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Escritores resgatam folclore brasileiro e renovam romances de época

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Os personagens Gerard van Oost e Oludara na ilustração de Jonathan ‘Jay’ Beard; ao lado, a partir da esquerda, Samir Machado de Machado, Enéias Tavares e Christopher Kastensmidt - Jonathan ‘Jay’ Beard / Divulgação

Os personagens Gerard van Oost e Oludara na ilustração de Jonathan ‘Jay’ Beard; ao lado, a partir da esquerda, Samir Machado de Machado, Enéias Tavares e Christopher Kastensmidt – Jonathan ‘Jay’ Beard / Divulgação

 

Obras misturam narrativas históricas com ficção científica, fantasia e aventura

Bolívar Torres, em O Globo

RIO — Saci-Pererê, Boitatá, Capelobo e outros seres míticos cruzam com nativos e colonizadores numa aventura pelo Brasil Colônia. Soldados do século XVIII enfrentam labirintos e assombrações em meio às Guerras Guaraníticas. Isaías Caminha, Simão Bacamarte, Vitória Acauã e outros personagens da literatura brasileira clássica se reúnem em um cenário urbano pós-abolição para desvendar o desaparecimento de um cientista acusado de assassinatos. As tramas dos escritores Christopher Kastensmidt, Samir Machado de Machado e Enéias Tavares seguem uma vertente cada vez mais em voga do romance de época nacional: misturar História e ficção fantástica, dando destaque a elementos do folclore nacional.

Os três têm presença confirmada na programação da 18ª Bienal do Livro do Rio. Tavares e Kastensmidt falam sobre suas experiências com a cultura brasileira na mesa “Sacis, lobisomens e os monstros da ficção brasileira!”, que acontece nesta terça, às 15h30m, no espaço Geek & Quadrinhos (Pavilhão 4). Já Machado participa da mesa “Literatura e História”, com Mary Del Priore, Alberto Mussa e Fabiano Costa Coelho, na quarta, às 19h30m, dentro da programação do Café Literário (Pavilhão 3). Ele também relança no Rio o seu “Quatro soldados”, um dos romances históricos mais elogiados dos últimos anos, na terça, a partir das 19h, na Livraria da Travessa (Rua Voluntários da Pátria, 97, Botafogo). Originalmente publicado pela Não Editora em 2013, o livro acaba de ganhar uma nova edição da Rocco.

— Há uma tendência pós-Monteiro Lobato de retrabalhar o folclore brasileiro — opina Machado, também autor de “Homens elegantes” (Rocco), uma aventura de capa e espada LGBT. — Eu diria que é um potencial pop a ser renovado, resgatado dos limites da cultura infantil a que ficou confinado, e ressignificado como materialização de medos coletivos.

POTENCIAL POP

Desde 2007, Machado é editor da coleção “Ficção de polpa”, que publica contos de gêneros como terror, fantasia e ficção científica. Em “Quatro soldados”, porém, ele faz um mergulho no instável Brasil do século XVIII, com personagens tão perdidos quanto o projeto de nação do período. O território em que se movem os soldados do título é assombrado por forças estranhas, que os fazem passar pelas mais duras provas.

O autor levou oito anos para terminar o romance, pesquisando em dicionários do século XVIII para criar uma estética que se aproximasse do português falado na época. Unindo rigor histórico e narrativa aventuresca, volta-se tanto para estudiosos do passado quanto para jogadores de RPG.

— Escrevi o livro com a ideia de rever o folclore dentro de um contexto mais realista, de romance histórico — diz Machado. — O que me fez partir para uma abordagem mais próxima de criptozoologia. Foi um jeito de encontrar uma forma nova de olhar para isso.

Nascido nos Estados Unidos, mas radicado em Porto Alegre, Kastensmidt foi finalista do Prêmio Nebula (espécie de Oscar da literatura fantástica) com “O encontro fortuito de Gerard van Oost e Oludara”, primeira história de uma série ambientada no século XVI. Por meio da improvável amizade entre um explorador holandês e um guerreiro iorubá trazido ao Brasil contra a sua vontade, ele revisita a magia e os mistérios do nosso folclore, povoado por criaturas como Saci-Pererê, Boitatá, Pai do Mato, Capelobo, Mapinguari etc.

A saga de Oost e Oludara já virou um romance, uma HQ (com arte de Carolina Mylius e Ursula Dorada), e agora deverá ser transformada pelo autor em um jogo de tabuleiro e um RPG de mesa, no estilo “Dungeons & Dragons”. Samir Machado de Machado, que já trabalhou com Kastensmidt em um dos volumes da “Ficção de polpa”, define o projeto do colega como “um dos bestiários de folclore nacional mais completos desde Câmara Cascudo”. Rigoroso em sua pesquisa histórica, Kastensmidt calcula ter consultado mais de 200 livros.

— Trabalho com Brasil Colônia, que não é a época mais comum para fantasia histórica, mas que tem seus adeptos, como Walter Tierno e Marcus Achiles — explica o autor. — O gênero me deu retorno: resultou no meu conto mais premiado até aqui, e as histórias estão sendo adotadas em muitas escolas.

Saindo do cenário rural e selvagem para o urbano, com autômatos robóticos, zepelins e monóculos com lentes para outras dimensões, Enéias Tavares transformou os personagens de algumas das principais obras da literatura brasileira em detetives do início do século XX.


IDENTIDADE ASSUMIDA

Na série de fantasia “Brasiliana Steampunk”, ele criou uma espécie de “Liga Extraordinária” nacional com o jornalista Isaías de Lima Barreto, a feiticeira Vitória Acauã, de Inglês de Sousa, e o trio do “Cortiço” de Aluísio Azevedo: Rita Baiana, Leónie e Pombinha, entre outros.

Professor de Letras da Universidade de Santa Maria (RS), Tavares quis exorcizar sua experiência frustrante de aluno de ensino médio tornando o estudo da literatura brasileira “mais instigante”. Em 2014, aproveitando o interesse editorial para as audiências jovens e a boa receptividade dos professores, lançou o primeiro livro da série, “A lição de anatomia do temível Doutor Louison”, uma trama de mistério com pitadas de fantasia, aventura e ficção cientifica.

— No Brasil, ainda há uma certo receio de assumir quem nós somos — avalia Tavares. — O Christopher, o Samir e eu fazemos parte de um grupo que resolveu assumir a ambientação nacional com peito estufado. Queremos interpretar o Brasil, divulgar nossas coisas. Muitos escritores do Brasil estão falando sobre Paris e Londres, o que é legal, mas também é importante valorizar a identidade nacional.

Ana Maria Machado diz que prêmio é ‘reparação de injustiça’

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Escritora venceu o Passo Fundo Zaffari & Bourbon com ‘Infâmia’

Maria Fernanda Rodrigues, no Estadão

Ana Maria Machado já ganhou muitos prêmios, como o Hans Christian Andersen, o mais importante do mundo para a literatura infantil, e o Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Mas nada repercutiu tanto quanto a derrota que sofreu no Jabuti, no ano passado. Ela era a favorita de dois dos três jurados, mas sua obra perdeu por causa desse terceiro, o famoso jurado C, que deu zero para seu livro.

Claudio Tavares/Divulgação A escritora Ana Maria Machado

Claudio Tavares/Divulgação
A escritora Ana Maria Machado

O título em questão era Infâmia (Alfaguara), e a hora dele finalmente chegou. Terça, na abertura da 15.ª Jornada de Literatura de Passo Fundo (RS), ele foi anunciado como o romance vencedor do 8.º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, no valor de R$ 150 mil – um dos mais altos do País. Concorreram obras escritas em português e publicadas no Brasil nos últimos anos. Ao lado dela, na lista de finalistas, nomes como João Gilberto Noll e Luiz Ruffato.

“Quando soube do prêmio, a sensação de reparação de uma injustiça entrou forte na alegria”, comentou ontem, em Passo Fundo. “Na vida, as coisas tendem a seguir um equilíbrio. Talvez a linguagem popular dissesse ‘O que é do homem o bicho não come’. Talvez o Zagalo dissesse ‘Tiveram que me engolir’”, brincou a imortal e presidente da Academia Brasileira de Letras.

Baseado em fatos reais, Infâmia fala do limite entre o verdadeiro e o falso. São dois os personagens principais: um embaixador que recebe um envelope com documentos sobre sua filha morta e um funcionário público falsamente acusado de corrupto.

Ana Maria terminou há pouco um infantil, que está descansando “na nuvem”. Entre outubro e novembro lança, pela Objetiva, a novela juvenil Enquanto o Dia Não Chega – uma história que se passa no século 17 e se alterna entre uma aldeia africana e outra portuguesa e um colégio de jesuítas.

Seus leitores adultos, porém, devem esperar um pouco mais por outro romance. “Estava com uma história na cabeça, mas aí alguém publicou um livro sobre o assunto. Desisti do projeto. Mas, com o prêmio, vou poder parar um tempo e financiar um silêncio para mim e ver como dar rumo, ou não, a esse tema que me assombra”, conta.

Ela não revela o assunto por medo de perdê-lo. “O momento de escrever é muito próximo do inconsciente. Pôr em palavras, é dar uma forma verbal a certas sensações que são ainda muito difusas e a certas percepções inconscientes. Na hora de botar no papel, ela perde a espontaneidade”, conclui.

Carreira de atuário, eleita a melhor nos EUA, tem mercado em alta no Brasil

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Profissional da área está sempre em contato com matemática e estatística.
Junto com crescimento da economia do Brasil, mercado também se amplia.

Vitor Tavares, no G1

Daniel e Renata se empolgaram com o curso de ciências atuariais da UFPE. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Daniel e Renata se empolgaram com o curso de ciências
atuariais da UFPE. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Quando surgiu no vestibular 2009 da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o curso de ciências atuariais ainda era uma incógnita para muita gente. Hoje, mais de quatros após o início, a graduação de nome estranho ainda para muitos brasileiros começa a despontar como carreira promissora em Pernambuco e também em todo o país. A primeira turma da instituição pernambucana formou apenas seis alunos – e todos já estão empregados, incluindo dois no Distrito Federal.

Em recente pesquisa do CareerCast.com, um site norte-americano especializado em empregos, a carreira de atuário foi eleita a melhor profissão dos Estados Unidos. A pesquisa levou em consideração cinco critérios: demandas físicas, ambiente de trabalho, renda, estresse e perspectivas de contratação. O profissional da área basicamente atua lidando e calculando riscos. Seu trabalho se aplica em pesquisas e planos de fundos de investimento, na política de gestão desses fundos, no cálculo de probabilidades e na fiscalização da previdência pública, privada e de seguros.

De acordo com o coordenador do curso da UFPE, Cícero Dias, é essencial que o estudante do curso tenha habilidade e paixão pela matemática. “A base do curso são números, estatísticas. E o curso de nossa natureza tem uma evasão muito grande, é a realidade. No nosso caso, teve muita gente que entrou no curso sem ter nenhum conhecimento, nenhuma base. Os profissionais precisam ter isso em mente, que toda hora vão estar atuando com cálculos”, informou.

Um dos seis alunos formados pelo curso foi Daniel Magalhães. Atualmente trabalhando na Reciprev, previdência social da Prefeitura do Recife, o ex-estudante se diz satisfeito com a escolha e com as oportunidades que estão surgindo no campo profissional. “Eu pesquisei bastante antes de entrar, mas ainda tinha certo receio, por ser um curso novo. Nós seríamos as cobaias. Mas me identifiquei de cara como esse perfil analítico do curso, que traz uma visão muito boa e ampla, dando várias possibilidades para nós”, falou.

O crescimento da profissão de fato é percebido no país. Qualquer cálculo feito em uma seguradora, como a possibilidade de um carro de bater ou de o indivíduo morrer, é feito pelo atuário. E isso se aplica a qualquer tipo de seguridade, como planos de saúde, e ainda em pesquisas estatísticas. “Nos Estados Unidos, eles sempre tiveram a cultura de proteção financeira muito maior do que aqui. Lá, as pessoas falam em seguro de tudo. Apesar disso, o mercado de seguradoras tem um crescimento muito grande, junto com a economia do Brasil, pelo aumento de renda das pessoas. Isso leva ao acesso a produtos que as pessoas não tinham. E quanto mais produtos, mais atuários são necessários”, ressaltou Cícero Dias.

Os atuários Renata e Daniel veem mercado aquecido no estado. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Os atuários Renata e Daniel veem mercado aquecido no
estado. (Foto: Vitor Tavares / G1)

Diante da visão de um mercado em expansão, Renata Alcoforado resolveu investir na carreira de atuária, e hoje já se encontra no terceiro ano do curso. Como sempre foi apaixonada por matemática, encontrou na carreira a possibilidade de aplicação prática na utilização dos números “É um curso fácil de entrar, mas difícil de se manter e sair formado. Não tive tanta dificuldade porque já lidava com matemática antes, participando de olimpíadas. Então, acabei me encontrando na graduação”, falou.

Além do mercado de seguros, o atuário o pode se adaptar a várias demandas, como questões relacionadas à solvência de empresas e gestão de investimentos de risco em bancos e empresas financeiras. É o caso de Daniel Magalhães, que atua na gestão de investimentos da Reciprev. “Como o curso é muito versátil, com professores de diversas áreas, acaba sendo ampliada a demanda. Nós pagamos algumas cadeiras até com as engenharias, sem aplicação prática para o nosso curso. Mas isso fez com que tivéssemos uma visão maior do que o campo específico do atuário”, destacou.

De acordo com o coordenador da graduação da UFPE, cursos como ciências atuariais são muito dinâmicos, por isso todo ano tem uma reavaliação para saber o que precisa melhorar e ser modificado. O curso recebeu, em agosto, a nota 4 na avaliação do Ministério da Educação (MEC).

Lydia Davis: “Minhas histórias surgem das situações mais estranhas”

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A mestra americana do conto breve revela como inventa suas histórias, repletas de paradoxo e ironia

Luís Antônio Giron, na Época

A escritora americana Lydia Davis participa de duas mesas desta edição da Flip (Foto: Flavio Moraes / ÉPOCA)

A escritora americana Lydia Davis participa de duas mesas desta edição da Flip
(Foto: Flavio Moraes / ÉPOCA)

A escritora Lydia Davis é um tesouro quase secreto da literatura americana. Isso porque ela não tem nada a ver com a tradição realista de seu país. Escreve narrativas curtas, de aforismos breves a contos, sem nenhum compromisso com a verossimilhança ou a imitação da natureza. Ela é capaz de escrever um conto cujo texto é menor que o próprio título. É o caso de “Exemplo de gerúndio num quarto de hotel”. O conto é o seguinte: “Sua camareira está sendo Shelly”. Ele faz parte do livro Tipos de perturbação (Companhia das Letras, 254 páginas), lançado em 2007 e agora publicado no Brasil. Lydia Davis é a rainha dos jogos de sentido e dos enigmas paradoxais. Nesse sentido, é muito parecida com o austríaco-boêmio-judeu Franz Kafka e o argentino Jorge Luis Borges. Lembra também o português Gonçalo M. Tavares. Pertence, enfim, a uma linhagem especial de autores filosóficos, irônicos e paradoxais.

Lydia está em Paraty para participar de duas mesas: uma hoje sobre tradução e outra amanhã ao lado do escritor irlandês John Banville. É certamente a ocasião mais importante de uma Flip marcada por improvisos e as defecções de Houellebecq e Knausgaard. Lydia Davis tem 63 anos, nasceu em Northanpton, Massaachussets, e já pubicou seis volumes de conto e um romance. É uma mulher bonita, refinada e simpática. Atendeu Época em uma casa colonial de Paraty usada pela aCompanhia das Letras como sede.

ÉPOCA – Sua ficção é marcada por uma espécie de integridade literária que deve afastar boa parte dos leitores, não?
Lydia – Não penso nos leitores quando escrevo. Há leitores para todo tipo de gênero. Claro que a maioria gosta de best-sellers, de histórias de amor e de ação. Só acho que deveriam prestar atenção à arte literária.

ÉPOCA – Por que a senhora escolheu o conto curto como gênero dominante de sua obra?
Lydia Davis –
Foi um processo natural. Minha mãe escrevia contos, e até meu pai se arriscou em escrever histórias curtas. Desde pequena eu escrevo. Comecei contando histórias da forma tradicional, linear. Tentei ir pelo caminho de (Anton) Tchéckhov, do conto irônico e bem construído. Mas acabei encontrando meu estilo próprio. Busco trabalhar com uma variedade de registros, que vão do conto de uma única sentença a histórias um pouco mais longas.

ÉPOCA – A senhora poderia explicar duas operações que se repetem em seus contos: a ironia e o paradoxo? De alguma forma eles são aforísticos, não?
Lydia –
Sim, talvez porque eu encare o ato de escrever histórias como um fazer poético. Narro como se escrevesse poemas. Meus contos aspiram a ser poemas. Poesia é a grande forma, e de algum modo inalcançável para os prosadores. Quanto à ironia e o paradoxo, sou afeiçoada a Kafka. Muitas vezes tento imitar o jeito de Kafka escrever.

ÉPOCA – Há também um pouco de Jorge Luis Borges em seus contos, não? Na edição brasileira de Tipos de Perturbação, o subtítulo, em vez de “stories”, como está em inglês, é “ficções”, que era a forma como Borges denominava seus textos.
Lydia –
Borges é um autor importante para mim, até porque ele próprio é de certo modo kafkiano. Eu procuro imitar o jeito de escrever desses autores, claro que buscando um jeito original. A palavra “ficções” soa pretensiosa em inglês. Mas no Brasil soa bem, já que vocês têm mais intimidade com a obra de Borges. Nas realidade, vejo o que escrevo como contos.

ÉPOCA – A senhora gosta de algum autor brasileiro?
Lydia –
Adoro Clarice Lispector. Ela tem uma maneira também aforística de escrever e de fazer o leitor entrar em um mundo inquietante e inesperado. Eu já conhecia dela um romance, A hora da estrela. Agora li um volume de contos. E também estou escrevendo para tentar imitá-la.

ÉPOCA – De onde surgem suas histórias?
Lydia –
Minhas histórias surgem das situações mais estranhas. Quando estou fazendo compras, ou passeando, qualquer momento. Por isso, carrego comigo um bloco. Vou anotando o que posso. Quando uma ideia me vem, anoto. Muitas vezes não anoto, mas me lembro e escrevo.

ÉPOCA – Como é seu método de trabalho, disciplinado ou ao sabor da inspiração?
Lydia –
Sou assistemática. Alice Munro (autora canadense) diz que é preciso manter a disciplina e escrever em determinadas horas do dias, apesar de filhos, maridos, família, obrigações. Ela conseguiu fazer isso. Eu não. Escrevo quando tenho vontade, e se estou com uma boa ideia de história. Ás vezes invento contos e corto tudo até virarem uma frase. Às vezes parto de uma ideia muito simples para criar uma trama complexa. Depende da inspiração. Anoto à mão e depois escrevo no computador com o material que tenho à disposição.

ÉPOCA – No conto “Kafka prepara o jantar”, que está no seu último livro, Tipos de perturbação, Franz Kafka é um personagem cheio de dúvidas transcendentais, bastante esquisito. O conto reflete a sua visão pessoal de Kafka? Como o conto surgiu?
Lydia –
Eu estava preparando um jantar francês para amigos uma noite dessas quando pensei: nossa, é muito difícil cozinhar para uma ocasião especial. Como Kafka enfrentaria a situação? Assim comecei “Kafka prepara o jantar”. Mas fui além. Fui atrás da correspondência dele com Milena (sua namorada). As cartas confirmaram o que eu já pensava dele: u sujeito muito estranho, em estado permanente de hesitação. No conto, procurei imitar o próprio estilo de Kafka em suas cartas.

ÉPOCA – A senhora já traduziu Gustave Flaubert, Marcel Proust e Michel Foucault. Como foi sua experiência ao traduzir?
Lydia –
Já fiz muita tradução por encomenda, só para me sustentar. Mas com autores como Flaubert e Proust, fiz porque queria me desafiar a traduzir dois autores importantes para minha formação. Flaubert é mais fácil, embora sua concisão apresente uma série de problemas. Proust é um autor mais difícil, suas frases são longas, poéticas e evocativas, elas acompanham um devaneio bastante difícil de traduzir para o inglês. Leveis seis meses traduzindo O caminho de Swann. Valeu a pena. Aprendi muito.

ÉPOCA – Que tipo de tradução a senhora prefere, a criativa ou a que busca a fidelidade ao original?
Lydia –
Eu busco a fidelidade quando traduzo. Mesmo em Proust persegui uma correção direta com o inglês. Claro que precisei mudar o jeito de escrever em inglês para trazer Proust ao idioma.

ÉPOCA – A senhora vai debater com John Banville os limites da ficção. Eles existem de fato?
Lydia –
Eu acho legítimo escrever de forma experimental. Um texto que tem apenas a letra “i” e um monte de páginas em branco é algo que entendo, acho divertido. O modo como James Joyce escrevia contaminou boa parte dos autores contemporâneos até os anos 70, hoje pode estar fora de moda. Eu não penso em limites formais. A minha inclinação pessoal é escrever de forma direta, para que o leitor entenda. Adoto formas tradicionais, o texto conciso, para dar o recado exato. O que não deixa de ser uma atitude experimental.

USP cria Comissão da Verdade e investiga crimes da ditadura militar

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Universidade aposentou compulsoriamente professores e teve estudantes e funcionários mortos e desaparecidos pelo regime

Jorge Maruta/ Jornal da USP Informações serão encaminhadas a Comissão Nacional da Verdade

Jorge Maruta/ Jornal da USP
Informações serão encaminhadas a Comissão Nacional da Verdade

Publicado por R7

A comunidade acadêmica da USP (Universidade de São Paulo) decidiu ter sua própria comissão da verdade, para investigar crimes cometidos pela ditadura contra alunos e funcionários da universidade. A discussão para realização do projeto vem desde 2011, e nesta terça-feira (7) foi anunciada sua criação.

A Comissão vai apurar em documentos, testemunhos e depoimentos as violações cometidas contra os direitos humanos e realizar, no prazo de um ano, um relatório que vai conter o resultado do trabalho de investigação. As informações serão encaminhadas a Comissão Nacional da Verdade.

A USP aposentou compulsoriamente, na época da ditadura militar brasileira, diversos professores e funcionários. Além de ter estudantes e funcionários presentes nas listas de mortos e desaparecidos pelo regime.

O “Fórum Aberto pela Democratização da USP” arrecadou por dois anos assinaturas em um abaixo-assinado para criação da comissão.

Sete docentes fazem parte da Comissão da Verdade da USP: Dalmo de Abreu Dallari, da Faculdade de Direito, na qualidade de presidente; Erney Felicio Plessmann de Camargo, do Instituto de Ciências Biomédicas; Eunice Ribeiro Durham e Janice Theodoro da Silva, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas; Maria Hermínia Brandão Tavares de Almeida, do Instituto de Relações Internacionais; Silvio Roberto de Azevedo Salinas, do Instituto de Física; e Walter Colli, do Instituto de Química.

Comissão Nacional da Verdade

Depois de 27 anos, foi instalada no Brasil uma Comissão da Verdade, em 16 de maio de 2012 pela presidente Dilma Rousseff, ex-presa e torturada política. O objetivo é investigar violações aos direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988 pela ditadura militar e realizar um relatório sobre a pesquisa. No texto devem constar o envolvimento de grandes empresas no golpe civil-militar, e a lei da anistia que perdoou a tortura, crime imprescritível pela OEA (Organização dos Estados Americanos).

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