Contando e Cantando (Volume 2)

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O trabalho do leitor

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Fernanda Pompeu, no Mente Aberta

Na minha cabeça, sempre acende a luz amarela quando leio que aluno virou cliente, cidadão virou consumidor, leitor virou patrão. Isso porque, aluno nem sempre tem razão, cidadão mesmo sem renda é cidadão, leitor é também operário.

Para um texto dar certo é preciso que duas vontades se encontrem e conversem. A força do escritor que fez o melhor possível para traduzir emoções em palavras. O esforço do leitor que se alfabetizou para perceber emoções nas palavras.

Quero dizer, leitor ótimo é aquele que labuta. Aquele que lê a frase duas vezes quando não a entende. Que ao desconhecer uma palavra, clica no dicionário eletrônico. Que quando gosta muito do texto, generosamente indica para um amigo, ou compartilha na rede social.

O escritor Evandro Affonso Ferreira (Araxá, MG, 1945), em recente entrevista à jornalista Márcia Abos, desabafou: “Quando escrevo dou o máximo de mim. Nem sempre o leitor faz o mesmo. Para escrever um livro, leio muito. Eu me dedico. Logo, o leitor também tem que ser dedicado”. Bingo!

Eu não me tornei uma leitora por obra do espírito santo, nem graças à internet. Suei olhos e neurônios para passar de textos básicos aos complexos. Do slogan ao parágrafo. Da notícia curta ao romance. Com toda certeza, ainda não tenho diploma de leitora. Pois trata-se de uma graduação de vida inteira.

Mas por que um leitor deve trabalhar? Afinal ele e ela já dão duro como doutor, manicure, estudante, nutricionista, técnico, operadora de telemarketing. Minha aposta é que o leitor esforçado tem como recompensa o prazer do texto. Isto é, ele aumenta sua taxa de deleite.

O prazer é a primeira razão de qualquer leitura não obrigatória – essa que é a mais deliciosa entre todas. Textos são escritos para sonhar, ensinar e aprender, convencer e vender, provocar. O leitor esforçado não é mesquinho e nem bondoso com os escritores. Ele aprendeu a discernir. Rejeita quando o querem enganar. Adora quando o querem encantar.

O leitor que trabalha a leitura do texto é um justo. Será capaz de criticar o ruim e elogiar o bom. Não atira confetes nem bordoadas nos seus comentários. Por fim, trata-se de um sujeito insistente. Farejador, não desiste fácil. Sua mente sempre quer mais.

Mãe evangélica reescreve Harry Potter, com medo de seus filhos virarem bruxos

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Duda Delmas Campos, no Literatortura

No presente momento de frenesi eleitoral e acirradas discussões políticas, muito se diz a respeito do conservadorismo religioso, que não só no Brasil, mas mundo afora, afeta as vidas de muitas pessoas, assim como se debate acerca da validade do fundamentalismo. E é nesse contexto que surge Grace-Ann, nos EUA. A texana, amedrontada ante a possibilidade de seus filhos tornarem-se bruxos ao lerem Harry Potter, decidiu reescrever a saga, retirando-lhe as partes mágicas. Pois é.

A nota que precede essa releitura de Harry Potter, que você pode conferir aqui, lê: “Olá, amigos! Meu nome é Grace Ann. Sou nova nessa coisa de fanfic; mas, recentemente, encontrei um problema para o qual acredito que essa seja a solução. Meus pequenos têm pedido para ler os livros de Harry Potter, e é claro que fico feliz que estejam lendo, mas não quero que se transformem em bruxos! Então pensei… por que não fazer algumas pequenas mudanças para que esses livros sejam familiares? E depois pensei, por que não compartilhar isso com todas as outras mães que estão enfrentando o mesmo problema?”

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Segundo a autora, a história de Harry Potter tem muito potencial, já que trata de amizade e coragem, mas, pela existência de bruxaria, seus filhos não podem ler, de forma a ter sido necessário que ela a reescrevesse mantendo toda a aventura e a “boa moral”, mas eliminando todas as coisas ruins, ou seja, a magia. Você pode estar perguntando-se: e como ela simplesmente retira a magia de um livro que é fundamentalmente sobre isso? Bom, então vamos a uma breve sinopse desse novo mundo.

Basicamente, o bom e obediente órfão Harry Potter mora com seus tios, evolucionistas que negam a existência divina, até que um dia é visitado por Hagrid, um pregador cristão que bate na casa dos Dursley para perguntar se eles querem ser salvos. Harry, puro e pleno de “santa energia”, aceita e parte para a Escola de Orações e Milagres de Hogwarts, a fim de aprender a ser cristão. Lá é recebido pelo Reverendo Dumbledore e sua esposa, Minerva, pais de Hermione Granger. A menina lhe explica sobre Voldemort, um homem que deseja destruir tudo por que eles lutam, pressionando o Congresso a aprovar uma pauta que os impediria de expressar livremente sua religião.

Temos também Rony, um sonserino que deixa Harry bastante intrigado por estar rezando a uma estátua. O Rev. Dumbledore explica que, como tempos difíceis estão chegando, a escola é inclusiva em relação a todos aqueles que acreditam n’O Senhor, independentemente de como, de modo que as divisões do cristianismo funcionam como as Casas Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa e Corvinal. A esta última casa pertence Draco, que crê que mulheres são inferiores a homens, por isso não devem trabalhar, o que incomoda profundamente nosso herói Harry, para quem mulheres não devem ter uma carreira porque devem cuidar dos filhos. Já Luna pertence à Lufa-Lufa, pregando Mateus 7:1:“Não julgueis, para que não sejais julgados”.

Outra alteração é que Snape é o professor responsável pela Grifinória e defende que existem forças malignas que querem a derrocada dessa Casa, já que as outras ou estão conspirando com Voldemort, ainda que isso contrarie a 1ª Emenda Constitucional, ou simplesmente acreditam em tudo. E isso é o que temos até agora. Não há muita aventura ainda, contrariando o que a autora afirmou, mas quem sabe nos próximos capítulos? Talvez…?

Finda a nossa sinopse, é preciso constatar: claramente há alguns problemas aí. Pelo menos alguns. Dentre eles, os mais imediatos seriam: Dumbledore e McGonnagall, casados? E pais de Hermione? Rony, aluno da Sonserina? Pelas barbas de Merlin! Snape, professor da Grifinória??! Um pouquinho de verossimilhança com o mundo fictício, por favor! Já em termos de qualidade literária, a “obra” peca pela monotonia das cenas, sempre marcadas por discussões religiosas e pensamentos castos, corretos e puritanos do herói, tornando-a uma leitura bastante chata, principalmente se considerarmos o público alvo.

No entanto, a fanfic evidencia outros problemas muito mais graves, obviamente. Evidencia o quanto as artes ainda são censuradas e revisadas com intuito doutrinário. Evidencia como o fundamentalismo religioso não é restrito apenas a jihadistas do Oriente Médio. Evidencia como a intolerância religiosa é perigosa para a sociedade. E ratifica uma visão errada sobre a religião, perpetuando o equivocado estereótipo de instituição arcaica e ignorantemente extremista.

Em primeiro lugar, é preciso deixar bem claro que Grace-Ann tem todo o direito de fazer isso. Ela não está falando em nome de um governo ou instituição laica, nem mesmo obrigando ninguém a ler. Mas isso não quer dizer que possamos tão somente ignorar iniciativas como as dela, pois, assim como cabe a apologia por ela feita, cabe também a crítica. Crítica porque ela se utiliza de um discurso falacioso segundo o qual religião e Teoria Evolutiva são excludentes; crítica porque ela confunde religião com misoginia e esvazia o papel da mulher na sociedade; crítica porque ela hierarquiza as religiões de acordo com a proximidade de Deus ao invés de colocá-las em patamar de igualdade; crítica porque ela crê que ficção e magia possam ser demoníacas e não sensibilizantes, libertadoras e enriquecedoras (imagine o que ela deve não fazer com contos de fada). Enfim, como todo projeto polêmico, a Escola de Orações e Milagres de Hogwarts invariavelmente atrai críticas. E tanto a desaprovação quanto a defesa, você deve expressar nos comentários – vamos aquecer a discussão!

De todo modo, é muito interessante pensar que Harry Potter, de todos os livros, provoque reações desse tipo, já que a própria autora (cristã declarada, diga-se de passagem) frontalmente as ironizou em seu “Os Contos de Beedle, o Bardo”, nas notas de Dumbledore sobre a história “O Bruxo e o Caldeirão Saltitante”. Portanto, para fechar essa matéria, vou deixar aqui dois trechos para comparação: um de Grace-Ann e um de sua satírica e até profética equivalente fictícia, Beatrix Bloxam, que reescreve consagrados contos infantis do mundo mágico, tornando-os mais apropriados aos delicados ouvidos das crianças. A análise fica a critério do leitor.

“Então a panelinha dourada dançou de prazer – tim tirim tim! – batendo seus pezinhos rosados! Willyizinho tinha curado as barriguinhas dodóis de todas as bonequinhas, e a panelinha ficou tão feliz que se encheu de docinhos para Willyizinho e suas bonequinhas! ‘Mas não se esqueça de escovar seus dentinhos’ – gritou a panela.”.(Beatrix Bloxam)

“Hagrid irradiou de alegria. Havia rezado tanto para salvar uma alma aquele dia e estava tão feliz de ter salvado a alma de um pequeno tão sério e sensível. O pobre garoto, tendo sido criado por dois pais que não eram cristãos e que iam ambos trabalhar, deixando-o sozinho com a babá. Era uma coisa boa que Hagrid tivesse chegado lá em tempo. Cinco anos depois, Harry poderia ter se tornado um evolucionista fornicador e drogado!

(…)

‘Eu te perdoo, Tia Petunia, por causa de Lucas 23:34.’. Hagrid mais uma vez ficou espantado com a sabedoria dos pequenos. Ele não sabia se poderia perdoar alguém que o tivesse machucado tanto quanto aquela mulher havia machucado o pequeno Harry. Negá-lo a verdade? Quem seria tão cruel? Mas Harry nem pensou duas vezes. Perdoou-a simplesmente! Verdadeiramente, Hagrid ganhara um novo entendimento de Mateus 19:14 aquele dia.” (Grace-Ann)

Obs.: Este é um artigo de opinião, portanto, onde é opinativo é porque é opinativo mesmo, não possuindo qualquer caráter manipulador ou doutrinário. E também não possui a intenção de transformar nenhum leitor em bruxo contra sua vontade. 😉

Semana literária: Livro Infantil não é qualquer coisa!

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Publicado por Eu li, e agora?

Tenho mais ou menos 4 anos como livreira, 3 livrarias diferentes e com enfoques e públicos diferentes. Todas elas tinham coisas em comum:

* o setor infantil é o carro-chefe de vendas
* o infantojuvenil é o setor com atendimentos mais demorados
* o setor infantil é o que os livreiros mais precisam conhecer os livros a fundo
* os livreiros do infantil são os que mais têm a paciência colocada à prova pelos clientes
* os livreiros do setor infantil são os que mais têm paciência e mais dores de cabeça – literalmente (teve uma época em que eu era habitué da farmácia)

Legal, né? MAS…

* o setor infantil é o mais subestimado pelos outros setores das livrarias
* fora os livreiros do infantil, ninguém gosta de atender lá
* fora os livreiros do infantil, ninguém sabe atender lá (e não se importa em aprender)
* fora os livreiros do infantil, praticamente ninguém dos outros setores lê literatura infantil ou juvenil
* livreiros do setor infantil que lêem muito infantil e juvenil têm o gosto literário constantemente questionado
* livreiros do setor infantil distribuem mais coices que cavalos por causa de tudo isso

Eu sou um setor infantil e só fico assim antes da livraria abrir!

Eu sou um setor infantil e só fico assim antes da livraria abrir!

Querem um exemplo? Sabem por que A culpa é das estrelas é classificado aqui no Brasil como literatura estrangeira, e não como juvenil ou jovem adulto? Porque vende muito e é considerado “bom demais” pra ser “só” juvenil. E não é exagero meu. Ouvi isso de pessoas que definitivamente não deveriam ter dito isso, principalmente considerando que o próprio John Green já disse que nunca vai escrever um livro para adultos porque adultos são chatos.

Existe uma enorme resistência dentro das próprias livrarias com o setor infantil, e o motivo principal é o seguinte: a maioria esmagadora considera literatura infantil algo menor. Algo qualquer coisa, que não vale muito a pena porque é pra criança mesmo. Geralmente quem diz isso esquece que nunca chegaria nos Vargas Llosa se não fosse a Eva Furnari. Inclusive, muita gente considera gostar de literatura infantil quando não se é mais criança como um retrocesso. Como se leitura fosse uma linha reta de “evolução”, sendo que a tal evolução é sempre – SEMPRE – conforme o gosto pessoal de quem fala a besteira. E não acontece isso só nas livrarias. Muitos pais, por não conhecerem ou por serem imbecis mesmo, dão chiliques homéricos quando percebem que livro infantil custa o mesmo que um “livro de verdade” (costumam ser os mesmos pais que não vêem problema em gastar 700 reais num tablet pro filho de 4 anos ou já levam as filhas de 9 anos pra maravilhosas tardes de comprinhas. Não vou julgar o que os outros fazem com o próprio dinheiro, mas um pouco de coerência nunca é demais).

Então agora senta que lá vem bronca.

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Livro infantil é um troço caro e não tem muito o que discutir. O papel é caro, a tinta da impressão é cara, e quando se trata de livro infantil, a qualidade do texto, em muitos casos, influencia sim no preço final. Preço de livro infantil não é muito diferente do preço de livros juvenis e adultos: a maioria fica na faixa de R$26 a R$38, um pouco mais ou um pouco menos, tem uns mais baratos, uns bem mais caros, e tem editoras que costumam ser mais caras, como a Martins Fontes e a Cosac Naify. Só a Cosac, por exemplo, teve coragem de trazer pro Brasil o Edward Gorey, que não é um escritor de livros infantis fácil de indicar por causa do humor ácido, sarcasmo e temas com um tom mais sombrio que agrada as crianças, mas assusta os pais. A Cosac investe tanto na inovação e na originalidade e na qualidade dos livros infantis que às vezes alguns deles acabam não sendo comerciais – são tão incríveis e tão cara de obra de arte e design e com um texto tão diferente… que são um porre pras crianças. Porque no final das contas, o livro precisa entreter e encantar A CRIANÇA, e não o adulto que vai abrir a carteira.

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Outra coisa que encarece livro infantil é o livro como objeto. Enquanto os livros juvenis e adultos são aquilo de sempre (capa e papel inteiros e normais, no máximo uma ou outra coisa diferente na capa como um verniz, ou textura emborrachada, ou metálico), livro infantil inventa moda: Abra com cuidado! da Brinque Book, trata de um crocodilo que invade uma história, mas invade mesmo: corre pela página, bagunça as frases, come algumas letras e, no final, foge do livro pela contracapa – e a contracapa tem um buraco bem no meio, por onde o crocodilo fugiu. O incrível menino devorador de livros da Salamandra tem um pedaço da contra-capa faltando, em forma de dentada. Pedaços faltando, rasgos, livros redondos, compridos, finos, largos, inclinados, recortados, páginas menores e maiores misturadas, dobraduras, fechos, buracos, texturas, espaços pra criança completar, formato de sanfona… se quando a gente entra na adolescência começa aquela chatice de endeusar o livro e deixar só na estante e não emprestar pra ninguém, livro infantil foi feito pra ser lido, relido, puxado, dobrado, marcado, vincado, recortado, jogado, às vezes degustado (atire a primeira pedra quem, quando criança, não tentou enfiar um livro na boca – alguns são bem sucedidos). O livro infantil PRECISA de tudo isso pra poder estimular a criança e ajudá-la a criar intimidade com o livro e o ato de ler e, principalmente, entender que livro é objeto, é coisa, é troço e não foi feito pra ficar imaculado na estante. Criança entende isso muito mais rápido e mais fácil, tanto que já vi vários adultos torcendo o nariz pro Destrua este diário da Intrínseca, mas nunca vi uma criança que não ficasse doida pelo livro.

E se o livro infantil estimula pelo objeto, se tiver um texto e ilustração bons, ajuda mais ainda. Ilustração toda certinha e redondinha “não vou pintar fora das bordas” com texto cheio de mensagens entregues mastigadas só agrada adulto que subestima a capacidade da criança de entender as coisas e que acha que criança deve viver dentro de uma bolha de superproteção. Livros como Quero meu chapéu de volta (Martins Fontes), Uma chapeuzinho vermelho (Companhia das Letrinhas), Aperte aqui (Ática), A vaca que botou um ovo (Salamandra), O pato, a morte e a tulipa (Cosac Naify) são só alguns exemplos de livros que saem do lugar comum e que podem sim trazer alguma mensagem – mas a criança vai ter que procurar qual é, e os responsáveis por ela também, porque se o adulto quer que a criança tire alguma coisa daquela história, ele vai ter que colocar a mão na massa e conversar com ela. Ou não vai tirar mensagem nenhuma – livro pode sim ser divertido e só isso. Ter um texto bem-feito e engraçado sem moral por trás, ou ilustrações divertidas sem texto escrito nenhum. Livros-imagem (ou livro sem texto) não só estimulam a criatividade como também a capacidade de interpretação de imagem. Picturebooks, que são livros em que texto e imagem não são dissociados – se tirar um dos dois, falta informações na interpretação da história ou ela perde o sentido, estimulam a interpretação de imagem, de texto e de texto associado a imagem. Jodos de palavras, trocadilhos, diagramação diferente, frases espalhadas pela página…

Livro infantil é um troço difícil de fazer, pelo menos os realmente bons.

Não é qualquer um que escreve um livro infantil bom.

Não é qualquer um que ilustra um livro infantil bom.

Autores tentando escrever pra criança porque "é fácil"

Autores tentando escrever pra criança porque “é fácil”

E nem todo autor tá necessariamente apto a escrever livro infantil. Pessoalmente, acho os livros infantis do Erico Verissimo um saco. Nunca, em quase 4 anos como livreira, vi uma criança gostar de algum livro infantil do Saramago. Esse é um problema, aliás – adulto não costuma saber ler livro infantil. Não saca a graça das coisas, não pega a piada, não entende aquele furo ali na página, ou acaba achando o máximo coisas que crianças não lêem nem se forem pagas em pelúcia da Peppa Pig. Porque livro infantil pode sim ser praticamente uma obra de arte, mas é, antes de tudo, livro pra ser lido por crianças. Quem tem que gostar são elas.

Livro infantil é a porta de entrada da criança – é o primeiro livro que ela vai pegar NA VIDA. É nele que ela vai olhar aquele monte de rabisco emaranhado e descobrir que aquilo significa que o macaco tá brincando com a mola. É um passo importante na noção de independência da criança – ela não precisa mais de um adulto pra ler pra ela ou pra escolher o que ela vai ler. Criança não é “mini leitor”: é leitor e ponto, sem mini, sem inho, e subestimar aquilo que ela tá lendo é subestimar a própria criança.

Aí você pega tudo isso que eu falei e vê adulto tendo dó de gastar R$30 num livro infantil. Vê adulto considerando literatura infantil como algo menor, como “não literatura de verdade”. Diferenciando livro infantil de “livro normal”.

Você só chega nos autores cults com o aval da Ruth Rocha, então baixa a bola aí.

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Leitura a jato

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Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo

Ainda faço parte dos que leem jornal impresso e livros de verdade. Reconheço a utilidade dos iPads e kindles; acho bom, mas não uso.

No fundo, é o mesmo livro e a mesma leitura. No máximo, tem a página iluminada e o tamanho das letras ajustável.

A experiência talvez se altere muito no futuro, se der certo uma tecnologia que fiquei conhecendo na internet. Chama-se “Spritz”, e há uma demonstração em português no site da companhia.

Eles prometem acelerar loucamente a velocidade de sua leitura. Funciona do seguinte modo.

No papel ou no Kindle, a página fica parada: nossos olhos é que percorrem cada linha. Seguem, é claro, a velocidade de nossos músculos, de nossa concentração, de nosso tédio.

Com o Spritz, perdemos esse controle, ou essa vagareza. Nossos olhos não se movem. As palavras é que aparecem, uma a uma, como flashes. Uma/palavra/de/cada/vez. Só que com uma velocidade alucinante.

Segundo os inventores da tecnologia, 80% do tempo de nossa leitura se perde em paradinhas minúsculas do globo ocular quando percorre uma linha escrita. Com o olho imóvel, é possível ler livros a jato. As palavras surgem e somem sem que precisemos fazer nada.

Achei muito tentador, mas é possível prever alguns problemas. Uma coisa é ver um texto curto correndo desembestado em sua direção, numa escada rolante maluca fornecendo alimento para o cérebro.

Outra é ler um livro inteiro desse jeito; provavelmente o excesso de velocidade traz o preço de um cansaço em tempo recorde. Penso também nos efeitos sobre a memorização.

Será que, quanto mais rápido o aprendizado, também mais rápido será o esquecimento? Sinto isso quando assisto ao noticiário da televisão. Basta o locutor dizer “boa noite”, que me sinto incapaz de citar mais de dois ou três dos fatos relatados. Tudo passou diante de mim; nada se gravou.

Imagino que o Spritz irá transferir para a leitura o que acontece na TV. Favorece a passividade do olhar; seremos lidos pelo texto. Pode até ser conveniente, em todo caso, e não exclui outros tipos de leitura.

Vai no sentido oposto, por exemplo, da interação da palavra com a imagem, a foto, a ilustração —outra tendência de que os nostálgicos do “texto puro” reclamam bastante.

Em vez de se dar no espaço de uma página, o texto surge como enunciação abstrata num lapso curtíssimo de tempo. Deixa de ser “coisa” para ser visto como “evento”.

E, como as palavras ganham independência, desaparecem as linhas. Não é o pior; meu medo é que, com isso, deixemos também de ler as entrelinhas.

Ninguém está dizendo, em todo caso, que será interessante ler Proust ou Thomas Mann na tecnologia do Spritz. O objetivo há de ser o relatório, o artigo, a notícia, desde que você não precise anotar nada nem fixar no cérebro os dados principais.

É o caso da grande quantidade de coisas que temos de ler apenas “para saber do que se trata”. Com um aplicativo qualquer, tenho acesso ao texto de dezenas de jornais e revistas do mundo inteiro.

Foi num desses, aliás, que tomei conhecimento do tal Spritz. É a solução para a angústia diante de tanta coisa interessante para ser lida.

“Lida”? Vale substituir por um termo da moda: “Explorada”.

Associa-se a outra palavra com que topamos o tempo todo: “Experiência”. “Explore a experiência da Fast Fly Air Lines.” Fica melhor em inglês: “The McNought Experience”, “the Keystone Experiment”, “explore the new Dandruff Project”.

“Exploramos”, desse modo, novas “experiências”, dentro de algum “projeto”. Até na música clássica a moda pegou. Antes, um maestro gravava a integral das sinfonias de Beethoven. Agora, ele lança os “volumes” de seu “Beethoven Project”.

Percebe-se facilmente que está em jogo, na verdade, o oposto do que essas palavras sempre significaram. Um “projeto” não é uma agenda, um cronograma, mas algo que se pretende fazer sem saber se vai dar certo ou não.

“Explorar” um território era atividade que pressupunha algum tipo de risco; não se confunde com uma visita guiada, um “sightseeing”, um “test drive” (que nunca testou coisa nenhuma, aliás).

“Experiência” exige algum tipo de esforço, de troca pessoal, de perda e ganho subjetivo. Na sua versão contemporânea, “experience” é algo como “vivência”, ou menos ainda; trata-se de sentir passivamente o que nos é proposto.

Desse tipo de experiência, não somos os sujeitos, mas sim as cobaias. Vamos sobrevivendo, com os pelos eriçados e as patinhas correndo sem parar.

Machado e Alencar em versões ‘facilitadas’

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Mànya Millen, em O Globo

Fonte: BLOGHUMOR do NOVAES

Fonte: BLOGHUMOR do NOVAES

Com mais de 200 livros infantojuvenis já publicados, a escritora Patrícia Engel Secco tornou-se o pivô de uma polêmica que envolve justamente a qualidade da leitura no Brasil. Ao anunciar que publicará, em junho, uma versão mais acessível de “O alienista”, de Machado de Assis, substituindo palavras aparentemente incompreensíveis para os leitores de hoje por outras mais contemporâneas, a escritora está sendo acusada de mutilar o texto do mais importante autor brasileiro e de, com isso, empobrecer o nível da leitura num país que ainda lê muito menos do que deveria.

Patrícia, que captou recursos para o projeto usando a lei de incentivo do Ministério da Cultura — além de “O alienista” será publicada também uma versão de “A pata da gazela”, de José de Alencar —, afirma que seu objetivo é exatamente o de levar boa leitura a quem não lê, sendo que o foco não é o público infantojuvenil, mas sim jovens e adultos já alfabetizados que não têm acesso ao livro. Garante, também, que toda a carpintaria literária de Machado, assim como a de Alencar, foi preservada.

— Houve um trabalho bastante elaborado para que Machado continuasse a ser Machado — afirma Patrícia, que não trabalhou diretamente na versão do texto, embora tenha participado das revisões e aprovado o resultado. — Estamos falando em chegar a leitores de uma camada mais simples da população, que não tem acesso ao livro. Falei em facilitar a leitura, não simplificar o texto. A complexidade de Machado está lá, ele é um gênio inigualável, um autor que admiro.

O projeto capitaneado pela escritora — os 300 mil exemplares de cada obra serão distribuídos para diversas instituições pelo Instituto Brasil Leitor, que trabalha na promoção da leitura no país — gerou um intenso debate nas redes sociais. Há quem apoie a iniciativa, entre eles o escritor Ronaldo Bressane. “É preferível que o sujeito comece a ler através de uma adaptação bem-feita de um clássico do que seja obrigado a ler um texto ilegível e incompreensível segundo a linguagem e os parâmetros culturais atuais. Depois que leu a adaptação, ele pode pegar o gosto, entrar no processo de leitura e eventualmente se interessar por ler o Machadão no original”, escreveu ele em sua página no Facebook.

Adaptações de clássicos não são novidade em parte alguma do mundo. Grandes obras da literatura universal recebem traduções em versões menores e mais atraentes, geralmente feitas para o público jovem. Diversas obras de Machado, inclusive, já foram adaptadas para os quadrinhos. A diferença, observam alguns escritores, é que nesses casos há de fato uma mudança de linguagem para se adequar a um outro formato, mas sem prejuízo do texto original. A nova edição, aliás, não seria uma adaptação no sentido clássico.

— Em lugar de substituir as palavras de Machado seria mais adequado situar em nota explicativa a significação e a sinonímia dos termos usados por ele — observa o acadêmico e escritor Domício Proença Filho. — Com as notas o leitor não só entenderia a obra, como é o objetivo da autora, como se familiarizaria com o texto machadiano. Enriqueceria o seu vocabulário e teria a ideia precisa da proposta e do estilo do escritor.

uma obra popular

O escritor Luiz Antonio Aguiar, ele mesmo autor de uma adaptação em quadrinhos para “O alienista”, lembra que essa obra especificamente — publicada em 1882, com aproximadamente 90 páginas — é uma das mais populares do Bruxo do Cosme Velho.

— Talvez por ser uma novela, uma obra pequena, não apresenta grande complexidade — diz Aguiar. — O curioso é que Machado, aliás, era criticado em seu tempo justamente por escrever de forma banal, dentro de um português mais acessível. É uma linguagem elegante, traz sutilezas que enriquecem. Para introduzir um leitor no universo de Machado você poderia usar as crônicas, por exemplo, um texto mais curto.

A premiada Ana Maria Machado, autora de centenas de livros entre títulos para crianças, romances e ensaios, lembra que adaptações são boas — ela já adaptou para crianças, por exemplo, “Sonhos de uma noite de verão”, de Shakespeare —, mas faz ressalvas.

— Sou a favor da adaptação de clássicos universais, como “A Ilha do Tesouro” ou “Os miseráveis”, para um primeiro contato da garotada, para que saibam da existência da obra e conheçam seu enredo em linhas gerais. Mas acho inconcebível passar a limpo um mestre da língua — afirma. — Que se espere um pouco até que o próprio aluno passe a limpo a si próprio, e possa adquirir robustez linguística para chegar perto.

Apesar de as novas edições não serem voltadas para escolas, talvez as versões de Machado e Alencar cheguem a elas, já que o Instituto Brasil Leitor também distribui livros para bibliotecas.

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