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3 Livros de Stephen King para quem quer fugir do óbvio

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Flavia Viana, no Mundo Hype

Certa vez ouvi dizer que Stephen King é novela escrita e isso não é mentira, também não é crítica. Ele é um escrito que divide opiniões, mas não há como negar: suas histórias marcaram a literatura e trouxeram novos rumos para o cinema e para a TV também, mesmo com as produções abaixo da média.

O histórico de adaptações de livros do Stephen King não é daqueles repleto de sucessos. Alguns deram certo e outros foram um fracasso completo, bem como na TV. A questão é: é tão difícil adaptar Stephen King? Sua escrita descritiva demais, detalhada demais e às vezes até prolixa, enfadonha muitos dos leitores e, em contra partida, apaixona outra parcela de leitores aficionados pelos universos complexos e cheios de detalhes de Stephen King. Talvez essa minúcia de King atrapalhe a maioria dos roteiristas. Alguns de seus livros adaptados se tornaram clássicos (O Iluminado, Conta Comigo, It, A Espera de Um Milagre e Um Sonho de Liberdade) e o mérito vai para os diretores que arriscaram mudar as narrativas e alterar os padrões de King em suas histórias. O mesmo vale para a TV, algumas tentativas de adaptação foram feitas, mas sem muito sucesso, tais como Under The Dome e The Mist, só para começar.

Agora vamos ao que interessa: Stephen King só escreve suspense, terror, sobrenatural e em livros gigantes? Vez ou outra ele escreve alguma coisa mais leve ou até mesmo com o seu lugar comum no suspense e sobrenatural, mas sem aquela carga pesada como IT por exemplo.

Então se você quer ler livros dele que se distanciam disso ou nem tanto, aqui vão 3 livros dele para você. Os 3 livros a seguir são curtos, dá pra ler rápido e se aprofundar bem nas histórias.

1 – Joyland

O universitário Devin Jones começa um trabalho temporário no parque Joyland, esperando esquecer a namorada que partiu seu coração. Mas é outra garota que acaba mudando seu mundo para sempre: a vítima de um serial killer. Linda Grey foi morta no parque há anos, e diz a lenda que seu espírito ainda assombra o trem fantasma. Dev conta com a ajuda de Mike, um menino com um dom especial e uma doença grave. O destino de uma criança e a realidade sombria da vida vêm à tona neste eletrizante mistério sobre amar e perder, sobre crescer, envelhecer e sobre aqueles que sequer tiveram a chance de passar por essas experiências porque a morte lhes chegou cedo demais. *Sinopse retiradas do Skoob.

2 – As Quatro Estações

Uma coletânea de contos divida nas estações do ano. Em “Primavera eterna – Rita Hayworth e a redenção de Shawshank”, o escritor toma a injusta condenação de um homem à prisão perpétua como ponto de partida para falar sobre o desejo de liberdade. A adaptação para as telas do cinema – com atuações de Tim Robbins e Morgan Freeman – fez grande sucesso sob o título Um sonho de liberdade. Já a perda da inocência é retratada por King em “Verão da corrupção – Aluno inteligente”, que descreve a estranha relação entre um velho torturador nazista e um rapaz de apenas 13 anos de idade fascinado pelo terror do III Reich. A novela chegou às grandes telas como O aprendiz. Na trama seguinte, “Outono da inocência – O corpo”, o autor dá novos contornos ao tema do rito de passagem da juventude para a maturidade, utilizando-se das reações de um grupo de adolescentes confrontados com a morte ao se verem diante de um cadáver. (Desse livro temos 2 filmes: Sonho de Liberdade e Conta Comigo). *Sinopse retiradas do Skoob.

3 – A Hora do Vampiro (Salem)

Ambientado na cidadezinha de Jerusalem’s Lot, na Nova Inglaterra, o romance conta a história de três forasteiros. Ben Mears, um escritor que viveu alguns anos na cidade quando criança e está disposto a acertar contas com o próprio passado; Mark Petrie, um menino obcecado por monstros e filmes de terror; e o Senhor Barlow, uma figura misteriosa que decide abrir uma loja na cidade. Após a chegada desses forasteiros, fatos inexplicáveis vêm perturbar a rotina provinciana de Jerusalem’s Lot: uma criança é encontrada morta; habitantes começam a desaparecer sem deixar vestígios ou sucumbem a uma estranha doença. A morte passa a envolver a pequena cidade com seu toque maléfico e Ben e Mark são obrigados a escolher o único caminho que resta aos sobreviventes da praga: fugir. Mas isso não será tão simples, os destinos de Ben, Mark, Barlow e Jerusalem’s Lot estão agora para sempre interligados. E é chegada a hora do inevitável acerto de contas. (Existem dois filmes que adaptam essa história: A Mansão Marsten de 1979 e outro filme de 2004). *Sinopse retiradas do Skoob.

Com esses livros você conhece várias facetas de Stephen King em livros curtos, como sempre bem escritos e mesmo com suas cargas dramáticas; divertidos.

Menina de 11 anos dá aula a outras crianças em meio aos becos onde mora em Recife

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Publicado no Razões para Acreditar

Se depender de Steffany Rafaela da Silva, de apenas 11 anos, as crianças de seu bairro jamais ficarão sem estudar. Ela vive na comunidade Roda de Fogo, na zona oeste de Recife, onde entre becos estreitos, ruas com esgoto aparente e sem saneamento básico, ela dá um jeito de ensinar 14 crianças menores do que ela.

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Cátia da Silva é sua vizinha e diz que ela sempre foi assim: “Ela é assim desde pequena. Ainda muito nova, antes mesmo de entrar as escola, já gostava de brincar de ensinar. Cresceu e não mudou. Todos os dias está aí, em pé ou sentada no chão. Procura um cantinho mais limpo e seco, onde não tenha esgoto escorrendo e, com a maior paciência vai ensinando inglês aos meninos, contando historinhas, ajudando nas tarefas. Só não tem aula se chover, porque eles não têm onde ficar”.

Steffany vive em uma casa de apenas um cômodo, que divide com a mãe, Rafaela, que está desempregada. Atualmente sua mãe conta apenas com o dinheiro do Bolsa Família, mas mesmo sem estrutura e sem dinheiro, Steffany dá sempre um jeito de continuar ensinando. As aulas são preparadas em cima de sua cama e ela sempre consegue pequenas doações de dinheiro com amigos e vizinhos para que possa fazer cópias das folhas, que ela sempre entrega para seus alunos.

No dia de prova ela ainda faz questão de distribuir balas e chocolates e como o número de crianças vem aumentando, ela acabou pedindo ajuda para uma amiga. Enquanto Steffany ensina os mais velhos, sua amiga, de 7 anos, cuida dos menores. A garota diz que quem começou com a ideia da “escola” foi uma amiga, que depois acabou se mudando, então ela decidiu continuar.

Seu maior sonho? “Ter uma sala, um cantinho para estudar com meus amigos. Nos becos a gente não consegue ficar quando chove e também preciso de um lugar para guardar o material e para organizar as aulas”.

Que menina inspiradora! Você vai longe, Steffany!

Com informações de Jornal do Comércio

Fotos: Diego Nigro / JC Imagem

Designer gráfico cria gibi com super-herói que combate os problemas do Brasil

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Coleção. Ruan Victor exibe as produções que tem do seu super-herói Bombeiro Mascarado – Fábio Guimarães / Agência O Globo

Personagem, batizado de Bombeiro Mascarado, será destaque na primeira publicação do Universo RZE Comics

Daniela Kalicheski, em O Globo

NITERÓI — Na ficção, o grupo formado por um bombeiro, um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, uma estudante, um soldado e um ninja realiza o sonho do povo brasileiro: juntos, combatem os problemas do Brasil causados por vilões cheios de poder (nem sempre sobrenaturais). A “Liga da Justiça” brasileira foi batizada de Universo RZE Comics, e é liderada pelo Bombeiro Mascarado, personagem criado pelo designer gráfico Ruan Victor. Entusiasta do mundo dos quadrinhos desde o tempo de criança, em São Gonçalo, ele começou a produzir ficção no formato de gibis independentes, há três anos, e já desenvolve projetos para expandir seu trabalho ao lado dos artistas gráficos que integram o grupo.

A criação do Bombeiro Mascarado foi inspirada num momento dramático. Victor presenciou a atuação de bombeiros num incêndio. Admirado, imaginou como seria o trabalho deles se tivessem poderes sobrenaturais. Nasceu então a ideia de uma história em formato de gibi. Ele fez tudo por conta própria, do roteiro aos desenhos e à impressão. O feedback positivo veio como incentivo para que o designer profissionalizasse a criação.

— É difícil viver disso no Brasil, as editoras preferem investir em produções que já são sinônimo de sucesso, que apresentam tramas americanas de heróis com milhões de fãs pelo mundo. É justificável, mas também é importante ter uma representação nacional. Quero fazer algo no nosso país, que é rico em problemas a serem resolvidos. Por que não podemos ter heróis salvando nossas cidades? Só vemos Nova York nas tramas — questiona Victor.

Imagem do Bombeiro Mascarado – Divulgação

A participação em feiras geeks e a divulgação on-line do seu trabalho permitiram que ele entrasse em contato com pessoas de outros estados, com interesse e personagens semelhantes. Juntos, criaram o Universo RZE Comics, um projeto paralelo aos quadrinhos que narram as aventuras do Bombeiro Mascarado e que reúne todos os personagens numa liga de heróis. A primeira HQ deve ser lançada em breve e está em desenvolvimento um audiovisual para o YouTube.

Sozinho, ele se aproxima da marca dos 700 exemplares vendidos. Sempre focando em narrativas que apresentam críticas sociais, com abordagens a respeito da cena política atual e falando da violência urbana.

— O tema principal é o Brasil, com seus fatos históricos somados a elementos sobrenaturais. O Bombeiro Mascarado precisa salvar as pessoas, ele combate o crime, mas não é um especialista em usar os superpoderes que tem. É bem atrapalhado. Uso isso para fugir do clichê. Ele acaba apanhando muito, mais do que bate — conta Victor, que, porém, sempre garante a vitória do seu super-herói.

Tornar a história interessante e passar uma mensagem que faça o leitor repensar suas atitudes são os pontos cruciais, segundo Victor:

— A edição de maior sucesso aborda um inimigo que tinha o poder de controlar o Aedes aegypti, e assim dengue, chicungunha e zika. Nosso herói precisa derrotá-lo. Tem conscientização na trama. A violência em São Gonçalo e Niterói também está presente constantemente — explica.

Os gibis do Bombeiro Mascarado podem ser adquiridos por meio da página facebook.com/bombeiromascarado ou, presencialmente, em feiras geeks. A próxima será a Gonçageek, dia 15 de abril, a partir das 11h, no Clube Mauá (Avenida Presidente Kennedy 635, no Centro de São Gonçalo).

O Pudim de Natal de Charles Dickens

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Publicado no Capitu Vem Para o jantar

Foi minha mãe quem me lembrou do famoso Pudim de Natal Inglês presente em “O Conto de Natal”. Pro bem da verdade, eu não me lembrava e tive que reler o conto. No terceiro capítulo, lá estava ele, o incrível Pudim de Natal da família Cratchit… Mas, espera aí. Trata-se de um pudim flambado? Que demora mais de cinco horas pra ficar pronto? Que parece uma bola de canhão? Como raios eu vou fazer isso?

Recorri a nossa amiga de sempre internet e iniciei uma intensa busca sobre o tradicional Pudim de Natal Inglês. Descobri como se faz esta trabalhosa delícia e um pouco mais sobra a história desta receita.

Ebenezer Scrooge é um homem rabugento que odeia o Natal. Na véspera da festa ele recebe a visita de Jacob Marley, seu ex sócio que morreu há sete anos.

Ebenezer Scrooge é um homem rabugento que odeia o Natal. Na véspera da festa ele recebe a visita de Jacob Marley, seu ex sócio que morreu há sete anos.

Marley sempre foi tão avarento quanto Scrooge e, por isso, aparece para dizer ao companheiro que seu espírito não consegue descansar em paz por causa de tudo o que ele fez em vida. Mas ainda há esperança para Scrooge.

Na noite de Natal ele deve receber três fantasmas que mostrarão o verdadeiro significado do Natal. É o segundo espírito que leva Scrooge para acompanhar a ceia de Bob Cratchit, seu empregado.

A ceia é simples, a casa é fria, as crianças estão com roupas velhas, mas há alegria e amor em volta da mesa. Depois de se deliciarem com um magro pato, chega a tão esperada hora do pudim. Veja o trecho:

Enfim! Derrama-se na atmosfera um vapor!

Era o pudim que saía do forno!
A sala de jantar cheirava deliciosamente um cheiro de
confeitaria! Era o pudim! O pudim!
Momentos depois, entrava a dona da casa, rubra de comoção,
mas sorridente e feliz, com o seu pudim, redondo como uma
bala de canhão, duro, envolto em labaredas de aguardente e
enfeitado com o ramo de pinheiro do Natal!”

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“O Conto de Natal” foi publicado em dezembro de 1843 e foi escrito em apenas um mês para que Charles Dickens pudesse pagar algumas dívidas.

No entanto, a obra vendeu mais de seis mil cópias em apenas uma semana e, claro, entrou para a história como um dos mais famosos contos natalinos.

Agora vou aproveitar que estou falando sobre curiosidades e contar um pouco sobre o Pudim de Natal. Esta iguaria é um prato típico natalino inglês desde o século 14. Originalmente ele começava a ser cozinhado no primeiro domingo do mês de dezembro, o Domingo do Advento, e o preparo se estendia durante as quatro semanas até o Natal.

Era outra época, havia tempo, a vida era lenta e, é claro, o pudim passou por várias transformações. Hoje o mais usual é comprá-lo pronto – como fazemos com o tradicional panetone. Pouca gente se habilita a ir ao fogão e prepará-lo, mas quem o faz segue a risca algumas superstições.

Uma delas é colocar moedas de prata dentro da massa para que quem a encontrar tenha sorte o ano todo. Outra é colocar um anel de noivado para a moça que encontrá-lo, obviamente, seja presenteada com um amor no ano seguinte.

Contudo, a tradição mais seguida pelos ingleses é convidar todos os integrantes da família a mexer a massa e fazer um pedido. (E é claro que segui esta tradição aqui em casa! Afinal, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay!).

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Ingredientes:

 

– 200g de uvas-passas pretas
– 150g de uvas-passas brancas
– 60g de frutas cristalizadas
– 50g de amêndoas trituradas
– 100g de manteiga derretida
– 2 ovos
– 100g de farinha de trigo
– 200g de açúcar mascavo
– 1 colher chá de canela em pó
– 1 colher chá de uma mistura de gengibre em pó com cravo em pó
– 1 pitada de noz-moscada ralada
– 1/3 xícara de cerveja preta
– Raspas da casca de um limão
– 1 maçã pequena cortada em cubos
– 100 ml de rum

Passo a Passo

Numa panela grande misture os ingredientes secos: farinha, açúcar, gengibre, cravo e canela.

Em seguida, acrescente a manteiga derretida, junto com as rapas do limão. Incorpore a maçã, os ovos e a cerveja e, por fim, adicione as passas, frutas cristalizadas e amêndoas.

Mexa bem e não esqueça de fazer o pedido, tá?

Agora começa a parte complicada. Eu usei uma tigela de vidro côncova. Unte a tigela com manteiga e coloque a massa dentro.

A seguir, cubra a tigela com uma folha de papel manteiga e uma folha de papel alumínio e amarre com um barbante bem forte. Não esqueça de tirar as sobras. Veja a foto:

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Em uma panela grande, adicione água até a metade e deixe ferver. Coloque um pires de cerâmica no fundo. Quando a água já estiver borbulhando, coloque a tigela com massa dentro da água. (Tem que ser em cima do pires, pois ela não pode encostar no fundo da panela, ok?).

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Tampe a panela e deixe o pudim cozinhar em banho-maria por seis horas (Sim, seis horas!).

O truque é sempre ficar de olho para a água não evaporar. Tenha uma chaleira com água quente sempre a postos para ir preenchendo a panela. Não pode ser água fria pois interrompe a fervura.

Depois de pronto, desenforme o pudim e o sirva flambado.

Para flambar, leve o rum ao fogo por dois minutos. Em seguida, com muito cuidado, acenda um fósforo em cima da bebida. Ela começará a pegar fogo. Aí basta só despejar a bebida fumegante em cima do pudim.

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Escritora canadense Margaret Atwood se torna ícone pop

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Daniel Oliveira. em O Tempo

Nascida em Ottawa, capital do Canadá, em 1939, Margaret Atwood começou a escrever poemas e peças aos 6 anos. Com 21, ela se formou em literatura na Universidade de Toronto e, aos 23, concluiu o mestrado em Harvard. Desde então, já publicou 16 romances, 15 coletâneas de poemas e inúmeros contos e ensaios.

Isso tudo já a havia consolidado como uma das grandes escritoras da atualidade. Mas foi só em 2017 que o nome de Atwood ultrapassou os confinamentos da alta literatura e ganhou um novo status: o de ícone da cultura pop. Com as adaptações dos romances “O Conto da Aia” (na série “The Handmaid’s Tale”, grande vencedora do último Emmy) e “Vulgo Grace” (na minissérie “Alias Grace”, que estreou na Netflix no último dia 3), a autora e sua obra se tornaram uma espécie de bíblia oracular da atual onda do feminismo – antecipando todas as questões em voga no movimento.

“É difícil responder o porquê disso. Porque ‘The Handmaid’s Tale’ começou a ser produzida antes da eleição do Trump. E ‘Alias Grace’, antes das atuais acusações de assédio em Hollywood. Essas são questões que sempre existiram para nós, mulheres, e de repente se tornaram mais prementes”, analisa Maria Rita Drummond, professora de literatura da Universidade Federal de Santa Catarina.

O que a pesquisadora, que ministra um curso sobre distopias, reconhece na obra de Atwood é uma capacidade de enxergar na dominação da mulher pelo homem e no culto a uma masculinidade tóxica a raiz de vários dos problemas que assolam o mundo hoje. “Mesmo ‘1984’, que é o livro que pula na cabeça das pessoas quando se fala de distopia, é absolutamente cego, surdo e mudo para questões de gênero. Muito do que ele diagnostica ali como problemas da humanidade, como características natas do ser humano, ela diz que não, que são traços de um culto à masculinidade e a uma ideia de homem que não é natural, é algo que se cria”, analisa.

Maria Rita ressalta, porém, que isso não é uma qualidade exclusiva da canadense. Escritoras como Katharine Burdekin, em “Swastika Night” (1937), e Mary Shelley, em “Frankenstein” (1818), já haviam realizado reflexões similares. E o curioso é que, mesmo que a opressão feminina por uma ideologia patriarcal seja um dos temas mais recorrentes em sua obra, Atwood nega que romances como “A Mulher Comestível”, “O Conto da Aia” e “Oryx e Crake” sejam feministas, alegando que esse título se aplicaria apenas a escritores que trabalham conscientemente dentro dos parâmetros do movimento.

“Acho que essa declaração dela tem muito daquela coisa do autor que não quer ser colocado em uma caixinha, o que é válido”, argumenta a professora. No entanto, ela acha que o que importa é o texto. “E se a gente levar em conta as questões centrais propostas pelo feminismo, ou pelos feminismos, não tem como não pensar em ‘O Conto da Aia’ e quase na obra inteira dela, que discute noções recebidas de dominação sexual e estereótipos de gênero”, afirma.

Já a estudante de letras Barbara Deister reconhece a importância do chamado à reflexão de “Aia”, mas não acredita que o romance possa ser considerado estritamente feminista. “No livro, a protagonista é uma personagem insípida, emocionalmente dependente dos homens, que mantem uma postura resignada ante sua nova realidade e, em algumas passagens, faz críticas pesadas a sua mãe, que ia para a rua fazer piquete e protestar ‘junto com suas amigas feministas e barulhentas’”, descreve. Para ela, as críticas e a desqualificação do feminismo feitas no livro representam a opinião da própria escritora e, por isso, ela preferiu a série, “que mostra uma personagem muito mais complexa, feminista, com mais atitude e menos dependente dos personagens masculinos”.

Outra polêmica envolvendo Atwood diz respeito à sua rejeição de que obras como “Aia” e “Oryx e Crake” sejam categorizadas como ficção científica. Para ela, mesmo sendo distopias futuristas, os livros são “ficções especulativas”. “Para mim, o rótulo da ficção científica pertence a romances com elementos que a humanidade ainda não é capaz de fazer, enquanto a ficção especulativa emprega recursos já disponíveis e se passa no planeta Terra”, explicou.

Drummond vê nisso outra recusa da autora a ser enquadrada numa caixinha. Para além de discussões categóricas, porém, a professora acredita que o verdadeiro poder da obra de Atwood está na compreensão que ela tem da impossibilidade de se entender totalmente o outro – especialmente as mulheres, a quem tão pouca voz foi dada historicamente. Tudo a que se tem acesso são pedaços, fragmentos de discursos – acadêmicos, científicos, jornalísticos, históricos, pessoais. E a obra dela, desde romances como “Vulgo Grace” e “O Assassino Cego” a contos como “O Ovo do Barba Azul”, é sempre construída a partir desses diferentes olhares e gêneros textuais – o que, Drummond reconhece, pode torná-la de difícil leitura para não-iniciados.

Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público

Status. Adaptações da obra de Atwood conquistaram o público

“Mas é o que eu mais gosto na literatura dela, essa consciência que você tem de que há sempre mais de uma história sendo contada ao mesmo tempo: alguém contando uma história para alguém, uma história sendo escrita, um futuro imaginado a partir de questões atuais. Essa característica de grandes escritores de questionar a permeabilidade da verdade e enxergar o poder da história que contamos para os outros e para nós mesmos”, sintetiza.

Romances

‘A Mulher Comestível’ (1969)

‘O Laço Sagrado’ (1972)

‘Madame Oráculo’ (1976)

‘A Vida Antes do Homem’ (1979)

‘Lesão Corporal’ (1981)

‘O Conto da Aia’ (1985)

‘Olho de Gato’ (1988)]

‘A Noiva Ladra’ (1993)

‘Vulgo Grace’ (1996)

‘O Assassino Cego’ (2000)

‘Oryx e Crake’ (2003)

‘A Odisseia de Penélope’ (2005)

‘God’s Gardeners’ (2009)

‘O Ano do Dilúvio’ (2009)

‘MaddAddam’ (2013)

‘The Heart Goes Last’ (2015)

Vem mais aí

A ‘Trilogia MaddAddam’ – formada pelos livros “Oryx e Crake”, “O Ano do Dilúvio” e “MaddAddam” – está atualmente sendo adaptada pela HBO.

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