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Suicidas, de Raphael Montes

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Cristine, no Cafeína Literária

Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca – aparentemente sem problemas – a participar de uma roleta-russa? Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender o que realmente aconteceu, e os motivos que levaram seus filhos a cometerem suicídio. Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, as mães são submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte de seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo maior começa a se revelar.
fonte: www.benvira.com.br

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Há tempos esta resenha está em modo rascunho. E sempre, por um motivo ou outro, acabava ficando para depois. Desde que comecei a escrevê-la, Raphael Montes já publicou mais um livro – Dias Perfeitos, de que eu talvez fale em algum outro post -, já vendeu direitos de seus dois livros para ‘virarem’ filmes, já lançou seus livros em diversas outras praças e países. E, além disso, comprovando seu pendor para a escrita policial, Dias Perfeitos recebeu chancela de um dos maiores autores policiais da atualidade, Scott Turow. Talvez por isso, e por inúmeros outros sites e blogs já terem falado a respeito, eu fui procrastinando a escrita da resenha.

Ler e resenhar um YA policial – Jack, estripador em Nova York – reavivou a vontade de escrever sobre outro thriller que me fez algumas vezes perder a hora de ir dormir. Leitores inveterados sabem o quanto isso é agradável e o quanto é um indício forte de que a leitura vale muito a pena.

Utilizando-se de um artifício que George R.R. Martin usa e abusa nas Crônicas de gelo e fogo, o livro tem três linhas narrativas que se alternam. Uma delas não é exatamente uma linha narrativa, são as anotações feitas por um dos personagens, Alessandro, em primeira pessoa, como em um diário. Outra acompanha a turma de jovens nos dias que antecederam ao atráfico evento. E a terceira, um ano depois, acompanha as mães dos jovens durante a leituras das anotações de Alessandro. É um recurso que, bem utilizado, causa o suspense necessário para incutir no leitor uma necessidade premente de continuar a leitura.

Há que se relevar o fato de que a obra é o primeiro livro publicado pelo autor. E, sendo assim, há alguns detalhes que poderiam ter sido melhor trabalhados. Não chegam a prejudicar a leitura, nem a apreciação da obra, mas incomodam em alguns momentos. Um deles é a narrativa de Alessandro. Enquanto atem-se ao formato de diário, discorrendo sobre seu cotidiano na escola e com os amigos, está ok. O problema está quando passa a ser a transcrição dos acontecimentos em tempo real. Convenhamos, não faz muito sentido que em momentos de tensão extrema, como os vividos no porão da Cyrille’s House, alguém continue relatando calmamente por escrito o que está ocorrendo. Talvez funcionasse melhor se fosse uma gravação, em vez de anotações.

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Raphael Montes
(foto: diariodigital.sapo.pt/)

Outro problema talvez não fique tão perceptível, caso o leitor não seja um “habitué” de romances policiais. O desfecho talvez se apresente como surpreendente para a maioria dos leitores. Mas para os veteranos, a surpresa nem é tão grande assim. Possivelmente, faltando um terço ou mais para o final do livro, mata-se a charada. A exemplo de muitos livros famosos de mistério, o ocorrido é um típico exemplo do “mistério do quarto fechado”, um clássico howdunit (leia mais aqui). É um recurso tão recorrente na literatura policial que chegou a ser objeto de estudo, gerando um livro sobre o assunto – Locked Room Murders, de Robert Adey. Nele, Adey lista 20 formas possíveis de cometer um crime de quarto fechado. E, leitores inveterados, mesmo não tendo parado para listá-las, certamente conseguem identificar a solução rapidamente. Apesar de o final conseguir desviar do clichê total, é isso que acontece em Suicidas.

Montes é bastante habilidoso com as palavras e na construção de personagens. Se, no início, os nove jovens parecem variações sobre o mesmo tema, com linguajar e atitudes similares, vão se diferenciando à medida que a trama avança. Eventualmente, ocorre algum deslize, mas no geral, são todos bem estruturados e se desenvolvem bem no decorrer da narrativa. Incomoda um pouco a forma superficial com que os personagens secundários são abordados, quase como estereótipos. Mas não chega a atrapalhar a fluidez da leitura. A narrativa em primeira pessoa revela-se uma boa escolha, já que a intenção não é revelar todos os fatos ao leitores e deixá-lo tão às escuras quanto os demais personagens.

Sendo sua obra de estreia, há muito a se elogiar. E, quem já leu seu segundo livro, percebe nitidamente a evolução da escrita e da concisão da narrativa. Mesmo tendo detestado o final de Dias perfeitos, é inegável o progresso do autor. E que venham outros! O mote do próximo é bem promissor, veja na entrevista que o autor deu ao Jô.

Vale um capuccino

“Quero que meus leitores virem a noite lendo”

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Raphael Montes com seu primeiro romance, 'Suicidas'. / Reprodução do Facebook

Raphael Montes com seu primeiro romance, ‘Suicidas’. / Reprodução do Facebook

O autor de ‘Dias perfeitos’ responde por um certo ‘boom’ da literatura policial no Brasil

Camila Moraes, no El País

 

Quem lê os romances policiais de Raphael Montes, de 24 anos, pode sofrer um efeito colateral: passar a noite acordado até chegar à última página. Essa reação, no entanto, não é um acidente. Ele decidiu que assim seria desde que começou a ler o autor das aventuras de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, aos 12 anos.

Hoje, do alto de seus 24 anos e com dois livros publicados – Suicidas (Benvirá) e Dias perfeitos (Companhia das Letras) –, ele conta que planejou chegar exatamente aí, munido de muita paciência. E conseguiu, trazendo com sua conquista pessoal um certo boom recente da literatura policial no Brasil.

Raphael é recém-formado em Direito e, até pouco tempo, estudava para concursos públicos. Até que Dias perfeitos estourou. Os direitos do livro já foram vendidos a dez países, incluindo a Espanha, e será lançado em espanhol na América Latina no ano que vem. Ainda por cima, 100% de sua obra já está contratada para ir ao cinema.

Em entrevista ao EL PAÍS, ele diz que assunto de escritor é escrever. Mas ele mesmo vai muito além dessa tarefa, com um autocontrole e uma ambição que só se veem nas ações de um típico protagonista de uma história policial.

Pergunta. Quando você começou a escrever?

Foi aos 12 anos, quando, coincidentemente, comecei a gostar de ler. As duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Assim que li o primeiro livro por vontade própria, decidi ser escritor. O que eu lia na época era literatura policial. Conan Doyle. Hoje em dia eu sou um escritor policial e pretendo continuar a ser.

Resposta. Por que você se identificou com as histórias de crimes?

Os livros do colégio me pareciam todos chatíssimos. Aliás, acho que a escola no Brasil é uma grande responsável pela formação de não-leitores, porque você coloca uma criança para ler José de Alencar aos 14 anos de idade, e ela não atinge aquilo. Machado de Assis, que amo hoje em dia, me pareceu insuportável a primeira vez que li. Eu tinha até certo medo dos livros, que a escola coloca como algo chato, inatingível, superior, um bando de autor morto que fala difícil… O fato é que eu não gostava de livros. Aí, numa viagem, li dois livros do Sherlock Holmes – Estudo em vermelho e O cão dos Baskerville. Foi uma identificação imediata. Virei a noite lendo e pensei: “É isso que eu quero fazer com os meus leitores, quero que eles virem a noite lendo”.

P. Mas o que a literatura policial tem de especial?

R. Acho que as histórias de crimes propõem um enigma ao leitor. Isso é desafiador. De início, meu interesse foi esse, mas hoje ele é maior. Acredito que a literatura policial é a melhor maneira de você conhecer a alma do ser humano. O que qualquer literatura faz é colocar o leitor em situações que ele nunca viveu. A Patricia Highsmith, que é uma das minhas autoras preferidas, diz o seguinte: “Qualquer um é capaz de cometer um crime”, basta você estar na situação determinada. Acho que, na medida em que a literatura policial trabalha com isso, ela nos faz enxergar a nós mesmos em situações limites.

P. Na sua opinião, temos alguma tradição do gênero no Brasil?

R. Acho que não. Li Conan Doyle, Agatha Christie, Patricia Highsmith, Georges Simenon. Aí tem francês, norte-americano, inglês… Mas cadê o brasileiro? A nossa tradição? Nos Estados Unidos, o que mais tem é autor policial. Na França, também tem muitos: a Fred Vargas, o Jean-Pierre Gattégno e, antes dessa geração, o Thierry Jonquet e vários outros. No Brasil, temos casos isolados. O Luiz Lopes Coelho, o Paulo Medeiros Albuquerque… Aí passa um tempinho e você tem a Pagu, que chegou a fazer um único livro policial, o Luiz Alfredo Garcia-Roza, que é a expressão mais forte, com uma carreira mais longa e 10 livros publicados. Atualmente tem o Tony Bellotto e o Jô Soares… Mas o próprio Garcia-Roza é traduzido só nos Estados Unidos e em mais dois ou três países. Não tem uma expressão universal.

P. Você reconhece hoje um boom na literatura policial no Brasil?

R. Esse ano está sendo bom: publiquei o Dias perfeitos, o Tony Bellotto publicou Bellini e o labirinto, e o Garcia-Roza está publicando agora a 11a aventura do detetive Espinosa, que é Um lugar perigoso. Patricia Mello, que não se diz policial, este ano publica também um romance que ela assume que é policial. O Bellotto está organizando uma antologia que brinda ao romance policial chamada Rio no ar, com autores convidados pra escrever contos, cada um passado num bairro carioca. Tem Veríssimo, Garcia-Roza, Tony Bellotto, Flávio Carneiro e outros. Sai este ano no Brasil e, nos Estados Unidos, no ano que vem.

P. Você acha que seus livros contribuíram para que o gênero fosse revivido?

R. Fico feliz de ter reacendido a discussão. A gente tinha o Tony Bellotto e o Garcia-Roza produzindo os policiais, no começo com bastante repercussão, depois timidamente. Depois, veio o meu segundo livro e houve um boom também, principalmente por causa da frase do Scott Turow na capa e porque vai sair em mais dez países. O que acho que eu trouxe, e foi uma discussão que banquei, é isso de a literatura policial ser considerada subliteratura. Não é adotada nas universidades, nas escolas, não se faz resenha no jornal… É livro pra ler no banheiro. Mas aí o Garcia-Roza ganhou o Jabuti com o Silêncio da chuva. Os suicidas foi finalista dos prêmios Machado de Assis e São Paulo de Literatura. Quando aconteceu, as resenhas que saíram falaram que não era um livro policial. Ou seja, tentam me desconstruir como autor do gênero, o que é muito engraçado. Rubem Fonseca vem há anos escrevendo a literatura dele, e todo mundo tacha ele como policial, e ele recusa. Porque é uma maneira de reduzir o cara. Mas ser policial não é ofensivo pra mim. Eu gosto.

P. Você é muito ativo nas redes sociais, está presente em eventos… Essa postura é hoje uma obrigação do escritor, a seu ver, do contrário seu livro pode não dar certo?

R. Não acho que seja uma obrigação. Eu faço porque gosto. A única obrigação do escritor é escrever bons livros, afinal estamos falando de literatura. Eu vejo pelas mesas de debate das que participo que formo leitores. Já cansei de ouvir e fico muito honrado com isso: “Eu não gostava de ler até ler o seu livro. Agora eu quero outro. O que eu leio?”. Aí eu mando minha listinha pronta de recomendações. Redes sociais eu sempre usei. Penso muito nas reações dos leitores enquanto escrevo e gosto de ter contato com o leitor, de receber e-mail criticando ou elogiando etc. Passei com isso a adicionar leitores. Hoje em dia, quando meu próximo livro sair, ele automaticamente vai chegar a 10.000 pessoas, que são os seguidores que tenho. Já tem um boca a boca garantido.

P. Aos escritores iniciantes como você até pouco tempo, o que recomenda?

R. Sempre fui ambicioso e confiei muito no meu trabalho, porque o levo muito a sério. Escrevi Os suicidas dos 16 aos 19 anos, com dedicação total, trabalhando toda noite. Quando terminei, falei: “Bem, não sou contra a autopublicação, mas só vou tentar esse caminho depois de mandar o livro para todas as editoras grandes e levar um não de todas e para todos os prêmios. E o tempo para que isso aconteça são dois anos”. Esperei um ano, e o Suicidas foi finalista do prêmio Benvirá em 2011. Não ganhou, mas foi publicado.

P. Agora que você já tem experiência literária, me fale um mito e uma verdade sobre ser escritor.

R. O mito é muito simples: que escritor só escreve quando está inspirado. Brinco que só escrevo quando estou inspirado, mas trato de estar inspirado todos os dias às sete da manhã, que é quando começo a escrever. É óbvio que às vezes flui mais, mas escrevo todos os dias. O que tem de verdade é que é um mercado muito difícil de você conseguir ganhar um nome. Sei que sou a exceção. É complicado. Ao fazer literatura policial, tenho mais sorte também. Brinco que não estou disputando com ninguém.

P. Quais são seus próximos projetos?

R. Estou trabalhando em roteiros de audiovisual. Meus dois livros vão ser adaptados para o cinema, mas eu não quis roteirizar. Sou muito racional no meu método criativo. Quando eu termino de escrever, já foi, o que eu tinha que dar para aquela história, já dei. Então, em audiovisual, meu objetivo é criar histórias originais. Mas para o próximo romance, que eu já estou escrevendo e que se chama por hora Jantar, armei ao mesmo tempo um projeto de série pra vender às produtoras.

Com 5 mil livros em casa, jovem vira revelação da literatura aos 24 anos

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Raphael Montes participou da Tarrafa Literária e falou da carreira (Foto: Mariane Rossi/G1)

Raphael Montes participou da Tarrafa Literária e falou da carreira (Foto: Mariane Rossi/G1)

Publicado no CBNFOZ
Uma das revelações da literatura policial brasileira esteve em Santos, no litoral de São Paulo. Aos 24 anos, Raphael Montes já teve dois livros publicados e tem quase uma biblioteca em casa, com mais de cinco mil livros. Durante entrevista ao G1, ele falou sobre essa paixão pelos livros e por literatura policial, da dificuldade de ser um jovem escritor e do desejo de fazer sucesso até fora do país.

O carioca Raphael Montes começou a coleção de livros em casa aos 12 anos. “Meu pai coleciona cachaça, minha mãe coleciona sapatos e eu coleciono livros”, explicou durante o bate-papo na Tarrafa Literária. Ele diz que recebe muitos livros e também comprou uma coleção de 900 exemplares de um colecionador que morreu. As obras são separadas por gênero ou nacionalidade. “Eles entram na minha casa e não saem. Eu sou meio enciumado. Agora eu estou me desfazendo de alguns exemplares porque não da pra ler tudo e nem tenho espaço”, diz ele.

'Suicídas' foi o primeiro livro de Raphael Montes (Foto: Divulgação)

‘Suicídas’ foi o primeiro livro de Raphael Montes (Foto: Divulgação)

De assíduo leitor, ele passou a escritor. Raphael começou a rascunhar a primeira obra aos 16 anos, uma trama policial com uma roupagem moderna. Nesse trabalho, ele sentiu muita dificuldade de conseguir apoio, porque era jovem demais. “Muitos me diziam que eu tinha escrito um livro de 500 páginas, adulto, escrito por alguém de 16 anos e que não tinha como isso dar certo. O livro deu certo”, fala. ‘Suícidas’ foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura, em 2010, do Prêmio Machado de Assis, em 2012, e do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013.

Depois, veio o segundo livro policial. ‘Dias Perfeitos’, publicado em março deste ano e que teve uma repercussão ainda maior que o primeiro. “A minha literatura policial eu vejo como contemporânea, na medida em que não faz parte dos princípios da literatura policial clássica”, avalia. Ele também escreveu contos que foram lançados em antologias com outros autores e recebeu elogios do autor americano Scott Turow.

Como autor, ele acredita que a literatura pode influenciar a vida real e vice-versa. Ele explica, porém, que essa não é a vontade dele quando se trata de situações policiais. “As conclusões e reflexões que um leitor tem ao ler um livro são pertinentes não só com o que está escrito no texto, mas também a própria vivencia do leitor. Tudo leva a reflexões, mas sem eu que tenha a pretensão de fazê-las com que o leitor as tenha. Eu só quero contar uma boa história, a princípio”, diz.

'Dias Perfeitos' será traduzido para vários países (Foto: Divulgação)

‘Dias Perfeitos’ será traduzido para vários países (Foto: Divulgação)

Aos 24 anos, o jovem escritor já tem planos para o futuro. Ele já está escrevendo, ao mesmo tempo, o terceiro e quarto livro da carreira, que terá um personagem fixo. “Percebo que existe uma demanda no mercado internacional que o autor de literatura policial tenha um personagem fixo. Eu já tinha essa vontade há algum tempo e passou a ser uma obrigação pessoal. Eu acho que é interessante até para sedimentar uma carreira tanto no Brasil como a nível internacional”, fala.

Os dois livros publicados de Raphael foram vendidos para o cinema e vão virar filme. ‘Dias Perfeitos’ vai ser traduzido para nove países. O jovem acredita que é um exemplo para outros escritores em início de carreira de que é possível alçar voos maiores. “O que eu costumo dizer a jovens autores é que nunca se impeça, que eu não tenho nada de especial e que é um caminho a ser trilhado. Existe eu e existem outros. As novas tecnologias, por sinal, facilitam o surgimento de novos autores, de novas maneiras e que conseguem furar o caminho das editoras. Mesmo sendo jovem, acabei seguindo o caminho tradicional”, afirma.

Literatura policial ganha mais espaço no mercado em 2014

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 Agatha Christie, a dama do crime, terá pelo menos 38 livros reeditados em 2014 pela L&PM e Globo Divulgação

Agatha Christie, a dama do crime, terá pelo menos 38 livros reeditados em 2014 pela L&PM e Globo Divulgação

Celebrado por fãs, gênero comemora bons resultados deste ano

Maria Fernanda Rodrigues no Estadão

Dois bons anos para a literatura policial, que atrai uma legião de fãs, é festejada no mundo inteiro e que ainda é considerada por alguns como um gênero menor, de entretenimento: o que está terminando e o que virá. Em 2013, ela chegou às finais de importantes prêmios, ganhou um festival e inspirou um grupo editorial a criar uma editora para se dedicar exclusivamente ao gênero. Para 2014, a lista de lançamentos está repleta de livros de mistério, de tribunal, de detetive, suspenses, thrillers, etc.

A realização da segunda edição da Pauliceia Literária, criada este ano pela Associação dos Advogados de São Paulo e que trouxe nomes como o advogado e escritor Scott Turow (25 milhões de exemplares vendidos no mundo), ainda é incerta e é mais provável que só ocorra em 2015. Mas há no horizonte de 2014 a realização de um festival de filmes e romances policiais nórdicos, com curadoria do finlandês Pasi Loman, dono da agência literária Vikings of Brazil.

Loman conta que o gênero não chama mais só a atenção de editoras já conhecidas pelo investimento em policiais, como Record, Rocco, Suma das Letras e Companhia das Letras. De acordo com ele, nos últimos 18 meses, editoras de pequeno e médio portes começaram a testar o mercado. “Elas estão conseguindo comprar títulos incríveis de autores de grande sucesso internacional que as grandes editoras também gostariam de publicar, mas que não o fazem porque não têm espaço no catálogo”, conta. E dá alguns exemplos. “A Amarylis publicou o ótimo Queimado, de Thomas Enger; a Nova Alexandria comprou três títulos de Torsten Pettersson, Arnar Ingolfsson e Karin Alvtegen, que eram editados pela Record, e a Autêntica comprou títulos de autores que já venderam milhões de cópias, como Leena Lehtolainen e Gunnar Staalesen.”

999-zoom_20131029143730O grupo mineiro Autêntica, aliás, fez um grande investimento na área ao inaugurar, em agosto, a Vertigo. De lá para cá, foram lançados sete títulos, todos de autores desconhecidos ou pouco conhecidos do brasileiro, e esse ineditismo é uma das apostas do diretor Arnaud Vin.

Uma curiosidade: em novembro, Pierre Lemaitre, de 67 anos, um desses “novos” autores, era anunciado o vencedor do prestigioso Goncourt por Au Revoir là-haut enquanto outra obra dele, Vestido de Noivo, saía da gráfica aqui. Dele, a editora lançará, em 2014, Cadres Noirs, um livro violento sem nenhuma gota de sangue, na explicação de Vin.

“A Vertigo, hoje, é articulada em torno de três vertentes: o policial histórico, o policial escandinavo, ou scandi crime, e o thriller”, conta o diretor. Entre os lançamentos do próximo ano estão O Assassino e o Profeta, de Guillaume Prévost, ambientado na Jerusalém do século 6; O Enigma da Rua de Blancs-Manteaux, de Nicholas le Floch; Indesejadas, de Kristina Ohlsson; Arrivederci Amore, Ciao, de Massimo Carlotto, entre outros.

O ano de 2013 foi de surpresa para a Rocco, editora do best-seller John Grisham e de Benjamin Black, pseudônimo de John Banville. Ela apostou no romance O Chamado do Cuco, do estreante Robert Galbraith. Antes de lançá-lo, em novembro, a verdadeira identidade do autor foi revelada e a tiragem, que poderia ter sido de 3 mil exemplares, saltou para 125 mil. Pudera, era a estreia de J.K. Rowling, de Harry Potter, no romance policial. Ela, ou Galbraith, prepara um segundo livro, que também está na programação da Rocco para 2014.

Outra aposta da editora é a britânica Sophie Hannah, de 42 ano, considerada a herdeira de Agatha Christie. Sairão pelo menos três obras aqui: Hurting Distance, que deve ser a primeira, Kind of Cruel e Lasting Dammage. Vale dizer que ela foi a escolhida pelo espólio de Agatha Christie para dar continuidade às histórias do detetive Hercule Poirot, e trabalha nisso agora.

Entre os brasileiros com livros a serem lançados em 2014 está Patrícia Melo, também da Rocco, que pela primeira vez terá uma protagonista mulher, e o advogado carioca Raphael Montes, de 23 anos, finalista este ano dos prêmios São Paulo e Machado de Assis por Suicidas (Benvirá), que já vendeu, desde 2012, 5 mil exemplares. Ele não ganhou os prêmios, mas chamou a atenção das grandes editoras e terá seu segundo romance, Dias Perfeitos, lançado pela Companhia das Letras em maio. Que o leitor não se engane com o título da obra. “É um suspense de amor obsessivo sob a visão do psicopata estudante de medicina”, adianta.

Muitos clássicos também estão previstos para o ano. A L&PM lança 30 títulos de Agatha Christie (1890-1976) e a Globo prepara cinco lançamentos e três reedições da Dama do Crime. Já Raymond Chandler (1888-1959) estreia no catálogo da Alfaguara em outubro com The Lady in the Lake e The Long Goodbye.

Copa de Literatura Brasileira promove disputa bem-humorada entre livros

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Primeira fase do torneio começa na próxima terça-feira com confrontos diretos entre as obras

Fernanda Oliveira no Diário Catarinense

Copa de Literatura Brasileira promove disputa bem-humorada entre livros Daniel Conzi/Agencia RBS

Copa de Literatura: torneio inspirado no futebol premia melhor narrativa longa recente Foto: Daniel Conzi / Agencia RBS

Depois de muita espera e ansiedade da torcida, na terça-feira o Brasil assiste ao início da Copa. Mas não a de futebol, naturalmente, e sim a de literatura.

Em vez dos pelo menos 4 mil metros quadrados do campo, a etérea realidade virtual. No lugar de times bem treinados, uma penca de livros. Dos gramados para a biblioteca, chega à quinta edição a Copa de Literatura Brasileira, o evento mais futeboleiro das letras do país.

Os concorrentes foram pré-selecionados pelo júri a partir da lista de narrativas nacionais longas publicadas entre 2011 e 2012. Entre os participantes, jogadores de peso como o vencedor do Prêmio Jabuti, Nihonjin, e o recente trabalho de João Gilberto Noll, Solidão Continental.

Outro forte concorrente é O Céu dos Suicidas, de Ricardo Lísias, que venceu a 4ª Copa com O Livro dos Mandarins pelo placar de 8×2. Lísias admite que não foi fácil chegar à final em 2011.

– Foi difícil. No começo não me sentia muito à vontade, não conhecia bem o terreno e estava ainda frio na competição. Aos poucos fui me aclimatando, o pessoal foi vendo o que eu podia e cheguei bem na final. Acho que fui crescendo durante o torneio – comenta o atual campeão, que destaca também O Sonâmbulo Amador como candidato à taça – simbólica – deste ano.

Na primeira fase da competição, 16 títulos se enfrentam em oito confrontos, livro contra livro: cada partida tem como juiz um crítico literário, que decide o vencedor em voto público e justificado – uma resenha, na verdade.

Após as quartas de final, a etapa de repescagem coloca frente a frente os perdedores das oitavas, ressuscitando mais quatro times. Os vencedores das quartas enfrentam os repescados naquela que foi batizada de rodada zumbi.

Daí pra frente é semifinal e a grande decisão, no dia 29 de outubro, na qual todos os jurados votam. Os jogos – a publicação dos textos no www.copadeliretarura.com.br – acontecem às terças e sextas-feiras, ao estilo Série B do Brasileirão.

– Nos anos anteriores, o estilo mata-mata deixava muitos livros com a opinião de somente um jurado. Isso será diferente em 2013 – garante Lu Thomé, que organiza a competição ao lado de Lucas Murtinho e Raphael Dyxklay.

O escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder, que apita o penúltimo jogo das oitavas, considera a Copa mais democrática que os prêmios literários.

– Os jurados emitem suas opiniões, fazem suas resenhas e as pessoas acompanham passo a passo. A Copa não tem fins lucrativos. É independente, não tem patrocínios, só apoiadores – defende Schroeder.

Quanto ao prêmio, quem ganhar a Copa não vai receber medalha nem dinheiro. Leva para casa as quatro resenhas positivas e o título oficial de campeão, a ser batido no próximo torneio.

Confira livros, datas e jurados dos jogos da primeira rodada da Copa:

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