Posts tagged Singular

 

Entre letras e números

0

1

Joselia Aguiar, no Valor Online

Otávio Marques da Costa e Júlia Moritz: novos publishers da Companhia das Letras participam juntos de temporadas de imersão no grupo Penguin, que comprou 45% da editora
Otávio Marques da Costa enviou o currículo pelo site. Advogado jovem num grande escritório de São Paulo, queria mudar de profissão. Começou a cursar outra faculdade, de história, aventava um mestrado no exterior e, enquanto não se decidia, passou a se ocupar nas horas vagas como preparador de texto, um tipo avançado de revisor. Pelo site, seu currículo chegou até a diretora editorial da Companhia das Letras, então Maria Emília Bender. Contratado como assistente por um salário que correspondia a metade do que ganhava, mudou de emprego sem hesitar.

Contado até aí, o enredo se presta a um livro sobre gestão de carreira, título que talvez tivesse boa acolhida sem alcançar as listas de mais vendidos. Com o desfecho, dá até best-seller: depois de cinco anos, o funcionário que se distinguiu por um comprometimento singular acaba de assumir o recém-criado cargo de publisher, o que representa chefiar o coração de uma das mais prestigiosas editoras do país. A virada representa bem a ousadia na hora de apostar e a velocidade para obter resultados que exige hoje o mercado editorial brasileiro, espelho de grandes praças estrangeiras.

A função é compartilhada. Ao lado de Costa, assumiu Júlia Moritz, filha do fundador, Luiz Schwarcz. Ambos têm 31 anos, dividiam a mesma sala e agora participam juntos de temporadas de imersão no grupo britânico Penguin, que comprou 45% da Companhia das Letras em 2011. A mudança no organograma levou à saída de gente que estava havia décadas na casa, como a própria Maria Emília, e à promoção de assistentes para cargos de editores, agora ocupados também com novos selos editoriais, como Paralela e Seguinte, que marcam a entrada em nichos comerciais. Coordenados pela dupla de publishers, oito editores na faixa dos 30 anos leem, aprovam ou descartam obras oferecidas por agentes, “scouts” ou os próprios autores. Antes se responsabilizavam pela edição do texto – encomendas de tradução, preparação e revisão -, que cabe hoje a um núcleo criado exclusivamente para a tarefa.

A renovação das equipes – não só a troca, o rejuvenescimento de seus componentes – é uma das mudanças por que passam editoras de médio e grande porte diante de um mercado que tende a ficar ainda mais aguerrido. Pelo menos cinco das mais importantes editoras do país reestruturaram recentemente seu corpo editorial – além da Companhia, Record, Objetiva, Globo, Cosac Naify – e duas se constituíram ou deram sua arrancada há pouco tempo – LeYa e Intrínseca. Não só mais jovens, os editores, mais envolvidos do que antes com a escolha dos títulos, precisam estar mais pragmáticos. Num ofício historicamente associado à ideia de arte e artesania, não parece mais possível sobreviver alheio aos números.

1

Marcos Strecker (no centro) e equipe de editores da Globo Livros: “A internet como meio de venda e de divulgação passa a ter um papel cada vez maior, talvez determinante”, diz
O novo perfil de editor-gestor, que substitui o do editor que só atentava para o texto, e o formato de empresa mais diversificada, que não se acanha em abranger obras comerciais, são, em parte, a adaptação da editora de Schwarcz a um mercado que está modificado desde a criação de sua casa editorial, em 1986.

Nos últimos tempos, as vendas de livros têm crescido concentradas em poucos títulos comerciais, os chamados mega-sellers. Não são novidade na praça – o “Harry Potter”, da Rocco, é de fins da década de 1990 -, mas agora praticamente dominam as listas de mais vendidos. O sucesso, que se dá em escala mundial, é levantado por estratégias de marketing agressivas.

Com a quantidade maior de títulos, operação com que as grandes ganham em escala, sobra pouco lugar nas vitrines para obras de arte ou não comerciais, os chamados long-sellers ou “fundo de catálogo”, obras que, a despeito de sua qualidade e relevância, vendem aos poucos, sem instantânea pirotecnia. A vocação da grande literatura é sobreviver ao tempo. Num balanço de empresa, porém, é um valor dramaticamente não computável.

Costa e Júlia preferem não dizer qual é a nova cara da empresa. A pergunta é difícil e restritiva. “Um título talvez possa simbolizar a atual fase”, sugere Costa. Da estante, pega a capa cítrica, o desenho de um imenso bigode. “Toda Poesia”, de Paulo Leminski, cultuado poeta curitibano que morreu em 1989, cuja obra, dispersa em vários volumes, estava fora da praça. Saiu com tiragem atípica, alta para o gênero, 5 mil exemplares. Esgotou-se em dois dias. Uma nova tiragem de 5 mil foi encomendada e vendida. Na semana passada, o livro entrou na lista de mais vendidos na Livraria Cultura, rede com público mais intelectualizado, à frente da série pornô soft “50 Tons de Cinza”, de E.L. James, publicada pela Intrínseca.

Um mega-seller exige ousadia e velocidade: para identificá-lo, oferecer nos leilões uma soma que os concorrentes não vão se arriscar em pagar, traduzi-lo a tempo e colocar nas livrarias em tiragens altas, indicando para livreiro e público que vale o negócio. Um pouco o “efeito-Tostines”: vende mais porque é mais lido ou é mais lido porque vende mais. (mais…)

 

Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida?

0

Bruna Chagas, no Livros e Afins

Certa vez, uma professora muito querida de semiótica, na empolgação da aula, parou alguns instantes, olhou para a turma e contou uma situação que nunca mais me saiu da cabeça: um casal de amigos se casou por causa de Fernando Pessoa. É isso mesmo. O rapaz se apaixonou pela moça assim que ela declamou o enorme, porém belíssimo, poema Tabacaria, do heterônimo Álvaro de Campos, só que num lugar bastante inusitado: um bar, no meio daquela agitação maluca, música alta, bebida, muita gente. Eles se descobriram enamorados e desde lá nunca mais se separaram.

1

A história parece até simples e seria algo fácil se Tabacaria fosse apenas um soneto, mas não é bem assim. Não é pelo tamanho do poema que se pode dar o crédito ao poeta (ele tem mais de 15 versos e está no final do post). E sim pela qualidade da poesia contida naquele texto. Os poemas de Pessoa são instigantes, misteriosos e vão além de qualquer poema já lido antes. E, por isso, pelas intervenções da sua poesia, foi possível levantar essa questão: como o poeta de Orpheu poderia mudar a sua vida?!

Vamos aos fatos: Fernando Antônio Nogueira Pessoa foi um poeta singular, um dos maiores gênios literários que já caminhou neste mundo. Nasceu em Lisboa em 13 de junho de 1888 e morreu em Lisboa, no dia 30 de novembro de 1935. Foi jornalista, tradutor e crítico literário. Fundou a revista Orpheu em 1915 e teve como grande amigo Mário de Sá Carneiro. Mas nada foi tão importante quanto a criação de vários poetas ao mesmo tempo.

1

Os heterônimos (não são pseudônimos) foram sua maior contribuição para a humanidade, cada um com sua biografia, traços diferentes de personalidade e ainda características literárias distintas. Cada heterônimo possui seu próprio mundo, representando o que angustiava ou encantava o seu autor. Foram cerca de 72 heterônimos, mas em 2011, o biógrafo brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho revelou que na verdade são 127 ao todo. Os três mais importantes e significativos são:

1

Alberto Caeiro (meu preferido) é o mestre de todos os heterônimos. Nasceu em 1889, mas não era formado, só tinha o primário. É o poeta que pensa com os sentidos. Por isso, sensacionista. É poeta do campo, das coisas mais simples e belas do mundo. Para ele o mundo não encerra mistérios, como Deus, metafísica, “sentido último das coisas”. Nada disso importa. As coisas são apenas as coisas. E é esta realidade pura, sem símbolos que constitui a sua criação. Segue um trecho do Guardador de Rebanhos: (mais…)

Go to Top