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A difícil tarefa de ler um livro na era das distrações

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Camile Carvalho no Vida Minimalista

Estudo Jornalismo, e em uma das disciplinas – Jornalismo e Internet – sempre levantamos a questão do formato de texto para a web. “Tem que ser texto curto, com mais imagens, interativo“, afirma o professor que trabalha em um grande jornal, quando nos explica sobre o comportamento do novo leitor de internet. Não adianta escrever muito, no jornal online precisamos de textos curtos ou o leitor sairá da página.

Estamos na era da informação (ou seria da distração?), e a forma de comunicação tem mudado a cada dia. Fica até difícil acompanharmos toda essa transformação e claro, arriscar analisar uma situação em mudança é um tanto leviano pelo simples fato de que períodos históricos são melhores analisados quando nos afastamos dele. Mas, uma coisa é certa: estamos tão sobrecarregados de informação – nunca na história da humanidade tivemos tantas possibilidades – que parecemos uma formiga no açucareiro. Queremos apanhar o mundo com apenas duas mãos.

A questão é, em que tipo de leitor estamos nos transformando? Hermano Freitas, em seu perfil do Medium, traduziu recentemente um texto de Hugh McGuire sobre por que não conseguimos mais ler. McGuire fala sobre como as distrações digitais, como por exemplo checar email a cada 10 minutos e conferir o twitter, nos dá uma sensação de prazer causada pela liberação de dopamina, hormônio responsável pela sensação de bem-estar e felicidade. Assim, ler um livro físico – ou qualquer texto grande – de forma contínua, nos faria sentir falta dessa sensação de checar se chegou alguma mensagem importante, o que nos faz parar de tempos em tempos para buscar mais uma dose, mesmo que não tenha nada novo nas nossas redes sociais.

Segundo McGuire,

“aprender a ler livros de novo” pode ser também uma forma de libertar minha mente destes detritos digitais empapados de dopamina, deste tsunami de informações digitais sem objetivo, algo que teria um benefício duplo: leria livros de novo e recuperaria minha mente.

Insistir na leitura, portanto, seria como uma meditação. Seria como livrar nossa mente das distrações externas e, mais que isso, lutar contra o fluxo da busca incessante de prazer em outras atividades. Claro, há quem fique completamente confortável durante uma leitura longa, não podemos generalizar, mas o que vem acontecendo com as novas tecnologias é que pegar um livro em papel com longos blocos de texto está competindo com estímulos provocados pelos meios digitais.

A questão é, será que o antídoto para tantas distrações e buscas por prazer em pequenas gotas de informação seria uma leitura mais consistente de um livro físico? Será que o livro digital também nos traria essa atenção plena ou se encaixaria no esquema das distrações digitais? A resposta eu não sei, mas por via das dúvidas, deixarei um clássico na minha cabeceira.

E você, como lida com as distrações? Consegue sentar-se calmamente e ler um bom livro ou fica distraído checando as redes sociais e interrompendo a leitura?

Me formei, e agora?

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Texto de Marina Bergamaschi

A passagem do Ensino Superior e o ingresso no mundo do trabalho costuma ser um momento delicado na vida de um profissional. Seja no meio da faculdade — nos estágios obrigatórios ou extracurriculares — seja após a formatura — ao se tentar vagas para o primeiro emprego efetivo ou para processos seletivos direcionados (como os Programas de Trainees), abandonar a condição exclusiva de estudante e iniciar-se como profissional inaugura uma grande transição de status e responsabilidade.

É um momento que revisita a passagem do Ensino Médio para o Ensino Superior e traz novamente à tona as escolhas do final da adolescência: Com que vou trabalhar? Devo continuar a estudar? Como ingressar no mercado? Que estilo de vida posso e quero levar? De que forma posso sustentar meus sonhos?

Porém, mais que reviver a primeira escolha vocacional, trata-se de um momento de construção da identidade ocupacional. Ao mesmo tempo em que o jovem profissional revive suas angústias escolares, defronta-se com novas angústias do mundo adulto e com uma cobrança social renovada para que se posicione de forma muito mais contundente, “adequada” à sua nova posição social: Como pagar as contas? Qual a melhor proposta de emprego? Trabalhar com o que gosto ou com o que paga mais? Como conciliar trabalho e vida pessoal?

Os privilégios que lhe eram concedidos na infância (e para uma parcela ainda mais privilegiada, até o final da faculdade ou além) não existem mais e surge uma comparação com seus pares e gestores, muitas vezes sentidos como competidores mais experientes e que o cobram por atitudes e decisões que ele ainda não se sente preparado para tomar.

A distância entre a formação acadêmica e a realidade cotidiana do trabalho desampara o jovem na entrada no mercado. Escolas e universidades os ensinam a refletir, questionar, criticar, enquanto o mercado ainda espera por boa adaptação às normas, aos valores vigentes, à cultura organizacional, ao job description… Inovação sim, claro, desde que não ponha em risco a fidelidade dos velhos e bons clientes, não questione a autoridade do especialista com tanto tempo de casa, não passe por cima da hierarquia estabelecida… (Salvo raras exceções.)

A busca desenfreada por novos talentos faz com que organizações desenvolvam programas cada vez mais complexos, que prometem mundos e fundos tanto para os candidatos quanto para os resultados do negócio. São oportunidades de Summer Job, Estágio, Trainee, Pós-Trainee, que oferecem ascensão rápida, salário competitivo, autonomia e autogestão, mas acabam por encontrar um gap imenso entre o esperado e o real em termos de maturidade, comprometimento e desempenho, levando a altos índices de rotatividade, seja por desligamento ou abandono. Situações que me lembram de um cartoon popular no final dos anos 90: Pink e Cérebro tinham ideias mirabolantes para dominar o mundo todas as noites, mas no final, eram só dois ratinhos de laboratório… ;-D

A primeira ilusão foi quebrada: não se estuda apenas o que se gosta na faculdade. Estatística na faculdade de Direito, Anatomia na faculdade de Esporte, Genética na faculdade de Psicologia, Antropologia na faculdade de Economia, Sociologia na faculdade de Medicina… Ok, você sobreviveu a isso.

A segunda ilusão está prestes a ser desmascarada também: não se aprende tudo na universidade. Na verdade, a faculdade mais parece um cardápio, onde você entende os principais ingredientes de cada prato (cada abordagem teórica, cada técnica, cada atuação profissional); prova de uma, talvez duas, quiçá três (em iniciações científicas, estágios obrigatórios, trabalhos extracurriculares); mas não se aprende a cozinhar de fato nenhuma refeição completa (para isso, é preciso especializações, é preciso a prática, a experiência, a vida de trabalho em si). Você vai desenvolver as ferramentas ao longo da sua vida laboral, as bases acadêmicas são uma iniciação, mas é um processo contínuo de aprendizagem (ainda bem!) que continuará te desafiando ao longo da sua trajetória de recém-formado. Você também vai sobreviver a isso.

Mas é a terceira ilusão o maior desafio: depois de conseguir passar naquela DP de estatística, estudar os principais pensadores da Economia, se especializar em Análise Macroeconômica, estagiar em Bancos e ONGs, você finalmente vai ganhar sua liberdade e trabalhar com alegria naquilo que mais ama na vida, certo? Não necessariamente. Essa é a idealização que nos acompanha durante boa parte da (se não por toda) vida. E é irreal porque aquela função escolhida, aquele ambiente definido, aquela missão proferida, aquele cotidiano estabelecido, não respondem conforme o seu desejo e, por isso, não serão sempre satisfatórios, estimulantes e agradáveis.

Para começar, não o serão porque nós mesmos não somos constantemente iguais todos os dias: acordamos mais elétricos ou mais preguiçosos (e isso nos faz mais assertivos ou mais impacientes com aquele cliente, aquela negociação, aquela equipe…), levantamos mais otimistas ou mais desanimados (e isso nos faz mais determinados ou menos resilientes com aquele problema, aquele colega competitivo, aquele desafio novo que assumimos…), vamos para o trabalho mais amorosos ou mais mal-humorados (e isso nos faz mais criativos ou menos generosos com aquela produção, aquele chefe, aquele departamento…).

Em segundo lugar, não o serão porque nós mudamos ao longo da vida. Aquele foco de interesse que temos ao chegar na faculdade se transforma ao longo dela, ao sair é outro, ao se ingressar numa função nova é outro e provavelmente vai se alterar mais algumas vezes no decorrer de nossas vidas. Estudos sugerem que todos nós mudamos nosso tema de interesse no trabalho ao menos quatro vezes ao longo da vida produtiva, ou seja, mesmo quem continua sempre trabalhando com Psicologia Clínica, muito provavelmente comece a vida mais focado em transtornos alimentares, por exemplo, passe a se interessar pelas questões do feminino, da maternidade e por fim acabe trabalhando com crianças. Isso em uma carreira razoavelmente estável, mas há uma boa parte que busca (ou é impelido a) transições ainda mais drásticas: de bancário a nutricionista, de engenheiro a psicólogo, de médico a músico, de editor de vídeo a ator, de advogado a decorador…

Em uma sociedade frenética e disruptiva como a nossa, é cada vez mais natural crescermos com multi-interesses, sermos multi-tarefas, desenvolvermos multi-talentos, já que é cada vez mais claro que muitos caminhos podem levar ao mesmo lugar (um psicólogo, um médico, um administrador e um filósofo podem, todos, resolver trabalhar como Coach) e que uma mesma trajetória inicial pode ter desfechos bem diferentes (um engenheiro pode ser projetista, gerente de obras, administrador público, atuar com segurança e saúde, com meio ambiente e até com coaching partindo praticamente de uma mesma formação-base).

Portanto, amigo Universitário, a resposta à sua pergunta “Me formei, e agora?” é: Agora continua a sua ‘formação’, a formação dos seus valores pessoais, do seu projeto de vida, que será (deve ser) sempre atualizado de acordo com as mudanças de fora e de dentro que você continuará vivendo.

Nem é um começo do zero, inédito (você já carrega uma boa bagagem na mala, então aquelas queixas novelescas “Ai, não tenho experiência nenhuma, não sei de nada, não sirvo para nada…” não procedem) e nem é um final definitivo (por isso chega do drama “Oh, minha juventude, lá se vai minha vida boa, é o fim de uma era…”). Esta é a fase da continuidade: keep walking and carry on! Siga, persista, desbrave e carregue junto as suas experiências vividas e que vão se acumulando e se transformando a cada novo elemento que você põe para dentro da mala.

Pare de vez em quando para olhar os mapas (suas metas, seus desejos, os direcionamentos que lhe foram dados) e recuperar sua energia (seu propósito, sua motivação, sua disposição). Pare de vez em quando para conferir a bagagem (seus conhecimentos, suas habilidades, suas atitudes) e reabastecer quando necessário (novos cursos, novas orientações, novos aprendizados). Pare de vez em quando para encontrar novos rumos (replanejar, recalcular, atualizar) e tomar novos ares (novas parcerias, novas inspirações, novas disposições).

Marina Bergamaschi é sócia-fundadora da TRID — Trabalho e Identidade, empresa especializada em Orientação Profissional e de Carreira. Estudou Psicologia, Licenciatura e Especialização em Orientação Profissional e de Carreira, todos na USP. Atuou em consultório particular, escola, hospitais, consultorias e empresas nacionais e internacionais. A vivência clínica em terapia Junguiana e Coaching e a experiência organizacional em Recursos Humanos, proporcionaram um olhar humanista que se uniu à paixão por escrever para criar este e outros textos.

As cotas para negros: por que aposto os meus olhos azuis

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Texto de William Douglas

William Douglas Juiz federal (RJ) Mestre em Direito pela Universidade Gama Filho Especialista em Políticas Públicas e Governo (EPPG/UFRJ) Professor e escritor, caucasiano e de olhos azuis

William Douglas
Juiz federal (RJ)
Mestre em Direito pela
Universidade Gama Filho
Especialista em Políticas Públicas e
Governo (EPPG/UFRJ)
Professor e escritor, caucasiano
e de olhos azuis

Roberto Lyra, promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, recomendava aos colegas de Ministério Público que, “antes de se pedir a prisão de alguém, deveria se passar um dia na cadeia”. Algumas coisas, apenas o contato imediato com a realidade permite compreender.

Já fui contrário às cotas para negros, defendendo que seria mais razoável e menos complicado utilizar apenas as cotas sociais. Hoje não penso mais assim. E, embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição é pródiga em fundamentos para, de fato, tornarmos este país melhor e mais decente.

Há ótimos argumentos técnicos favoráveis e contrários às cotas e o valor pessoal e a competência dos contendores comprovam que há gente de bem, capaz, bem-intencionada, honesta e com bons fundamentos nos dois lados dessa questão. Não os usarei aqui, portanto.

Vou deixar minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor e especialista em concursos: não vamos perder nosso momento histórico, nossa oportunidade de descontar parte do atraso de nossa sociedade; vamos criar mais igualdade nas oportunidades de estudo. Rui Barbosa já dizia sabiamente que tratar igualmente os desiguais não é correto.

Trago aqui o argumento que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular e Enem para a Educafro, pré-vestibular para negros e carentes.

Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei o convite para dar aulas como voluntário nessa ONG por entender que isso seria uma contribuição para a formação desses jovens.

Nessa convivência, fui descobrindo que ter acesso a estudo sendo pobre é um problema (que já vivi), mas ser pobre e negro gera um problema bem maior ainda. Claro que alguns negros pobres conseguem, mas isto apenas mostra seu heroísmo, e não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro deste país.

Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos em um colégio onde não há um aluno negro sequer, no qual há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola este ano, uma escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado.

Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de balé. Teve problemas de matemática e providenciei, por ter dinheiro, aulas particulares. A filha de minha empregada não teve dificuldades com matemática porque a sua escola pública está sem professor de matemática. Minha filha tem playground; a outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas.

A filha da empregada, que ajudo o quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas princesas negras com vestidos, armários e escolas compatíveis, neste país imenso.

A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E, se não cresse em Deus como creio, saberia que, com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não estaria bem resolvido.

O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas a teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras.

Não que tenha nada contra o bem-estar da minha menina: damos muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que, lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. É justo que a outra tenha alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem haveria honestidade ao se tratar as duas da mesma forma só ao completarem o ensino médio.

Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É não fazer nada. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais justos. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: as universidades não podem ficar omissas.

Foi vendo meninos e meninas, negros e pobres, tentando uma chance, tentando manter brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos, foi passar “dias na cadeia”. Na cadeia deles, dos pobres, o lugar de onde vieram meus pais, e do qual experimentei somente um pouco, quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.

Se você discorda das cotas, me perdoe, mas recomendo um dia “na cadeia”. Venha nos visitar na Educafro, venha ver algo que precisa encontrar eco em nossas políticas públicas.

Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito, também fui contra por muito tempo. Mas essa semana, na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que frequenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida).

Será que essa desigualdade não persiste por nossa inércia? Você tem argumentos bons, concordo, o outro lado também. O que vai mudar sua opinião é essa realidade nua e crua de falta de oportunidades.

Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles mais oportunidades. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a uma nova realidade.

Queremos você conosco nessa história. Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte, ou a dela. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Alguns dias “na cadeia” me fazem apostar meus olhos azuis nas cotas. Precisamos delas, agora.

Então, como disse Roberto Lyra, “o sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor-próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor”. Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Fique a favor ou, pelo menos, “visite a cadeia”.

Retratos da nossa ignorância

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Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

Volumes da Campanha de Doações de Livros para Casas de Leitura e Tubotecas de Curitiba. Cido Marques FCC

 

No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária

Luiz Ruffato, no El País

O Brasil conta com cerca de 50 milhões de analfabetos ou analfabetos funcionais. Isso significa que um em cada três brasileiros adultos não sabe ler ou, quando consegue, não é capaz de compreender o conteúdo de um texto simples. Mesmo entre aqueles considerados alfabetizados impera a ignorância. Pesquisa recente, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, apontou que, na média, lemos 4,9 livros por ano (um número pequeno e ainda assim enganoso, já que, deste total, apenas 2,4 livros são terminados; o restante é lido apenas em parte). Além disso, apenas 7% da população lê jornais diariamente, já levando em consideração o acesso à informação digital.

A falta de tempo aparece como o principal argumento dos entrevistados para não ler (32%). No entanto, uma outra pesquisa, da NOP World Culture Score Index, mostra que os brasileiros dedicam cinco horas e 12 minutos semanais à leitura contra 18 horas e 15 minutos à televisão, 17 horas ao rádio e 10 horas e 30 minutos à internet (no caso, com navegação sem fins profissionais). Antes dos livros, os brasileiros preferem reunir-se com amigos ou família (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%) e usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%).

Mas o mais estarrecedor é que, se a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil constata, de um lado, a falência completa do nosso sistema educacional, de outro revela o crescimento atordoante do fundamentalismo religioso. A maioria absoluta das justificativas dos entrevistados para não ler estão relacionadas à baixa escolaridade — não gosta (28%), não tem paciência (13%), tem dificuldade (9%) e não sabe ler (20%). Esse quadro desolador ainda é agravado ao acrescentarmos dados de leitura específicos dos professores. Quando indagados sobre o título do último livro lido, metade deles simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.

A Bíblia aparece muito à frente entre as preferências dos entrevistados, em todas as classes sociais, faixas etárias e de escolaridade. Na lista dos mais citados surgem alguns poucos escritores — geralmente leitura obrigatória na escola, como Machado de Assis e Graciliano Ramos —, e autores de autoajuda (como Augusto Cury) e de entretenimento (como Paulo Coelho e John Green), mas a supremacia absoluta é de nomes ligados à divulgação religiosa. Os mais lembrados são João Ferreira de Almeida (tradutor da Bíblia utilizada pelos evangélicos), Zíbia Gasparetto, Allan Kardec e Chico Xavier (espíritas), padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo (católicos ligados à corrente carismática), Edir Macedo e sua filha Cristiane Cardoso (Igreja Universal) e Ellen G. White (Igreja Adventista).

Onde o Estado falha, viceja a ignorância. Nenhum de nossos governantes — chamem-se eles José Sarney, Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva — empenhou-se, de verdade, na melhoria do nosso sistema educacional. No Brasil, educação de qualidade nunca foi direito da população, sempre foi privilégio da elite mandatária. O resultado é esse: cada vez mais exacerbamos nosso egoísmo (traduzido em nossa incapacidade de agirmos no interesse da comunidade), nossos preconceitos (visíveis no machismo, no racismo, na homofobia, na xenofobia), nossa intolerância (perceptível na violência urbana, na passionalidade com que defendemos opiniões).

Pouco a pouco, o Brasil vai se tornando território do pensamento radical. Não só pelo grau nunca antes alcançado de representatividade religiosa no Congresso e, mais particularmente, no Governo do presidente interino Michel Temer (sejam evangélicos, protestantes ou católicos), como também pelas posições assumidas por intelectuais e formadores de opinião, autodenominem-se eles de esquerda ou de direita, que vêm fomentando o ódio e o fanatismo. É preocupante quando descobrimos que 74% da população adulta não adquiriu livros nos últimos três meses e 30% nunca comprou um livro em toda a sua vida. E é assustador quando contatamos que, aqueles poucos que leem, colocam um livro como “A verdade sufocada”, do coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, morto em 2015, entre os mais vendidos do país… Há algo muito estranho acontecendo por aqui…

Afinal, precisa terminar um livro se você não está gostando?

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publicado no UDOR

Você já leu mais de 100 páginas do livro. Tá chato. Você pára ou continua? Vamos pensar nisso? (o texto do post é curto, não desista!)

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Os dois lados dessa questão tem argumentos válidos. Precisa mesmo ir até o fim do livro?

01. NÃO! A vida é curta, existem milhões de livros publicados, entre eles aqueles que podem mudar a sua vida e estão em alguma prateleira por aí só esperando você encontrá-lo. Se o livro não te conquistou, por que insistir? Você não muda de estação quando toca uma música chata no rádio? É a mesma coisa.

02. SIM! Livros precisam ser lidos até o final porque é preciso absorver o todo da obra para que se possa realmente avaliá-la. Se fossemos seguir ou abandonar livros só porque tá chato, provavelmente não teríamos nem passado do segundo, ainda na escola, quando erámos crianças. Força, vamos, vamos!

Talvez então, seja preciso separar os livros em ficção e não-ficção?

Ficção é prazer, então pode interromper. É o mesmo raciocínio do zapping da TV.
Não-ficção é aprendizado, então tem que aguentar firme mesmo que a cabeça frite. É o mesmo raciocínio da escola.

Faz sentido. Mas a fronteira entre esses dois mundos tá derretendo rapidamente. Existe a informação que entretem (o “InfoTainment”). E existe também aquele conto que traz uma grande lição (vou inventar uma palavra pra isso também vai: o “EntertainMation”). O próprio UoD é um exemplo que nasceu da minha vontade de empacotar informação e conhecimento de um jeito mais gostoso, justamente tentando aproximar alma e cérebro sempre que possível.

Complicou então.

Aliás, já aviso que este é mais um post NÃO-CONCLUSIVO. Não vai ter a resposta do título no texto, simplesmente porque não existe apenas uma resposta certa nem errada. Mas só para não ficar em cima do muro, posso dividir a minha interpretação sobre esse momento “largo esse fardo ou não largo”.

MINHA “ESTRATÉGIA DA MEIA HORA SEGUINTE”

Acho que usar o prazer da leitura como critério, talvez não seja o método mais eficiente para decidir sobre o destino de um livro.

Mais ou menos como usar o gostei/não gostei diante de uma obra de arte, que também não é muito relevante já que se trata de uma expressão. Melhor é tentar observar a sua reação diante da obra.

Na minha opinião, a função de qualquer manifestação humana é colocar uma mão no seu cérebro e outra no seu coração e massagear simultâneamente. Mas não aquela massagem relaxante e cheia de óleo que você dorme em 5 minutos. É mais shiatsu mesmo, naquele esquema que machuca pra caramba, mas que no final você flutua em uma nuvem.

Acho que isso vale para qualquer coisa que venha de outro ser humano: pode ser livro, música, desenho ou até um bate-papo.

Faço assim:

Se meia hora depois que eu fui exposto a esta manifestação, estou me sentido melhor ou pior? Se estou melhor do que estava, quero mais. Se estou pior, tendo a desistir. Ou seja, uso meu estado de espírito DEPOIS DE MEIA HORA DA EXPERIÊNCIA como critério.

Sim, é banal, infantil até. Sei também que “melhor” é vago, mas não vou me atrever a entrar por aí. Mas de alguma forma eu sei. E acho que você também sabe.

Para mim, nada funciona melhor para escolher livros, álbuns, viagens e amigos: meia hora depois… estou melhor ou pior?

É batata.

Mas e você? Pára livro no meio? Nem pensar? Com certeza? Depende? Tem um critério próprio? Deixe seu comentário abaixo!

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