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Modelo de carreira linear vai desmoronar, diz professora britânica

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Bruno Benevides, na Folha de S.Paulo

No futuro, a criatividade será o maior diferencial entre homem e máquina, diz a professora britânica Lynda Gratton. Especializada em gestão e na relação entre trabalho e tecnologia, ela também vislumbra uma verdadeira revolução na vida profissional, causada pelo aumento da expectativa de vida.

RAIO-X: LYNDA GRATTON, 62

Formação: Especializada em gestão e na relação entre trabalho e tecnologia, professora da London Business School

Obra: “The Shift: The Future of Work is Already Here” (“A mudança: O futuro do trabalho já está aqui”, inédito no Brasil)

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A britânica Lynda Gratton, professora de gestão da London Bussiness School

A britânica Lynda Gratton, professora de gestão da London Bussiness School

 

Folha – Sua pesquisa sobre tecnologia começou a partir de visita a uma vila masai, na Tanzânia, quando viu um morador usando celular. O que isso tem de tão especial?
Lynda Gratton – Mostra que quando temos tecnologia pela primeira vez, a usamos para amplificar o modo como vivemos. Para o masai, o aspecto mais importante da vida são seus animais. Por isso, na minha visita, ele usou o celular para conversar com o irmão sobre as cabras da família. Talvez hoje o masai use seu celular para saber sobre clima ou até para encontrar uma namorada em uma vila vizinha.

Qual o impacto da criatividade no futuro do trabalho?
A tecnologia está substituindo os humanos em trabalhos previsíveis, como anotação de dados, linha de produção e até alguns serviços jurídicos e contábeis. Vamos necessitar que a força de trabalho esteja empenhada na criação de produtos e serviços e em jeitos inovadores de entregá-los. Já o trabalho rotineiro será feito de forma mais efetiva pela tecnologia.

É possível aprender essas habilidades criativas na escola?
O modo como desenhamos nossas instituições tende a limitar a criatividade. O desafio das organizações é ajudar as pessoas a redescobrirem ideias e comportamentos criativos que antes eram naturais para elas. E, também, desenhar o trabalho de modo a encorajar as pessoas a pensar diferente, a falhar e continuar tentando.

O processo de alteração do homem pela máquina, conhecido pelo termo augmentation, deve impactar o trabalho em breve ou ainda leva tempo?
O futuro do trabalho vai ser definido por humanos e computadores trabalhando em sintonia, através da união entre ambos. Isso já está acontecendo. Basta pensar na nossa relação com aplicativos ou em nossos celulares e como eles permitem que facilmente nos comuniquemos em tempo real com outros ao redor do mundo ou que nos movamos entre o ponto A e o B rapidamente. Isso vai aumentar nos próximos anos.

A senhora diz que dinheiro não deve ser o único aspecto no trabalho. Quais os outros?
As organizações precisam oferecer aos empregados recursos intangíveis, como treinamento de habilidades, vitalidade, bem-estar e capacidade de desenvolver redes que os ajudarão a se mover entre carreiras no futuro.

As organizações devem oferecer aos funcionários a capacidade de aprimorar sua empregabilidade. As mais inovadoras já começam a experimentar. Muitas pessoas querem focar em sua saúde e, ao mesmo tempo, sabem da necessidade de aumentar seu grau de empregabilidade e sua habilidade de se transformar, já que terão uma vida profissional mais longa.

Qual o impacto da maior expectativa de vida no trabalho?

O modo como estruturamos o trabalho é baseado em um modelo de vida com três estágios: educação, trabalho e aposentadoria. Esse modelo vai desmoronar. Muitas pessoas não poderão se aposentar aos 60 anos, se pudermos viver bem até 100 anos.

Além disso, ficar aposentado por 30 anos não é atraente para o bem-estar social e psicológico. Vamos estender o trabalho até uma idade avançada e criar mais períodos de descanso, recuperação e reciclagem durante a vida profissional. Vamos mudar do modelo de três estágios para um de múltiplos níveis.

As empresas precisarão criar mais opções para permitir às pessoas períodos de descanso, de recuperação e de treinamento e estudo. Também devem entender que a idade não vai mais ter relação direta com o estágio da vida, já que cada um deverá usar as diferentes opções que existem para sequenciar a vida como achar melhor.

Britânica que criou projeto de educação feminina na África ganha o WISE Prize

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Projeto de Ann Cotton já beneficiou mais de três milhões de meninas em escolas de áreas pobres de países africanos

Ann Cotton com crianças na Tanzânia (foto: Divulgação)

Ann Cotton com crianças na Tanzânia (foto: Divulgação)

Ludmilla de Lima, em O Globo

A fundadora e presidente da organização internacional Camfed (Campanha para a Educação Feminina), Ann Cotton, foi premiada ontem em Doha, no Qatar, com o 2014 WISE Prize, espécie de Nobel da educação oferecido pela Fundação Qatar. O programa criado pela britânica em 1993 promove com a educação de meninas em áreas pobres de países africanos. Até agora, a iniciativa beneficiou mais de três milhões de crianças e jovens de Zimbábue, Zâmbia, Gana, Tanzânia e Malaui por meio de uma rede de 5.085 escolas, em 115 regiões rurais desses países.

Ann Cotton abraçou a causa após uma uma viagem ao Zimbábue em 1991. O objetivo dela ao visitar o país era pesquisar as causas do baixo número de meninas nos bancos escolares. Ela descobriu que a pobreza, mais do que questões culturais, era a principal barreira por trás do fenômeno. Ao criar a Camfed, em 1993, ela passou a trabalhar em conjunto com as comunidades. Além de desenvolver novas lideranças femininas na África Subsaariana, a organização tem como desafios quebrar o ciclo de pobreza, reduzir o casamento infantil e combater as altas taxas de natalidade e também de HIV/Aids entre as jovens.

O prêmio foi entregue pela sheika Moza bint Nasser, presidente da Fundação Qatar, durante a cerimônia de abertura do Wise, conferência internacional sobre educação e inovação que vai até amanhã, em Doha. Em seu discurso, ela destacou três valores do projeto de Ann Cotton: inovação, sustentabilidade e consciência das dimensões da educação.

— Nós consideramos a premiada um exemplo de como a educação tem o poder de mudar as sociedades. Ela é uma mulher que reconhece, assim como nós, que a solução para todos os problemas está na educação. Ela trabalha para fazer da educação a primeira prioridade para o desenvolvimento de outros setores — declarou a sheika.

Ann Cotton afirmou que a organização ajuda a transformar em realidade o desejo universal das familias de ver seus filhos na escola.

— Recebo este prêmio em nome das milhões de meninas atendidas. A Camfed está empenhada em apoiar, através da educação secundária, nos próximos cinco anos, um milhão de meninas cuja autoconfiança foi roubada pela pobreza. São meninas que ainda não sabem a transformação incrível que as espera – disse a fundadora da ONG, acrescentando. – Imaginem essas meninas trabalhando no sistema de saúde e educação, atuando na política, no jornalismo, no direito, na engenharia, na ciência. Imaginem o poder que elas podem adquirir para transformar o mundo.

A premiada com o WISE nasceu em 1950 em Cardiff, capital do País de Gales. Antes de criar a ONG, ela estabeleceu em Londres um centro voltado para meninas excluídas do sistema de ensino. Como prêmio, Cotton receberá US$ 500 mil.

Cerca de 1.800 pessoas de todo o mundo participam da conferência organizada pela Fundação Qatar. Durante os três dias de evento, pesquisadores e profissionais da área trocarão experiências. Seis projetos inovadores também serão premiados. O encontro, que está na sua sexta edição, tem como tema este ano a criatividade.

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