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Obras de importantes filósofos ganham versões em quadrinhos

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Quadrinhos incorporam personagens aos textos teóricos

Quadrinhos incorporam personagens aos textos teóricos

Pensadores como Karl Marx, Sun Tzu e Rousseau podem ser lidos em novelas gráficas

Publicado no Divirta-se

Se alguém contar, em uma conversa, que leu uma peça de Shakespeare em quadrinhos, ouvinte nenhum se espantará demais. Afinal, as obras do dramaturgo inglês têm roteiro elaborado, repleto de personagens e conflitos que podem ser bem retratados em imagens. Mas, se o autor em questão for um filósofo que escreveu livros cheios de conceitos complexos e reflexões teóricas, é bem possível que a surpresa seja maior.

É isso, porém, que está acontecendo com livros de autores teóricos, como Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud e Jean-Jacques Rousseau, entre outros nomes consagrados. Tratados, artigos e reflexões desses pensadores ganharam adaptações em narrativas gráficas nos últimos tempos e chegaram às lojas brasileiras em coleções como Clássicos em mangá, que lançou, até agora, cinco obras do mundo acadêmico.

Para o professor Vinicius Rodrigues, pesquisador sobre quadrinhos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), as HQs são um campo de atuação vasto que não precisa se limitar a trabalhos de narrativa mais comum. No entanto, o especialista reconhece que levar o texto teórico a esse suporte é um obstáculo. “Parece-me que, nesse caso, estaríamos lidando com a mesma dificuldade da adaptação cinematográfica caso o filme não fosse um documentário”, compara.

Os clássicos publicados pela coleção traçam o percurso apontado pelo professor. Acrescentam personagens e histórias que estão ausentes na obra original. Responsável pelas publicações, o tradutor Alexandre Boide acredita que essas mudanças podem facilitar o entendimento dos textos. “O leitor pode compreender de forma mais vívida o tipo de sofrimento humano que estimulou o surgimento dessas ideias, e também seu potencial efeito sobre a vida das pessoas”, esclarece.

Universo literário de Sigmund Freud é mapeado

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A literatura exerceu forte influência na vida profissional e pessoal do pai da psicanálise

Felipe Torres, no Diário de Pernambuco

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Sigmund Freud. Ilustração: Blackzebra/Editoria de arte/DP

Você já deve ter percebido. Regularmente a literatura persegue o mesmo objetivo da psicanálise, o de explicar a complexidade da alma humana, revelar conflitos, inquietudes e perturbações da alma. Sigmund Freud (1856-1939) não apenas sabia disso, como era exímio leitor de autores clássicos e contemporâneos. Conheça os hábitos de leitura e os relacionamentos mantidos pelo criador da psicanálise.

20140306144109620399aNascido 24 anos após a morte de Goethe, Freud foi vastamente influenciado por ele. Aliás, foi depois de ouvir leitura de A natureza, texto então atribuído a Goethe, que Freud decidiu cursar medicina (o ensaio era, na verdade, de Georg Tobler). Freud citou Goethe em várias correspondências. As menções também surgiam de maneira inesperada nos textos técnicos, nos quais um pensamento poético se aliava a um pensamento metapsicológico.

Os interesses científicos de Goethe reverberam na obra do pai da psicanálise: (ótica, botânica, geologia, osteologia). O poema A dedicatória do Fausto, de Goethe, foi usado por Freud como prólogo ou epílogo de todos os tratamentos psicanalíticos realizados por ele. As manifestações do Eros na obra de Goethe alimentaram os estudos freudianos.

20140306144142438679aEra chamado por Freud de “poeta-filósofo”, pois uma característica marcante de sua poesia era a relação com as reflexões, assim como os poetas pré-socráticos. Em O mal-estar na civilização, Freud reconhece: “Em plena aflição do início, encontrei meu primeiro ponto de apoio na máxima do poeta-filósofo Schiller, segundo a qual ‘fome e amor’ movem as engrenagens do mundo.”

Freud chegava a sonhar com os poemas do escritor alemão. Chegou a usar estrofe de À alegria, de Schiller, no trabalho de interpretação de sonhos de um de seus pacientes, descrito como “um rapaz de homossexualidade forte, porém reprimida”. Schiller também foi um importante teórico da estética, um dos primeiros a utilizar a palavra e o conceito de “trieb” (pulsão), em especulações sobre a percepção do belo e a função da arte.

Pode-se dizer que a vida e a obra de Freud foi guiada por dois “gênios”: o de Goethe, relacionado ao Eros, ao gozo sensível da beleza do mundo e da criação artística, e o de Schiller, encarnação do sublime, da força do ideal, do drama do mundo interior, da revolta contra a injustiça e da exigência da ética.

20140306144214849029iCom Hoffman, Freud redescobre e conceitua um sentimento típico das crianças, e que pode ser atualizado na fase adulta. Trata-se da “inquietante estranheza”, ou seja, a emoção ou sensação de quando algo familiar, conhecido ou íntimo se torna estranho, angustiante, até mesmo aterrador. Freud considerava Hoffman “o mestre inigualável do ‘estranhamento inquietante’ na criação literária”, pois as obras do escritor eram recheadas de motivos capazes de despertar no leitor a sensação.

Sentia-se atraído por temas e conceitos abordados na obra de Hoffman, considerado o inventor do conto fantástico moderno: o duplo, a alucinação, a magia, o mistério da arte e do canto, a telepatia. Em um dos ensaios freudianos, há uma exaustiva análise de O homem de areia, conto de E.T.A. Hoffman. No texto, são citados Shakespeare, Heinrich Heine, Mark Twain, Friedrich Schiller, Goethe, Dante, Schnitzler, Oscar Wilde.

20140306144242543165aO escritor russso foi tema do ensaio Dostoiévski e o parricídio (ato de matar o próprio pai), escrito por Freud em 1928 e utilizado como prefácio do volume A versão original de Os irmãos Karamazov (esboços e fragmentos do último romance do autor). No texto, Freud sentencia: “Na rica personalidade de Dostoiévski, é possível distinguir quatro aspectos: o escritor, o neurótico, o moralista e o pecador”.

Mais adiante, elogia: “Ele tem seu lugar não muito atrás de Shakespeare. Os irmãos Karamazov é o romance mais grandioso jamais escrito”. Por meio da análise da obra de Dostoiévski, Freud consegue explicar a um público leigo ideias fundamentais de sua teoria (mais especificamente relacionadas ao ego, superego e id).

O psicanalista condenava Dostoiévski por ser pecador, jogador, incapaz de renunciar às tentações. Dizia que ele “se entregava à experiência do mal como se o erro lhe fosse necessário para, em seguida, proclamar as mais exigências éticas, na condição de moralista”.

20140306144316724448oFreud não somente leu, como se referiu largamente a Shakespeare ao longo da vida. Assim como ele, o dramaturgo inglês explorou a alma humana e seus conflitos, tumultos, fantasmas, loucuras. Adolescente, Freud já recitava de cor cenas de Júlio César e Hamlet. Aos 16 anos, quando se apaixonou, escreveu em carta que só o seu “absurdo hamletiano” o impedia de revelar o sentimento.

Na vida pessoal e profissional, Freud interagia sempre com obras como A tempestade, Macbeth, Sonhos de uma noite de verão. Dizia que Édipo Rei era uma “tragédia do destino” e Hamlet, “tragédia do caráter”. Via em Hamlet um histérico: melancólico e agitado. Estudou Macbeth, mas dizia “não encontrar solução” (não sabia explicar a prostração de Lady Macbeth após o crime por ela instigado).

Em um dos textos, O tema dos três escrínios, inspira-se em O mercador de Veneza e Rei Lear. Vê na personagem Cordélia uma “figura de morte”, e no rei Ricardo III um “modelo para identificação das exceções”. Com a ajuda de Sonhos de uma noite de verão, Freud estuda o delírio poético.

20140306144502154403aFreud admirava o poeta desde a adolescência: comentava sobre a extrema facilidade que possuía para decorar os versos de Heine, quase involuntariamente. Certa vez, apontou como seu livro favorito a coletânea de poemas Livro de Lázaro, que Heine escreveu em 1854, paralítico, pouco antes de morrer. O bom humor inteligente de Heine era muito admirado por Freud, assim como a sua concepção laica da existência humana (chegou a referir-se a Heine como “companheiro de descrença”) .

 

 

 

 

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

Foto: freud.org.uk/reprodução da internet

>>> CONTEMPORÂNEOS

Embora fosse mais cientista e menos escritor, Sigmund Freud interagiu com autores de sua época e até desenvolveu laços de amizade com alguns. Leitor atento, expressava admiração por meio de numerosas correspondências e, em contrapartida, tinha a obra lida e comentada por nomes como Thomas Mann e Stefan Zweig. A proximidade de Freud com seus pares também se dava por mera cortesia (caso de Schnitzler) ou por considerar notáveis algumas ideias, embora discordasse delas (Romain Rolland). Esses relacionamentos se mostraram de grande importância na vida do pensador considerado o pai da psicanálise.

20140306173442497887iFreud tinha várias afinidades e gostos em comum com Thomas Mann. Os dois abordaram em suas obras o ocultismo, as narrativas bíblicas, o mito de Fausto. Tornou-se grande admirador da obra freudiana e prestou vários tributos ao contemporâneo.

20140306173522177799iBastante reconhecido em sua época, foi abordado por Freud por ter criado a ideia de “sentimento oceânico”, uma sensação inspirada na mística hindu. Embora o conceito fosse rejeitado por Freud, ele respeitava bastante o pensamento de Rolland.

20140306173455705740aAssim como Freud, era médico, judeu, ateu, escritor prolífico, praticante de hipnose. Trocaram cartas, se conheceram pessoalmente, mas a proximidade era mais por cortesia do que por real admiração por parte de Freud.

20140306173503535343aTrocou correspondências assiduamente com Freud por três décadas. Tinha o hábito de mostrar seus escritos inéditos ao amigo, e vice-versa. Recebia elogios na mesma medida em que os concedia.

>>> TOP 10 de Freud

Em 1907, Freud respondeu pesquisa de opinião feita pelo editor e livreiro Hugo Heller, que pediu a indicação de “dez bons livros”. Como resposta, Freud diz que ali não estão as dez maiores obras-primas da literatura, ou os dez livros mais importantes. Listou, portanto, “bons livros”, conforme solicitado:

Cartas e obras, de Multatuli
O livro do jângal, de Kipling
Sobre a pedra branca, de Anatole France
Fecundidade, de Zola
Leonardo da Vinci, de Merejkóvski
A gente de Seldwyla, de G. Keller
Os últimos dias de Hutten, de C.F. Meyer
Ensaios, Macaulay
Os pensadores da Grécia, de Gomperz
Histórias alegres, de Mark Twain

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> BIBLIOTECA DE FREUD
Freud era amante dos livros. Sua biblioteca em Viena, na Áustria, era composta de mais de 2 mil títulos. Eram obras de todos os gêneros: ciências do espírito e da natureza, religiões, história, filosofia, etnologia, mitologia, biografias, relatos de viagem, literatura alemã e estrangeira. Especula-se que alguns desses volumes lhe serviram de documentação para os próprios livros (por exemplo, A essência do cristianismo, de Feuerbach, para O futuro de uma ilusão; e os Cadernos de Leonardo da Vinci para Uma recordação de infância…)

>AS OBRAS
O autor com maior presença nas prateleiras era Shakespeare, com edições inglesas e alemãs. Dostoiévski era igualmente bem representado nas prateleiras de Freud. Ali também estavam as obras completas de Gustav Flaubert (18 volumes), Guy de Maupassant (20) e Anatole France (21). Entre os alemães, Goethe, Heine e, em destaque entre os contemporâneos, Thomas Mann e Stefan Sweig. Curiosamente, não havia nada de Schnitzler na biblioteca de Freud.

> ATÉ O FIM
Em vários livros havia frases sublinhadas e observações rabiscadas nas margens: “Não, não! Burrice. Estúpido!”. Poucos dias antes de morrer, voltou suas atenções para A pele de onagro, de Balzac. “Era justamente o livro de que eu necessitava; fala do encolhimento e da morte por inanição”, teria dito.

Questão de Terapia: por que os livros “problemas” são a nova onda do momento?

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Clariana Touza, no Literatortura

Hoje vemos um crescimento gritante da temática terapia na televisão e no cinema. Seria este o começo de uma nova febre no nível vampiros fofos e 50 tons? Sessão de terapia, Go on, O lado bom da vida e Um método perigoso entre tantos outros não me deixam negar o fato. Ah, mas a temática sempre fez parte do imaginário comum. Fato. Porém, não como centro de toda a narrativa; a temática sempre foi presente, completando a dramaturgia, mas não como a base desencadeadora de todo o resto. Livros, filmes e séries sobre o tema estão caindo no gosto popular de forma nunca vista antes e isso nos faz pensar em dois pontos: por quê agora, e como estas dramaturgias vêm sendo trabalhadas de forma a agradar tanto o público?

Sessão de terapia, série exibida pelo GNT, confirma sua segunda temporada para 7 de outubro. Dirigida por Selton Mello é baseada em outra série: a israelense BeTipul, criada pelo psicanalista Hagai Levi e já teve mais de trinta adaptações feitas, entre elas para os EUA (In Treatment, também exibida aqui no Brasil pela HBO), Canadá, Argentina e Holanda.

Go on, estrelada pelo ex-Friend Matthew Perry, na qual um famoso locutor e comentarista esportivo é obrigado, pelo chefe, a participar de sessões de terapia em grupo, para superar a morte da esposa, já tem sua segunda temporada encomendada pela NBC.

O livro O lado bom da vida, trazido ao cinema pelas mãos do diretor David O. Russell no início desse ano, relata a vida do ex-interno de um sanatório que tenta retomar o lado bom da sua existência e até reconquistar a ex-esposa. Tanto o livro quanto o filme agradaram público e crítica.

Já Um método perigoso, de 2012, rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor ator coadjuvante a Viggo Mortensen, que interpreta o pai da psicanálise, Sigmund Freud. A narrativa fílmica traz como a relação entre Carl Jung e Sigmund Freud possibilitou o surgimento da psicanálise e o relacionamento de ambos com a intensa paciente Sabina Spielren.

Bom, pensemos: o que todos eles têm em comum? Além da própria questão terapêutica, todos eles trazem personagens complexos e bem-construídos, as narrativas são elaboradas e inteligentes, além do fato de todos eles trazerem excelentes representações do cotidiano, o que possibilita uma aproximação com o público. As pessoas não assistem a esse tipo de série e filme porque querem ver as estrelas, ainda que isso desperte um interesse (confesse que sempre queremos ver o resultado de Selton Mello como diretor). As pessoas veem suas questões sendo tratadas ali de forma coesa e comum, não são mais problemas distantes de pessoas fictícias. O diálogo com o público, diferente do que acontece com as ondas “50 tons” e vampiros, dita não mais o interesse pelo irreal e impossível, mas os dilemas comuns do nosso dia-a-dia. Todas as dramaturgias aqui citadas nos mostram de forma complexa, ainda que numa linguagem simples, as incertezas, medos e questões de qualquer ser humano e isso sempre foi uma questão que afligiu o homem. Como lidarmos com nossos problemas? É normal se sentir assim? Preciso de análise ou é exagero meu? Ainda que não tragam uma resposta, essas dramaturgias nos permitem tirar certas conclusões e tocam num assunto tão íntimo de forma séria. Aqui, cada problema e aflição importa e o espectador se vê pertencente a um meio-comum, não é mais um peixe fora d’água. O gosto parte por uma identificação pessoal e cada episódio, cena e página do livro funciona como um abraço e com um “eu entendo”, como uma grande sessão de terapia, e cabe a nós, espectadores, saber dialogar com o que a dramaturgia nos traz. Interessante, né? Vai ver chegou a hora de querermos falar sobre nós mesmos ainda que de forma distante, de queremos ver nosso reflexo na telinha ou na telona.

Ryan King (Mattew Perry) e seu grupo de terapia

Ryan King (Mattew Perry) e seu grupo de terapia

O porquê dessa temática justo hoje é um drama um pouco mais profundo (brincadeirinha à parte!). A palavra hoje é entendida devido a um processo que vem se desencadeando e amadurecendo há três anos. Atualmente, passamos por um paradoxo cultural. O padrão de vida está lá em cima e as pessoas parecem mais tristes e deprimidas do que nunca. Por quê? Eis a questão: estamos nos afastando muito das pessoas por causa das tecnologias, levamos uma vida online mais intensa do que a real e aí, ficamos sozinhos e tristes. Além disso, somos tão cobrados a fornecer resultados nesse brainstorm global que quando não o fazemos, ficamos frustrados. Mas sejamos sinceros: às vezes não parece que falta tempo para algo? Por outro lado quando paramos, ficamos perdidos e como dizem “cabeça vazia é instrumento do Diabo”. Cabeça cheia também. O que fazermos com tanta informação se temos que dar resultados rápidos e de forma coesa? Bom, esse grande paradoxo social deixa as pessoas deprimidas e o número de pessoas com algum transtorno psicológico cresceu muito nos últimos anos e você certamente conhece alguém que toma remédio indicado pelo psiquiatra. Esse grupo de pessoas aflitas encontrou algum vestígio de luz nessas dramaturgias e as grandes empresas televisivas e fílmicas, que sabem muito bem vender, viram ali sua mina de ouro. A aflição da sociedade geral dá margem para as grandes empresas venderem seus produtos e ainda agrada ao público. Essa reciprocidade tem dado certo, os dois lados estão ganhando de alguma forma: nós espectadores encontramos um conforto quando enxergamos nossos problemas postos ali e eles enchem seus cofrinhos, todos felizes.

Só espero que as próximas séries, filmes e livros que tragam a questão terapia mantenham o nível criativo e bem-feito. Não queremos mais uma febre que caia no ridículo e no comercialmente gritante e artificial. Uma temática tão boa não merece sofrer um processo de depressão (irresistíveis esses trocadilhos) no nível Crepúsculo.

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