Trabalhadores de Araraquara têm aulas diárias com professores da Unesp. Período na sala de aula não é descontado dos salários, segundo construtora.

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Publicado no G1

Um canteiro de obras de Araraquara (SP) se transformou em escola. Durante parte do dia, pedreiros e serventes se reúnem para assistir a aulas de professores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e, aos poucos, estão aprendendo os sons e contornos, a ler e escrever.

Pai de família, o servente José Sebastião nunca teve a oportunidade de estudar e agora desvenda as primeiras palavras. “Nunca estudei, né? É a primeira vez. Devagarzinho a gente chega lá”.

Aos 56 anos, José de Lima Araújo também está aproveitando a oportunidade e se surpreendendo com as descobertas. “A gente trabalha com uma régua de dois metros, três, três metros e meio, vem uma régua com 30 centímetros e a gente fica perdido. Não sabe nem como é que vai fazer com ela”.

Eles não precisam ir muito longe para aprender. Estudam com outros 15 funcionários da obra, em uma sala ao lado do prédio que estão erguendo. Durante duas horas por dia, aprendem com professores da Unesp e com o material feito especialmente com palavras e fotos que remetem ao cotidiano da construção.

captura_de_tela_inteira_27042015_160525“É mais do dia a dia, de ferramentas, de coisas do trabalho ou coisas que eles conhecem da casa, um carro, uma moto para que eles tenham mais facilidade de memorização”, explicou o professor Mazzeu Neto.

A ideia surgiu quando a construtora resolveu trabalhar apenas com pessoas alfabetizadas. Para não demitir quem não sabia ler e escrever, a empresa resolveu investir em cada um. As horas que os funcionários passam estudando contam como jornada de trabalho e são remuneradas. “Seria ‘prejuízo’, mas em contrapartida a gente está oferecendo uma instrução para eles”, afirmou Maria de Lourdes Lourenço, administradora de recursos humanos da empresa.

Planos
A Prefeitura, que doou livros, cadernos, lápis e réguas, pretende expandir o projeto. “Nós estamos correndo com outras construtoras para localizar onde estão essas pessoas que não sabem ler e escrever e estender essa parceria”, contou a secretária de Educação, Arary Ferreira.

E, para quem já integra o programa, não faltam planos para o futuro. “Quero aprender para tirar minha carta”, disse o servente Amaro Batista Gouvea. “Vou dar o máximo para aprender alguma coisa, pelo menos saber ler alguma coisa”, completou o pedreiro Vilmar Pereira da Silva. “Nunca é tarde para aprender alguma coisa, né?”, ensinou Oscar Ribeiro Diniz.