Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged sistema de ensino

O que podemos aprender com as ocupações das escolas de São Paulo

1

É necessário mostrar as atuais condições das instituições de ensino e exigir melhores estruturas e tratamento

294-educacao-01

publicado na Galileu

Quem passava pela rua Pires da Mota, no bairro paulistano da Aclimação, via faixas e cartazes colados nos muros do Colégio Caetano de Campos indicando que aquela era uma das escolas ocupadas por estudantes paulistas em protesto contra a reorganização do ensino no estado. Na porta, dois alunos faziam a triagem de quem queria entrar. Eu disse que estava ali para dar uma aula de escrita criativa e me deixaram seguir.

294-educacao-02

Lá dentro, fui recebida por um professor que explicou que ele e outros colegas estavam fazendo um rodízio para que sempre houvesse pelo menos dois adultos ali com os estudantes. A intenção era orientá-los caso a Polícia Militar tentasse entrar na marra. O professor pediu que eu ficasse à vontade. Como cheguei antes da hora marcada, decidi andar pela escola, e uma professora me acompanhou. Enquanto caminhávamos, ela me explicava como as coisas estavam funcionando ali durante a ocupação.

Soube que havia reuniões diárias para decidir quem ficaria com a limpeza, quem seria responsável por fazer almoço e jantar, quem cuidaria de tentar conseguir aulas e oficinas gratuitas etc. Soube também que muitos pais, preocupados com seus filhos, iam regularmente até a escola ver como as coisas estavam. Quase todos, ela me disse, entravam receosos e saíam orgulhosos. A escola estava mais limpa do que o usual e havia entre os jovens um clima de camaradagem que antes não era tão facilmente percebido. No dia a dia, antes da ocupação, a limpeza do Caetano de Campos era feita por quatro funcionárias, que se dividiam em dois turnos. Como se trata de um espaço bem grande, pareceu-me evidente que quatro faxineiras jamais dariam conta de limpar tudo, mas talvez a falta de limpeza adequada não seja o maior problema nem dessa e nem de outras escolas estaduais de São Paulo e do Brasil.

Há no Caetano de Campos um laboratório de química que está fechado há anos (embora pareça bastante utilizável), há um museu trancado que virou depósito de entulhos, há salas de aula vazias e lacradas há muito tempo, há material escolar novo empilhado e esquecido, há um teatro e uma quadra coberta que foram cedidos pelo governo do estado à Secretaria de Cultura — que, por sua vez, terceirizou a administração para uma organização chamada Pensarte —, há uma horta cheia de mato, há um espaço onde funcionava o pré-primário e que hoje está abandonado (antigamente, um aluno entrava no Caetano de Campos no pré-primário e saía apenas para a faculdade). Hoje não é mais assim, e com a reorganização que a administração de Geraldo Alckmin tentou impor aos estudantes das escolas públicas de São Paulo o cenário seria ainda mais fragmentado.

294-educacao-03

Assim que a notícia da reorganização — que, entre outras coisas, fecharia 93 escolas públicas — chegou aos estudantes eles decidiram pelas ocupações, numa tentativa a princípio desesperada de evitar o que consideravam ser ruim para eles. Muitos falavam em não ter como pagar por condução para se deslocar para uma nova escola, outros explicavam que os pais, que tinham empregos com horários fixos, não poderiam levá-los para uma escola em outro município e que não haveria como lidar com o fato de agora cada filho estar em uma escola diferente.

Por meio das redes sociais e da comunicação imediata, os estudantes de várias escolas ocupadas conseguiram arquitetar estratégias de protestos e novas ocupações. No começo, eles pediam que a reorganização não fosse imposta e que pudessem participar de grupos capazes de avaliar a melhor forma de estruturar o sistema de ensino; os estudantes acreditam que podem ajudar com ideias e informações e, assim, colaborar para a melhoria do ensino público no estado. Pediam tempo para participar do processo. Com o passar dos dias, e diante da violência da polícia sempre que tentavam protestar, entenderam que deviam fazer mais: não era suficiente apenas lutar para que a reorganização deixasse de ser imposta goela abaixo. Era necessário mostrar as atuais condições das escolas e exigir melhores estruturas e tratamento.

No Caetano de Campos, por exemplo, como existem salas vazias trancadas há anos, as abertas funcionam com 50 alunos por aula. Nesse ambiente é impossível educar com qualidade, e fica ainda mais estranho que o partido que gerencia o estado de São Paulo há 20 anos, o PSDB, fale tanto em meritocracia. Como achar que uma criança que estudou a vida toda amontoada com outras dúzias de almas numa sala em escola pública pode ter as mesmas oportunidades na vida que outra cujos pais foram capazes de pagar por ensino privado, proporcionando estudo em ambiente climatizado com, no máximo, outros 19 alunos em sala?

Soa mais descabido alegar que a reorganização do ensino em São Paulo é necessária porque existem escolas ociosas. Como pode estar ocioso um sistema que aglomera alunos em salas de aula, tem menos professores do que o ideal e faz pouco caso de espaços públicos?

Escolas de MS vão testar ensino sem provas e aulas

0

Publiado em UOL Educação.

a-escola-estadual-waldemir-barros-da-silva-foi-selecionada-para-participar-do-projeto-piloto-1454000103377_615x300

A Escola Waldemir Barros da Silva foi selecionada para participar do projeto-piloto

As aulas em duas escolas públicas de Mato Grosso do Sul não serão divididas por disciplinas. Os alunos também não terão provas e os professores serão orientadores de estudo. Saem as lições expositivas e entra o método de pesquisa, onde cada aluno avança de acordo com a sua velocidade de aprendizado.

“Os dados apresentados nas avaliações de larga escala, como o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), demonstram que o sistema de ensino não dá mais conta das necessidades de nossos estudantes e também da sociedade contemporânea”, diz a secretária de Estado de Educação, Maria Cecilia Amendola da Motta.

“Não teremos aulas e sim tempos de estudos, onde os estudantes serão orientados pelos professores das diversas áreas de conhecimento para o desenvolvimento de suas pesquisas e aprendizagens. A organização dos tempos de estudos será flexível, porém com o tempo delimitado de 8 horas diárias”, disse a secretária.

Segundo a pasta, os alunos vão partir de problemas para buscar soluções nos livros didáticos e demais materiais de estudo. Cada escola também vai desenvolver práticas e orientações de estudo de acordo com a demanda e as necessidades locais.
Quanto a forma de avaliação, a secretaria disse que “se dará sobre a produção diária do estudante, será contínua, diagnóstica, formativa e preventiva”.

Para testar o modelo, a Secretaria de Educação afirma que fez um levantamento prévio da estrutura física e dos recursos humanos (gestores e professores) das escolas de ensino médio da rede. Algumas escolas foram visitadas e duas foram selecionadas para a implantação da educação integral: a Waldemir Barros da Silva, no bairro das Moreninhas, e a Manoel Bonifácio Nunes da Cunha, no Jardim Tarumã.

O objetivo, diz a secretária, é que o modelo seja implantado em outras unidades que queiram fazer a mudança. “Essa implantação será um processo gradativo, pois, necessitamos proporcionar formação para toda a comunidade escolar”, afirma.

Críticas ao projeto

O modelo é inspirado na Escola da Ponte, do professor português José Pacheco, mas há quem critique a sua forma de implantação na rede estadual de MS. Seria necessário mais treinamento de professores, diretores e funcionários, e a adaptação de alunos que já vieram do ensino tradicional e deficiente pode ser complicada. É o que acredita a professora Angela Costa, da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

“A proposta da Escola da Ponte é espetacular, eles estudam sozinhos, as crianças trabalham juntas, mas para implantar isso é um processo”, diz a professora. “Eu não acredito nessa proposta. Primeiro, o professor José Pacheco tinha que estar aqui, ele é o autor da metodologia. Ele vai orientar a implantação do projeto? Se não for, eu não acredito”, disse Costa.

Em MS, o projeto tem a supervisão do professor Pedro Demo, aposentado da UnB (Universidade de Brasília).

“Essa proposta exige muito estudo por parte do aluno, mas se o professor não tiver a formação adequada, não adianta”, afirma Costa. A secretaria diz que os professores das escolas selecionadas participam, desde outubro do ano passado, de capacitações virtuais e presenciais.

Outro ponto importante para a implantação da proposta, diz Costa, é que os alunos vêm de um ensino deficitário. “A criança vem de um ensino péssimo e, se vem mal do fundamental, a proposta não vai dar conta de resolver todos os problemas”. As duas escolas selecionadas para participar do projeto não alcançaram as notas médias em nenhuma das habilidades do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2015.

Livro tenta reduzir ‘achismos’ na educação

0

livroo

Publicado em Folha de S.Paulo

“Há muito ‘achismo’ na educação, mesmo com muitos dados disponíveis.” A avaliação é de João Batista Oliveira, presidente do Alfa e Beto, ONG que atua na alfabetização de crianças.

No mês passado, o instituto lançou o livro “Educação Baseada em Evidências: Como Saber o que Funciona em Educação”. A obra busca responder, por exemplo, se colocar mais dinheiro no sistema de ensino impulsiona a aprendizagem dos alunos. Ou se diminuir o tamanho das turmas é benéfico.

“Muitas opiniões e políticas públicas são adotadas sem considerar o que já foi estudado”, afirma Oliveira, que foi secretário-executivo do Ministério da Educação no governo FHC (PSDB). Os autores usaram a técnica chamada de meta-análise, em que se faz revisão de trabalhos já publicados, nacionais ou internacionais.

Em diversas questões polêmicas, a conclusão é que as condições locais e a implementação das políticas são cruciais para o sucesso da medida –ou seja, não basta ter uma ideia que pareça boa.

No caso dos recursos para educação, por exemplo, a pesquisa indica que é necessário chegar a um patamar mínimo de investimento. A partir daí, os recursos podem não ter mais efeito se não houver melhora na gestão.
No caso da redução do tamanho das turmas, os efeitos mais positivos apareceram quando a política foi adotada para estudantes mais pobres ou para o ensino infantil e início do fundamental.

Se de um lado pode parecer óbvio que diminuir as turmas melhora o ensino, do outro o trabalho mostra que há o risco de professor não mudar suas práticas. E que diminuir as classes aumenta a necessidade de contratação de docentes, e os novos podem não ser tão competentes.

Professor da Faculdade de Educação da USP, Ocimar Alavarse afirma ser positivo colocar em discussão a importância de se buscar evidências na educação.”De fato, há muitas opiniões sendo dadas sem consistência”, afirma. Alavarse, porém, diz que as conclusões não podem ser tratadas como definitivas.

FUNCIONA OU NÃO FUNCIONA

O que conta mais no desempenho dos alunos, o nível socioeconômico familiar ou a escola?
Em países em desenvolvimento, como o Brasil, a escola explica ao menos 30% do desempenho do aluno.

Como identificar um bom professor?
Importa mais a prática na sala de aula do que a formação, conhecimento da matéria e nível intelectual do professor.

É positivo diminuir o tamanho das turmas?
Há resultados positivos, mas a prática exige alto investimento, o que abre discussão sobre se ela é a mais eficaz.

Reprovar ajuda o estudante na vida escolar?
Não. Há efeitos negativos para a autoestima e a relação com colegas, por exemplo.

Só uma em cada cem crianças refugiadas chega à universidade

0

crianrefu

Publicado em Folha de S.Paulo

Abrigo, água, roupas, comida. Quando pensamos na ajuda às famílias refugiadas, dificilmente lembramos do acesso à escola. O problema é que fora do sistema de ensino, a criança refugiada tem poucas chances de se desenvolver e pode se tornar um adulto excluído da sociedade.

Hoje, de acordo com dados da ONU, metade das crianças refugiadas está fora da sala de aula. Das que conseguem seguir estudando, apenas 1% chegará à universidade. As informações foram apresentadas pelo alto comissário para refugiados da ONU, António Guterres, em um debate sobre educação em situações de violência do WISE, um dos principais congressos de educação do mundo. O evento acontece em Doha, no Qatar.

O assunto é especialmente importante agora, lembrou Guterres, já que estamos enfrentando a pior crise humanitária desde a 2a Guerra Mundial. A ONU estima que há, hoje, cerca de 60 milhões de pessoas refugiadas no mundo –metade delas são crianças.

O abandono das escolas começa no país de origem. De acordo com Elisabeth Decrey Warner, co-fundadora da ONG suíça “Geneva Call”, que atende crianças em regiões de conflito, muitos pais tiram os filhos dos estudos por medo da violência e dos ataques às instituições de ensino –comuns em países como Paquistão, Nigéria, Quênia e cada vez mais vistos na Síria.

CURRÍCULO ESPECIAL

Quando fogem, dificilmente as crianças seguem estudando em campos de refugiados ou nos países que as abrigam. Isso porque não basta uma matrícula na escola: é preciso um currículo especial.

Para a ativista de direitos humanos moçambicana Graça Machel, os sistemas de ensino que atendem refugiados precisam, primeiramente, fazer com que as crianças voltem a ser crianças. “O trauma de algumas crianças refugidas ou em situação de violência é tão grande, que poucas conseguem se concentrar nos estudos”, diz.

Estamos falando de meninos e meninas que perderam sua família, viram sua cidade natal ser destruída ou que sofreram abuso sexual e outros tipos de violência.

Se metade das crianças refugiadas está fora da escola, a outra metade vai deixando as aulas pelo caminho. Não conseguem se concentrar, desanimam porque estão muito defasadas, não compreendem a língua do país que abrigou sua família ou acabam se submetendo a casamentos precoces — na Síria, o número de meninas casadas dobrou após o início da guerra.

No final, a matemática é cruel: enquanto uma em cada cem crianças refugidas chega ao ensino superior, 70 crianças em cem chegarão à universidades nos países desenvolvidos (no Brasil, a média é de 14 crianças em cem).

É possível ter uma política unificada que consiga atender cerca de 30 milhões de crianças refugidas no mundo? “Não me pergunte se é possível, nós temos que resolver isso. Não temos nenhuma outra opção”, diz Machel.

Finlândia reforma a educação, mas nega o fim das disciplinas tradicionais

0

País é considerado um dos grandes modelos de educação no mundo.
A partir de 2016, escolas vão trabalhar mais temas interdisciplinares.

12foto

Publicado no G1

O Ministério da Educação da Finlândia divulgou uma nota nesta quarta-feira (25) negando que vá abolir o sistema tradicional de ensino por matérias separadas, como matemática, história, geografia e ciências, e passar a ensinar por ‘tópicos’, como por exemplo cidadania, União Europeia, globalização, aquecimento global. A notícia dessa mudança foi divulgada esta semana pelo jornal “The Independent”, e ganhou repercussão mundial uma vez que a Finlândia é vista como um modelo de educação bem-sucedido.

Segundo a nota, um novo currículo será impementado nas escolas em agosto de 2016 com algumas mudanças “que podem ter dado origem ao mal entendido”. “Para enfrentar os desafios do futuro, o foco está nas competências transversais (genéricas) que devem ser trabalhadas por meio das disciplinas escolares. As práticas colaborativas em sala de aula, nas quais os alunos podem trabalhar com vários professores simultaneamente durante o estudo de projetos baseados em fenômenos são enfatizadas.”

Os alunos deverão trabalhar todos os anos em pelo menos um desses módulos de aprendizagem multidisciplinar que deverão ser implementados localmente. Os estudantes também deverão participara ativamente do planejamento destes estudos.

Irmeli Halinen, chefe do desenvolvimento curricular do ministério finlandês, explica que as disciplinas tradicionais vão continuar, mas com menor fronteiras entre elas e maior multidisciplinariedade no ensino. “Teremos sete áreas de competências transversais que deverão ser desenvolvidas em conjunto com as disciplinas escolares. Esta é uma nova maneira de combinar o ensino baseado em competências com aquele baseado nos assuntos.

“Os profissionais de educação tiveram um alto grau de liberdade na execução dos objetivos definidos a nível nacional há mais de vinte anos. Eles podem desenvolver seus próprios métodos inovadores, que podem ser diferentes das de outros municípios.”

Além da maior liberdade ao professor, a Finlândia quer fazer com que cada estudante tenha capacidade para perceber e avaliar a sua própria aprendizagem. “Temos de ajudar o aluno a aprender gradualmente para compreender e analisar seus próprios processos de aprendizagem para que ele possa adquirir mais e mais responsabilidades sobre si. A capacidade de aprender é uma habilidade que dever promovida de forma sistemática”, afirma.

Ranking Pisa

finland04_

Durante muitos anos a Finlândia liderou ou ficou entre os primeiros colocados no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o ranking que mede o desempenho de estudantes de 15 anos em 65 países. Na última edição, no entanto, a Finlândia perdeu espaço para países asiáticos e para as europeias Suiça, Holanda e Estônia no geral do índice que mede o aprendizado dos alunos em matemática, leitura e ciências.

No Pisa de 2012, a Finlândia aparece em 12º lugar em matemática, 6º em leitura e 5º em ciências. A mudança no currículo tem também como objetivo melhorar os índices dos estudantes daquele país.

Go to Top