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George Steiner: “Estamos matando os sonhos de nossos filhos”

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George Steiner, em sua casa em Cambridge. Antonio Olmos

George Steiner, em sua casa em Cambridge. Antonio Olmos

 

Aos 88 anos, o filósofo e ensaísta denuncia que a má educação ameaça o futuro dos jovens

Borja Hermoso, no El País

Primeiro foi um fax. Ninguém respondeu à arqueológica tentativa. Depois, uma carta postal (sim, aquelas relíquias que consistem em um papel escrito colocado em um envelope). “Não responderá, está doente”, avisou alguém que lhe conhece bem. Poucos dias depois, chegou a resposta. Carta por avião com o selo do Royal Mail e o perfil da Rainha da Inglaterra. No cabeçalho, estava escrito: Churchill College. Cambridge.

O breve texto dizia assim:

“Prezado senhor,

O ano 88 e uma saúde incerta. Mas sua visita seria uma honra.

Com meus melhores votos.

George Steiner.”

Dois meses depois, o velho professor havia dito “sim”, colocando um término provisório à sua proverbial aversão às entrevistas.

O professor de literatura comparada, o leitor de latim e grego, a eminência de Princeton, Stanford, Genebra e Cambridge; o filho de judeus vienenses que fugiram dos nazistas, primeiro a Paris e, em seguida, a Nova York; o filósofo das coisas do ontem, do hoje e do amanhã; o Prêmio Príncipe de Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2001; o polemista e mitólogo poliglota e autor de livros vitais do pensamento moderno, da história e da semiótica, como Errata — Revisões de Uma Vida, Nostalgia do Absoluto, A Ideia de Europa, Tolstoi ou Dostoievski ou A Poesia do Pensamento, abriu as portas de sua linda casinha de Barrow Road.

O pretexto: os dois livros que a editora Siruela publicou recentemente em espanhol. De um lado, Fragmentos, um minúsculo, ainda que denso compêndio de algumas das questões que obcecam o autor, como a morte e a eutanásia, a amizade e o amor, a religião e seus perigos, o poder do dinheiro ou as difusas fronteiras entre o bem e o mal. De outro, Un Largo Sábado, um inebriante livro de conversas entre Steiner e a jornalista e filóloga francesa Laure Adler.

O motivo real: falar sobre o que fosse surgindo.

É uma manhã chuvosa no interior de Cambridge. Zara, a encantadora esposa de George Steiner (Paris, 1929), traz café e bolos. O professor e seus 12.000 livros olham o visitante de frente.

Pergunta. Professor Steiner, a primeira pergunta é como está sua saúde.

Resposta. Ah, muito ruim, infelizmente. Já tenho 88 anos, e a coisa não vai bem, mas não tem problema. Tive e tenho muita sorte na vida, e agora a coisa vai mal, embora ainda tenha alguns dias bons.

P. Quando alguém se sente mal… é inevitável sentir nostalgia dos dias felizes? O senhor foge da nostalgia ou pode ser um refúgio?

R. Não, a impressão que se tem é de ter deixado de fazer muitas coisas importantes na vida. E de não ter compreendido totalmente até que ponto a velhice é um problema, esse enfraquecimento progressivo. O que mais me perturba é o medo da demência. Ao nosso redor, o Alzheimer faz estragos. Então, para lutar contra isso, faço todos os dias exercícios de memória e atenção.

P. E como são?

R. Você vai se divertir com o que vou contar. Eu me levanto, vou para o meu pequeno estúdio de trabalho e escolho um livro, não importa qual, aleatoriamente, e traduzo uma passagem para os meus quatro idiomas. Faço isso principalmente para manter a segurança de que conservo meu caráter poliglota, que é para mim o mais importante, o que define a minha trajetória e meu trabalho. Tento fazer isso todos os dias… e certamente parece ajudar.

P. Inglês, francês, alemão e italiano…

R. Isso mesmo.

P. Continua lendo Parmênides todas as manhãs?

R. Parmênides, claro… bem, ou outro filósofo. Ou um poeta. A poesia me ajuda a concentrar, porque ajuda a memorizar, e eu, sempre, como professor, defendi a memorização. Eu adoro. Carrego dentro de mim muita poesia; é, como dizer, as outras vidas da minha vida.

P. A poesia vive… ou melhor, no mundo de hoje sobrevive. Alguns a consideram quase suspeita.

R. Estou enojado com a educação escolar de hoje, que é uma fábrica de incultos e que não respeita a memória. E que não faz nada para que as crianças aprendam as coisas com a memorização. O poema que vive em nós, vive conosco, muda conosco e tem a ver com uma função muito mais profunda do que a do cérebro. Representa a sensibilidade, a personalidade.

P. É otimista em relação ao futuro da poesia?

R. Extremamente otimista. Vivemos uma grande época de poesia, especialmente entre os jovens. E escute uma coisa: muito lentamente, os meios eletrônicos estão começando a retroceder. O livro tradicional retorna, as pessoas o preferem ao kindle… Preferem pegar um bom livro de poesia em papel, tocá-lo, cheirá-lo, lê-lo. Mas há algo que me preocupa: os jovens já não têm tempo… De ter tempo. Nunca a aceleração quase mecânica das rotinas vitais tem sido tão forte como hoje. E é preciso ter tempo para buscar tempo. E outra coisa: não há que ter medo do silêncio. O medo das crianças ao silêncio me dá medo. Apenas o silêncio nos ensina a encontrar o essencial em nós.

P. O barulho e a pressa… Não acha que vivemos com muita pressa? Como se a vida fosse uma corrida de velocidade e não uma corrida de fundo… Não estamos educando nossos filhos com muita pressa?

R. Deixe-me ampliar esta questão e dizer-lhe algo: estamos matando os sonhos de nossos filhos. Quando eu era criança, existia a possibilidade de cometer grandes erros. O ser humano os cometeu: o fascismo, o nazismo, o comunismo… Mas, se você não pode cometer erros quando jovem, nunca se tornará um ser humano completo e puro. Os erros e esperanças desfeitas nos ajudam a completar o estágio adulto. Nós erramos em tudo, no fascismo e no comunismo e, na minha opinião, também no sionismo. Mas é muito mais importante cometer erros do que tentar entender tudo desde o início e de uma vez só. É dramático ter claro aos 18 anos o que você tem que fazer e o que não.

P. O senhor fala da utopia e de seu oposto, da ditadura da certeza…

R. Muitos dizem que as utopias são idiotices. Mas, em qualquer caso, serão idiotices vitais. Um professor que não deixa seus alunos pensar em utopias e errar é um péssimo professor.

P. Não está claro por que o erro tem uma fama tão ruim, mas o fato é que essas sociedades extremamente utilitaristas e competitivas possuem essa imagem negativa.

R. O erro é o ponto de partida da criação. Se temos medo de cometer erros, nunca podemos assumir os grandes desafios, os riscos. É que o erro retornará? É possível, é possível, existem alguns sinais. Mas ser jovem hoje em dia não é fácil.

O que estamos deixando a eles? Nada. Incluindo a Europa, que já não tem mais nada para lhes oferecer. O dinheiro nunca falou tão alto quanto agora. O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo. Quando eu estudava, as pessoas (mais…)

Idoso de 76 anos realiza sonho do 1º curso superior: ‘Chegou minha vez’

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Pai de 9 filhos, ele diz que só depois da aposentadoria pôde cursar direito.
Colega de sala de uma das filhas, o homem quer ser ‘um exemplo’, em GO.

Brasil é colega de sala da filha, Maria Aparecida, que faz o terceiro curso superior (Foto: Fernanda Borges/G1)

Brasil é colega de sala da filha, Maria Aparecida, que faz o terceiro curso superior (Foto: Fernanda Borges/G1)

Fernanda Borges, no G1

Logo após se aposentar, há quatro anos, o eletricista Brasil Sales percebeu que era a hora de investir em um curso superior. Nascido e criado em uma fazenda de Caldas Novas, no sul de Goiás, ele conta que nunca teve chance de estudar após o ensino médio. “Eu sempre sonhei em ter uma formação acadêmica, mas fui criado sem pai e enfrentei muitas dificuldades. Mas agora chegou a minha vez”, disse ao G1.

Atualmente, aos 76 anos, ele cursa o quarto ano de direito na Faculdade Cambury, em Goiânia. “Eu parei de trabalhar em dezembro e, logo após alguns dias, vi que não podia ficar parado, pois iria enlouquecer. Aí prestei o vestibular e, no começo do ano seguinte, eu já estava estudando para realizar meu sonho antigo, que estava guardado na gaveta”, conta.

Pai de nove filhos, Brasil afirma que sua pretensão vai além de atuar como advogado, pois ele quer ser um exemplo a ser seguido. “Sempre fui um homem que trabalhou muito, mas faltava algo. Por isso que, quando surgiu a oportunidade de estudar, mesmo já com a minha idade, vi que eu seria um orgulho para meus filhos, netos e bisnetos”.

O aposentado revela que outro fator foi importante para que ele tivesse coragem de estudar já na terceira idade: a companhia de sua filha, Maria Aparecida Sales de Barros, de 55 anos. Formada em ciências contábeis e fonoaudiologia, ela também decidiu voltar ao mundo acadêmico e é colega de sala do pai.

“Para mim é um privilégio, pois, além de poder desfrutar da companhia, ele ainda é meu parceiro de estudos, de trabalho. Meu pai é, de fato, um exemplo de vida”, disse Maria.

Dificuldades e sonhos
Apesar de estar “com a vida estabilizada”, Brasil conta que nem sempre conseguiu tudo o que queria com facilidade. Separado do primeiro casamento quando tinha 39 anos e sete filhos, sendo que o mais novo estava com oito anos, ele mudou com a família para Cuiabá (MT).

“Eu já tinha aprendido o ofício de eletricista com um conhecido e tinha uma pequena oficina em Caldas Novas, mas depois da separação eu tive que mudar de ares e fui para Cuiabá. Lá, a gente tinha onde morar, mas eu estava desempregado com sete filhos. Aí, fui até as oficinas da cidade, com meus meninos mais velhos, e nos oferecemos para trabalhar de graça. Três dias depois nós estávamos empregados”, lembra.

Nesse meio tempo, Brasil disse que a prioridade era o estudo dos filhos. Em 1979, durante um passeio em Goiânia, ele conheceu a atual esposa, Silvânia, com quem teve mais duas crianças. “Ela é o amor da minha vida, foi quem me ajudou a dar uma estrutura para a minha família e quem nunca deixou de me incentivar. Ela é tudo para mim”.

Após alguns anos no Mato Grosso, Brasil voltou para Goiânia, onde permanece até os dias atuais. Ele conta que o esforço feito durante todos esses anos valeu a pena, pois todos os filhos e netos têm formação superior. São engenheiros, médicos, advogados, economistas, fonoaudiólogos, contadores. “Minha família tem profissionais de todas as áreas”, se diverte.

Apesar de ter orgulho de ver os filhos com futuros promissores, o aposentado conta que faltava a sua realização pessoal. “Se eu pudesse, iria estudar muito até virar promotor de Justiça, pois sempre gostei daquilo que é certo. Meus colegas até me incentivam a prestar o exame da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. Já enfrentei o desafio de ser um idoso na sala de aula, então quem sabe eu até possa exercer a profissão. Nunca é tarde para correr atrás dos sonhos ”, concluiu.

Escola atende moradores de rua e alimenta sonhos de mudança pela educação

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Publicado em UOL

O sonho dos estudantes da Escola Meninos e Meninas do Parque, localizada no Parque da Cidade, no Distrito Federal, é o mesmo: sair das ruas. O colégio, que existe há mais de 20 anos, atende cem alunos que não têm onde morar. Além do aprendizado, jovens e adultos encontram no local carinho, paciência e motivação. A grade curricular é a mesma de outras instituições de ensino. A diferença, segundo a diretora Amelinha Araripe, é que o ritmo de aprendizado de cada um é respeitado.

Entre os alunos que já passaram pela escola está Meire Romão, 56. “Meu grande desejo é ser veterinária”, conta. Ela já concluiu o ensino fundamental na Meninos e Meninas, mas vai diariamente até o local para ajudar na limpeza. Segundo Meire, apenas a educação pode mudar a vida de uma pessoa.

“O dia mais feliz da minha vida foi quando vesti uma beca e segurei o diploma. Eu não tinha planos para o futuro, mas, hoje já estou entregando currículos. Quero juntar meu dinheiro, sair da rua e fazer um curso”. Atualmente, Meire dorme todos os dias em frente ao Hospital Regional de Brasília.

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O colégio, que é público, tem aulas de informática e oficinas de artes, ciência e corpo humano. Na escola, os alunos também tomam banho, lancham e almoçam. Uniformes e kits higiene são disponibilizados.

“Eles [os alunos] se encontram em uma situação de vulnerabilidade muito grande. Entretanto, todos respeitam muito o colégio e os professores. Sabem que encontraram aqui uma família”, diz a diretora.

Transformação

O estudante José Liberato, 64, é morador de rua há 50 anos. Ele já foi preso por assalto a mão armada e também tráfico de drogas. Encontrou na escola uma chance de seguir em frente e construir uma nova história. “Já aprendi a escrever meu nome e ler algumas palavras. Também comprei uma bicicleta para vender salgadinhos e doces. Com o dinheiro, pretendo alugar um quarto e sair da rua”.

No local, dez professores atendem alunos que têm a partir de nove anos. Eles são divididos em turmas de ensino fundamental regular ou EJA (Educação de Jovens e Adultos). Também existem aulas de reforço para os alunos que precisam.

Após a conclusão do ensino fundamental, os estudantes são encaminhados para outros colégios de ensino médio. Porém, o vínculo com a escola Meninos e Meninas não é desfeito.

“Só há transformação quando existe educação. Nosso estudante chega aqui como um diamante bruto. Com bastante carinho, ele fica mais afetivo, educado e estudioso”, diz Amelinha.

Inspiração para outros estudantes

Fabrício dos Reis, 25 anos, morava na rua desde criança com a mãe. Ele conta que se envolveu com drogas e não tinha nenhuma perspectiva de vida. Porém, a vida começou a mudar quando foi abordado por uma equipe de orientadores sociais.

“Comecei a estudar aqui e percebi que a droga não tinha futuro. Perdi muitos amigos que moravam na rua comigo, alguns assassinados, outros presos. Hoje, sou uma inspiração para outros alunos”.

Fabrício trabalha no projeto Cidade Acolhedora – Serviço Especializado de Abordagem Social, ganha R$800 e mora de aluguel. Hoje, o jovem sonha em cursar serviço social na UnB (Universidade de Brasília).

Infraestrutura

O colégio Meninos e Meninas é de responsabilidade da Secretaria de Educação do DF e possui alguns problemas de infraestrutura. O local só tem um banheiro, não tem internet e faltam espaços apropriados para as atividades.

Sobre os problemas, a pasta informou que encaminhará o mais rápido possível um técnico da Subsecretaria de Modernização e Tecnologia para instalar uma linha de internet. A secretaria disse ainda que está finalizando um plano de obras para o atendimento de todas as escolas que necessitam de intervenções mais amplas.

A história da ex-professora que hoje ganha a vida fazendo arte por apostar nos seus sonhos

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Publicado por Hypeness

A professora de música Layla Fanucci sempre admirou um poster de Monet e refletia sobre sua vontade de ter na parede algo que tirasse o fôlego das pessoas ao observar. Após uma visita pouco produtiva pelas galerias de Napa Valley, ela resolveu arregaçar as mangas e fazer sua própria obra de arte, mesmo sem nunca ter feito algo do tipo.

O resultado foi impressionante tanto para ela quanto para seus amigos. A primeira pintura foi feita numa tela 6m x 5m de altura e, quando ela a colocou no chão, começou uma explosão de tinta, nas cores azul, vermelho, amarelo, verde e branco. Depois do desenho abstrato, ainda acrescentou algumas imagens, um clarinete, uma árvore de Natal e três figuras que representam seus filhos.

Quando viram o quadro arrojado de Layla, os amigos também quiseram uma obra de arte para chamar de sua e encomendaram telas da nova artista. Ela declarou que um casal chegou a combinar as cores de casa baseadas em sua pintura. A partir de então, Layla não parou mais e, mesmo amando música e ensiná-la, descobriu seu verdadeiro talento, escondido como um tesouro a ser lapidado.

Depois de largar o emprego e descobrir o quanto é difícil viver de arte, ela estipulou uma meta de dois anos para dar certo na profissão. Se não conseguisse sobreviver no meio artístico, voltaria a dar aula.

Trabalhando de 10 à 12 horas por dia, a ex-professora alcançou seu objetivo e produziu mais de 200 quadros. A partir de então, começou a ganhar dinheiro e a ser reconhecida por sua habilidade. Após críticas e uma constante busca por um estilo único, Layla se encontrou retratando cenários de cidades, como Nova York, Paris e Roma. “Bem, todos nós temos talentos escondidos”, declarou Layla Fanucci “Se os descobrirmos, temos que os desenvolver todos os dias e deixá-los florir. Eu penso muitas vezes no que podia ter perdido, senão tivesse desistido de um salário estável e confiável, para seguir a minha paixão”, declarou.

Nas imagens abaixo, você confere como deu certo:

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Todas as fotos © Layla Fanucci

12 livros que capturam o que é ser introvertido

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Thinkstock

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Claire Fallon, no Brasil Post

Para sonhadores solitários que tendem a viver dentro de suas próprias cabeças, livros sempre foram companhias estimadas. Lendo, os introvertidos conseguem se deliciar na necessária pausa na socialização; melhor ainda, eles podem viver a vida dos personagens das páginas, aguçando seus poderes de observação em um fórum em que não terão de ser envolvidos.

Talvez seja por esse motivo que tantos escritores — que, quase por definição, passam tanto tempo com seus pensamentos — tenham capturado a essência da introversão tão vividamente. Os livros permitem que os introvertidos entrem nas mentes de extrovertidos gregários e charmosos natos, mas às vezes é reconfortante ver suas próprias tendências de lobo solitário refletidas na literatura.

Que tendências são essas? De acordo com Susan Cain, autora de O Poder dos Quietos, há discordância em relação aos detalhes, mas a introversão não é exatamente a mesma coisa que ser quieto ou tímido; na verdade, introvertidos são aqueles que tendem a:

* Preferir situações silenciosas;
* Preferir um grupo pequeno de amigos;
* Considerar as decisões com cuidado e a pensar antes de falar;
* Trabalhar lenta e deliberadamente; ter facilidade para se concentrar;
* Não gostar de bater papo, mas gostar de discussões profundas;
* Achar que a estimulação externa excessiva, como grandes grupos ou situações de risco, cansativas e opressivas;
* Se recarregar passando tempo sozinhos.

Se você é um introvertido nato ou um extrovertido hardcore (ou, como muitos de nós, está em algum lugar no meio do caminho), eis 12 livros brilhantes que você deveria ler. Eles capturam o que é ser introvertido.

1O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald
Apesar de a imagem icônica de Gatsby se concentrar em uma festa pulsante e cheia de brilho, Jay e o narrador, Nick, não são exatamente festeiros. Na realidade, Gatsby parece ser um livro sobre dois introvertidos perdidos num mundo construído para os extrovertidos. Nick, quieto e observador, tende a ficar em segundo plano em eventos sociais e raramente fala se não tiver um bom motivo. Apesar de se aproximar de Jay Gatsby, ele não demonstra muito interesse nos personagens mais marginais do livro (por isso eles são marginais na narrativa). Enquanto isso, Jay dá festas decadentes e se cerca de socialites, mas claramente acha os eventos cansativos e só quer saber de ficar sozinho com sua amada, Daisy. Na verdade, ele vem há anos trabalhando num plano de reconquistá-la, construindo castelos no ar sobre a vida que terão juntos. Gatsby captura lindamente o que é ser um item de decoração numa festa de arromba.

1Jane Eyre, de Charlotte Brontë
Jane pode ser passional e causticante quando se trata de seus direitos como pessoa, mas na maior parte das vezes ela é uma presença quieta e pouco intrusiva. Capaz de criar ligações profundas com os outros, ela não se importa com a companhia daqueles que não estão entre seus poucos amados. Uma conversa estimulante com sua amiga Helen ou com o senhor Rochester é mais que suficiente para enchê-la de alegria, e eventos sociais não a agradam. Jane gosta de passar tempo sozinha, tendo sonhos delirantes ou pintando; apesar de não ser uma artista talentosa, ela planeja seus quadros com cuidado e os executa minuciosamente. Muito de Jane Eyre se passa dentro da cabeça ativa e contemplativa de Jane, um efeito sublinhado pelo fato de que Brontë isola Jane fisicamente, retratando a personagem em situações no campo, onde ela raramente tem de interagir com os outros. E, apesar de Jane parecer sonhar com aventuras distantes, na verdade ela tem medo da possibilidade de viajar para a Índia como missionária, e os pântanos solitários da Inglaterra lhe são mais que suficientes enquanto ela estiver acompanhada de um espírito irmão como o senhor Rochester.

1Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle
O grande detetive usa cocaína e tabaco, busca o barato da adrenalina e fala com estranhos como parte do seu trabalho: não se podem negar suas características extrovertidas. Mas as introvertidas são indiscutivelmente mais intensas. Sua necessidade de descomprimir por dias ou semanas depois de um caso emocionante indica a necessidade de recarregar solitariamente; suas horas de estududo de violino ou de contemplação no sofá são testemunho de seu mundo interior altamente desenvolvido, sua atração pelo pensamento deliberado e seu desprezo pela necessidade de socialização. Holmes mostra profundo afeto (muito ocasionalmente) por sua companhia constante, e companheiro de casa o dr. Watson, mas ele não procura outras companhias – nem mesmo a de seu irmão. Qualquer introvertido sentiria afinidade com Holmes deitado no sofá por dias depois da conclusão de um caso, fumando e pensando em silêncio.

1Em Casa, de Marilynne Robinson
Em Casa é uma fábula que parece de vir de outro mundo, sobre uma família de mulheres atraídas pelo vagar. O livro não apenas passa pelo teste de Bechdel, mas também mapeia a discordância familiar entre duas introvertidas e uma extrovertida confusas e frustradas por seu deslocamento social. Visto pelos olhos da tímida e retraída Ruthie, o romance captura vividamente esse sentimento de deslocamento social. Aqueles fora do seu minúsculo círculo de amados são vistos como que através da água, distorcidos e mudos. Como sua tia solitária, ela se emociona com as belezas sutis da natureza e pode ficar sozinha ou quase sozinha por horas, feliz, observando seus arredores. Já a escola é uma tortura. Enquanto sua irmã gregária insiste em ser parte do mundo social da escola, tentando se adequar e conseguir a aprovação dos seus camaradas, Ruthie e sua tia ficam perplexas. Essa possibilidade não lhes parece desejável nem mesmo completamente real, e o tom isolado e pensativo do livro embala os leitores do começo ao fim.

1Uma História de Amor Real e Supertriste, de Gary Shteyngart
A distopia futurista de Uma História de Amor Real e Supertriste parece pensada para causar espasmos em pessoas extrovertidas. O clamor das mídias sociais atingiu níveis massacrantes, os livros são praticamente coisa do passado e a maior parte das informações são consumidas em textos confusos ou vídeos. Os äppäräti, que parecem smartphones, também transmitem e recebem dados sem parar sobre quem está em volta – o quão atraentes eles são em comparação com os outros, que crédito têm, como são suas personalidades – e essas notas colhidas por crowdfunding significam confrontações constantes com a percepção que os outros têm de você, além de uma pressão interminável para que você melhore suas notas. De certa maneira isso significa uma sociedade mais desconectada que nunca, mas essencialmente parece uma sociedade onde não existem mais as amizades quietas e profundas e os momentos de contemplação que tanto agradam aos introvertidos. Pelo contrário, não há nada que não seja barulho e ruptura. Até mesmo os extrovertidos talvez precisem de uma pausa da sobrecarga de informações e do bate-papo incessante na sombria Nova York do futuro imaginada por Shteyngart.

1Sonhos de Trem, de Denis Johnson
Na resenha do The New York Times dessa novela cativante, Anthony Doerr nota a qualidade “solitária” da descrição da vida de Robert Grainier, um lenhador órfão de Idaho que parece condenado à solidão. Mas, acima de tudo, Doerr enfatiza o tamanho do livro: “A novela tem 116 páginas, e você consegue virar todas elas em 90 minutos. […] Histórias curtas e novelas dão ao autor a chance de atingir o leitor mais profundamente porque o leitor fica preso durante a experiência inteira.” Essa experiência de leitura completamente imersiva acentua o impacto da existência basicamente solitária do personagem principal, criando um mundo interior de tons gentis que indica um estilo de vida do introvertido hardcore… apesar de Grainier não apreciar passar tanto tempo sozinho, ele vai perdendo o contato com a realidade aos poucos, depois de anos de isolamento.

1Tudo Depende de Como Você Vê as Coisas, de Norton Juster
Verdadeiramente um mundo de pura imaginação, esse clássico infantil traz à vida as aventuras surpreendentes de Milo, um menininho que nunca sabe o que fazer consigo mesmo. Milo não é necessariamente introvertido (ou um personagem muito cativante), mas a jornada imaginária de que ele participa – nas quais as palavras são tão tangíveis como comida, e conceitos abstratos vêm à vida – exemplificam a alegria de um mundo interior rico. O livro mostra para as crianças que ficar sentado em silêncio com um livro ou aprendendo conceitos de matemática pode ser tão emocionante quanto travessuras com criaturas mitológicas, pelo menos para aqueles de nós que não precisamos do estímulo de uma aventura real. Pode parecer que estamos só sentados sozinhos, mas na verdade estamos na companhia dos nossos pensamentos excêntricos.

1Persuasão, de Jane Austen
Austen valorizava a heroína deliberada e pensativa, especialmente mais para o fim de sua carreira. Persuasão, o último livro que completou, é prova disso. O romance acompanha Anne Elliot, uma solteirona com 20 e muitos anos que vive à sombra de sua família. Ela perdeu o que parecia ser a última chance de viver sozinha quando, ainda jovem, se apaixonou pelo elegante marinheiro Frederick Wentworth, mas foi convencida a terminar o noivado por causa das más perspectivas financeiras dele. Com o passar dos anos, Anne é consumida pelo desgosto, e sua natureza silenciosa a torna uma pária da família e reduz suas chances de encontrar um novo amor. Mas quando um bem-sucedido Wentworth reaparece, não temos como não torcer para que ele veja a beleza e o valor da natureza pensativa e reservada de Anne. Melhor de tudo, Persuasão celebra todos os aspectos da introversão que fazem dos introvertidos pessoas impopulares.

1Poemas Escolhidos, de Emily Dickinson
A poeta reclusa definitiva, Dickinson passou a maior parte da vida adulta na casa da família, raramente tendo vida social e passando cada vez mais tempo em seu próprio quarto. Apesar de manter amizades próximas, elas se davam basicamente por correspondência. Confinada em casa inicialmente por obrigações domésticas, ela parecia inabalada pelo isolamento; sua irmã mais tarde diria que “Emily escolheu esse papel e, achando a vida nos livros tão adequada, continuou a vivê-la”. Não é surpresa que sua poesia lírica e expressiva capture o fervor silencioso do introvertido passional e pensativo. As declarações do poder da imaginação, a observação precisa dos detalhes e a aura de calma externa que permeiam seus poemas ilustram como os introvertidos podem ser estimulados mesmo pelas pequenas coisas.

1As Ondas, de Virginia Woolf
Um dos livros mais incomuns de Woolf, As Ondas parece mais um poema em prosa que um romance. A narração é feita por um coro de seis vozes – Bernard, Susan, Rhoda, Neville, Louis e Jinny –, enquanto eles passam da infância à vida adulta. Apesar da narração em coro e da amizade entre os personagens, As Ondas tem um senso pronunciado de desconexão e isolamento. Sua obra costuma enfatizar a riqueza do interior e a dificuldade (ou o medo) de compartilhar essa vida interior com os outros, e a forma lírica desse livro sublinha esse sentimento. Cada personagem dá voz a seus momentos mais íntimos de êxtase e horror, criando uma sensação de vulnerabilidade e muitas vezes de solidão, e o movimento fragmentado da história ecoa o fluxo dos pensamentos de uma pessoa. Woolf cria um mundo estranho e poético, concentrado quase inteiramente no mundo interior, em vez do externo.

1A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao, de Junot Díaz
Díaz é direta na descrição desse protagonista nerd e gordinho: “Oscar”, escreve ela, “era um introvertido social que tremia de medo durante as aulas de educação física”. É o popular Junior que narra a história, nos dando a perspectiva incomum de um extrovertido observando minuciosamente a vida de um introvertido. Apesar de Oscar desejar ardorosamente a intimidade interpessoal – uma namorada, especificamente –, o resto da sociedade lhe dá medo. O conforto vem com a leitura de ficção científica, ou escrevendo páginas e mais páginas de elaboradas histórias fantásticas. Oscar Wao investiga o doloroso dilema do tímido introvertido: ele anseia por relacionamentos profundos, mas não tem a facilidade para a socialização casual que possa render um namoro (um problema ainda mais complicado por causa de sua aparência pouco atraente e seus interesses de nicho).

1No Caminho de Swann, de Marcel Proust
O narrador sensível e observador do clássico de Proust compartilha sua vida interior e suas lembranças conosco tão completamente que parecemos estar dentro de sua cabeça. Ele lembra com carinho os prazeres mais simples – até mesmo o sabor de uma madeleine com chá é tão poderoso para ele que pode dar origem a ondas de nostalgia – sugerindo que ele é afetado profundamente por tudo o que o cerca. Suas ligações são fervorosas, e ele não consegue nem mesmo pegar no sono sem um beijo de boa noite da mãe. Enquanto isso, a prosa se move deliberadamente, cuidadosamente, mostrando dedicação ao pensamento minucioso. Talvez mais importante, você tem de estar disposto a passar horas e horas sozinho com o livro se quiser terminá-lo – é bastante comprido.

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