Contando e Cantando (Volume 2)

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Poeta mantém biblioteca gratuita em Taboão da Serra

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Robson Padial criou ainda um encontro de literatura e doa livros no Terminal Campo Limpo

Afonso Capelas Jr na Veja São Paulo

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Robson Padial: “Tenho muito orgulho quando vejo pessoas simples escrevendo poemas” (Foto: Fernando Moraes)

 

Aficionado de literatura, Robson Padial precisava ir até Pinheiros para ler na infância. No Campo Limpo, na Zona Sul, onde morava, não havia biblioteca. Em 1995, aos 31 anos de idade, teria contato mais próximo com a poesia. “Rabisquei uns versos durante um exercício de criatividade em uma aula de biodança e me apaixonei”, diz. Naquele ano, começou a organizar um evento nas noites de segunda no bar que abriu em seu bairro.

Chamado de Noite da Vela, consistia em um grupo de amigos ouvindo discos de samba, rap e MPB. Com o tempo, o encontro passou a incluir a declamação de poemas e atraiu candidatos a artista amador. Rebatizado como Sarau do Binho (seu apelido), a iniciativa completará dez anos em 2014. “É um território livre que ajudou a formar um caldo cultural na periferia”, diz. Um dos que alçaram voo nesse ambiente foi Luan Luando, autor do livro Manda Busca (foto), lançado em 2011. “Tornou-se uma escola de poesia. Tenho muito orgulho quando vejo pessoas simples escrevendo e recitando em público”, afirma.

No ano passado, o encontro mudou de endereço e passou a ser realizado na Praça João Tadeu Priolli, no último domingo do mês; e no Espaço Clariô de Teatro, em Taboão da Serra, a cada quinze dias, às segundas. A organização é caseira: sua mulher, a professora Suzi Soares, colabora com a divulgação. “Há ocasiões em que reunimos 150 pessoas”, afirma. A boa receptividade do público o incentivou a se envolver em outras atividades culturais na região.

Recentemente criou a Brechoteca, mistura de loja de roupas usadas e biblioteca. Lé é possível pegar livros emprestados e assistir a contações de histórias infantis. Há um ano também passou a distribuir obras no Terminal Rodoviário do Campo Limpo. Uma vez por mês, ele e Suzi levam ao local cerca de 2 000 exemplares doados por moradores. Em quatro horas, não sobra um. “Meu desejo é que os próprios usuários criem o hábito da troca e transformem o lugar numa feira literária.”

Nome: Robson Padial

Profissão: poeta

Atitude transformadora: criou um encontro de literatura, mantém uma biblioteca gratuita e doa livros no Terminal do Campo Limpo

Documentário mostra como a escola mudou a vida de meninas em 9 países

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Ao terem acesso à escola, elas quebram ciclo de pobreza, diz produtor.
Filme retrata histórias em países como Haiti, Peru, Afeganistão e Etiópia.

As nove protagonistas do filme: Senna, Wadley, Suma, Amina, Sokha, Ruksana, Mariama, Yasmin e Azmera (Foto: Divulgação/Girl rising)

As nove protagonistas do filme: Senna, Wadley, Suma, Amina, Sokha, Ruksana, Mariama, Yasmin e Azmera (Foto: Divulgação/Girl rising)

Ana Carolina Moreno, no G1

Um documentário lançado em março deste ano nos Estados Unidos sobre os efeitos transformadores que a educação tem na sociedade foi exibido pela primeira vez no Brasil nesta quarta-feira (14) em uma sessão na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). O filme “Girl rising” (“A ascensão da garota”, em tradução livre do inglês) retrata a história de nove meninas de 7 a 16 anos que vivem em comunidades de países pobres e recebem a oportunidade de ir à escola.

De acordo com Justin Reever, um dos produtores do documentário, o filme mostra que dar às garotas acesso à educação é uma maneira de “quebrar ciclos de pobreza, acabar com longas tradições de injustiça e educar filhos e filhas de maneira igualitária”.

Nele, são contadas as histórias de garotas como Azmera, uma etíope que, aos 13 anos, se recusou a casar à força, Ruksana, uma menina que vivia nas ruas da Índia e cujo pai se sacrificou para garantir educação à filhas, e Wadley, uma menina de 7 anos que mora no Haiti e, mesmo sendo rejeitada pelos professores, volta à escola todos os dias para exigir seu direito de estudar.

Cena do documentário 'Girl rising' (Foto: Divulgação/Girl rising)

Cena do documentário ‘Girl rising’
(Foto: Divulgação/Girl rising)

As outras protagonistas do documentário são Senna, uma poeta do Peru, Sokha, uma órfã do Cambódia, Suma, uma musicista do Nepal, Yasmin, uma pré-adolescente do Egito, Mariama, uma radialista de Serra Leoa, e Amina, que vive no Afeganistão.

Solução para quebrar ciclos

Em entrevista ao G1, Justin, que trabalha como diretor de parcerias do The Documentary Group, produtora do documentário, afirmou que, apesar de as histórias mostrarem vidas difíceis e impactantes, o filme traz uma mensagem de esperança.

Segundo ele, a ideia do filme surgiu há mais de cinco anos, antes do ataque contra Malala Yousafzai, uma garota paquistanesa que foi baleada na cabeça pelos radicais do Talibã por defender seu direito à escola e trouxe à tona o debate sobre a discriminação de gênero na educação em diversas partes do mundo.

Em uma pesquisa em vários países, os produtores de “Girl rising” visitaram diversas comunidades empobrecidas para entender as causas da miséria e as alternativas e soluções para o problema.

“Em comunidades presas em situações de pobreza, o que a gente encontrava é que havia muitas maneiras de acabar com esse problema, mas uma solução simples era educar as garotas”, contou ele. Foi assim que surgiu a ideia de encontrar e retratar histórias de meninas que ajudaram a transformar sua comunidade depois de receberem a oportunidade de ir à escola.

Capítulo sobre Wadley, a garota do Haiti (Foto: Divulgação/Girl rising)

Capítulo sobre Wadley, a garota do Haiti
(Foto: Divulgação/Girl rising)

A partir daí, a equipe formou parcerias com sete ONGs de setores como promoção da saúde, construção de bibliotecas e mobilização internacional, e visitou nove países selecionados e conhecer dezenas, às vezes centenas, de meninas. Depois de passar alguns dias com elas, os produtores pré-selecionavam cerca de cinco garotas com histórias ou características que chamavam sua atenção.

A escolha final das nove protagonistas foi feita pelas nove escritoras contratadas como autoras de cada capítulo. Elas também eram dos mesmos países e foram escolhidas para produzir os roteiros. As filmagens aconteceram entre 2010 e o fim de 2012.

Ainda de acordo com Justin, o diretor Richard Robbins usou nove técnicas cinematográficas diferentes para dar a cada história um toque específico. O capítulo de Senna, a adolescente peruana estimulada por seu pai a se dedicar aos estudos, foi filmado em preto e branco, por exemplo. Ao contar a história da radialista Mariama, foram usados efeitos de animação.

Para narrarem os capítulos, a produtora convidou atrizes como Meryl Streep, Anne Hathaway, Salma Hayek e a cantora Alicia Keys, que doaram suas vozes ao projeto.

Desde o lançamento do documentário, em março, mais de US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,3 milhões) já foram arrecadados para as ONGs que apoiam as protagonistas e outras garotas pelo mundo que ainda não têm acesso à escola.

No Brasil, o documentário ainda não tem previsão de lançamento nas salas de cinema. Além do evento na USP, a Intel, que financiou a produção do filme, pretende organizar exibições em Campinas, no fim de agosto, e no Rio de Janeiro, ainda sem previsão. Segundo Justin, pelo site oficial do filme é possível agendar exibições pontuais, e uma campanha está sendo feita para que diversos apoiadores transmitam o filme no mesmo dia, em 11 de outubro, quando se celebra o Dia Internacional da Menina.

Histórias próprias

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Novas editoras apostam em segmentos específicos para conquistar espaço em um setor que enfrenta desafios

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Enquanto grandes editoras se digladiam em leilões milionários na eterna busca por um best-seller, ou criam selos para diversificar o catálogo e competir em diversas frentes, pequenos editores vão na contramão e, com criatividade, inventam editoras e conquistam seu espaço.

Apostando em nichos ou em formato, respondendo a uma demanda do público ou a um desejo particular, Darkside Books, Alpendre, Tapioca, Bamboo, Reflexiva e Descaminhos fazem agora seu debut no mercado brasileiro.

Terror e fantasia. Depois de 15 anos fazendo livros para os outros na Retina 78, e de muita conversa de bar, Christiano Menezes e Chico de Assis decidiram abrir a sonhada editora de livros de terror e fantasia, universo com o qual se identificam e que, segundo Menezes, é mal tratado pelo mercado editorial. A Darkside Books estreou no último Dia das Bruxas com uma edição especial e numerada de Os Goonies, baseada no roteiro do filme. Os mil exemplares da tiragem esgotaram rapidamente. Depois vieram O Massacre da Serra Elétrica, antes do anúncio de que o filme entraria em cartaz aqui, e Evil Dead. Está saindo J.R.R. Tolkien – O Senhor da Fantasia, de Michael White, e em breve eles lançam outra biografia: a do autor Stephen King. Em produção, um livro mais acadêmico sobre serial killers.

O público é grande e fiel. Só no Facebook, a editora já contabiliza mais de 80 mil fãs, e eles fogem do padrão brasileiro. Se a média de leitura é de quatro livros por ano, como aponta a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, quando chegamos a esse público os números surpreendem. “Nossos leitores têm entre 15 e 35 anos e são vorazes, capazes de ler seis, sete livros por mês. Uma coisa até exagerada”, brinca Christiano, que foi proprietário da Barba Negra, de HQ.

No intervalo entre um título e outro, a Darkside fez alguns freebooks, como O Corvo, no aniversário de Edgar Alan Poe, e O Hóspede de Drácula, no de Bram Stoker. A média de page views é de 15 mil a 20 mil por título. Mas os e-books pagos vão ficar para o ano que vem. “Ainda queremos trabalhar o livro objeto. Esse fenômeno do novo leitor, que consegue ler essa quantidade enorme, é muito recente e rico. São leitores filhos de um Crepúsculo, mas que estão buscando uma coisa diferente e criativa.”

Em 2014, eles devem lançar oito títulos. As tiragens variam de 3 a 6 mil exemplares. Os sócios estão animados com a repercussão e com as perspectivas. “O retorno está ótimo, digo, tudo dentro da escala de uma editora que está começando. Existia um buraco e uma demanda enorme e a galera está correspondendo”, diz Christiano Menezes.

Retorno à cozinha. O crescimento da oferta de cursos de gastronomia e a moda de cozinhar (e de preparar sua própria cerveja, entre outros produtos) serviram de impulso para que José Carlos de Souza Júnior, 15 anos de mercado, com passagens por editoras como Senac e Elsevier, e Renato Guazelli, ex-executivo da Peugeot em Paris e originário de uma família de profissionais do livro (Pioneira, Disal), criassem a Tapioca. “Abrimos a editora acreditando no filão que tem aí. Foi uma escolha que aliou a afinidade que temos com o tema e a vontade comercial de fazer uma coisa para dar certo. Queremos virar uma editora de referência e estamos buscando obras que não estão sendo publicadas.” O investimento, ao final de um ano e meio, deve ficar na casa dos US$ 400 mil.

Para além da fórmula ingredientes, rendimento e modo de preparo + fotografias de pratos, Júnior acredita também na ficção ambientada no universo da gastronomia e em livros que não serão exatamente best-sellers. mas que vão vender bem, e vender sempre. Uma das apostas é A Arte da Fermentação, de Sandor Katz, em produção. O primeiro título da editora, O Dilema Vegano, de Roberto Juliano, já vendeu mais de 6 mil exemplares.

No Dia das Crianças, serão lançados os primeiros títulos do selo Tapioquinha: O Menino do Pé de Moleque e A Menina da Baba de Moça, de Tatyana Bianchini e Fanny Alcântara.

No caminho do futuro. Tanto a Alpendre, da jornalista Gabriela Erbetta, quanto a Descaminhos, de André Caramuru Aubert e de Leda Rita Cintra, focam apenas publicações digitais.

“Eu nunca abriria uma editora de papel. Minha ideia foi fazer um modelo Kindle Single”, conta Gabriela, que trabalhou no núcleo de Turismo da Abril. Ela tem preparado uma série de títulos, todos curtos (e provavelmente mais baratos), nas áreas de turismo, culinária, história e língua portuguesa. A inauguração, no fim do mês, será com 50 Endereços no Brooklin – depois virão obras sobre San Diego e o Porto, todos destinos secundários -, e com a obra de Viviane Aguiar sobre o lendário Bar Riviera, que está para ser reaberto.

Com títulos à venda, por ora, na Amazon, a Descaminhos, criada em maio, tenta, segundo Caramuru Aubert, preencher um vazio deixado pelas editoras tradicionais. “Teremos livros inéditos de qualidade e trabalhos clássicos, mas que eram sistematicamente recusados pelo receio de que não venderiam bem”, conta. Leda, a sócia, foi mulher de Kiko Galvão Ferraz, filho de Patrícia Galvão. “Pretendo publicar toda a obra da Pagu, inclusive os contos policiais que ela escreveu sob o pseudônimo de King Sheldon, e um ensaio autobiográfico muito bonito feito exatamente quando estava grávida do Kiko.” Ela também quer publicar a obra completa de Geraldo Ferraz, entre outros títulos, que não devem custar mais do que R$ 9,99.

A editora como história. Francisco Pereira, prático no Porto de Vitória, quis escrever um livro que mudasse a vida das pessoas. Isso, quando ele conseguiu sair de uma depressão. Mas ele não sabia como escrever um livro. Imaginou-se um escritor numa entrevista falando sobre essa suposta obra. O ano era 2006. Escreveu, traduziu para o inglês, mandou gravar um audiolivro. Achou que tinha criado um produto original e universal, que seria rapidamente publicado.

Como ele não conhecia os trâmites do mercado, foi pesquisar. Ouviu falar da Feira de Frankfurt e em 2008 comprou um estande, botou o livro na mala e foi para lá. A obra repercutiu, mas não foi vendida. Francisco continuou estudando, frequentando feiras e congressos e surgiu a ideia de abrir sua própria editora. A Reflexiva será apresentada em outubro, na Feira de Frankfurt, para onde ele volta na companhia do editor Fernando Alves, com estande e uma exposição sobre o livro, ainda inédito, que deu origem à editora. Depois disso, a cada dois ou três meses serão lançados de seis a oito volumes de autoajuda, que serão promovidos em conjunto e que formarão, com os títulos, uma pequena história.

A nova geração. Em parceria com Moacir Marte, a pedagoga Aloma Carvalho apresenta no próximo sábado os 12 primeiros títulos da Bamboo, editora que criou para investir no produto nacional. O foco inicial é nos livros infantojuvenis supercoloridos e com temática local. “Não vamos inventar nada de novo, não há fórmulas mágicas no mercado editorial, mas estamos atentos aos autores que têm um trabalho original, criativo. Muitos deles sequer são recebidos pelas grandes editoras porque são desconhecidos ou porque o seu projeto, supostamente, não se encaixa nos editais de compra do governo”, comenta Aloma. Publicando infantis, ela não deixa de ter, no horizonte, essas polpudas compras governamentais. Obras adultas também estarão no catálogo.

dica da Judith Almeida

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