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Luiza de Carvalho Fariello, na Agência CNJ de Notícias

“Para se ter opinião e senso crítico é preciso ler muito, se dotar de conhecimento”. A afirmação é do adolescente Vítor*, jovem infrator que cumpre medida socioeducativa há um ano na Unidade de Internação de Santa Maria, Distrito Federal. Quando entrou no sistema, Vítor jamais havia lido um livro, e seus planos giravam em torno das drogas e do crime. A mudança brusca é resultado do “Projeto Leitura – a Arte do Saber”, uma biblioteca itinerante que percorre a unidade entregando livros aos 150 jovens do local.

O projeto foi desenvolvido pela Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude em parceria com a Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal, por meio da Rede Solidária Anjos do Amanhã, e com a rede de postos de gasolina Gasol, que já doou mil livros. A intenção é ampliar o projeto para as outras cinco unidades de internação do DF, com a arrecadação dos livros contemplando cerca de 900 jovens.

De acordo com o juiz titular da Vara de Infância e Juventude, Renato Rodovalho, os jovens leem os livros e passam por acompanhamento. Uma equipe de voluntários avalia e corrige os resumos feitos por eles, condição fundamental para que passem a ter acesso a outras leituras.

“A medida socioeducativa, sem acesso à leitura, perde sua natureza. Embora exista a reprimenda e cerceamento de liberdade, a intenção é propiciar um contexto socioeducativo”, diz Rodovalho. Para ele, a cultura e o livro abrem um mundo diferente para o ser humano, justamente no momento em que esses adolescentes se encontram em uma fase de projeto de vida.

Outra realidade – Esse foi o caso de Vítor, que quando chegou à instituição não fazia ideia da importância que os livros poderiam ter para sua vida. “O livro me levou para outra realidade, passei a me sentir como outra pessoa na sociedade. Li livros de história e passei a querer ser igual ao Mandela, Kant, a querer fazer a diferença. A gente aprontou, matou, roubou, fez várias coisas ruins, mas somos capazes de nos dotar de conhecimento e mudar”, diz o jovem, que terminou o ensino médio e estuda para o Enem. “Eu queria ser independente e o crime era um dinheiro fácil. Agora eu só quero mostrar quem sou por meio da dança, da música. Vou me afastar das pessoas que eu conhecia, a minha vida será de batalha. Hoje eu alcanço minha calma na leitura”, acredita.

Os livros que fazem parte do projeto são arrecadados nas varas de Justiça, fóruns, secretarias do governo e até em postos de gasolina. De acordo com o juiz Rodovalho, a maioria dos adolescentes internados já estava afastada da escola antes de cumprir a medida. “A gente verifica o crescimento do adolescente, uma mudança de atitude que beneficia não só ele como toda sociedade, uma vez que o projeto colabora para diminuir a reincidência criminal”, acredita o magistrado.

Na Unidade de Internação de Santa Maria, não há televisão nos quartos, o que facilitou a aproximação dos jovens com os livros. “No módulo não tem televisão, eu acho bom, se eu tivesse eu não chegaria à leitura. Mas agora nada pode me separar dela, mesmo que tivesse TV eu ia querer ler, isso vou levar para a vida toda”, conta Vítor. Ele ainda não sabe qual faculdade quer cursar, mas tem um sonho: “quero mostrar para uma criança da periferia que o sonho dela pode ser alcançado sem precisar entrar para o crime. Eu poderia ter tido outro destino na vida”, diz.

Quer doar livros? Veja os postos de coleta:

– Secretarias de Educação; Cultura; Ciência, Tecnologia e Inovação; Esporte e Lazer; Desenvolvimento Humano e Social; Políticas para as Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos; e Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude;

– Palácio do Buriti (sede e anexo);

– Biblioteca Nacional;

– Câmara Legislativa;

– Unidades do Na Hora;

– Fóruns de Justiça do DF.

*Nome fictício em respeito a Estatuto da Criança e do Adolescente