Cena da adaptação cinematográfica de 'Cinquenta tons de cinza' - Divulgação

Cena da adaptação cinematográfica de ‘Cinquenta tons de cinza’ – Divulgação

 

Pesquisa ouviu 747 mulheres entre 18 e 24 anos matriculadas em faculdades americanas

Publicado em O Globo

RIO — Jovens mulheres que leram a série erótica “Cinquenta tons de cinza”, de E.L. James, são mais propensas a terem atitudes sexistas, de acordo com uma pesquisa feita em conjunto entre as faculdades estaduais de Ohio e Michigan.

Intitulado “Sexist attitudes among emerging adult women readers of fifty shades fiction” (“atitudes sexistas entre jovens mulheres adultas leitoras da ficção ‘Cinquenta tons'”, em tradução livre), o estudo mostra que as leitoras da série têm níveis mais altos de “sexismo ambivalente, benevolente e hostil”. Por “sexismo benevolente” entendem como a crença de que mulheres devem ser protegidas por homens, enquanto “sexismo hostil” é a visão negativa e objetivada da mulher.

Segundo o “Guardian”, os pesquisadores, liderados por Lauren Alternburger, estudaram 747 mulheres entre 18 e 24 anos matriculadas em faculdades americanas. Elas tiveram seus pontos de vista medidos por um questionário batizado de “Inventario de sexismo ambivalente”, que consiste em 22 afirmações preenchidas por suas respectivas escalas de concordância. Onze das afirmações expressam sexismo hostil — tal como “mulheres buscam ganhar poder ao obter controle sobre os homens” — enquanto outras 11 tinham conteúdo de sexismo benevolente, como “as mulheres devem ser protegidas e amadas por homens”.

Cerca de 60% das participantes não leram a trilogia, e 46,2% das que leram ao menos alguma parte dos livros disseram que gostaram do conteúdo.

Os pesquisadores descobriram que essas que completaram ao menos o primeiro dos três livros apresentaram “atitudes sexistas ambivalentes, hostis e benevolentes mais fortes que aquelas que não leram nenhum dos livros”. As mulheres que descreveram a trama como “romântica” estavam mais propensas a “endossar atitudes sexistas”.

“Consistente com noções de sexismo benevolente, a realização completa de Anastasia (uma das protagonistas da história) não é alcançada sem um relacionamento heterossexual e monogâmico”, diz o balanço do estudo, pontuando a pressão que Anastasia sente para satisfazer Christian — caso contrário, ela sente que vai “terminar sozinha com um monte de gatos e lendo romances clássicos como forma de ter uma companhia” — e também a compulsão que ela sente por “aceitar tudo o que ele acha que precisa para ser satisfeito sexualmente”.

Para os pesquisadores, os jovens deveriam consumir ficção “através de uma lente crítica”, e obras como “Cinquenta tons” poderiam ser alvo de conversas sobre representações tradicionais dos sexos nos meios de comunicação. Eles sugerem ainda que escritores deveriam ser incentivados a “representar papéis de gênero mais igualitários” em seus trabalhos.

“A relação justaposta entre Christian e Anastasia toma a forma de uma hierarquia violenta, em que Anastasia aparece como inferior a Christian — ela é descrita como mais fraca, menos assertiva, mais emocional e menos inteligente”, diz o artigo em que o estudo foi publicado. “Além disso, o desequilíbrio entre eles toma a forma de abuso emocional (Christian intimida, ameaça, persegue, humilha e isola socialmente Anastasia) e violência sexual (ele usa intimidação e alcóol para prejudicar o consentimento de Anastasia)”.

Leitores de todo o mundo compraram mais de 100 milhões de cópias da trilogia escrita por E.L. James, que acompanha a obscura relação entre o bilionário empresário Christian e a tímida estudante Anastasia.