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Carta inédita de Camus para Sartre é encontrada na França

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Publicado por Folha de S.Paulo

Uma carta inédita do escritor Albert Camus ao filósofo Jean-Paul Sartre foi encontrada recentemente e confirma a relação amistosa entre os dois intelectuais poucos meses antes da ruptura em 1952.

A briga aconteceu depois da publicação do ensaio “O Homem Revoltado” de Camus, obra que Sartre rejeitou de maneira taxativa.

A carta, que teve a autenticidade comprovada por um especialista, começa com a saudação “meu querido Sartre” e termina com “eu aperto sua mão”.

O escritor argelino Albert Camus em foto de Henri Cartier-Bresson / Henri Cartier-Bresson

O escritor argelino Albert Camus em foto de Henri Cartier-Bresson / Henri Cartier-Bresson

No texto, Camus recomenda a Sartre a atriz “Aminda Valls, amiga de María (Casares, famosa atriz, que foi amante de Camus) e minha, republicana espanhola, que é uma maravilha de humanidade”.

No início de 1951, Sartre preparava o lançamento da peça “O Diabo e o Bom Deus”.

Na montagem, María Casares teve o papel de Hilda, mas Aminda Valls não fez parte do elenco.

“A carta havia sido comprada por um colecionador de autógrafos nos anos 70”, disse Nicolas Lieng, especialista em literatura do século XIX e XX, intermediário na venda do documento a um dos colecionadores privados mais importantes de artigos de Camus.

A carta não tem data, mas, levando em consideração alguns eventos mencionados, especula-se que tenha sido escrita em março ou abril de 1951.

Seis meses depois do envio da carta, Camus publicou “O Homem Revoltado” e, pouco depois, Sartre rompeu a amizade entre os dois, queimando quase toda a correspondência trocada.

Leitura, um exercício generoso, segundo Sartre e Beauvoir

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A leitura permite a vivência dos inúmeros benefícios que são incansavelmente debatidos e associados à apreciação dos textos literários.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Jefferson Maciel, no Homo Literatus

Na obra O que é literatura?, Jean Paul-Sartre (1905-1980) aponta o ato de ler como o exercício que complementa a atividade iniciada pelo escritor. Segundo o filósofo existencialista francês, o objeto literário é um estranho pião que só existe quando movimentado pela leitura. “Fora daí, há apenas traços negros sobre o papel” (p. 35).

Contudo, Sartre não se refere a qualquer tipo de leitura. Para que o leitor possa ser personagem partícipe no processo de criação é indispensável que o seu debruçar-se sobre o livro seja generoso, assim como o exercício da escrita. Em outras palavras, é essencial que o leitor se permita envolver com as histórias que lê.

“(…) a leitura é um exercício de generosidade; e aquilo que o escritor pede ao leitor não é a aplicação de uma liberdade abstrata, mas a doação de toda a sua pessoa, com suas paixões, suas prevenções, suas simpatias, seu temperamento sexual, sua escala de valores (SARTRE, 1989, p. 42)”.

Simone de Beauvoir (1908-1986), em conferência intitulada Para que sirve la literatura? (edição argentina), defende, de modo semelhante a Sartre, que o leitor deve se dispor a entrar no mundo que lhe é apresentado, fazendo com que o universo do escritor torne-se o seu próprio universo. “Abdico de mi ‘yo’ em favor del que habla. Y sin embargo sigo siendo yo misma (1967, p. 72)”.

Assim, o leitor é convidado a se entregar e imergir pelos meandros do livro que carrega em mãos, mas sem esquecer que nesse mergulho o que é propriamente seu não deve ser esquecido, senão respeitado e preservado. Mesmo porque é naquilo que lhe é particular que o leitor vai descobrir artifícios importantes para embarcar e acessar o mundo de imagens e significados que no livro o aguardam.

E pode-se acrescentar a este exercício de leitura generosa, além da imersão total, um engajamento puramente imaginativo, já que para imergir no universo recortado pelo escritor, o imaginar se mostra sempre imprescindível. É como se o leitor submetesse os fundilhos da sua imaginação, como propõe Vladimir Nabokov (1899-1977) em Lolita (2011[1955]), a um pontapé capaz de lhes fazer imaginar de maneira viva e fértil, o que não só o leva ao cumprimento de uma das suas funções principais, mas também à concretização do seu papel de coautor do objeto literário.

Ler, portanto, pode (e deve, sobretudo, no mundo da literatura de ficção) ser uma atividade que vai além de um exercício de caráter meramente cognitivo. Arrisca-se ainda o palpite de que é, através desse envolvimento integral e dessa contribuição imaginativa, que a leitura permite a vivência dos inúmeros benefícios que são incansavelmente debatidos e associados à apreciação dos textos literários. Do contrário, o leitor estaria apenas, como lembra Sartre, diante de traços negros que, certamente, não o levaria a lugar algum.

Simone de Beauvoir: defensora da emancipação feminina do século 20

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Publicado no Terra

Escritora Simone de Beauvoir, em foto de 22 de abril de 1983, em Paris Foto: AFP

Escritora Simone de Beauvoir, em foto de 22 de abril de 1983, em Paris Foto: AFP

Tanto pelo lado do pai, Georges Bertrand de Beauvoir, nascido no coração do faubourg Saint-Germain, o bairro do alto patriciado parisiense, como pelo lado da sua mãe, Françoise Brasseur filha de um banqueiro de Verdum, a jovem Simone de Beauvoir não teria nada a reclamar da vida. Pertencia por assim dizer ao que os franceses chamam crème de la crème.

 

Desde que nascera em 9 de janeiro de 1908, fora cercada pelos carinhos da família bem como por uma atenta ama que lhe satisfazia os caprichos. Com exceção de alguns acessos de fúria comuns a uma menina mimada que divertiam sempre o seu pai – considerava-a jocosamente como ‘ insociável’-, nada indicava que no íntimo da encantadora filhinha, mais do que bem-nascida, se gestava a mais profunda defensora da emancipação feminina do século 20, quiçá de todos os tempos.

 

Ainda entrando na adolescência percebeu que sua inteligência pairava sobre a das suas colegas de escola e outros parentes próximos, o que a levou a uma crescente solidão da qual poucos a tiravam, como sua amiga dileta Elizabeth Le Coin (Zaza) e, mais tarde, aquele que lhe serviu inicialmente como tutor intelectual, o seu primo Jacques Champigneulle (que a apresentou aos poemas de  Mallarmè e outros modernistas menos enigmáticos assim como os pintores da moda).  O pai, ainda que advogado e funcionário graduado sem maiores ambições, era um leitor compulsivo e amante do teatro e das representações domésticas quando revela seu discreto lado histriônico, certamente a influenciou na sua inclinação pelo abstrato e no gosto pelos livros.

 

Bem ao contrário da maioria das meninas e moças da sua classe social e do seu tempo que seguiam obedientes os ditames e os interditos de uma educação católica e aos mitos de um ‘cristianismo místico’ que tinha por fim formar boas e ‘respeitáveis esposas’, ‘mulheres direitas’, dóceis e crentes. E se isto não fosse alcançado, lhes restava a solteirice ou o convento.

 

O futuro que a aguardava não as fazia escapar de um matrimônio arranjado (sim, mesmo na Paris do século 20, as famílias católicas tramavam casamentos de conveniência), administração do lar, filhos, festas e férias com a família, etc., causou-lhe crescente aversão.  Indignou-se que os interditos feitos às mulheres em geral não era estendidos aos homens, como se eles pertencessem a outro planeta.

 

Os primórdios desta sua trajetória rumo à emancipação completa (negou-se a casar, ser dona de casa e a ter filhos) acha-se  magistralmente relatado no livro Mèmoires d’une jeune fille rangèe, ‘Memórias de uma moça bem comportada’, de 1958, escrito na plena maturidade da autora.

 

Este magnífico livro, que contou com afiada lembrança da autora, é literatura de alta elaboração. Serviu não apenas como testemunho da façanha pessoal dela em enfrentar os condicionamentos sócio-religiosos de uma época ‘ e o destino abjeto que a aguardava’. Funcionou, por igual, como uma espécie de roteiro no qual milhares de outras tantas mulheres, suas leitoras, dispersadas pelo mundo Ocidental, se inspiraram. Insatisfeitas com o dia-a-dia que as decepcionava, recorreram à trajetória oferecida por Simone. O ‘eterno feminino’, tão alardeado pelos românticos e outros místicos, tinha um propósito conformista. Uma capsula ideológica que obrigava as mulheres seguirem comportadas conforme o que o mundo masculino determinara. Era preciso romper com aquilo.

 

 Por certo inconscientemente ela seguia só propósitos dos famosos versos de Lou-Andreas Salomé (1850-1937), umas raras mulheres admitidas como igual num meio majoritariamente masculino como aquele liderado por Sigmund Freud em Viena. Os versos de Lou praticamente são uma convocação à ação das mulheres:

 

Ouse, ouse… ouse tudo!!

 

Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda… a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

 

– Lou Salomé – Reflexões sobre o problema do amor.

 

A partir de Simone, milhares passaram a ambicionar uma vida diferente do que lhes programava a família e a sociedade. Queriam independência, ser autônomas, ter sua profissão, seu sustento próprio, buscavam a felicidade e não a comodidade do lar sem sal em que a maioria delas vivia. Insistiam, como Simone o fez, no prazer de querer viver, ‘ de estar no mundo’, de escolher e traçar elas próprias os caminhos a seguir em sua existência, ainda que assumindo os riscos  decorrentes disto.

 

 Os primeiros passos:

 

“Inaugurei minha nova existência subindo as escadas da Biblioteca Sainte-Geneviève…”

 

O convento de Saint-Geneviève, na Place du Panthéon,  desativado pela Revolução de 1789, ficou sem destino por um bom tempo até que a prefeitura de Paris encarregou o arquitetor Henri Labrouste de transformar o belo prédio numa biblioteca. Obra realizada entre 1838-1858. Nenhuma solução poderia ser melhor. Foi neste local magnifico com um impressionante acervo, não muito distante de onde Simone residia, que se transformou no templo da cultura da jovem estudante.

 

Subir aquelas escadas, disse a escritora, foi o passo mais decisivo em sua vida. Lá, na sala de leitura, devorando a ‘Comédia Humana’ de Balzac, e uma quantidade incontável de tantos outros clássicos, começou a ser forjada uma das mais brilhantes cabeças do século 20. O contato dela com os grandes textos fez com que ela se sentisse suficientemente apta a frequentar as rodas intelectuais masculinas. Aquele seria o mundo dela.

 

Seus pais não faziam gosto dela seguir carreira no meio intelectual, mas não lhe criaram obstáculos maiores quando ela se decidiu seguir o Caminho das Letras. Formou-se em Filosofia e a seguir preparou-se para o aggregation, o rigoroso concurso público feito para o ingresso na Normale Supe, a École Normale Superieur, a mais prestigiada entidade francesa para as áreas humanas e científicas (Louis Pasteur e o filósofo Henri Bergson foram um dos tantos gênios que por ela passaram) que formava a elite intelectual do país.

 

Três outros também candidatos, Paul Nizan, Jean-Paul Sartre e René Maheu (este, ainda que casado, fora um espécie de namorado de Simone) compunham um grupo apartado do restante. (*)

 

Inteligentíssimos, sentiam-se a elite, aristocratas do pensamento. Os crescentes contatos que a jovem recém-formada fez com que reconhecessem nela uma parceira digna de privar com eles. Sartre sugeriu aos outros dois que Simone, então com 21 anos, fizesse uma apresentação privada de Leibniz para ajudá-los nas provas. Simone confessou que Sartre foi o primeiro homem que ela conhecera a intimidara intelectualmente.

 

 Àquelas alturas ela já se indignava que o aborto fosse considerado crime, rejeitava as hierarquias, os valores correntes e as cerimônias que distinguiam a elite, assim como a frivolidade dos amores burgueses. Sentiu então uma forte compulsão para colocar em palavras este sentimento cada vez mais ativo de rebeldia. Nascia a escritora.

 

Aprovados, Simone e Sartre, aquelas duas almas gêmeas fizeram um pacto (sentados num banco do Jardim Luxemburgo) de não se casar, de não ter filhos e de se dedicarem inteiramente à filosofia. Seu compromisso era um Pacto pela Liberdade, uma relação aberta que rejeitava qualquer amarra que os afastasse da atividade de pensar e naturalmente da escrita. Na época foi um escândalo. Admitiam que um marido ou uma esposa tivessem amantes, mas jamais que um homem pudesse viver maritalmente com uma mulher das classes médias de estar com ela sem registro passado por um juiz de paz ou a benção de um sacerdote.

 

Como palavra de ordem deixada às demais mulheres, Simone escreveu no seu famoso ensaio ‘O Segundo Sexo’: “Nós não nos deixaremos intimidar pelos ataques violentos dirigidos à mulher nem deixar-se levar pelos elogios interesseiros que são destinados à ‘ verdadeira mulher’…. (“Deuxième sexe” : l’Introduction, La femme indépendante )

 

(*) Paul Nizan aderiu ao Partido Comunista, com quem rompeu  em 1939 e morreu um ano depois como soldado francês em Calais quando se deu a invasão alemã de 1940. Maheu tornou-se um alto burocrata que chegou a dirigir a UNESCO e Jean Paul Sartre, tornou-se Sartre.

Biografia compara Sartre e Simone de Beauvoir aos amantes cruéis de Laclos

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Jones reserva revelações capazes de chocar ainda mais que a hiperatividade sexual da dupla

Antonio Gonçalves Filho, no Estadão

A rigor, os casos extraconjugais dos filósofos Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986) são por demais conhecidos para surpreender seus leitores. Felizmente, para esses, a biógrafa e historiadora escocesa Carole Seymour-Jones reserva outras revelações capazes de chocar ainda mais que a hiperatividade sexual da dupla, além de oferecer uma ousada análise da “necessidade simbiótica de Beauvoir e Sartre um pelo outro”, firmada num pacto que durou meio século e passou como um trator sobre os amantes do casal. Carole Seymour-Jones foi atrás de alguns deles, que sobreviveram à crueldade dos dois pensadores franceses, comparados pela biógrafa aos personagens centrais do romance de Chordelos de Laclos, As Ligações Perigosas, a marquesa De Merteuil e o visconde de Valmont, dois pérfidos aristocratas que usam e humilham seus amantes. Tanto que batizou seu livro de Uma Relação Perigosa, que chega às livrarias no dia 17.

Divulgação A biógrafa Carole Seymour-Jones

Divulgação
A biógrafa Carole Seymour-Jones

A exemplo da dupla do romance epistolar do século 18, Sartre e Simone de Beauvoir manipulavam suas conquistas e ainda usavam as vítimas como personagens em seus livros. Foi assim que uma jovem aluna de 17 anos, Olga Kosackiewicz, vinda da Rússia, acabou inspirando o primeiro romance de Simone de Beauvoir, A Convidada (1943). Sem pretender ser original, ela conta no livro a relação de dois intelectuais, abalada pela formação de um triângulo amoroso com uma estudante. Dois anos depois Olga migrou para uma das mais conhecidas obras de Sartre, A Idade da Razão (1945), em que um professor de filosofia deve bancar o aborto de sua amante, pretexto para Sartre discutir conceitos como liberdade e existencialismo.

Garoto feio. Deslumbrada com a professora progressista, cheia de ideias libertárias – posteriormente exploradas no clássico O Segundo Sexo (1949) –, Olga caiu na rede de Simone, pulando de sua cama para a de Sartre. Esse esquema, de seduzir as alunas para o companheiro (os dois não moravam juntos), foi repetido inúmeras vezes, mas Olga acabou levando o filósofo à loucura. Essa obsessão despertou ciúme na companheira. Contudo, o padrão de relacionamento aberto continuou. Sartre se considerava feio demais para caçar sozinho suas presas. Quando pequeno, sua mãe tentava disfarçar o estrabismo do filho deixando crescer seus cachos loiros, até que o avô, cansado de ver o neto ser confundido com uma menina, levou-o ao barbeiro.

Albert Camus, que pretendia escrever uma enciclopédia de ética com Sartre, até ousou criticar a ação predatória do promíscuo amigo (com quem rompeu em 1952 por divergências políticas). Recebeu como resposta do filósofo um rosto marcado pela feiura e uma pergunta de volta: “Você já deu uma olhada na minha cara?”. Sartre era um Cyrano em busca de uma Roxane virgem para compensar o aleijão. A biógrafa, para quem o físico de Sartre determinou sua conduta, revela uma carta em que Sartre admite ser um “canalha desprezível”, um “funcionário público sádico e nojento”. Camus, ao contrário, era bonitão e namorava mulheres lindas (como as atrizes Catherine Sellers e Maria Casarès). Além disso, era melhor romancista que Sartre, um homem de ação comprometido com a Resistência. Sartre viu nele o combatente que aspirava ser, segundo a biógrafa. Camus não pegou em armas, mas arriscou a vida, escrevendo contra os nazistas, enquanto Sartre bebia com os oficiais alemães, de acordo com Carole Seymour-Jones.

O período da Ocupação alemã é o ponto nevrálgico da biografia de Sartre e Simone de Beauvoir. Ambos continuaram a viver confortavelmente em Paris durante o período em que os alemães desfilavam suas fardas e arrogância pela capital francesa. Sartre comprava comida no mercado negro e não hesitou em tomar o posto de um professor judeu no Liceu Condorcet, Henri Dreyfus Lefoyer (sobrinho-neto do famoso capitão Alfred Dreyfus), destituído do cargo durante a Ocupação. A biógrafa não o acusa de frequentar os salões dos nazistas, mas lembra que existiam outras escolhas a fazer. E, como para reafirmar o compromisso de Sartre com a própria obra, ela cita a noite de 3 de junho de 1943, quando inúmeros nazistas uniformizados brindaram ao sucesso da peça As Moscas, de Sartre, no teatro de Charles Dullin, considerado “deutschfreundlich” (amigável) pelos alemães. Marc Bénard, que esteve preso com o filósofo, reconheceu Sartre retribuindo os brindes dos alemães. Ele mesmo enviou o texto da peça aos censores nazistas, garantindo não existir “nada antigermânico” nela.

Político. A biógrafa usa a relação de amizade de Camus e Sartre para mostrar justamente que entre os dois era impossível estabelecer um vínculo frouxo como o do filósofo com os alemães ou suas amantes. Era tudo ou nada. Camus não foi um teórico, mas um ativista político bastante crítico em relação aos crimes de Stalin. Sartre, neutro sobre Vichy, também silenciou sobre a ditadura soviética mesmo quando o mundo já conhecia a história dos dissidentes russos, permanecendo um apologista do regime comunista. Se, ao tomar o lugar de Dreyfus durante a Ocupação, ainda que temporariamente, ele tirou proveito das leis raciais de Vichy, que proibiam professores judeus de lecionar – mesmo não precisando do emprego –, ao defender a indefensável ditadura do proletariado, Sartre admitiu que Camus foi o verdadeiro combatente da Resistência.

O que sobra do mito é pouco, depois da demolição conjunta de Sartre e Simone. Carole Seymour-Jones insinua que o romance do filósofo com uma agente da KGB, Lena Zorin, foi mais que um caso passageiro. Foi, segundo ela, a submissão final de um homem de natureza servil ao regime soviético. Raymond Aron, colega de Sartre, dizia que Sartre e Simone eram a “Resistência do Café de Flore”, o que equivale, no Brasil, a classificar a dupla de esquerda festiva.

Pode ser que Aron tenha exagerado, mas, voltando à cama de Sartre, a biógrafa faz uma lista trágica do destino de suas amantes, arregimentadas pela companheira: uma se matou, outra virou viciada e uma outra ficou tão traumatizada que até a fria professora sentiu culpa. A biógrafa assume ter ficado “perplexa com a profundidade do abismo entre a lenda pública e as vidas privadas do casal”. Mas esclarece que sua admiração – tanto por Sartre como por Beauvoir – não sofreu desgaste. Difícil acreditar.

15 curiosidades d’O Pequeno Prícipe e de Antoine De Saint-Exupéry

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Caio Raphael Passamani, no Literatortura

O Pequeno Príncipe. O mero mencionar da obra-prima de Antoine de Saint-Exupéry enseja questões interessantíssimas que permeiam seu perspicaz enredo. Não é por menos.Esta é a terceira obra literária mais traduzida em todo o mundo – sendo A Bíblia Sagrada a primeira e a obra O Peregrino, a segunda. Ademais, a obra em voga foi traduzida para mais de 250 idiomas e dialetos, vendendo mais de 140 milhões de cópias ao redor do mundo.

Desde sua primeira publicação, no ano de 1943, a história do principezinho fascinou leitores de todas as faixas etárias e, por conseguinte, conquistou uma renomada posição em âmbito literário. Quão grande é a singularidade desta obra de Saint-Exupéry, o Literatortura não poderia deixar de abordá-la aqui por meio duma lista de curiosidades.
Boa leitura!

VIDA DO AUTOR

#1. Antoine de Saint-Exupéry, assim como o narrador de O Pequeno Príncipe, foi piloto de avião. A bem da verdade, o autor prestou serviço militar para a França – seu país de origem – no início da Segunda Guerra Mundial.

Antoine de Saint-Exupéry

Antoine de Saint-Exupéry

#2. O autor já chegou a fazer alguns pousos no Brasil entre 1928 e 1930. Latécoère – uma empresa francesa para a qual Saint-Exupéry trabalhava – tinha uma base de abastecimento na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina. Por lá, o autor ficou conhecido como “Zeperri”. Posteriormente, em sua obra Vôo Noturno, o autor cita a cidade de Florianópolis. Atualmente, uma pousada leva o nome abrasileirado do autor: a Pousada Zeperri, localizada na Praia do Campeche – Florianópolis.

#3. No dia 30 de Dezembro de 1935, Saint-Exupéry e o copiloto André Prévot voavam por cima do Deserto do Saara. Na verdade, eles estavam prestes a quebrar o recorde de velocidade numa corrida aérea da qual faziam parte. Por volta das 02:45 da manhã, um imprevisto ocorreu. Por infortúnio, sua aeronave (uma Caudron C-630 Simoun) caiu. Eles milagrosamente sobreviveram. Tendo de lidar com o intenso calor do deserto, os aviadores ficaramdesidratados; viram miragens e tiveram alucinações. No quarto dia, um Beduíno (integrante de grupos árabes que habitam o deserto) os encontrou. Deu-lhes o devido tratamento de reidratação e salvou-lhes a vida.
Daí pode-se entender o porquê de o principezinhoter caído exatamente no Deserto Do Saara.

Saint-Exupéry após a queda no Deserto do Saara

#4. Todas as aquarelas que aparecem em O Pequeno Príncipe foram pintadas pelo próprio autor. Ele estudara, em sua juventude, arquitetura, mas não considerava-se um artista. De modo similar, o narrador do livro alega que

“As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática.”.
capítulo I

A OBRA

#5. É o livro mais lido da língua francesa; considerado, na França, comoo melhor livro do século XX.

#6. A despeito da forte relação entre O Pequeno Príncipe e o idioma francês, o livro teve sua primeira publicação nos Estados Unidos, em 1943. Foram lançadas, nessa ocasião, tanto a versão em inglês quanto a em francês.

#7. A obra foi escrita durante um exílio de Saint-Exupéry nos EUA. Em tal contexto, o autor tentava convencê-los a entrar na Segunda Guerra Mundial contra a Alemanha Nazista.

INSPIRAÇÕES PARA PERSONAGENS

#8. É provável que a sábia raposa de O Pequeno Príncipetenha nascido duma experiência real. Em 1928, no norte do Deserto do Saara, enquanto servia o exército francês, Saint-Exupéry encontrou um Feneco – mais conhecido como raposa-do-deserto. O autor chegou a criá-la durante sua estadia local. Ainda neste âmbito, acredita-se que as falas da raposinha muito tem a ver com uma antiga colega de Antoine – Silvia Hamilton Reinhardt, da cidade de Nova Iorque. A famosa frase “Só se vê bem com o coração.” muito provavelmente foi dita por ela.

Fenecos; também conhecidos como “raposas-do-deserto”

Fenecos; também conhecidos como “raposas-do-deserto”

#9. A rosa do principezinho, por sua vez, foi inspirada em Consuelo de Saint-Exupéry: a esposa de Antoine. Ela nasceu em El Salvador – um país conhecido como “A Terra dos Vulcões”, por abrigar muitos destes. Daí pode-se inferir de onde veio a ideia para o pequeno lar do principezinho: o asteroide B-612.

#10. O perigo que as árvores baobás representavam para o lar do principezinho também está relacionado com a realidade. O tal perigo nada mais é senão o que o Nazismo representava para Saint-Exupéry.

#11. A aparência do pequeno príncipe pode ter ligação com a própria aparência de Antoine Saint-Exupéry quando jovem. Isso porque, nessa época, seus amigos e familiares costumavam chamá-lo deRoi-Soleil (Rei do Sol) devido a seus cabelos – até então loiros e encaracolados.

FILOSOFIA

#12. A despeito das características que aproximam a obra da Literatura Infantil (o intercolutor são as crianças; há uma porção de aquarelas ao longo do livro; os parágrafos são curtos e o vocabulário, bastante acessível), O Pequeno Príncipepode também ser considerado literatura filosófica.

#13. O contato direto com a Segunda Guerra Mundial suscitou experiências e ponderações que, a posteriori, foram claramente evidenciadas em sua obra-prima.

#14. O Pequeno Príncipe pode ser considerado um apanhado de parábolas existencialitas. Finda a observação da obra, há de se observar que quase todos os capítulos – pequenos fragmentos da viagem do principezinho – abordam críticas à sociedade do entre-guerras. O autor faz uso, inclusive, de dualidades como vida/morte, amigo/inimigo e sociedade/indivíduo para solidificar as questões que traz à tona.

#15. Dentro do âmbito filosófico, é possível fazer analogias entre postulados de grandes existencialistas e enredo/trechos da obra em questão. Observe:

A) SørenKierkegaard começou a investigar o significado do que era “ser um ser humano” olhando-o como indivíduo autônomo, e não como parte dum grande sistema filosófico (como fizera Hegel). Ele alegou que a vida humana é determinada por escolhas livres e subjetivas. A liberdade total de escolha implica, todavia, um sentimento de angústica e apreensão naquele que está por decidir algo. Deste modo, Kierkegaard forneceu o sustentáculo para a escola existencialista.
Jean-Paul Sartre, dando continuidade às ideias existencialistas de Kierkegaard, alegou que “a existência humana precede sua essência; seu propósito”. Com isso, Sartre queria dizer que o homem não nasce com um propósito pré-determinado; não é feito para qualquer finalidade específica.Por conseguinte, o ser humano há de criar seus próprios propósitos; tornar-se aquilo que faz de si; definir a si mesmo.

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre

Esta liberdade inerente às escolhas subjetivas, entretanto, motiva o crescimento duma angústia ou apreensão interna. Afinal, após uma escolha pessoal vem sua respectiva consequência.
Pontos estes parecem ser trabalhados com uma profunda simplicidade por Antoine de Saint-Exupéry. A autonomia da ação (liberdade) e suas consequências são evidenciadas, por exemplo, no ato de partida do principezinho pelos planetas afora, em cortar as árvores baobás de seu planeta ou em escolher regar sua flor.

A fim de proteger sua rosa de bichos e do vento, o Pequeno Príncipe a preservava dentro duma redoma de proteção.

“– Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.”
capítulo XXI

B) Durante sua viagem interplanetária, o principezinho tenta “[…]procurar uma ocupação e se instruir”. Mesmo sabendo que tal processo seria subjetivo, ele entra em contato e dialoga com habitantes de outros planetóides. De maneira similar, o existencialista Karl Jaspers alega que é necessário que o homem descubra sua “verdade” por meio de seus próprios esforços. Não obstante, ressalva que essa busca pela verdade há de ser realizada com todos os “companheiros de pensamento”.

Por fim, vale salientar que, de modo geral, a relação existencialismo/crítica social ganha destaque ao passo que o autor vai evidenciando as ações subjetivasdas “pessoas grandes”. Como diria Sartre, tais decisões definem a vida de quem as toma .
Confira os trechos que isso demonstram:

“E eu corro o risco de ficar como as pessoas grandes, que só se interessam por números.”
capítulo IV

“Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. […] Mas eu era jovem demais para saber amá-la.”. capítulo VIII

O planeta do bêbado

“Bebo para esquecer que tenho vergonha de beber”.
capítulo XII

“É útil para os meus vulcões, é útil para a minha flor que eu os possua. Mas tu não és útil para as estrelas…”.
capítulo XIII

“– Onde estão os homens? A gente está um pouco sozinho no deserto.”
“– Entre os homens também.”.
capítulo XVII

“– Os homens? […]não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam de raízes.”.
capítulo XVIII

O principezinho e a raposa.

“– A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.”
capítulo XXI

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