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O livro “A Desumanização”, o mais recente de Valter Hugo Mãe, será lançado no Brasil até maio de 2014

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O livro “A Desumanização”, o mais recente de Valter Hugo Mãe, será lançado no Brasil até maio de 2014, afirmou hoje o escritor, durante a conferência de imprensa de abertura do Festival Pauliceia Literária, em São Paulo.

Publicado em Notícias ao Minuto

A Desumanização lançado em 2014 no Brasil em 2014

Título original: Valter Hugo Mãe “A Desumanização” lançado em 2014 no Brasil

O autor disse ter “altas expectativas” em relação ao livro, que chega hoje às livrarias portuguesas, e diz estar “muito vaidoso” com as boas críticas já publicadas.

A questão principal do livro, afirma Valter Hugo Mãe, é a espiritualização e a conquista da solidão. A estória passa-se na Islândia e tem como protagonista uma menina que experimenta o ato de estar só após a morte da irmã gémea.

“Queria transformar aquela ilha numa meditação lenta e profunda. A Islândia remete à pureza, ao lugar onde o mundo começa outra vez”, declarou o autor.

Valter Hugo Mãe está em São Paulo para participar do Festival Pauliceia Literária, no qual integrará uma mesa de debates sobre narrativa, linguagem, ritmo e humor, ao lado do escritor Juan Pablo Villalobos, autor de “Festa no Covil”.

“Aqui no Brasil saiu recentemente o ‘Apocalipse de Mil Homens’, está agora está a sair em Portugal meu sexto romance e eu fico numa mistura de tempos, com a cabeça dividida, entre o apocalipse e a desumanização, algo que faz sentido”, afirmou.

Questionado sobre qual dos seus livros indicaria a alguém que não conhece sua obra, o autor afirmou que cada título combina com uma personalidade diferente. Para alguém sensível, sugeriria “Filho de Mil Homens”; para uma pessoa mais calma e madura, “A máquina de fazer espanhóis”; para um assíduo frequentador de bibliotecas “Balthazar Serapião”; e para mulheres ligadas à questão de género “O apocalipse dos trabalhadores”.

Já “A Desumanização” foi indicada pelo escritor aos leitores com “inspiração estética”, atentos ao “esplendor da expressão literária”.

Valter Hugo Mãe é um dos 12 finalistas do Prémio Portugal Telecom 2013, com o “Filho de Mil Homens”. No ano passado venceu o certame com a “Máquina de fazer espanhóis”. Nesta edição, disse que acha que não vai ganhar.

“Já estou admirado por estar entre os finalistas. Acho que estarei no Uruguai e que não vou [a São Paulo, na data da entrega do prémio] para não ter aquele choque de ver ganhar uma outra pessoa”, concluiu.

 

Menina de família pobre chega à universidade aos 13 anos na Índia

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Sushma Verma vai estudar microbiologia e sonha se tornar médica. Pai vendeu o pouco que tinha para pagar os estudos da filha.

Publicado no G1

Sushma estuda na janela do apartamento onde mora com a família (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)

Sushma estuda na janela do apartamento onde mora com a família (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)

Em um país onde muitas meninas ainda são desencorajadas de ir à escola, Sushma Verma vive uma realidade promissora. A menina de 13 anos, de uma família pobre no norte da Índia, vai estudar microbiologia em uma universidade da Índia, depois que seu pai vendeu sua terra para pagar algumas das aulas de sua filha, na esperança de que Sushma possa ascender à crescente classe média indiana.

O pai leva Sushma para a universidade de bicicleta (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)O pai leva Sushma para a universidade de bicicleta
(Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)

Filha de pais analfabetos, Sushma terminou o ensino médio aos 7 anos e obteve uma licenciatura aos 13 anos.

“Eles me permitiram fazer o que eu queria”, disse a menina à agência Associated Press. “Espero que outros pais não imponham suas escolhas sobre os seus filhos.”

Sushma tem três irmãos mais novos. A família mora em um apartamento de um quarto apertado em Lucknow, no norte da Índia. O pai dela é trabalhador da construção civil e ganha 200 rúpias (cerca de R$ 7,50). A casa não tem televisão. Seus bens mais preciosos incluem uma mesa de estudo e um computador de segunda mão. “Não tem nada a fazer a não ser estudar”, diz Sushma.

Sushma Verma com as colegas do curso de microbiologia da universidade de Lucknow, na Índia (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)Sushma Verma com as colegas do curso de
microbiologia da universidade de Lucknow, na Índia
(Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)

A adolescente começa na semana que vem a ter aulas na Universidade BR Ambedkar Central de Lucknow. Nos últimos dias, o pai a levou para lá de bicicleta, para que Sushma pudesse se reunir com os professores antes do início das aulas.

Ela gostaria de estudar medicina, mas pela lei só poderá fazer o curso depois que completar 18 anos.  “Então, optei por fazer graduação em microbiologia e depois vou fazer um doutorado”, disse ela.

Sushma estuda em uma escada que dá acesso ao apartamento onde mora (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)Sushma estuda em uma escada que dá acesso ao
apartamento onde mora (Foto: Rajesh Kumar
Singh/AP)

Sushma não é a primeira pessoa prodígio na família. O irmão dela terminou o ensino médio aos 9 anos e se tornou um dos mais jovens graduados em ciência da computação da Índia aos 14 anos.

Em outra família, Sushma poderia não ter sido capaz de chegar ao ensino superior. Milhões de crianças indianas ainda não estão matriculadas na escola e muitas delas são meninas cujos pais optam por manter em casa. Em algumas aldeias, as meninas são criadas para se casar.

O pai de Sushma pai vendeu seu único pedaço de terra, de 930 m² por 25 mil rúpias (R$ 910) para cobrir algumas de suas mensalidades escolares.  “Não houve oposição da minha família e amigos, mas eu não tinha nenhuma opção”, disse Tej Bahadur Verma, pai da menina.

Sushma conseguiu também uma bolsa de estudos de uma ONG, com mais 800 mil rúpias (cerca de R$ 28,5 mil). Sua história atraiu o interesse de empresários e outras instituições de caridade.  “A menina é uma fonte de inspiração para todos os estudantes”, disse o Dr. Bindeshwar Pathak, da instituição Sulabh International, que decidiu ajudar depois de ver a história de Sushma em um programa de televisão local.

Sushma vai cursar microbiologia da universidade de Lucknow, na Índia (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)Sushma vai cursar microbiologia da universidade de Lucknow, na Índia (Foto: Rajesh Kumar Singh/AP)

 

Inclusão de autores americanos no Man Booker Prize causa polêmica

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Boatos dizem que principal prêmio literário da comunidade britânica vai aceitar escritores dos EUA
Críticos reclamam que láurea vai perder a identidade

Publicado em O Globo

RIO – O mundo literário britânico ficou atordoado com a notícia (ainda não confirmada oficialmente) que o Man Booker Prize vai permitir a participação de escritores americanos a partir do próximo ano, com autores questionando se o prêmio não vai perder sua “identidade” ou mesmo impedir o aparecimento de novos talentos britânicos. O Man Booker, que hoje aceita a participação de autores do Reino Unido, da Irlanda e da comunidade britânica, é o mais prestigioso prêmio da literatura da terra da rainha. A lista de vencedores inclui nomes como Salman Rushdie, Iris Murdoch e J.M. Coetzee. No domingo, surgiu a informação que romancistas dos Estados Unidos serão permitidos pela primeira vez, a partir da próxima edição. Jim Crace, finalista da edição deste ano, com seu romance “Harvest”, se pronunciou sobre o assunto.

— Em princípio, eu deveria achar que todos os prêmios serem abertos para todos. Mas acho que eles precisam ter sua própria personalidade e, às vezes, essa personalidade é definida pelas limitações dos prêmios — disse.

Uma porta-voz do Man Booker, no domingo, não quis comentar o assunto, mas afirmou que mudanças nas regras do prêmio seriam anunciadas esta semana.

— Abrir o prêmio para todos que escrevem em inglês daria um panorama fantástico da literatura escrita nessa língua, mas faria o prêmio perder o foco. Gosto muito da ideia de uma comunidade britânica. Há algo disso que se perderia caso o prêmio seja aberto para autores americanos — afirmou Jim Crace.
O locutor da Rádio BBC Melvyn Bragg acrescentou que o prêmio perderia sua “distinção”.

Susan Hill, finalista da edição de 1972 e membro do júri do Man Booker de 1975 a 2011, disse não ver razão para a mudança nas regras.

— Por que não podemos ter um prêmio só nosso? De todo modo, tenho pena dos pobres jurados. São eles que ficam sob pressão — disse Susan.

Kazuo Ishiguro, vencedor do prêmio em 1989, por “Os resíduos do dia” (Companhia das Letras), ouviu sobre as mudanças “há alguns meses, por alguém muito antigo da organização do prêmio, e o argumento era que as normas não eram rígidas o suficiente”. Ishiguro é a favor das mudanças.

— No começo, era bastante ambíguo. Por um lado, é triste, por conta da tradição do prêmio. Posso entender que algumas pessoas sintam-se um pouco ofendidas, mas a sociedade mudou, não faz mais sentido dividir o mundo literário dessa forma — afirmou o autor.

A mudança nas regras do prêmio de £ 50 mil (R$ 181 mil) é uma surpresa, uma vez que o diretor literário da Booker Prize Foundation, Ion Trevin, botou panos quentes sobre o boato, na semana passada.

— É um dos assuntos que sempre são discutidos. Mas, no momento, não temos planos de anunciar nenhuma grande mudança — disse Trewin na ocasião.

Fontes sugeriram que os organizadores do prêmio acham a ausência dos autores americanos anacrônica. O Man Booker também pode mudar as regras como reação à criação do Folio Prize, aberto para todas as nacionalidades, que acontece pela primeira vez em 2014.

— Acho que é uma reação ao Folio Prize. Minha preocupação é o grande número de romances que podem ser eleitos. Teria que haver um método para decidir que livros seriam levados ao júri, e o Man Booker perderia sua abertura — disse David Lodge, finalista em 1984.

A lista com os finalistas de 2013 foi anunciada semana passada. Jim Crace era o único britânico. Os críticos da mudança acham que ficaria ainda mais difícil para romancistas britânicos serem notados.

Alguns escritores reclamaram no Twitter. Nikesh Shukla, autor de “Coconut unlimited”, disse que autor como ele seriam “empurrados para fora do mercado.” Stuart Evers, que escreveu “Is this is home”, afimou que os autores da comunidade britância seria prejudicados. Will Wiles, autor de “Care of wooden floors”, chamou a mudança de “um chute na cara”.

Comenta-se que a lista de finalistas deste ano já aponta a inclusão de autores americanos, uma vez que quatro escritores na final moram e trabalham nos Estados Unidos. Uma das autoras, Jhumpa Lahiri, descedente de indianos nascida em Londres, é considerada uma autora americana.

‘Venci’, diz ex-catadora de latinhas do DF que passou em concurso do TJ

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Marilene Lopes trocou renda mensal de R$ 50 por salário de R$ 7 mil.
‘Passei um ano com uma só calcinha’, lembra a hoje técnica judiciária.

Raquel Morais, no G1

Uma catadora de latinhas do Distrito Federal conseguiu passar em um concurso para o Tribunal de Justiça estudando apenas 25 dias durante período de repouso por causa de uma cirurgia. Ela trocou uma renda mensal de R$ 50 por um salário de R$ 7 mil. “Foi muito difícil. Hoje, contar parece que foi fácil, mas eu venci”, diz. Agora, ela diz que pensa em estudar direito.

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Ex-catadora de latinhas Marilene Lopes e os filhos em frente ao barraco em que moravam em uma invasão em Brazlândia, no Distrito Federal (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, Marilene Lopes viu a vida dela e a da família mudar em 2001, depois de ler na capa de um jornal a abertura das inscrições para o concurso do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.

Ela, que até então ganhava R$ 50 por mês catando latinhas em Brazlândia, a cerca de 30 quilômetros de Brasília, decidiu usar os 25 dias de repouso da cirurgia de correção do lábio leporino para estudar com as irmãs, que tinham a apostila da seleção. Apenas Marilene foi aprovada.

Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”
Marilene Lopes, ex-catadora de latinhas que hoje trabalha no TJDF

“Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Minha mãe comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, explica.

O esforço de quase 12 anos atrás ainda tem lugar especial na memória da família. Na época, eles moravam em uma invasão em Brazlândia.

Marilene já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Mesmo para se inscrever na prova Marilene, que é técnica em enfermagem e em administração, encontrou dificuldades. Ela lembra ter pedido R$ 5 a cada amigo e ter chegado à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

“Tinha medo [de não passar] e ao mesmo tempo ficava confiante. Sabia que se me dedicasse bem eu passaria, só precisava de uma vaga”, diz. “Dei uma flutuada ao ver o resultado. Pedi até para minha irmã me beliscar.”

Ganhando atualmente R$ 7 mil, a técnica judiciária garante que não tem vergonha do passado e que depois de formar os cinco filhos pretende ingressar na faculdade de direito. “Mesmo quando minhas colegas passavam por mim com seus carros e riam ao me ver catando latinhas com o meu carrinho de mão eu não sentia vergonha. E meus filhos têm muito orgulho de mim, da nossa luta. Eles querem seguir meu exemplo.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D’Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas (Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

Servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal
Marilene Lopes, que foi catadora de latinhas
(Foto: Marilene Lopes/Arquivo pessoal)

A técnica afirma ainda que não se arrepende de nada do que passou, nem mesmo de ter tido cinco filhos – como diz terem comentado amigos. “Ainda hoje choro quando me lembro de tudo. Eu não tinha gás e nem comida e não ia falar pra minha mãe. Se falasse, ela me ajudaria, mas achava um abuso. Além de ficar 25 dias na casa dela, comendo e bebendo sem ajudar nas despesas, ainda ia pedir compras ou o dinheiro para o gás? Ah, não. Então assim, quando passei, foi como se Deus me falasse ‘calma, o deserto acabou’.”

Da época de catar latinhas, Marilene diz que mantém ainda a qualidade de ser supereconômica. Ela afirma que não junta mais alumínio por não encontrá-los mais na rua. “As pessoas descobriram o valor, descobriram que dá para vender e juntar dinheiro”. Já as irmãs com quem estudou, uma se formou em jornalismo em 2011 e outra passou quatro anos depois no concurso do TJ de Minas Gerais, e foi lotada em Paracatu.

Dificuldades

O primeiro problema enfrentado por Marilene veio na posse do concurso. A cerimônia ocorreu três dias após o nascimento do quinto filho, em um parto complicado. A médica não queria liberá-la para a prova, mas só consentiu com a garantia de que ela voltaria até 18h30. Por causa do trânsito, a catadora se atrasou em uma hora.

“A médica chamou a polícia dizendo que eu tinha abandonado meu filho. É que eu estava de alta, mas o bebê não, e ele precisava tomar leite no berçário enquanto eu estivesse fora”, lembra. “A enfermeira ligou para a polícia do hospital e explicou a situação e aí pararam de me procurar. A médica me deixou com o problema e foi embora, no término do plantão dela.”

Resolvida a situação, Marilene e a família viveram bem até 2003, quando o marido resolveu sair de casa. O homem, que já havia sido preso por porte ilegal de arma, havia “se deslumbrado” com a situação econômica da mulher. A casa e o carro comprados a partir do salário do tribunal precisaram ser divididos.

Atualmente, ela mora com os filhos na casa de um amigo, na Estrutural, enquanto aguarda a entrega de um apartamento de três quartos em Águas Claras. Marilene tem uma moto e, junto com uma das irmãs, está pagando um consórcio para comprar um carro zero.

Seleção no ensino infantil causa tensão em pais e filhos

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‘Vestibulinhos’ de escolas dão lugar a sorteios em disputas mais acirradas que as de provas para graduação

Antes de entrar no Santo Agostinho, Manuela chegou a fazer quatro provas Agência O Globo / Paula Giolito

Antes de entrar no Santo Agostinho, Manuela chegou a fazer quatro provas Agência O Globo / Paula Giolito

Roberta Salomone em O Globo

RIO – Assim que a filha Manuela completou 3 anos, a jornalista Verônica Hime começou a pesquisar com afinco escolas onde a menina pudesse estudar. Consultou as amigas, visitou dez colégios e contratou uma professora para checar, por meio de um simulado, se ela estava apta para o “vestibulinho” que iria encarar. Ajudou no reforço escolar e passou o ano de 2012 estudando com a filha em casa, depois que ela chegava da creche. À primeira prova das sete escolas em que foi inscrita, Manuela chegou depois de uma noite agitada e mal dormida. Não quis tomar café da manhã e se assustou quando viu crianças correndo e chorando pelo pátio. Na saída, não fez qualquer comentário sobre a avaliação.

— Hoje, depois de outras três provas que ela fez, sinto-me culpada por tanta cobrança. Foi muito estressante para toda a família. Sei que isso não é saudável para ninguém, mas não tive outra opção. Não podia pecar por não tentar — conta Verônica, feliz hoje por ter a filha de 6 anos matriculada no Santo Agostinho do Leblon, uma das escolas mais procuradas do Rio.

Como Verônica, outros pais e mães têm que encarar uma verdadeira maratona para conseguir uma vaga numa escola particular na cidade, especialmente na Zona Sul e na Barra da Tijuca, para séries até o 9º ano do ensino fundamental. A largada para 2014 já foi dada com inscrição pela internet, filas gigantes para entrevistas e entrega de documentos, convivências e também sorteio de vagas. Entre os adultos, o clima é de tensão constante, principalmente para os que sonham ter seus filhos matriculados nas escolas de mais destaque no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem.

Disputa maior que em vestibulares

Criado em 1998, o exame é apontado como um divisor de águas nos processos seletivos. O São Bento, um dos mais tradicionais da cidade, é o número um da lista estadual. A escola, que só aceita meninos, tem concorrência acirradíssima, e agora vai sortear os novos alunos do 1º ano do ensino fundamental (antigo C.A.). Há 108 lugares, e cada um deles é disputado por até dez crianças. A relação candidato/vaga é semelhante à do curso de Administração na Uerj (11,45 para um) e superior ao de Arquitetura na UFRJ (7,9 para um).

— O “vestibulinho” estará extinto como processo de seleção, mas permanecerá a disputa por vaga — acredita Maria Elisa Pedrosa, supervisora pedagógica do São Bento. — A oferta de escolas somente de educação infantil é grande, mas oferta que atenda às expectativas dos pais não é tão grande assim. As famílias, cada vez mais, buscam uma escola que forme seus filhos desde os primeiros anos escolares até o seu ingresso na universidade.

Desde que o Conselho Estadual de Educação condenou o chamado “vestibulinho” entre os candidatos até o 1º ano, o fator sorte passou a contar como nunca. Das mais de dez instituições ouvidas pelo GLOBO, entre as mais almejadas na cidade, a maioria fará sorteios entre os candidatos.

— O C.A. coroava a educação infantil com aprendizado de leitura e escrita, mas não tinha cobrança por notas e deveres. O “vestibulinho” reforçava a nova cobrança e provocava distorções graves. Tudo bem se o pai quer que o filho aprenda sobre empreendedorismo e queira networking aos 6 anos, mas não podem ser antecipadas etapas importantes da infância — afirma Luiz Henrique Mansur, presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

Na unidade Centro do Cruzeiro, segundo no ranking estadual do Enem, a fila de espera começa no maternal II (média de idade de 3 anos), e as vagas para alunos acima de 7 anos são raríssimas. Para 2014 não há um lugarzinho sequer para o 1º ano do ensino fundamental.

— Se temos 20 vagas e 30 inscritos, chamamos os 20 primeiros nomes sorteados. Em caso de desistência, chamamos o 21º, e, assim, sucessivamente. No dia do sorteio, que é presencial, os pais contemplados já levam para casa a lista de documentos a serem providenciados e agendam a data da matrícula — explica Fernanda Fortes Carisio, coordenadora pedagógica da educação infantil e do 1º ano, sobre o processo que acontece no início de outubro.

Conhecido pelo rigor na seleção, que analisava habilidades e o nível de concentração em atividades como desenho e colagem, o Santo Inácio terá sorteio pela primeira vez. As inscrições foram encerradas na última sexta-feira, e, das 84 vagas para a pré-escola II, metade foi destinada a filhos de ex-alunos e funcionários. Para o 1º ano não sobrou nenhuma.

— O Santo Inácio sempre teve grande procura, anos antes dos resultados do Enem. Nunca fizemos o que chamam de “vestibulinho”, e garanto que nossa proposta jamais ocasionou prejuízo emocional para os candidatos. O que sempre observamos é uma concorrência enorme entre os pais — diz a diretora acadêmico-pedagógica, Ana Maria Loureiro.

A competição entre os adultos é, sem dúvida, considerável, e pode comprometer o desempenho das crianças. A chef Mariana Rodrigues preferiu seguir na contramão da maior parte das famílias. Ela não preparou o filho Bernardo, então com 4 anos, para a seleção do Santo Inácio, e, no dia da avaliação, disse que ele estava indo para a escola brincar e fazer novos amigos.

— Não pressionei meu filho em momento algum, porque sabia que as chances seriam pequenas, já que nem eu nem o pai dele estudamos lá. Agora, não há lugares para a série dele, e vamos ter que tentar em outros colégios — conta Mariana, que comemora o fato de a escolinha onde ele estuda ter alunos até o 5º ano do ensino fundamental. — Temos mais três anos de tentativa.

Poucas opções de horário integral

Postergar a saída dos filhos das creches, aliás, é outro provável motivo para tamanha disputa, principalmente entre crianças tão pequenas.

— Por questões práticas, os pais têm procurado escolinhas onde os filhos possam ficar o dia todo. Como a maioria dos colégios não oferece turnos integrais, a transferência é adiada ao máximo — afirma Valéria Filippo, coordenadora de atendimento aos novos estudantes da Escola Parque, na Gávea, onde as séries mais procuradas são as de crianças entre 5 e 6 anos.

Apesar de as provas serem proibidas por lei, há abertura para avaliações individuais. No entanto, elas devem ser limitadas a análises gerais, como o grau de leitura ou em qual turma o candidato poderá se adaptar melhor. Se existir algum teste, ele não pode ter caráter classificatório. Além disso, as regras de matrículas devem ser claras e não podem restringir ninguém.

As escolas bilíngues enfrentam o mesmo dilema, principalmente desde que o Rio passou a receber uma grande quantidade de estrangeiros que vêm morar na cidade por períodos determinados. Entre as famílias que procuram a Escola Americana, a maioria trabalha no setor de petróleo e não fala português.

— Existe um lado humanitário no processo de decisão. Se uma família vem de fora, é possível que a escola dê prioridade a esse aluno, caso não haja vaga para todos. Um estudante que já está numa escola brasileira teria a flexibilidade de aguardar um semestre ou um ano — explica Caren Addis Botelho, diretora de admissões do colégio, com unidades na Gávea, na Barra e na cidade de Macaé.

Buscando mais chances, muitos pais inscrevem seus filhos em várias escolas e têm que se desdobrar para participar de todas as etapas das seleções. As taxas de inscrição variam de R$ 100 a R$ 150, e a maioria dos colégios, independentemente do resultado, não reembolsa o valor depois. Por causa das reclassificações e desistências, o processo normalmente é estendido até dezembro — e a ansiedade das famílias, também.

Este, aliás, é um ponto extremamente negativo para as crianças e que merece atenção, segundo o pedagogo e mestre em Educação da PUC Winston Sacramento. A preocupação com uma boa formação é válida e pertinente, mas é preciso respeitar as demandas reais da infância, alerta:

— Talvez o apoio das famílias para o sucesso de crianças dessa idade tenha mais a ver com a escolha de um ambiente escolar focado numa socialização que valorize o respeito às diferenças, o aprendizado colaborativo e a formação de laços afetivos entre as crianças. O mercado privado da educação quer convencer os pais de que a aquisição de conhecimentos, competências e habilidades nessa idade são determinantes para as escolhas que serão feitas dez ou 15 anos depois. Do ponto de vista comercial parece ser um ótimo negócio, mas faltam evidências de que isso realmente dê resultados na maioria dos casos.

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