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Soninha está certa: vestibular é uma prova cretina

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Marcelo Rubens Paiva, no Estadão

SONINHA FRANCINE foi vítima da intriga política polarizada.

A ex-vereadora do PPS, ligada ao PSDB, que ocupa o cargo de coordenadora de Políticas Públicas para a Diversidade Sexual do governo do Estado, formada em Comunicações, teria dito depois de prestar vestibular para Gestão de Políticas Públicas neste ano e ser reprovada:

“Como sempre, a prova da Fuvest foi sem cabimento. Eu não fazia a mais puta ideia de como responder metade da prova. As perguntas olhavam para mim como se fossem escritas cuneiforme. Em algumas delas, mal havia um sinal, um signo, um vocábulo que eu reconhecesse. Não faz sentido.”

Saiu em todo lugar na quarta-feira antes do Carnaval. Até eu ironizei.

Minha caloura da ECA-USP de 1988 desabafou depois que não passou.

Hahaha…

As redes sociais se esbaldaram

Acontece que Soninha NÃO fez a prova. Estava trabalhando. Fez a primeira fase, passou e comentou.

Seus inimigos acompanharam a lista de aprovados da Fuvest, não monitoraram direito e passaram a nota falsa.

Quer saber?

Gafe jornalística. E ela tem toda razão.

A Fundação Universitária para o Vestibular é uma fundação sem fins lucrativos criada para realizar o vestibular da USP e outras.

Seu primeiro vestibular, em 1977, foi também meu primeiro vestibular.

Podia-se escolher entre opções do mesmo curso de três universidades diferentes, USP, Unicamp e Unesp.

Entrei em engenharia na Unicamp. No primeiro dia de aula, Cálculo, o professor anunciou: “Sabe o que vocês vêm estudando na escola para o vestibular? Esqueçam. É uma bobagem que não serve pra nada. Isso aqui é matemática.”

E escreveu na lousa Cálculo Diferencial e Integral.

Descobri que de fato a matemática ensinada nas escolas era uma perda de tempo; um resumo tolo do que realmente interessa.

Como quase tudo que se ensina nas escolas [as frequentamos por 13 anos e saímos sem falar fluentemente uma língua estrangeira]

Há 40 ANOS, o vestibular é o mesmo: uma primeira fase de múltipla escolha em dezembro faz um corte para uma segunda fase escrita em janeiro.

E atesta a incompetência ou preguiça da USP arrumar um jeito melhor e mais justo de selecionar seus alunos há 40 ANOS!

Unicamp e Unesp já saíram fora dessa anomalia curricular.

Se são em média 120 mil estudantes/ano que fazem a Fuvest, 4,8 milhões de pessoas já a fizeram. Se a taxa média de inscrição é de R$ 145 [tem isentos], é um negócio que já faturou quase R$ 700 milhões.

A pergunta é se ela é um mal necessário ou um achaque.

A melhor universidade do país se acomodou e ainda os obriga a ler obras secundárias da literatura mundial como Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett), Til (José de Alencar), e A Cidade e as Serras (Eça de Queirós).

O sujeito que faz vestibular para Educação Física lê os mesmos autores que o que presta para Geologia, Física, Filosofia, Letras e Áudio Visual.

E não lê, nunca foi exigido, Shakespeare, Voltaire, Cervantes, Vitor Hugo, Melville, Flaubert, Rimbaud, Dostoievski, Tolstoi, Kafka, Conrad, Hemingway, Beckett…

Quem tem matemática pela frente, tem de responder:

No plano cartesiano Oxy, a circunferência C tem centro no ponto P = (2,1), e a reta t é tangente a C no ponto Q = (-1,5). Determine o raio da circunferência C, encontre uma equação para a reta r, calcule a área do triângulo PQR, sendo R o ponto de interseção de t com o eixo Ox.

A prova de português não é ruim. Mas o aluno que leu os NOVE livros pedidos respondeu nem sobre a metade deles. Leu à toa.

As provas em geral são bem-feitas.

Fala-se de energia, poluição, saneamento de água, Cantareira, Plutão, feminismo, Malvinas, Oriente Médio.

Mas Soninha está certa.

E se defendeu como pôde na sexta-feira de Carnaval:

“Vejam que aula de jornalismo. A Mônica Bergamo escreveu na Folha de São Paulo que eu fui reprovada na Fuvest. Só que eu não fiz a segunda fase. Teria de faltar três dias no serviço e, se passasse, não iria ter a disponibilidade necessária para cursar uma faculdade pública como se deve. Escrevi pra Folha, e ela logo publicou online, com o título teimoso de ‘Soninha diz que não passou porque não fez a prova’. Só faltou escrever ‘alega’.”

“Na sequência um professor de jornalismo me detonou no G1 dizendo que minha crítica ao vestibular – uma prova CRETINA, digo isso todo ano – demonstra meu preconceito e orgulho de ser ignorante. Os comentários ao post dele são ótimos – ‘se eu não sei calcular cosseno, sou burra’; ‘o pessoal de humanas despreza exatas e tem mais preguiça de estudar’. Mas quem tem preconceito, diz o professor no título, sou eu.”

“Agora a revista Forum avança e diz que eu fui reprovada e reclamei da prova… Isso é jornalismo, não é o ‘vale tudo’ de internet… Talvez todos tenham diploma da USP, o que significa que um dia passaram na Fuvest (como eu, em 1988). Sabem cosseno, mas não sabem apurar matéria e têm dificuldades com interpretação de texto.”

SONINHA fez 51 pontos na primeira fase da Fuvest. “Podia ter feito 90 e ia continuar achando uma prova ridícula, anacrônica, inútil, contraproducente.”

Concordo totalmente.

É ridícula, cretina, anacrônica, inútil e contraproducente.

Devemos desculpas a ela.

E engolir esse vexame da USP por mais quantos anos?

Como se tornar um escritor best-seller após os 60 anos

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Parece que é exceção, mas não. O sucesso na literatura tem relação proporcional aos anos de vida: as chances de dar certo crescem com a idade. Só que as portas desse mercado estão fechadas por preconceitos, é preciso arrombar com persistência, confiança e talento.

Christiane Britto, no Pé na Alcova

Aqui vamos falar dos escritores temporões, especificamente, os de 65 anos (ou mais): que chances têm de se tornar best-sellers? Esse tópico de discussão surgiu em uma rede social e gerou quase mil comentários, inclusive o meu, ingênuo: “sim, lógico, no Brasil temos a Cora Coralina”…

Consegui me divertir e me instruir, divido com vocês estatísticas, previsões e reflexões que acrescentei.

1.Metade dos escritores publicados têm, na media, 64 anos. Então “65” é uma idade razoável para se lançar.

2.Mais de 4,2 milhões de livros publicados no mundo foram escritos por pessoas com mais de 80 anos.

3.Em 2014, 79% dos escritores, nos Estados Unidos, faturaram menos de 30 mil dólares, subtraídas todas as despesas. É pouco, por isso pessoas que trabalham com artes têm avaliação negativa de crédito nos bancos e dificuldade para pagar contas. Considerando-se que essa média incorpora também o faturamento dos best-sellers, pode-se dizer que muitos escritores não recebem nada por seus livros em um ano.

4.Já o escritor britânico médio ganha £11.000 por ano. “Eles adorariam ganhar £22.000 (30 mil dólares)”, garante um autor veterano.

5.Uma senhora — que estreou na literatura com 83, tem 86 e já lançou o segundo livro em 2014 — se dedica a escrever o terceiro. Sente-se realizada, embora distante de um título best-seller. Admirável empenho o dela na discussão, questionou, foi questionada (todos discutiram como se tivessem a mesma idade, coisa bem americana que achei legal, o excesso de respeito sacrificaria a honestidade das respostas), e não perdeu o ânimo.

6.Uma autora de 61 anos, estreante, diz que se sente realizada porque a sua visão de sucesso é: “a)Termina de escrever a porra do livro; b)Publique via Kindle (KDP); c)Acompanhe o “aguarde aqui” nas vendas pela Amazon.” Publicar pela primeira vez foi uma “experiência gloriosa” que quer repetir: “Durante 40 anos fui uma pessoa de hábitos rígidos, agora, com a aposentadoria, quero agenda livre. Há dias em que escrevo muito, em outros, nem uma linha. Talvez a disciplina venha com o segundo livro.”

7.Há outras motivações para a escrita após os 65, como o contato com um público interessado: “Eu nunca tive nenhuma inclinação para escrever poesia ou qualquer outro gênero até que conheci as crianças e elas sabiam exatamente o que queriam. Produzi 400 poemas para elas, já publiquei 344 em cinco livros. O bom de ser aposentada, é que não preciso do dinheiro das vendas para sobreviver. Faço por diversão e realização”, revela uma autora de quase 70.

8.Um escritor definiu duas regras para se dar bem com publicações após aposentadoria (e antes), afinal, o mercado literário está despontando como oportunidade de segunda carreira para uma grande maioria de maiores de 60. A regra número 1 é “nenhum editor ou editora pode garantir o sucesso do seu livro”. Regra número 2: nunca se esqueça da regra número 1.

9.A vocação pode despertar cedo, aos 12, caso de Brian Morgan. Mas só se realizar décadas depois. Conta Morgan: “Publiquei o primeiro livro aos 62 e me tornei best-seller. Aos 72, me tornei um escritor independente, hoje, com 74, já tenho sete livros no total. Pretendo me aposentar aos 100.”

10.Certamente a indústria discrimina os escritores velhos, sempre foi assim, diz uma autora consagrada. Conta que publicou seu primeiro romance pela Harper Collins quando estava com 55 anos. As vendas foram excelentes. A partir daí, sua idade deixou de contar. Hoje tem 85 anos, 15 livros publicados nos Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra.

11.Cassie Harte, best-seller aos 64 anos com a biografia I did tell I did, 2009, discorda: “Eu escrevi minha autobiografia com 64 anos e fui para a posição número 1 nos rankings de não ficção de jornais como o Sunday Times”. O livro ficou nessa posição por quatro semanas, vendeu 90 mil cópias e está publicado em quatro países. “Meu segundo livro está em fase de lançamento”, diz,”portanto, se você tem uma boa história, escreva e boa sorte!”

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12.Uma atriz e também autora afirma que, lamentavelmente, aos 65 anos, o autor é praticamente impublicável porque não tem longevidade – na visão do mercado – para fazer uma carreira: “Do ponto de vista tradicional de publicação, a possibilidade de um escritor se lançar aos 65 com sucesso é mínima. Em nossa edição de inverno 2015, fizemos uma peça sobre James Anderson, que escreveu um livro verdadeiramente magistral, chamado The Never-Open Desert Diner. Ele tem sido elogiado por alguns realmente importantes meios de comunicação e é um grande sucesso do ponto de vista de vendas. Mas quase não foi publicado. Por quê? Porque – com 62 anos de idade – agentes e editoras disseram que James não tinha nenhuma “longevidade”. Em outras palavras, ele era velho demais para escrever mais livros. Felizmente, a Caravel Books, em Nova York, publicou o livro simplesmente porque é muito bom, do contrário a obra nunca teria visto a luz do dia. Se um escritor talentoso como James quase “perdeu o barco da oportunidade” – que será do destino de outros escritores “mais velhos”. “Por outro lado, a história dele prova que talento + persistência = sucesso. Está vendendo bastante em quatro países”, diz a atriz e autora.

13.Há autor que até tem nome para os jovens que julgam suas obras com má vontade e pouco conhecimento: “O problema é que existem (mais…)

Aprenda a ler mais

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Fonte: Shutterstock

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Veja como pode introduzir os livros na sua rotina e ler muitos mais por ano

Publicado no Universia Portugal

Ler com frequência é um hábito muito positivo para o desenvolvimento da mente e para relaxar. Além disso, a leitura aumenta a bagagem cultural do indivíduo e melhora progressivamente o desenvolvimento da escrita. Assim, aqui ficam 4 dicas para ler mais:

1 – Ler dois ou mais livros ao mesmo tempo

Para ser mais produtivo durante o dia, é importante aproveitar todos os períodos livres para ler, no entanto, é possível dinamizar ainda mais este tempo diversificando as leituras. Ou seja, em vez de se dedicar ao mesmo volume até chegar ao fim, combine os períodos com géneros literários. Por exemplo: um livro de ficção pode ser perfeito para a hora de dormir, pois relaxa e trabalha a reflexão. Já uma obra técnica, que pode utilizar como referência num projeto de trabalho ou da escola, pode ser melhor aproveitada durante o caminho para a faculdade ou durante a pausa da hora do almoço, momentos em que está mais desperto.

2- Crie metas

Métodos como a Técnica Pomodoro defendem a teoria de que as pessoas são mais produtivas e conseguem focar totalmente a sua atenção nas tarefas em períodos curtos quando intercalados por minutos de descanso. Utilizar uma tática como esta pode ser interessante para assimilar os textos de forma mais rápida. O ideal é traçar metas, por exemplo, ler 20 páginas ou terminar um capítulo, para cada intervalo estipulado. À medida que o tempo vai passando, a velocidade também aumenta.

3 – Leia por prazer

O hábito de ler não deve ser encarado como uma obrigação mas sim, como atividade de lazer. Por isso, evite entrar em contacto com a leitura apenas através do material obrigatório da faculdade ou dos títulos que os professores recomendam. Escolha autores que quer conhecer, ou histórias que lhe chamem a atenção, mesmo que não estejam listadas no currículo escolar.

4 – Aproveite a tecnologia

Utilizar aparelhos eletrónicos é uma ótima ideia para melhorar a sua leitura. Além do enorme stock de material existente online, como os livros grátis para download, existem aplicações como o GoodReader, que possuem uma ampla gama de recursos. Nesta aplicação é possível incluir anotações aos textos, desenhar, sublinhar e até mesmo escrever à mão no documento. Todas estas ferramentas diminuem o tempo de leitura e ainda dinamizam o processo, uma vez que é possível partilhar o progresso e o conteúdo com outras pessoas.

O problema não é você, são seus erros de português

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Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. A produção deste texto não é uma vivência específica, mas a soma de experiências próprias, bem como a de pessoas próximas levemente exigentes e com esperanças de encontrar um eu que conjugue o verbo amar.

Luana Peres, no Obvious

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Toda relação é idealizada e, antes que se concretize, algumas expectativas, inevitavelmente, são criadas. Eu, bem como algumas amigas, sempre fui muito exigente. Imaginava e listava uma série de adjetivos que a pessoa perfeita deveria ter. Inteligência, bom humor, beleza, integridade, ambição, romantismo, sensibilidade, coragem, determinação, bom gosto e algumas semelhanças políticas e ideológicas.

Acontece que, conforme o tempo passa e você envelhece, percebe que estas exigências são muito altas.
(Até porque, nem você mesma as atinge)

Logo, os critérios para um suposto envolvimento vão ficando menores e chega um momento que você pensa: Tem todos os dentes na boca? Toma banho? Cursou o ensino fundamental?

Se respondeu SIM para, pelo menos, duas destas questões, tem chances!

(ATENÇÃO: não se empolguem! Este é o último estágio e envolve desespero exacerbado e um medo irracional de ficar sozinha para sempre)

Obviamente, não estou neste estágio e ainda tenho esperança de atingir parcialmente o meu ideal. Portanto, minha lista permanece com algumas exigências básicas. Partindo deste princípio, eu posso tolerar bermuda com meias, um gosto musical duvidoso, manias estranhas e até a escolha de um candidato que detesto. Eu compreendo um leve fanatismo por futebol, algum exagero alcoólico e uma péssima memória para datas importantes.

Agora, o que não dá para aceitar, de jeito nenhum, é uma pessoa que não sabe, minimamente, escrever. E não estou falando de erros bobos cometidos por todos nós e totalmente aceitáveis.

(Aposto que pessoas mais exigentes que eu devem estar, neste momento, buscando falhas neste texto e, já adianto, vão encontrar muitas. Eu encontro uma dezena cada vez que releio algo que escrevi)
Enfim, estou falando de N antes de P e B, de nome próprio com letra minúscula e de verbo que não acompanha o sujeito. Eu até queria relevar seu estado ANCIOSO, o MENAS, o ESTEJE e o SEJE que você soltou. Eu poderia tolerar um MAIS ao invés de MAS e até algumas abreviações excessivas desta linguagem cibernética. O problema é que o seu AGENTE (e não estou falando do agente da lei) não me deu chances. Você se perdia nos porquês, no onde e no aonde. Colocava um Ç no lugar de um (ou dois) S e um S no lugar de um Z!

Quantos Rs comidos? Quantos Ls substituindo Us de forma indevida?

Eu queria muito fechar os olhos (ou os ouvidos), mas te ouvir dizendo que iria SE arrumar para sair era DE MAIS para mim. Aliás, o seu mim conjugava tanto verbo que eu sentia que estava me relacionando com um índio. Percebi que ter concluído o ensino básico, passado no vestibular e entrado para um curso superior não significava absolutamente nada, ortograficamente e coerentemente falando.

“Não te amo mais”, “Estou te traindo com sua melhor amiga”, “Sou um psicopata”, “você está gorda”!
Não, nada disso foi dito!

As palavras que me penetraram o ouvido, olhos e coração foram:
ENQUANDO, DENOVO, DEREPENTE, EM FIM, NÓIS, FELIS e CONCERTEZA!

Bem, eu queria fugir das frases clichês para explicar o motivo de não ter dado certo, mas preciso dizer…

O problema não é você, são seus erros de português.

Obs.: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. A produção deste texto não é uma vivência específica, mas a soma de experiências próprias, bem como a de pessoas próximas levemente exigentes e um tanto esperançosas.

Aulinha de história pra uma criança de 6 anos

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Cristina Moreno de Castro, no Brasil Post

– Mamãe, por que esse povo todo tá gritando?

– Eles querem que a presidente que foi eleita na semana passada saia e o candidato que perdeu entre no lugar dela.

– Uai, mas se ele perdeu, não pode ganhar, né?

– Não pode mesmo, filhinha. Quando a gente joga um jogo e você perde, tem que aceitar. Tentar ganhar no próximo jogo. Se você força a barra pra ganhar de qualquer jeito, tá roubando.

– Então esse povo aí quer roubar no jogo?

– Mais ou menos isso… Eles pedem até que o Exército ajude a tirar a presidente eleita, pro candidato que perdeu entrar no lugar dela.

– Os soldados?!

– É. Isso a gente chama de “golpe”. Aconteceu isso uma vez, há 50 anos atrás, exatamente. Tinha um presidente eleito chamado Jango. Bom, na verdade, ele era vice-presidente, mas na época os vices também eram eleitos, separadamente, sabe? Aí, quando o presidente renunciou (quis deixar o cargo, por livre e espontânea vontade), o Jango virou presidente. Depois de um tempo, acusado de ser comunista (não vou te explicar o que é isso agora, filhinha), ele foi tirado do poder pelos “soldados”. Antes disso, tinha um povo, igual esses aí, que ficava fazendo marchas pela cidade, que eles chamavam de Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Ficavam falando que o presidente era comunista, que o Brasil ia virar Cuba, que o governo não respeitava os “valores da família” etc. E pediam ajuda ao Exército para tirar o presidente na marra.

– E ele foi tirado?

– Foi. Os caras do Exército começaram a governar o país no lugar dele, e proibiram as eleições, o povo não pôde mais escolher quem governaria o país. E aí começou o que a gente chama de ditadura militar. Foi um período ruim no nosso país e demorou 21 longos anos. As pessoas eram presas, e eles machucavam elas de verdade (muitas vezes até matavam) só porque pediam o fim da ditadura. As pessoas não podiam escrever o que quisessem, até os discos tinham que passar pelos censores antes de serem lançados. Os censores trabalhavam para o governo e decidiam se as ideias das pessoas podiam ser publicadas do jeito que elas queriam ou não. As pessoas também não podiam se manifestar livremente, ir para a rua para fazer marchas e pedidos.

– Uai, mas então esse povo não ia conseguir marchar! Então por que esse povo quer a volta da ditadura hoje, mamãe?

– Por que são loucos! Ou não estudaram história. Se hoje vivêssemos numa ditadura militar, eles jamais poderiam estar aí, fazendo essas passeatas ridículas. Como vivemos em plena democracia, até esses maus perdedores têm liberdade pra sair por aí, pedindo coisas idiotas. Mal sabem eles que, na época da ditadura, além de poderem ser presos e torturados por saírem às ruas desse jeito, eles ainda iam viver numa economia com muito mais problemas que a de hoje, que depois deixou o Brasil quase falido. A educação e a saúde eram ruins e o país já era corrupto. Milhares de inocentes foram mortos.

– Mas por que eles não aceitam que a presidente foi eleita?

– Porque são maus perdedores. Ela foi eleita por poucos votos de diferença, mas foi a maioria do povo que escolheu, ponto. Eles dizem que o governo dela é corrupto e que é uma ditadura, que estamos virando Cuba e que os “valores da família” não estão sendo respeitados, porque ela apoia que quem machuque gays só por serem gays seja preso…

– Uai, mamãe, era a mesma coisa que falavam nas marchas que você citou antes?!

– Isso, a mesma coisa que falavam há 50 anos, contra o presidente Jango. E, depois, deu no que deu…

– Então xeu ver se entendi: esse povo aí reclama que a presidente, que deixa até eles pedirem a saída dela, é uma ditadora. Pra combater a ditadora, eles pedem ajuda do Exército, pra tirar ela à força e colocar um cara que nem foi eleito no lugar dela. E defendem a ditadura, que, se existir de verdade, nem vai deixar que eles saiam por aí fazendo marchas e vai sair machucando e matando as pessoas só por pensarem diferente?!

(É, filhinha, você só tem 6 anos, mas é mais esperta que todos eles juntos!)

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