Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Saudade

Saudade, cafuné e outras palavras intraduzíveis viram livro ilustrado

0

A história é simples e inspiradora.

Eduardo Rodrigues em O Globo

Ella Frances Sanders era estagiária na Maptia.com quando recebeu a missão de ilustrar 11 palavras intraduzíveis para o inglês — um trabalho bem mais divertido que boa parte das funções que sobram para os pobres estagiários. Ella fez as 11 ilustrações, publicou no blog da Maptia e aí veio a surpresa.

A lista acabou republicada no Huffington Post e chamou a atenção de um editor, que acreditava no potencial daquele material para se tornar um livro. O editor entrou em contato com Ella pelo Twitter (olha que moderno) e um ano depois o post de 11 itens se transformou num livro com mais de 50 palavras de vários idiomas.

Entre elas, não poderia faltar a nossa “saudade”, mas Ella ainda fez um carinho especial com o Brasil, incluindo também “cafuné”. Saudade, ela define como “Um desejo vago e constante por algo que não existe e provavelmente não pode existir, sentimento de nostalgia por algo ou alguém amado e depois perdido.”

1

No Aurélio, a definição é a seguinte: “Lembrança nostáliga e, ao memso tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las” ou simplesmente “pesar pela ausência de alguém que nos é querido”.

“Muitas vezes essas palavras revelam detalhes das culturas de onde vieram, como a palavra em português do Brasil para “correr os dedos pelo cabelo da pessoa amada”, a em italiano para “cair em lágrimas por causa de uma história”, ou a sueca para um “terceiro copo de café”, descreve o release do livro.

1

“Lost in translation” terá três edições diferentes, uma americana, uma britânica e uma francesa. Por enquanto apenas a americana está disponível. Mais informações no site oficial.

Veja mais algumas das palavras incluídas no livro.

Tretår, sueco, subtantivo: “Separado, ‘tår’ significa um copo de café e ‘patår’ é o refil desse café. Um ‘tretår’ é, portanto, um segundo refil, ou uma terceira dose.

1

Ákihi, substantivo, havaiano: “Ouvir direções, então sair andando e imediatamente esquecendo o signficado das instruções e ficar aakihi'”

1

Commuovere, italiano, verbo: Se sentir emocionado, normalmente em relação a uma história que te levou às lágrimas.

1

Glas wen, galês, substantivo: “Significa literalmente ‘sorriso azul’, um que seja sarcástico ou irônico”

1

Kilig, tagalog, substantivo: “A sensação de ter borboletas no estômago, normalmente quando acontece algo romântico”

1

Komorebi, japonês, verbo: “A luz do sol filtrada pelas folhas das árvores”

1

Luftmensch, íidiche, substantivo: “Se refere a uma pessoa sonhadora e significa literalmente ‘pessoa aérea'”

1

Mangata, sueco, substantivo: “O reflexo da luz da luz na água que parece uma estrada”

1

Tsundoko, japonês, substantivo: “Deixar um livro sem ler depois de comprá-lo, normalmente numa pilha de livros não lidos”

1

Wabi-sabi, japonês, substantivo: “Encontrar beleza nas imperfeições, uma aceitação do ciclo de vida e morte”

1

Diário de um menino

0

“Bem que a mãe me avisou”, pensou ele, despedindo-se das ruas, dos brinquedos, do Nescau e do gibi.

Mariana Weber, na Época

“Ela vai ficar tão triste. E bem que me avisou.”Do banco traseiro do carro, dava para ver o cabelo castanho ondulado da mãe, solto atrás e enroscado na gola do casaco do lado direito. Ele sentiu um aperto. Olhou pela janela, começou a ler placas em voz alta. “Bilhar Augusta. A Arte da Boa Mesa. Retificadora Flora.”

(Foto: C_Dave / Flickr)

(Foto: C_Dave / Flickr)

“Tudo bem na escola, Antônio?”“Tudo.”

“Muita lição de casa?”

“Não.”

Tinha, mas não ia fazer. Pra quê?

Sentiria saudade também da tia Iara, nem achava tão chato quando ela passava lição. Mas não ia mais fazer.

“Só Botas. Pão Gostoso. Você com Saúde.”

“Ei, tá pensando na morte da bezerra? Chegamos, filho!”

Desceu do carro, mochila pendurada no ombro direito, e subiu direto para o quarto.

A Carminha, que dormia enrolada em cima do baú de brinquedos, começou a se espreguiçar, bunda para cima e patas dianteiras bem esticadas. Fez carinho na cabeça da gata. “O baú vai ser só seu, Carminha.” Pegou o cacto que ficava na janela e foi até a pia do banheiro regar a terra. Voltou com o vaso ainda pingando. Jogou dentro dele os cinco tatuzinhos que tinha recolhido no pátio da escola e guardado no estojo de lata.

Viu Carminha cheirar os bichos, que não se mexeram, e logo perder o interesse.

Em cima da cama, brincou um pouco com o carrinho vermelho, presente do pai. Leu a última história de um gibi. Na frente do espelho da porta do armário, engoliu saliva uma, duas, três vezes, tentando perceber algo diferente.

Desceu para a cozinha. A mãe esquentava vagem refogada no fogão. No forno, torta de sardinha.

“Mãe?”

“Diga, filho.” Ela mexia a panela. “Antônio?”

“Demora?”

“Tá quase, pode ir lavando a mão.”

Estava bom, e tinha morango de sobremesa. Depois, os dois viram novela no sofá da sala. Durante o intervalo, o coração de Antônio bateu forte. O ar faltou, a visão escureceu. Ele encostou a cabeça no ombro da mãe, fechou os olhos e, aos poucos, se acalmou.

Quando a novela acabou, foi escovar os dentes sem a mãe pedir. Deu um beijo de boa noite e foi para a cama, triste.

Acordou com a mãe chamando.
Como sempre, se arrastou para o banho, colocou o uniforme que a mãe tinha deixado em cima da cama, tomou leite com Nescau, comeu pão com requeijão, escovou os dentes, pegou a lancheira e a mochila. Saiu de casa preocupado porque não tinha feito a lição de português e ainda não tinha morrido.

Então viu o ponto branco no chão do carro. Será? Sim, era o chiclete. O chiclete que ele comprou escondido da mãe, com o dinheiro que ela deu pro lanche. Um lanche especial, da cantina. O chiclete que ela disse que ele não podia mascar. Porque chiclete faz mal pros dentes e é perigoso. O chiclete que ele comprou mesmo assim. Comprou no recreio, escondeu no bolso e, no meio da aula, tomou coragem para tirar do papel e colocar na boca.

Mascou com cuidado, devagar, saboreando o suco de cada mordida. Guardou, já sem gosto, na bochecha direita, na esquerda, debaixo da língua. Aproveitou o segredo até que, dentro do carro, na volta da escola, percebeu que não tinha mais nada na boca. “Engoli.” Ia morrer sufocado. E não podia contar para a mãe que tinha comprado o chiclete.

Agora, ao descer do carro, Antônio sorria. Não morreria mais.

A partir de hoje obedeceria a mãe em tudo – não pularia o muro para a casa do Pedro, não daria pedaços do bife para a Carminha nem leria escondido depois que a mãe fechasse a porta do quarto à noite. Só parou de sorrir quando viu a tia Iara e lembrou da lição de português.

Escritor Rubem Braga será homenageado no Carnaval de 2013

0

Escritor Rubem Braga será homenageado no Carnaval de 2013 Dulce Helfer/Agencia RBS

O Brasil comemora o centenário do cronista, que nasceu em 1913

Publicado no Zero Hora

2013 será o ano para lembrar o centenário do mestre da crônica brasileira, o escritor Rubem Braga (1913 – 1990).  A cidade capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, onde Rubem nasceu, começou a celebrar a data já em 2011, realizando a Bienal Rubem Braga, em maio.

No Carnaval, uma escola de samba da cidade, a Unidos de Jucutuquara, programou um desfile em homenagem ao escritor. Com 22 alas, cinco carros, um tripé e aproximadamente 1,5 mil componentes, a escola vai levar para a avenida os temas preferidos de Rubem Braga, como infância, mar, mulheres, amigos, saudade, esperança, solidão e até mesmo a morte. O  título do samba-enredo é “A centenária noite do sabiá da crônica: entre pássaros, palavras, chiquitas e baianas”.

No Rio, cidade onde o escritor morou a maior parte da vida, Rubem Braga também será lembrado nos dias de folia. O bloco carioca Banda de Ipanema homenageia em 2013  o arquiteto Oscar Niemeyer, além dos centenários de Vinicius de Moraes, Jamelão, Rubem Braga, Paulo Tapajós, Wilson Batista e Ciro Monteiro.

Foto: Dulce Helfer / Agencia RBS

Curiosidades e esquisitices da palavra são tema de painel na Fliporto

0

Humberto Werneck e J. Rentes de Carvalho, com mediação de Silio Boccanera (Foto: Reprodução/TV Globo)


Gabriela Alcântara, no G1

Saudade, amor, palavra, conhecimento, vida, pernambucana, amizade, essência, miscigenação e tolerância. Essas foram as dez palavras mais bonitas segundo os visitantes da Festa Literária de Pernambuco (Fliporto) 2012, que se encerra neste domingo. O anúncio foi feito durante o painel “Palavras: as implicâncias, as preferências e as esquisitices”, que contou com a participação de Humberto Werneck, J. Rentes de Carvalho e Silio Boccanera como mediador.

Amantes da palavra, os debatedores logo assumiram o hábito de leitura do dicionário. “Eu tenho uma relação com ligeiros toques de tara com a palavra. Amo as palavras, gosto do tamanho físico da palavra, da sonoridade. Até hoje sei palavras que nunca usei, só conheço porque vi no dicionário. Como ‘alpondra’, que são aquelas pedras que tem no rio e permitem atravessá-lo a pé”, afirmou Werneck.

O escritor e jornalista afirmou ainda que a constante leitura do dicionário não é para o uso descontrolado, mas pelo puro prazer do conhecimento. “Não tenho medo das palavras. É paupérrima a lista de palavras que se pode usar na imprensa brasileira hoje, eu sou contra isso, as palavras estão aí para serem usadas”, explicou.

Português que mora na Holanda há anos, J. Rentes de Carvalho também confessou a paixão pela leitura dos dicionários. Ao falar sobre a diferença entre a o português de Portugal e o brasileiro, ele afirmou que a língua-mãe começa a ficar ultrapassada: “Em Portugal temos a ideia de que a língua brasileira é um pouco infantil. O português tem essa ideia tola, de que a língua brasileira não é afinada. É uma tolice, porque não há línguas infantis, todas elas tem o mesmo valor. O que nós temos é uma arrogância de velhos, que não aceitamos neologismos, variações. Tenho a impressão de que o futuro da língua portuguesa está no Brasil. E nós vamos ser o museu, talvez o cofre ou a biblioteca onde as pessoas guardam as coisas preciosas”.

Em uma conversa divertida e apaixonada sobre as palavras das mais diversas línguas, os escritores debateram ainda sobre a ausência de algumas palavras com significados específicos.

“Segundo o Houaiss, a língua portuguesa tem 400 mil palavras. Em todas elas, não encontrei algo que designasse minha posição como avô. Existe para pai e mãe, mas não há para avô e avó”, comentou Werneck. O trio falou ainda sobre palavras que acham curiosas. Para os visitantes da Fliporto 2012, as três mais curiosas seriam procrastinação, idiossincrasia e oligofrênico.

Go to Top