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Falácias sobre a literatura

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Michel Laub, na Folha de S.Paulo

1. “A ficção melhora a vida das pessoas.” — Duvido que ler Céline ajude um funcionário de banco a trabalhar com mais eficiência, arrumar uma namorada ou parar de beber.

2. “Há muita inveja no meio literário.” — Sim (dizem), mas com os amigos é o contrário. Torcemos para que seus livros sejam bons, porque dilemas éticos dão certa preguiça: em algum momento precisaremos decidir se os elogiamos hipocritamente, talvez em público, ou deixamos a amizade avinagrar.

3. “Quem lê best-sellers acaba passando para obras mais complexas.” — Só se fizer um esforço que no começo parece inútil, o que a maioria não está disposta a fazer. Por que enfrentar textos que soam árduos e/ou incompreensíveis? Só porque alguém –quase sempre uma pessoa mais velha, solitária, pobre e sem carisma– diz que haverá uma recompensa ao final?

4. “O maior pecado de um escritor é ser chato.” — Contrariando o item anterior, há um prazer específico, que pode ser intenso e viciante, em emergir de um monólogo introspectivo de 900 páginas –às vezes em prosa opaca, sem enredo, humor ou concessões– como um sobrevivente.

5. “Tudo já foi dito.” — Pegue alguns dos temas que estão por aí –polícia moral de Twitter, por exemplo– e conte quantas boas histórias foram publicadas a respeito.

6. “Todos os modos de dizer já foram tentados.” — Assim como cada pessoa tem um timbre de voz, cada autor é capaz de ser bom ou idiota à sua maneira.

7. “A linguagem é capaz de tudo.” — Apenas dentro dos próprios limites. Um cheiro só pode ser descrito com metáforas e associações, que não são e nem mesmo definem o cheiro em si.

8. “O texto ficcional é autônomo.” — Dá para acreditar nisso, como no Papai Noel da isenção, mas a referência de toda escrita é a memória do seu autor, que não necessariamente é a memória de coisas vividas. Só uso a palavra “casa” porque sei o que é uma casa –já morei numa, já entrei em outras tantas, já vi fotos e filmes e ouvi relatos a respeito–, e isso também é autobiografia.

9. “Não há muitos livros sobre futebol no Brasil.” — Frase repetida a cada lançamento de obra sobre o tema.

10. “Há poucos estudos acadêmicos sobre literatura contemporânea.” — Frase repetida a cada notícia de estudo do gênero.

11. “Há cada vez menos espaço para resenhas.” — Ok se desconsiderarmos a invenção da internet.

12. “Escrever contos exige tanto sacrifício quanto escrever romance.” — Sei que é um gênero difícil e tal, mas estou usando critérios objetivos: os anos de dedicação e concentração, os casamentos terminados, os remédios para a lombar.

13. “O escritor é um trabalhador como qualquer outro.” — Diga isso para um cortador de cana.

14. (A falácia oposta, de que se trata de um habitante das esferas elevadas da compreensão humana, é ainda pior: no mínimo, porque gera metáforas do tipo artista no fio da navalha/no olho do furacão/à beira do abismo.)

15. Frase de Henry James, se não me engano, que poderia ser a resposta à preferência atual –muito apreciada em cursos de escrita criativa– por concisão, contenção e exatidão: “Adjetivos e advérbios são o sal e o açúcar da literatura”.

16. (Dá para dizer algo parecido contra outras regras da moda: as que vetam personagens escritores, narradores em primeira pessoa, metalinguagem, capítulos curtos, romances políticos e enredo policial, livros despretensiosos ou que se levam a sério, autores que mendigam popularidade fazendo listinhas.)

17. (Queria aproveitar para falar umas verdades sobre a crítica, os cadernos de cultura, as políticas governamentais de incentivo ao livro, as editoras, os tradutores, os revisores e preparadores, sem contar os leitores e alguns colegas e também meus inimigos e seus familiares, mas o espaço está terminando e melhor deixar para outra).

18. Raduan Nassar numa entrevista à “Veja”, 1997, resumindo a importância do que foi dito nos parágrafos acima: “Eu gosto mesmo é de dormir (…). É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o corpo e a cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono”.

Especialistas tentam explicar sucesso de “50 Tons” em congresso de neurociência

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50-tons-de-cinza

Publicado no UOL

Qual a justificativa para o sucesso dos livros “50 Tons de Cinza”? A trilogia (que vai até virar filme) atraiu tanta gente por que sugere práticas sexuais que podem apimentar relações, ou por que reflete uma tendência que ganhou espaço na população? O tema, picante, foi discutido por neurocientistas no 9º Congresso Brasileiro de Cérebro Comportamento e Emoções, que termina neste sábado (29), em São Paulo.

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex – Projeto de Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o fenômeno pode contribuir, sim, para tornar um comportamento que antes considerado alternativo como algo convencional, mas isso só deve acontecer se o sucesso de “50 Tons” sair das páginas e chegar, por exemplo, às novelas.

Ela ressalta que, não por acaso, a última versão do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sigla em inglês) amenizou a descrição do sadomasoquismo e deixa claro que nem toda prática sexual “diferente” representa um problema que deva ser tratado.

Diferentemente das edições anteriores da  “bíblia” da psiquiatria, a quinta edição do DSM aponta critérios específicos para que o prazer em causar ou sentir dor seja classificado como transtorno. Em resumo, um sadomasoquista só deve buscar tratamento se essa preferência sexual estiver causando algum prejuízo para sua vida ou para a de terceiros. Em outras palavras, se a prática for consensual e segura, como pregam os praticantes, não há por que ser considerada doentia.

“Mas isso é diferente da pessoa que é prisioneira dessa situação”, comenta Abdo. Quem só consegue obter algum tipo de prazer por meio da dor provavelmente foi vítima de abuso ou presenciou formas de violência na infância – pelo menos essa é a hipótese mais aceita por especialistas.

O geneticista Renato Zamora Flores, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, outro palestrante do congresso, afirma que essa associação foi confirmada em muitos estudos. Mas ele  também chama atenção para o fato de que dor e prazer estão juntas em algumas áreas do cérebro. “A dor controlada pode servir para ‘acordar’ o cérebro porque estimula o sistema límbico”, explica. Ele, contudo, acredita que o sadomasoquismo de “50 Tons” não passa de um modismo.

Vale lembrar que, em 1952, o DSM classificou oficialmente a homossexualidade como transtorno mental. Após críticas durante a década seguinte, a orientação sexual deixou de ser considerada doença, contanto que o indivíduo não tivesse conflitos em relação a isso – o que foi chamado de “homossexualidade egodistônica”. Só em 1987 é que a homossexualidade saiu da “bíblia” dos psiquiatras. E, em 1990, deixou de ser considerada doença para a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como Tatiana Belinky e sua biblioteca transformaram um garoto em escritor

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Mônica Cardoso, na Folha de S.Paulo

Quando era criança, David Nordon adorava se perder na enorme biblioteca de sua “tia-avó”, a escritora Tatiana Belinky. Dentre os mais de 5 mil livros, o garoto escolhia o mais grosso e pedia para ela ler, assim como alguns sucessos dela como “O Grande Rabanete” e “O Caso do Tio Onofre”.

Nos últimos anos, a situação se inverteu. Como já não enxergava as letrinhas miúdas por causa de um problema na visão (mácula na retina), era David, hoje com 25 anos, quem lia seus próprios livros para Tatiana. “Ela ficava escutando, fechava os olhos para imaginar e ria junto. Achava que meus contos e crônicas tinham humor e até exagerava, dizendo que eu escrevia melhor do que ela”, conta David.

A escritora Tatiana Belinky na biblioteca de sua casa (Victor Moriyama/Folhapress)

A escritora Tatiana Belinky na biblioteca de sua casa (Victor Moriyama/Folhapress)

Sim, porque as leituras de Tatiana mudaram a vida do garotinho curioso. “Acho que ela me influenciou a gostar de ler e fez aflorar minha vontade de escrever. Se não fosse a Tati, não teria o gosto de escrever para crianças.”

Com ela, David aprendeu que literatura infantil não deve subestimar o pequeno leitor. “O livro deve ser simples e inteligente, com algumas palavras complicadas para as crianças ficarem curiosas. E não pode ser chato.”

David lembra quando mostrou seu primeiro livro para Tatiana, há onze anos, que, com todo jeitinho, lhe fez uma crítica. “Ela falou que faltava a grande literatura, com L maiúsculo, que eu deveria ler os grandes clássicos, como Machado de Assis e todos os escritores russos. Na época, fiquei bravo, mas percebi que ela estava certa. Depois, reescrevi o livro inteiro para me aperfeiçoar”, diz. “Ela gostava de todos os escritores russos com T: Tchecov, Tolstoi, Tatiana…”, brinca.

O conselho parece ter dado certo e Tatiana escreveu a contracapa dos três livros infantojuvenis de David, que compõem a coleção Leituras Inesquecíveis: “Poesias e Limeriques”, “Contos de Fadas Modernos” e “Crônicas do País Pernil” (ed. Evoluir Cultural; R$ 29,90 cada volume).

Além das leituras, Tatiana gostava de conversar e contar histórias, algumas bem curiosas, como viu pela primeira vez uma banana, ao chegar da Rússia ao Brasil. Para incentivar as crianças a ler, dava o seguinte conselho: espalhe livros pela casa inteira, até no banheiro.

“Ela errava o abrir e fechar as vogais em português. E tem alguns limeriques que só são entendidos se errar a rima, em vez de falar um ‘o’ fechado, falar de forma aberta.”

E só um segredinho: na verdade, Tatiana e David não eram parentes. Ela era sogra de sua tia. Mas pouco importa, já que a escritora o chamava de “sobrinheto”, uma mistura de sobrinho e neto. E ele retribuía o carinho e lhe tratava como avó.

E para ela, que morreu em 15 de junho, David fez uma homenagem toda especial: um limerique sobre a sua enorme biblioteca, como ele pensa em montar uma igualzinha.

Tati Trança-Rimas

Tatiana é uma garota sapeca,
A palavra é a sua boneca.
Ao céu subiu,
Com muito brio.
E lá montará uma nova biblioteca

Um em cada 11 estudantes falta à escola por medo de violência

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Entre 109 mil alunos do 9ª ano do ensino fundamental ouvidos pelo IBGE, 8,8% deixaram de ir a pelo menos uma aula nos 30 dias anteriores à pesquisa

Cinthia Rodrigues, no Último Segundo

A violência no trajeto ou dentro da escola afasta estudantes das redes pública e particular. A informação está entre os dados da segunda edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) realizada em 2012 por IBGE, e ministérios da Saúde e da Educação e divulgada nesta quarta-feira. Em consulta a 109 mil alunos de 3 mil escolas, 8,8% disseram que deixaram de ir à aula ao menos uma vez nos últimos 30 dias por não se sentirem seguros.

Guilherme Lara Campos/Fotoarena

Guilherme Lara Campos/Fotoarena

Escolas públicas no Brasil já são fechadas com grades e cadeados

O porcentual é ainda maior quando observados apenas os alunos de escolas públicas (9,5%) e cai entre os de escolas privadas (5,0%). A proporção de alunos que deixaram de ir à escola por terem medo de violência dentro do ambiente foi de 8,0%. A região Sudeste é onde há mais insegurança, com 9,9% dos estudantes tendo faltado por insegurança e 8,8% por medo de algo que possa ocorrer dentro das escolas.

A pesquisa também perguntou aos estudantes se eles haviam se envolvido em brigas com armas brancas nos últimos 30 dias e 7,3% disseram que sim. Entre os meninos, o porcentual é de 10,1%. Neste tópico, a região Centro-Oeste foi a que teve maior porcentual de envolvidos em geral, com 8,4%.

Armas de fogo
Também é alto o número de estudantes que já estiveram envolvidos em brigas com arma de fogo. Segundo a pesquisa, 6,4% dos escolares, sendo também mais frequente em alunos do sexo masculino (8,8%), do que no sexo feminino (4,3%) já tiveram algum envolvimento em conflitos em que alguém estava armado.

Observaram-se diferenças entre as esferas administrativas das escolas, sendo 6,7% para estudantes de escola pública e 4,9% de escolas privadas. A região Centro-Oeste também registrou a maior proporção de estudantes que participou de brigas em que havia arma de fogo, 8,0%.

Também foi questionado quanto se sentiram vítimas de bullying pelos colegas. Do total, 7,2% afirmaram que sempre ou quase sempre se sentiram humilhados por provocações. Neste caso, a proporção foi maior entre as escolas privadas, 7,9%, do que entre as públicas, 7,1%.

O número dos que praticam bullying é o triplo. Questionados se nos últimos dias haviam feito ações como esculachar, zoar, mangar, intimidar ou caçoar dos colegas, 20,8% disseram que sim.

dica do Rogério Da Hora Moreira

Namore um bibliotecário de referência

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Publicado por Mundo Bibliotecário

Sabe aquele cara que fica atrás do balcão, 8 horas por dia na frente de um computador, e que vez ou outra você vai até ele perguntar se não tem mais nenhum exemplar de cálculo do Swokowski? O cara para quem você jura que não tem nenhum exemplar de Dinâmica do Hibbeler e que te responde que no sistema tem cinco disponíveis para empréstimo? Aquele que, as vezes, você quase quase derruba na corrida até as estantes para pegar o último exemplar de Circuitos Elétricos do Johnson? (Ah, da próxima vez, derrube-o, porque esse cara precisa sorrir mais, surpreender-se mais e coisa e tal). Pois é, esse cara é o bibliotecário de referência.

Problemas com alguma norma da ABNT? Com paginação do Word? Não consegue achar aquele artigo que seu orientador falou que é indispensável para seu TCC, sua dissertação ou tese? Aquele programa que joga as referências automaticamente no Word… qual é mesmo? Só o bibliotecário de referência saberá, portanto, corra até ele, afinal o prazo do seu trabalho já está acabando! Não que ele vá resolver todos os seus problemas, mas certamente vai jogar uma luz sobre as trevas, pois se não te der uma resposta, no mínimo vai te encurtar o caminho até ela. Sim, vai. Pode confiar. O caminho pode ser mais curto do que a distância da mesa dele e aquela mesa de estudo que você sempre senta.

O bibliotecário de referência é um navegante nesse mar informacional chamado Web, deixa o Google no chinelo! É muito mais refinado porque conhece os atalhos para chegar até a informação de que você precisa, muito mais perspicaz porque se desdobra para entender sua questão, muito menos máquina porque muito mais humano. É o cara capaz de entender aquilo que você realmente precisa, aquilo de mais imaterial que reside no fundo da sua mente, no âmago da sua dúvida. Resumindo, um poço de sabedoria, mas também um eterno e humilde aprendiz, pois as bases de dados sempre mudam, a quantidade de informação conhecimento cresce assustadoramente a cada ano, ou seja, é impossível aprender tudo sozinho, por isso, precisa de você para ensiná-lo. Sua única certeza é a de que o ciclo da informação gera uma dúvida, que gera uma questão, que gera a busca para a solução. Claro que o bibliotecário de referência está nesse ciclo (existem vários modelos, não se fruste se não encontrar este no Google, ok?) mas como ele trabalha com o público, é seu dever sempre esclarecer tudo.

Portanto, procure-o, consulte-o, faça-o perder horas procurando uma coisa só para você. Isso mesmo: só para você! Deixe-o louco com as suas interrogações: morrer com a dúvida pode ser muito mais doloroso do que ter desperdiçado a chance de solucioná-la. Ou melhor, ter desperdiçado a chance de solucioná-la a dois, pois todos sabemos que duas cabeças pensam melhor do que uma.

Peça e será atendida. Sempre.

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