“Escreva os livros que você deseja ler”

Guilherme Carmona, no Literatortura

Nos últimos vinte anos, poucos autores têm dado socos na mente do leitor como Chuck Palahniuk o fez. Com um estilo pontuado por frases curtas e uma linguagem feroz e irônica, a prosa do autor brinca constantemente com inversões no tempo da narrativa e explora temáticas controversas, anárquicas e, por vezes, violentas. As atmosferas por ele criadas parecem oscilar entre o bizarro e o cômico, e são palcos onde a sociedade de consumo e a alienação dela proveniente são os principais objetos de crítica. Seu trabalho mais conhecido é o livro Clube da Luta, que a adaptação para o cinema em 1999 veio a consagrar como fenômeno cult. Palahniuk gosta de intitular seu trabalho de Ficção transgressional, ou transgressiva.

Além do trabalho autoral, o escritor e jornalista Chuck Palahniuk frequentemente compartilha seu bocado de experiência com os leitores por meio de ensaios, palestras e workshops. O autor começou a carreira por volta dos 30 anos, quando passou a frequentar uma oficina literária liderada pelo escritor Tom Spanbauer. Na época, Palahniuk só conseguia escrever durante seus períodos de tempo livre, pois trabalhava como mecânico para uma empresa fabricante de veículos. Além disso, foi difícil encontrar quem publicasse seus primeiros trabalhos, muitas vezes taxados como perturbadores.

Este conjunto de conselhos do autor parte de uma coleção de 36 ensaios datados de 2005. A despeito de a produção literária tratar-se de um processo muito particular, Chuck Palahniuk consegue abordar, no apanhado de dicas a seguir, assuntos cotidianos de um escritor, como o público, a solidão, o experimentalismo, a necessidade de paixão e envolvimento com seus livros.

Abaixo segue o trabalho de Chuck, traduzido exclusivamente para vocês:

1

“Vinte anos atrás, uma amiga e eu fomos até o centro de Portland no Natal. As grandes lojas de conveniência: Meier & Frank… Frederick & Nelson… Nordstroms… cada uma das grandes vitrines exibia uma cena simples, bonita: um manequim vestindo roupas ou uma garrafa de perfume de pé sobre a neve falsa. Mas as janelas na loja J.J. Newberry, droga, elas eram abarrotadas com bonecas e ouropel e espátulas e kits de parafusos e travesseiros, aspiradores de pó, cabides de plástico, gerbils, flores de seda, doces – você entende o que quero dizer. Cada um das centenas de objetos diferentes era tabelado com um círculo descolorido de papelão. E, caminhando por lá, minha amiga, Laurie, deu uma longa olhada e disse, “A filosofia de decoração de janelas deles deve ser: ‘se a janela não parecer bem o bastante – coloque mais’.” (mais…)