surpresa por uma tempestade e acaba chegando a uma ilha habitada por pessoas muito pequenas. Nessa ilha, ele passa por diversas aventuras.

5 – Meu Nome é Vermelho

Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, o autor turco Orhan Pamuk escreveu o livro que trata sobre um assassinato misterioso. Os leitores que gostam de suspense, amor e tensões tendem a se envolver facilmente com essa obra.

5 livros para compreender a miséria humana

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Autores como Fiódor Dostoievski, José Saramago, Graciliano Ramos, Victor Hugo e Paulina Chiziane escreveram obras fundamentais para entendermos tragédias que se abateram (e ainda se abatem) sobre a humanidade

Marcelo Hailer na Revista Forum

A classificação de um produto cultural enquanto “clássico” não se dá à toa. Uma série de fatores estão envolvidos em torno da obra que fazem dela atemporal e fundamental para se compreender eventos, trágicos ou não, que aconteceram durante a história. No momento presente vivemos uma série de acontecimentos que são alvos de inúmeras análises – jornalísticas, sociológicas e históricas – tais como os novos conflitos de guerra, seca no Brasil, grupos políticos da extrema esquerda e direita que disputam a narrativa político-social e, claro, a concentração de riqueza e a miséria inerentes ao sistema capitalista.

Por mais que os temas acima citados sejam contemporâneos, eles são recorrentes na história do mund, seja no Ocidente, na Ásia ou na África. E todos eles já foram fontes de inspiração para obras primas que nos trazem algum entendimento das atitudes dos considerados “humanos” e que, inevitavelmente, levam à tragédia. Para tanto, selecionamos cinco autores e uma obra respectiva que trata de questões presentes no cotidiano, seja ele político, jornalístico ou social.

1 – Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski

Obra fundamental para quem deseja compreender e acompanhar os resultados de quando duas figuras ávidas pelo poder travam uma disputa na qual as pessoas são meramente instrumentos para tal objetivo. De acordo com especialistas na obra de Dostoiévski, Os Demônios é uma das poucas, senão a única obra do escritor russo que teve como ponto de partida uma tragédia real: o assassinato do estudante Ivanov por um grupo de niilistas liderados Nietcháiev, em 1869.

Todo o ambiente político de então é recriado por Doistoiévski de maneira magistral e, a partir dos personagens Kirilov, Chigalióv e Piotr Stiepánovitch, temos a representação do intelectual pessimista e dos fanatismos políticos perpetrados pelos grupos de Chigalióv e Stiepánovitch. Temas como fundamentalismo religioso, fanatismo político e terror se fazem presente nesta obra prima. As análises críticas sobre o humano e a sua busca pelo poder são de uma atualidade perturbadora. Para historiadores, ao construir as personagens de Chigalióv e Stiepánovitch, Dostoiévski foi profético a respeito dos horrores cometidos em nome de Hitler e Stálin.

Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski
2 – Os Miseráveis, de Victor Hugo

Esta obra monumental do escritor francês Victor Hugo é fundamental não apenas para se compreender a questão da miséria humana, mas também para quem deseja ter acesso a críticas e percepções do período revolucionário que resultou na fundação do Estado francês. Inúmeras críticas tecidas pelo escritor podem ser muito bem adaptadas e trazidas para o atual contexto político, principalmente quando pensamos na atual fase da Europa e dos novos movimentos revolucionários.

Os Miseráveis não chamou apenas a atenção, à época, por conta de seu teor crítico, mas, principalmente, por ter como protagonistas um presidiário (Jean ValJean), uma prostituta (Fantine) e uma criança explorada por adultos (Cosette). Tal escolha de personagens foi considerado um escândalo, pois, à época, os romances apenas retratavam o cotidiano da realeza e da burguesia.

A partir da narrativa de Jean, Fantine e Cosette, Victor Hugo mergulha na hipocrisia humana e como está dividida entre “ambiciosos” e “invejosos” e que tal divisão é parte da cultura e, portanto, presente desde a educação infantil. Ao mesmo tempo em que o autor desnuda a “sociedade de bem”, ele dá voz aos sujeitos subalternos que passam ao largo da Revolução Francesa.

Os Miseráveis, de Victor Hugo

3 – Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Considerada a obra mais importante do movimento realista da literatura brasileira, Vidas Secas nunca esteve tão atual, principalmente quando pensamos que nos dias atuais o que mudou foi o mapa geográfico da seca retratado na obra. Se antes eram exôdos rurais, hoje o Brasil vive na iminência de um êxodo urbano.

Empurrados pela seca, a família de Sinhá Vitória e Fabiano empenha uma jornada em busca de meios à sobrevivência. Na obra, o que chama atenção é que, a única personagem humanizada e com sentimentos é a cachorra Baleia e também é a única que possui um nome. As outras personagens são referidas pelos cargos que ocupam ou posição genética na família, tais como filho mais novo.

Vidas Secas é um mergulho profundo na miséria humana no que diz respeito a explorar o próximo em situações de calamidade, tal como a seca. O que impressiona é a crítica de Graciliano Ramos: profética e atual.

Vidas Secas, de Graciliano Ramos

4 – O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

Como será que Jesus Cristo narraria a sua trajetória se lhe fosse dada esta oportunidade? É o que faz o escritor José Saramago em O Evangelho segundo Jesus Cristo, onde o Messias é o narrador de sua própria história na qual mitos bíblicos e crenças religiosas são desconstruídos.

Em tempos onde fundamentalistas religiosos ocupam cargos de poder no Brasil e em outros países, resgatar a obra de Saramago é de fundamental importância, principalmente quando lembramos da memorável cena onde Cristo estabelece um diálogo com o Diabo e Deus e fica sabendo do provável acordo entre as duas imagens referências da religião.

Além de toda a crítica à moral religiosa, principalmente a católica, reler O Evangelho… é de suma importância para compreendermos que, entre laicos e fundamentalistas, o acordo político vem antes.

O Evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago

5 – Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ventos do Apocalipse, ao lado de Neketcha – Uma história de poligamia, é considerada uma das obras mais controversas de Paulina Chiziane, onde a escritora moçambicana pesa a caneta para retratar os horrores da guerra de civil de Moçambique, que aconteceu entre 1977 e 1992 e onde a escritora atuou como voluntária para ajudar os feridos de guerra.

Na obra, Paulina Chiziane está mais interessada em discutir a relação e a destruição entre os irmãos moçambicanos do que as questões políticas. Ativista da revolução que libertou Moçambique da colonização portuguesa, Chiziane sempre declara que, à época, não se conformava que, depois de tanto lutar contra os colonizadores, moçambicanos iniciassem uma guerra contra… moçambicanos.

Com uma narrativa muito particular, Paulina Chiziane retrata os horrores da guerra civil que, segundo a autora, presenciou durante o conflito. Não existe bem ou mal, apenas guerra e miséria.

Ventos do Apocalipse, de Paulina Chiziane

Ilustração de capa: Emile Bayard (A jovem Cosette)

Exposição apresenta fotos de escritores feitas por Daniel Mordzinski em hotéis

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Entre os retratados na mostra que tem entrada gratuita estão Vargas Llosa, Borges, Saramago e Verissimo; veja galeria de imagens

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Mario Vargas Llosa deitado fazendo anotações. Agustina Bessa-Luís passando batom no banheiro. José Eduardo Agualusa sentado na cama, com a mala pronta. Salman Rushdie dentro da banheira, de roupa e comendo frutas. Essas cenas foram presenciadas, ou montadas, pelo fotógrafo Daniel Mordzinski ao longo de sua trajetória profissional – recheada de encontros com célebres escritores.

Uma exposição em São Paulo vai apresentar cerca de 50 fotografias tiradas por ele exclusivamente em hotéis. Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel, que já passou pelo festival Fliaraxá em 2014, fica em cartaz no Sesc Bom Retiro até o dia 8 de março. A curadoria é de Afonso Borges, idealizador do Sempre um Papo – série de encontros realizados com escritores em Belo Horizonte e também em São Paulo.

EXPOSIÇÃO QUARTOS DE ESCRITA – RETRATO DE ESCRITORES EM HOTEL

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor Mario Vargas Llosa, colaborador do Estado, foi agraciado com o Nobel em 2010

Daniel Mordzinski/Divulgação > O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O escritor argentino Jorge Luis Borges; livros escritos por ele com o amigo Adolfo Bioy Casares acabam de chegar às livrarias brasileiras

Daniel Mordzinski/Divulgação > Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Prêmio Nobel de 1998, José Saramago deixou um romance inacabado ao morrer, em 2010; Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas foi publicado no Brasil em 2014

Daniel Mordzinski/Divulgação > Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Cronista do Caderno 2, o escritor Luis Fernando Verissimo é um dos brasileiros retratados por Daniel Mordzinski

Daniel Mordzinski/Divulgação > O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação
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O angolano José Eduardo Agualusa é autor de Nação Crioula, entre outras obras; A Rainha Ginga, seu mais recente trabalho, será lançado no Brasil em abril

Daniel Mordzinski/Divulgação > Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Salman Rushdie, autor de Versos Satânicos, que lhe rendeu uma ameaça de morte e anos de reclusão

Daniel Mordzinski/Divulgação > Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação
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Um dos principais nomes da literatura portuguesa, Agustina Bessa-Luís é tema de outra exposição em São Paulo; até março, sua vida e obra estão em destaque no Museu da Língua Portuguesa

Daniel Mordzinski/Divulgação > A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Daniel Mordzinski/Divulgação
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A reclusa escritora Herta Müller, romena homenageada com o Nobel em 2009

Há retratos, ainda, de Eric Hobsbawm, Nadine Gordimer, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, José Saramago, Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Herta Müller e de brasileiros, como Luis Fernando Verissimo, cronista do Caderno 2, e João Paulo Cuenca, entre outros autores.

Daniel Mordzinski, também conhecido como o fotógrafo dos escritores, nasceu em Buenos Aires, mas vive em Paris há quase quatro décadas. Suas fotos já foram publicadas em veículos como Le Monde e El País e foram tema de exposição na Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Inglaterra, Grécia, França, México, Colômbia, Argentina e outros países.

Exposição – Quartos de Escrita – Retrato de Escritores em Hotel
Sesc Bom Retiro ( Alameda Nothmann, 185, tel. 3332- 3600)
Até 8 de março
De terça a sexta, das 9h às 20h30; sábados e domingos, a partir das 10h
Grátis

Último livro de Saramago, inacabado com a morte do escritor, chega às lojas

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‘Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas’ conta com textos de Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano

Despedida: Pilar del Rio e Saramago - PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP/2-11-2009

Despedida: Pilar del Rio e Saramago – PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP/2-11-2009

Bolívar Torres em O Globo

RIO — Antes mesmo de iniciar a escrita de “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”, uma reflexão sobre a indústria das armas, José Saramago já tinha decidido que esse seria seu último romance. Convicto de que sua obra literária estaria completa ao fim do processo, escolhera inclusive a frase com a qual desejava encerrar a sua trajetória de escritor.

“O primeiro capítulo, refundido, não reescrito, saiu bem, apontando já algumas vias para a tal história ‘humana’. Os caracteres de Felícia e do marido aparecem bastante definidos. O livro terminará com um sonoro ‘Vai à merda’, proferido por ela. Um remate exemplar”, anotou Saramago em seu computador, em setembro de 2009.

O “sonoro” xingamento, no entanto, nunca chegou a sair dos arquivos de anotações. Apesar da empolgação pelo projeto, Saramago empacou no terceiro capítulo do romance; debilitado pela doença, nunca mais o retomou, morrendo em junho de 2010. Um vislumbre do que poderia ser essa espécie de testamento literário do autor português, Prêmio Nobel de 1998, chega no fim desta semana às livrarias brasileiras (em Portugal, o livro será lançado num grande evento, nesta quinta-feira, no Teatro Nacional D. Maria, em Lisboa).

“Sou um escritor um tanto atípico”

A edição póstuma de “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas” (Companhia das Letras) traz as 22 folhas dos três capítulos iniciais deixados por Saramago, além de textos do ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera, do escritor italiano Roberto Saviano e do antropólogo brasileiro Luiz Eduardo Soares, e ilustrações do romancista alemão Günter Grass. Outro acréscimo são as anotações feitas ao longo do processo de escrita, que apontam possíveis caminhos para a trama e dão uma ideia do método de trabalho do autor no fim de sua vida.

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— Saramago tinha uma relação com a escrita que poderíamos chamar de profissional: nem dramas românticos nem sofrimentos mais ou menos literários — conta, em entrevista ao GLOBO, por e-mail, Pilar del Río, viúva do autor, tradutora do espanhol de vários de seus romances e presidente da fundação que leva seu nome. — Ele escreveu o livro como todos os outros, sem anseios e tensões, e com a mesma exigência de sempre. Saramago só começava a trabalhar se tivesse uma ideia clara do que queria contar e de como queria contar. Parte do livro já estava acabada, havia as anotações… Mas ele fez uma pausa para pesquisar e não pôde retomar a escrita.

“Sou um escritor um tanto atípico. Só escrevo porque tenho ideias”, costumava dizer Saramago. A ideia de seu último romance estava definida: explorar os conflitos da indústria e do comércio de armas. Os personagens também foram esboçados. Artur Semedo, um burocrata dedicado e eficaz de uma fábrica de armamento, e sua antagonista, Felícia, uma pacifista.

De acordo com as anotações do próprio Saramago, o projeto foi desencadeado por uma velha preocupação: o porquê de não se conhecer nenhum caso de greve numa fábrica de armamento. Outra inspiração veio de uma história que achava ter lido no romance “L’espoir”, de André Malraux — e que depois recordou ter lido em outro lugar, embora não se lembrasse onde: uma bomba lançada contra as tropas da Frente Popular de Extremadura durante a Guerra Civil Espanhola, que além de nunca ter funcionado ainda veio com um bilhete amigável. “Esta bomba não explodirá”, estava escrito.

Provocação ao leitor

Saramago admitiu, em uma anotação de 2 de setembro de 2009, que seu maior desafio no romance era criar uma “história humana que encaixe”. É justamente através dos conflitos e paradoxos de seus personagens que ele apresenta sua reflexão particular sobre a “banalidade do mal”, a expressão de Hannah Arendt. Com a figura de Artur Semedo, um funcionário exemplar que aparentemente deseja apenas o sucesso em seu trabalho, ele nos mostra que o horror pode ser oficializado pelas pequenas ações, pelos poderes e pela responsabilidades do cotidiano. Como é de costume em seus livros, provoca o leitor a pensar na ética, na sua própria atitude diante dos problemas do mundo — e a conveniência em fechar os olhos para eles.

— Creio que a banalidade do mal sempre aparece nos relatos de José Saramago, embora suas obsessões literárias poderiam ser descritas como meditações em torno do erro, da responsabilidade, do poder — opina Pilar. — Não podemos saber o que ele pretendia, mas podemos dizer o que vemos ao ler o romance: a indiferença, a cegueira, acabam sendo cúmplices do abjeto, sejam as guerras entre culturas, países, ou a violência entre pessoas. Para mim, é um incentivo a nunca ficar indiferente.

Pilar, contudo, não acredita que “Alabardas, alabardas…” poderia ser considerado um típico romance de Saramago, embora o considere “100% Saramago”. Para ela, o escritor estava no esplendor de sua maturidade, mais “maduro, compassivo e irônico”. Mas, aos que anseiam por novos títulos inéditos no baú, a presidente da Fundação José Saramago faz questão de acabar com as esperanças:

— Ele já havia anunciado que depois desse romance não voltaria a escrever, mas não pela morte e sim porque tinha dado como encerrado seu trabalho literário. Seu sonho era poder dedicar um tempo para ler tranquilamente na biblioteca de sua casa, passar horas com os autores que o fizeram ser a pessoa e o escritor que era. Não há mais inéditos. A obra de José Saramago, para a dor de seus leitores, está completa. Infelizmente.

ANOTAÇÕES DO AUTOR

“15 de agosto de 2009: Afinal, talvez ainda vá escrever outro livro. Uma velha preocupação minha (porquê nunca houve uma greve numa fábrica de armamento) deu pé a uma ideia complementar que, precisamente, permitirá o tratamento ficcional do tema. Não o esperava, mas aconteceu, aqui sentado, dando voltas à cabeça ou dando-me ela voltas a mim. O livro, se chegar a ser escrito, chamar-se-á “Belona”, que é o nome da deusa romana da guerra. O gancho para arrancar com a história já o tenho e dele falei muitas vezes: aquela bomba que não chegou a explodir na Guerra Civil de Espanha, como André Malraux conta em “L’Espoir”.

2 de setembro de 2009: A dificuldade maior está em construir uma história “humana” que encaixe. Uma ideia será fazer voltar Felícia a casa quando se apercebe de que o marido começa a deixar-se levar pela curiosidade e certa inquietação de espírito. Tornará a sair quando a administração “compre” o marido pondo-o à frente da contabilidade de uma secção que trata de armas pesadas.

26 de dezembro de 2009: Dois meses sem escrever. Por este andar talvez haja livro em 2020… Entretanto a epígrafe será: “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”.

É de Gil Vicente, da tragicomédia “Exortação da guerra”.

22 de fevereiro de 2010: As ideias aparecem quando são necessárias. Que o administrador-delegado, que passará a ser mencionado apenas como engenheiro, tenha pensado em escrever a história da empresa, talvez faça sair a narrativa do marasmo que a ameaçava e é o melhor que poderia ter-me acontecido. Veremos se se confirma.”

Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas

Autor: José Saramago (com artigos de Fernando Gómez Aguilera, Luiz Eduardo Soares e Roberto Saviano)

Editora: Companhia das Letras

Quanto: R$ 27,50

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