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Como ensinar habilidades socioemocionais para as crianças por meio da Literatura

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Crianças aproveitam o “faz de conta” para elaborar suas prórias questões: Crédito: Pixabay

Além de estimular sentimentos como empatia, personagens podem ensinar crianças e adolescentes a lidar com emoções complexas no processo de crescimento

Camila Cecílio, na Nova Escola

Observar através da janela a cidade que, embora às vezes suja, guarda muitas belezas. Perceber que há pessoas diferentes convivendo em um mesmo espaço – um rapaz tatuado que não tira os olhos do celular, um homem cego com seu cão-guia, um músico e seu violão ou uma senhora segurando um vidro cheio de borboletas. Essas são algumas das experiências que o menino Cadu tem ao andar de ônibus no livro Última parada, Rua do Mercado, de Matt de la Pena.

Ao lado da avó, Cadu aprende que é preciso ser gentil com os outros, dizer boa tarde e oferecer o assento no ônibus a quem mais precisa. “É um convite para olhar ao redor com disponibilidade para perceber a poesia nos detalhes e, principalmente, nos outros”, diz a obra, que faz parte do conteúdo trabalhado com crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental no Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR), para desenvolver nos pequenos habilidades socioemocionais, como a empatia.

Estudos feitos por universidades ao redor do mundo indicam que ler torna as pessoas mais empáticas. A pesquisa de autoria do professor Keith Oatley, do Departamento de Psicologia Aplicada e Desenvolvimento Humano da Universidade de Toronto, no Canadá, aponta que, ao investigar a vida de personagens da ficção – suas emoções, motivações e pensamentos –, o leitor pode formar suas próprias ideias e aplicá-las na vida real.

Para Oatley, que também é romancista, o estudo reforça a necessidade das humanidades em escolas e universidades como parte do processo educacional. Fortalece, ainda, a ideia de que a ficção, não apenas em livros, mas em romances, contos, peças e filmes, não é apenas entretenimento, mas “tão importante quanto estudos de engenharia e negócios”.
Literatura, uma aliada no dia a dia escolar

Professora e pós-doutora em Artes pela Universidade de Campinas (Unicamp), Fernanda Maria Macahiba Massagardi acredita que ensinar não é simplesmente determinar, informar e deixar as crianças ansiosas com “uma quantidade desumana de conteúdo sem sentido”, mas sim mediar, levar o aluno a pensar e agir a partir de reflexões individuais e coletivas. Ela sustenta que, além de possibilitar a imersão em um mundo de sensibilidades, a educação literária contribui para o desenvolvimento cognitivo e afetivo, na medida em que proporciona a formação de um sujeito crítico, que não apenas decodifica, mas interpreta e recria situações. Em sua tese de doutorado, Percursos da Literatura na Educação – Ensinar Contando Histórias, a pesquisadora analisa as obras Nárnia, de C. S. Lewis, e Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato, nas quais aponta a relação de alguns personagens com o desenvolvimento da criança.

Livros usados por escola pública de Fortaleza (CE). Crédito: Camila Baccin

Trazer essas relações para a sala de aula requer um professor com conhecimento sobre o processo criativo, a representação do mundo na criança, a aquisição de conhecimentos, a vida real e os sonhos de seus alunos – além de entender quais fatores incentivam as crianças a buscar momentos de prazer e conhecimento na leitura.

Por seu lado, as crianças aproveitam o “faz de conta” para elaborar, ainda que de maneira inconsciente, seus pontos de vista. Celize Ogg Nascimento Domingos, coordenadora pedagógica dos anos iniciais do Ensino Fundamental do Colégio Marista Anjo da Guarda, em Curitiba (PR), conta que os pequenos são capazes de observar conflitos e emoções de personagens. Na instituição, o conteúdo trabalhado com alunos do 1º ao 5º ano aborda, especialmente, questões relacionadas às diferenças, presentes em livros como Diversidade, de Tatiana Belinky, O Reizinho Mandão, de Ruth Rocha, e o já citado Última Parada, Rua do Mercado. Os efeitos da literatura transpõem a sala de aula e acabam chegando aos responsáveis, diz a coordenadora.

“Pedimos aos pais para buscar na literatura formas de conversar com a criança, que muitas vezes não sabe verbalizar algumas coisas, mas encontra na fantasia um repertório maior para se comunicar”, diz ela. Celize cita como exemplo crianças que sempre pedem para ouvir as mesmas histórias. “Significa que aquele enredo vai além da fantasia, que está trazendo emoções que fazem com que ela, de alguma forma, se reconheça ali”.

A noção de que os livros guardam não apenas ensinamentos, mas também sentimentos e realidades particulares e sociais foi um aprendizado pessoal da pesquisadora Fernanda Massagardi. Para ela era mágico perceber que a Narizinho de Monteiro Lobato, como ela, também subia em árvores e gostava de se debruçar sobre as margens de um rio. “A mágica da literatura é que ela pode não ser real, mas oferece experiências muito mágicas”.
O aluno como protagonista de sua própria história

Para os jovens, a percepção da relação entre a literatura e as habilidades socioemocionais é um pouco diferente, mas o impacto é tão grande quanto. A experiência da Escola Estadual Aloysio Barros Leal, no Ceará, mostra que por meio do exercício de se colocar no lugar das pessoas é que se aprende a ter um olhar generoso.

Situada na periferia de Fortaleza, com uma significativa parcela da comunidade do entorno de origem negra, há três anos a escola passou a trabalhar obras das escritoras Conceição Evaristo e Angela Davis com seus alunos. “Quando trago Conceição Evaristo, trago uma escritora negra que traz na cor de sua pele o mapa de sua história, trago alguém que relata a história das mães, avós e bisavós desses alunos, que conta a história das mulheres brasileiras”, conta a professora Camile Baccin, especialista em Ensino Metodológico de Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Com isso, diz ela, os alunos exercitam autoconhecimento, empatia, sensibilidade. “Muitos dos meninos e meninas se identificam e se reconhecem nas narrativas e na poética dessa escritora”.

O projeto surgiu de uma preocupação da professora em desenvolver nos jovens as competências socioemocionais para lhes dar ferramentas e lidar com um cotidiano em que o preconceito e os tantos “nãos” ouvidos todos os dias contribuem para torná-los insensíveis. “Comecei a me perguntar de que forma a literatura poderia impactar no desenvolvimento socioemocional desses jovens que vêm de uma realidade tão árida, de vidas tão duras, cheios de faltas, sem estrutura familiar e socioeconômica”, diz.

Partindo do que considera os principais pilares das habilidades socioemocionais – conhecer, fazer, ser e conviver – Camile apoiou seu trabalho na música e na literatura. “A gente se questiona: como é que minhas experiências podem desenvolver uma relação com a arte da literatura? Peço a eles que tragam suas histórias e seus relatos para que possamos confrontar com os textos. Eu trago as músicas dos Racionais MC e eles reconhecem as características da vida deles nas músicas do Mano Brown, enfrentando e quebrando paradigmas de uma sociedade tão injusta”.

O que diz a BNCC?

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tem 10 Competências Gerais como pilares: conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; e responsabilidade e cidadania.

As competências são definidas como uma mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.

Socioemocionais na prática

Essa definição aponta para a necessidade de os alunos serem capazes de utilizar os saberes adquiridos para dar conta do seu dia a dia, sempre respeitando princípios universais, como a ética, os direitos humanos, a justiça social e a sustentabilidade ambiental.

Na prática, as escolas devem promover não apenas o desenvolvimento intelectual, mas também o social, o físico, o emocional e o cultural, compreendidos como dimensões fundamentais para a perspectiva de uma educação integral. A despeito de todas as novas tecnologias, Fernanda Massagardi reforça que “o professor é o grande guardião do saber na hora de ensinar habilidades socioemocionais”.

A seguir, a professora Camile Baccin explica, passo a passo, como trabalhar habilidades socioemocionais com alunos do Ensino Médio. Para isso, ela escolheu uma atividade que pode ser desenvolvida em quatro horas de aula, com o intuito de despertar a empatia por meio do texto literário.

Passo 1: A escolha do texto
A escolha do conteúdo a ser trabalhado com os alunos deve ser minuciosa. Camile, por exemplo, avaliou todo o contexto de suas turmas do Ensino Médio e decidiu priorizar a literatura feminina negra com textos que recaem, sobretudo, na existência difícil das personagens femininas afrodescendentes, que enfrentam um cotidiano racista, estruturado num sistema historicamente preconceituoso. Tudo é intersecção: gênero, raça e classe, por isso a escolha do material.

Passo 2: Conhecendo os escritores

Os escritores podem ser apresentados aos alunos por meio de slides e/ou entrevistas disponíveis em vídeos em plataformas como o Youtube. Para isso, a dica é organizar a sala em semicírculo para, em seguida, iniciar um debate.

Passo 3: A entrega do texto escolhido
Camile propõe que o material escolhido seja entregue individualmente a cada aluno. O momento deve ser de leitura individual e silenciosa.

Passo 4: A apresentação do conteúdo
A ideia é apresentar o conteúdo para toda a classe. Se for a leitura de um poema, por exemplo, a sugestão da professora Camile é que cada aluno leia, de forma voluntária ou escolhidos pelo professor, uma estrofe.

Passo 5: As vozes da sala
Agora é hora de ouvir os alunos. Promover o debate a partir do conceito de identidades e levantar a questão: quem se identifica com o livro/texto/poema?

Passo 6: O que é empatia?
Nesse debate, discuta o significado de empatia para preparar os alunos para uma produção escrita. A sugestão é que os alunos escrevam relatos pessoais relacionando suas histórias com o conteúdo abordado na aula.

Passo 7: Anotações
As anotações serão entregues à professora para uma revisão e devolvidos na aula seguinte para a reescritura. O resultado do processo pode ser um painel com a exposição dos relatos e dos textos lidos. O título do painel sugerido: Por que desenvolver a empatia é importante?

Estas atitudes são indicadas para quem quer escrever textos excelentes

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(foto/Getty Images)

O professor Diogo Arrais tem algumas dicas para quem quer melhorar o vocabulário em português

Diogo Arrais, na Exame

Está numa cadeia de ações o almejado domínio da Língua Portuguesa. Na semana passada, recebi a seguinte mensagem:

“Preciso melhorar meu vocabulário, até para redigir peças. Se puder me fornecer alguma dica, ficaria agradecido.”

Comecemos pelo “até” desse querido ex-aluno e – agora – leitor: leva-me a entender que o aumento do vocabulário é também necessário em sua vida pessoal. Não tratarei apenas de vocabulário, mas de outras competências a serem adquiridas.

Habituar-se ao clássico; conviver com o de bom gosto, na História, na Literatura, na Sociologia, na Economia, na Psicologia, na Música, no Teatro, no Cinema são riquezas infindáveis. Escritores, estudiosos e artistas clássicos proporcionam crítica, audição, vocabulário, compreensão ímpares.

Pessoas notáveis nas Artes, na Comunicação, no Direito, na Ciência têm acervo: sem um espaço dedicado à pesquisa é muito mais complexo desenvolver o bom texto, a nova palavra, a nova percepção. Preciosos ensinamentos estão nos livros, nos discos, nos mestres inspiradores, nas palestras, nos discursos históricos.

No acervo, tenha acesso aos gênios, para aperfeiçoar fala, escrita, audição e crítica.

Poetas, sagazes da palavra, contistas, cronistas, romancistas: Clarice Lispector, Guy de Maupassant, Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Guimarães Rosa, Mia Couto, Fernando Pessoa, Cecília Meireles (é injusto demais fazer lista!)

Há um exercício saudável, por meio da Música: compreender letras, sons e estudar estilos artísticos; relacionar tudo isso a um estudo histórico. Exemplo: compreender os porquês de o Jazz, o Tropicalismo, a Bossa Nova e o Rock terem sido movimentos tão importantes, comentados.

Bons oradores – em tese – têm percepções cinematográficas, jornalísticas aguçadas. Estudar Roteiro, Fotografia (o básico ao menos) e o Vídeo em si é um ótimo caminho a quem busca ter boa performance.

Costumo pensar assim: um bom advogado não vive apenas a construção de peças jurídicas, mas é abastecido de sapiência gramatical, dicionários, pesquisa, linguagem e tantas outras riquezas culturais.

Chegar à excelência é sair um pouco dessa pressa insana do digital, com respostas básicas prontas, sem o devido deleite (e o tempo certo) para o aprendizado garantido.

Quem tem a curiosidade pelo conhecimento alonga as asas; quem divide o que sabe aproxima-se do céu: ler, respeitar o outro, habituar-se ao palco, aproximar-se, dia a dia, da Palavra em si.

O politicamente correto vai matar a literatura, diz Paulo Coelho

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Escritor, que lança romance autobiográfico ‘Hippie’, conta ter feito pacto com criatura para ter fama e diz que renega a política

Mauricio Meireles, na Folha de S.Paulo

Genebra – O pólen flutua diante dos olhos e vai se deitar em cima dos carros. Dá para vê-lo nas roupas pretas de Paulo Coelho, cujas mãos coçam, os olhos incham e a cabeça raspada fica com manchas. É uma época difícil para os alérgicos na cidade suíça.

Para um mago, até que ele tem superstições bem comuns: antes de beber o vinho frisante, molha o dedo e pinga uma gota na mesa, para o santo. Ao visitar seu apartamento em Genebra, é preciso sair pela mesma porta.

O escritor recebeu a Folha em sua casa, seis andares e mais uma cobertura dúplex, com academia, janelões e jardim do qual é possível ver os Alpes. Ele vive lá com sua mulher, a artista plástica Cristina Oiticica. Não há livros. Os dois leem tudo em edições digitais.

O casal leva uma vida pacata. Veem filmes e séries todos os dias e todos os dias caminham, contando os passos com um aplicativo. Antes, eram 10 mil; agora, 7.000. Coelho, aos 70 anos, diz que só pode ser um defeito do celular.

O autor lança agora “Hippie”, em que revive a época em que era cabeludão, vestia a mesma jaqueta jeans, usava drogas e errava por aí com pouca grana no bolso. No romance, repassa um velho amor, vivido em uma viagem no Magic Bus, que saía de Amsterdã e ia até o Nepal. O livro, diz, é uma resposta ao fundamentalismo que grassa pelo mundo.

Antes de receber a reportagem, fez uma exigência: não queria falar de política. Ao ouvir as perguntas, tentou dar a volta na tortilha —expressão que usa muito e significa ter ginga para se livrar de encrencas—, mas, ao fim, falou.

Em sua casa, num passeio de carro até a fronteira da Suíça com a França e em um jantar, a Folha esteve quase oito horas com o mago. Ele falou de sua decepção com Lula e o PT, contou um encontro com o ex-presidente no Palácio de Buckingham e disse que o petista abandonou José Dirceu, amigo do escritor, aos cães.

Relatou ainda o dia em que seu quarto de hotel foi invadido a mando do produtor Harvey Weinstein, posteriormente envolvido num escândalo de assédio sexual, contou de sua amizade com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, protestou contra o politicamente correto e narrou experiências sobrenaturais —como um encontro com um anjo e outro com o Diabo. O resultado editado está abaixo.

Paulo Coelho, 70

Nascido no Rio em 24 de agosto de 1947, estudou no colégio jesuíta Santo Inácio. Foi diretor e ator de teatro, jornalista e compôs músicas com Raul Seixas. Começou a publicar nos anos 1980; o primeiro sucesso, com ‘O Alquimista’, não veio de imediato, mas o livro tornou-se, segundo o ‘Guinness Book’, o mais vendido de um autor vivo no mundo

Folha – Por que resolveu lembrar sua época de hippie?
Paulo Coelho – Vi que o mundo estava caminhando para um fundamentalismo tremendo. Isso não está legal. Há causas importantes, como o direito da mulher. Já outras, como a alimentação, pô, deixa rolar, não força a barra. Era uma época em que tudo o que acontece agora acontecia naturalmente. Era uma geração que tinha consciência da importância do corpo, da música, da alimentação, da poesia, da alma —de tudo. E de repente, cara, aquilo sumiu.

Por quê? 
Por causa das butiques. De repente o hippie virou só o exterior. Começou o hippie de butique. Minha mulher foi hippie de butique! [risos] O sistema absorveu tudo dos hippies, como a roupa, que era uma maneira de identificar a tribo. A música foi para as grandes corporações.

Você ainda se sente hippie?
Sempre serei. Uma vez que você viveu essa experiência, ela te abriu certas portas. Não estou falando de drogas. Já viu que [a maconha] é liberada aqui? Apesar de ser liberada, eu não fumo. A última vez foi em 1982, em Amsterdã. Aí parei [com drogas].

Parou por quê?

Ficou repetitivo. Cocaína eu parei em 1974, no dia da renúncia do Nixon. Vi que, se eu continuasse com aquilo, eu estava ferrado, ia me enganchar. Cria-se um mito [proibindo as drogas] —descontando cocaína e heroína. Heroína é o Demônio. Cocaína te dá todas as ilusões que o Demônio te dá, a ilusão e poder.

O Demônio? 
Falo pelo meu conhecimento prático do Demônio! [risos]

Na biografia que Fernando Morais escreveu sobre você, ele descreve uma cena em que você acredita ter sido visitado pelo Demônio. Era uma bad trip de LSD, afinal? 
Eu achei que era uma bad trip, mas era real. Não é o que eu acredito, eu tenho certeza. O diabo existe, sim. Eu me lembro da neblina, de achar que ia morrer. Como eu vou explicar isso? Fui visitado pelo Diabo. Naquela época tinha a barra pesada que eu frequentava [o satanismo].

Como homem religioso, como você vê a ascensão das igrejas pentecostais? E Edir Macedo?
Vejo com grande admiração, que ele não tem por mim. Podendo falar mal, ele vai falar. Ele conseguiu colocar todas as coisas nos eixos, apesar da perseguição.

Muitos veem em figuras como ele o conservadorismo que você diz atacar no livro. 
Isso você vai encontrar no catolicismo também.

Mas de onde vem então o conservadorismo que você critica? 
O sistema todo. Não é esse conservadorismo religioso. As pessoas já têm medo de dizer qualquer negócio. “Ah, eu como carne.” “O quê?! Pelo amor de Deus! Você é assassino!”. São coisas que vêm desde a noite dos tempos e que ficaram politicamente incorretas.

Então você se preocupa é com o politicamente correto. 
Vivo horrorizado com isso. O politicamente correto é a morte do politicamente correto. Quando você impõe uma coisa [ela não dá certo].

Você escreveu muitos livros com personagens femininas. Hoje há quem diga que um homem não poderia ou saberia assumir o ponto de vista de uma mulher. Fala-se em lugar de fala. 
Prefiro nem saber disso. Você vê se pode? [Dirigindo-se a sua mulher] Cristina, existe o chamado lugar de fala, a chamada apropriação indébita cultural. Já vi isso de roupa, não pode usar turbante… É isso?

Está relacionado. Diz-se que um homem não saberia nunca o que é ser mulher. 
Claro que eu sei o que é ser uma mulher. Claro que eu tenho sangue de mulher. Eu sou extremamente feminino. Porra, eu vejo umas críticas na Amazon sobre “O Alquimista”. O personagem vai viajar e volta para o oásis para encontrar a mulher. Começaram a aparecer críticas dizendo que é absurdo, que a mulher fica esperando e o homem sai. Porra, não existe isso. Dão uma estrela [na avaliação que vai até cinco].

Você teme que sua obra passe por uma revisão? 
Espero que pare por aí. Isso não pode, cara. Você vai matar a literatura. Não dá para pegar a arte e fazer uma releitura politicamente correta. Em sua essência, ela é politicamente incorreta. O que eu acho correto é esse movimento de dar voz à mulher, quando ela é estuprada, por exemplo.

Você acompanhou o caso Harvey Weinstein? Você o conhecia? 
Conheci nas circunstâncias mais surrealistas. Ele não sabe ouvir não. Um vez ele comprou os direitos de “O Alquimista”, da Warner, e queria anunciar em Cannes. Disse que ia fazer uma conferência no domingo, às 10h. Eu disse que estava fora. Desconversei. Pensei: amanhã vou desligar o celular e, quando acordar, ao meio-dia, já vai ter acabado.

Sete da manhã batem na minha porta. Achei que ia parar. Quando deu 8h30, vejo a fechadura se mexer. Eu estava como durmo sempre, nu. Botei uma cueca, não acreditava!

Entraram quatro pessoas, disseram que o Harvey estava me esperando. Eu disse “Já falei que não vou, não vou, não vou. Falaram que iam perder o emprego se não me levassem, que eu era uma lenda. Você já viu uma lenda de cueca dormindo em Cannes sozinha?

Eles me botaram no telefone com ele, ele disse que eu estava prejudicando um projeto caríssimo. Botei todos para fora, depois fui ver as imagens das câmeras com o gerente do hotel. Tinham pegado a chave com a camareira.

Depois tive mais três encontros com ele. Ele consegue ser sedutor e mandão ao mesmo tempo. Eu posso dizer que ele tentou invadir meu quarto! Sexual harassment! [assédio sexual] É um cara sem limites!

Por que desta vez você pediu para não falar de política? 
Desencanto. Parece que o intelectual tem a única função de assinar manifesto. Eu não assino. Recebi convite para ir com a Malala e o Justin Trudeau falar de direitos humanos na ONU. Eu digo que estou fora.

Obras de arte e exposições sofreram diversos ataques no ano passado, como no caso da exposição ‘Queermuseum’. Isso preocupa você? 

Ele coloca a pergunta como quem não quer nada, Cristina. Não vou falar nada. A arte sempre teve esse papel contestador. Você não vai me queimar, né?

Com o que você está preocupado? 
Não estou. Acho que me segurei bem até agora. Mas posso dar uma escorregada. Meu público é de esquerda e de direita.

Você postou, no dia da prisão do Lula, uma ironia contra o Judiciário e a Lava Jato, dizendo que agora era como se toda a corrupção do Brasil estivesse resolvida. 

Foi na condenação dele. No dia da prisão eu chamei o Lula de babaca. Já tive minhas ilusões com esses caras todos. E vi erro após erro após erro —não estou falando de tríplex, mas de erro político.

Você acha que o impeachment foi golpe? 
Não vou falar de política. Vão dizer que eu sou isentão.

Você já falou muito de política até agora. 
Não é irritante esse negócio de manifesto? Todo dia eu recebo um.

Você acha a prisão do Lula justa? 
Não vou falar. Mas não me põe [no jornal] como isentão.

Você pode responder algo. 
O Lula foi uma profunda decepção. Lamento muito. Era uma pessoa que eu achava que podia fazer muita diferença, que seria o melhor político. Se fosse, seria que nem o Salvador Allende. Foi isso que eu postei: o Lula vai se entregar? Porra, o cara é um babaca. Ele está no sindicato cercado.

A prisão é justa? 
Essa história do tríplex é mal contada. O Poder Judiciário no Brasil ficou visível demais, quando ele não o é em nenhum país. As pessoas [os juízes] terminam tendo que atender a certos clamores. Você acha que essa história do tríplex [faz sentido]?

Não sou o entrevistado aqui, não é? Esse livro parece ter um desencanto com a esquerda…
O desencanto já tinha ocorrido [quando escrevi]. Se tiver que resumir a história da minha vida: esquerda, passeatas, gás lacrimogêneo, Marx, Engels, Heidegger. Depois, manual de guerrilha, aquelas coisas, e então a fase hippie. Logo em seguida o Raul [Seixas, de quem foi parceiro musical]. Não teve uma volta minha para a esquerda.

Você fez campanha para o Lula. Você é de esquerda, não? 
Quem era a alternativa? Fazer campanha por uma pessoa em quem você acredita e depois desacredita… É um mundo de desilusões, cara. [Coelho pede para o repórter desligar o gravador para falar em privado, depois a entrevista recomeça.]

Você já teve decepções pessoais com o PT também, não?
Houve uma vez em que Lula visitou o morro do Pavão-Pavãozinho e não foi ao projeto social que você tem lá. Como você se sentiu? Eu nunca fui prestigiado pelo PT. Um belo dia [em 2006] eu fui convidado para visitar a rainha[Elizabeth 2ª]. Lula era presidente. Vinha no convite o traje: gravata branca [nível mais formal do traje masculino de gala].
Aí vi uma matéria dizendo que a delegação brasileira ia de terno e gravata. Pensei: “Estou livre! Não vou ter que ir de white tie!” Aí me responde o Palácio [de Buckingham]: “Você não é convidado do seu governo, não te colocaram na lista, você é convidado da rainha. Tem que vir de white tie, sim”.

Mas o que aconteceu lá? 
Estava fumando com uma amiga minha da realeza, chega um assessor do Lula e diz: “O presidente quer falar com você”. Vamos lá. Atravessamos aquele palácio, uma cena inesquecível. Vou aos aposentos do Lula pensando: “Porra, por que o Lula me chamou?”. No meio da conversa, ficou claro que ele estava se justificando para mim, por eu ter apoiado o José Dirceu, e ele não.

Isso foi em 2006, logo após Dirceu ser cassado, no Mensalão, e quando passou Réveillon na sua casa e vocês se aproximaram. 
Ele jogou o José Dirceu como boi de piranha. Viu que eu apoiei o Zé Dirceu, que eu nem conhecia —vi esse cara sofrendo. Era um ano que quem queria ir lá para casa era o Hugo Chávez! [risos] E o Lula se justificou, o que eu acho uma declaração muito esquisita. Ele pode até negar, mas dona Marisa estava junto. Ele jogou o Dirceu aos cães. Ele foi cassado?

Foi, perdeu o posto de deputado em 1º dezembro de 2005. 
Foi minha grande decepção com o Lula. Uma das qualidades que eu prezo é a lealdade. Nessa entrevista [de Dirceu à Folha, publicada em 20/4], o Zé diz que dedicou a vida dele ao Lula. Como é que o Lula deixa isso acontecer? E sentiu necessidade de me explicar, o que é meio bizarro.

Você conta no livro a tortura que sofreu na ditadura militar. Isso assombrou você por muito tempo? 

Porra, muito, até 1977. Agora não mais. É muito difícil.

Como você viu o deputado Jair Bolsonaro falando o nome do coronel Brilhante Ustra, durante o impeachment? Ou os pedidos de volta do regime militar? 
Fiquei muito chocado. Acho que torturador não tem perdão. Passei a ser membro da Anistia Internacional por causa disso. É um crime hediondo.

Você também menciona suas passagens pelo hospício, quando não tinha problema psiquiátrico algum. Fernando Morais, contudo, levantou a suspeita de um episódio que pode ter natureza psiquiátrica na sua vida: quando você teve um pensamento suicida, desistiu e, ouvindo o Anjo da Morte dizer que não podia ir embora de mãos vazias, resolveu sacrificar uma cabra do vizinho. 
Isso era uma peça do conde de Lautréamont, que o Fernando confundiu.

Afinal, o que é ser mago, como você se define? 
É o que eu sou. Hoje, quando eu sabia que você vinha, pensei que podia ter te levado para mostrar as habilidades e você contar no jornal [Cristina intervém: “Eu falei para você ir para a floresta naquela hora que estávamos no carro”]. É mais interessante que a feira do livro [de Genebra, em curso até o dia seguinte]. Qualquer pessoa pode desenvolver seu poder. É uma questão de disciplina. Mas isso não é nada perto da comunhão com Deus. Eu sou mago, o que posso dizer? E um bom mago.

Você postou outro dia um texto defendendo que você precisava ser estudado. Você ainda se sente ofendido com as críticas do começo da carreira? 
Postei mais pela matéria, o título quem deu foi o jornalista do Estadão.

Esse texto questiona por que, na sua nova editora, a Companhia das Letras, você passa a ser publicado num selo chamado Paralela [que é dedicado a lançamentos de cunho mais comercial]. O artigo questiona por que não o colocaram ao lado de Raduan Nassar e por que você aceitou. 
Não tinha a menor noção e continuo sem ter. Meu contato foi todo com o Matinas [Suzuki, diretor da Companhia das Letras]. E ele disse que iam me botar no selo Paralela. Isso de selo não tem nada a ver com ninguém. Que diferença isso faz? Nenhuma. Quem presta atenção em selo? Eu li [o artigo] dizer isso, mas não entendi.

Mas você faz essa separação entre literatura comercial e ficção literária?
Quem faz é o crítico. Vamos ser bem claros: não há críticos. Você fala para 15 mil pessoas [na coluna Painel das Letras] que leem isso, aquilo e aquilo outro. A panelinha valoriza o crítico de uma maneira… Eu já teria sido destruído se tivesse necessidade de agradar crítico. Mas, voltando ao mago, como você conta no jornal coisas em que você não acredita?

Eu apenas relato como você disser. 
Vou te contar então. Eu estava fazendo um caminho baseado em sonhos. Todo dia eu sonhava e tinha que cumprir. [O sonho dizia] vai para um ponto de ônibus, e eu ia. Não acontecia nada.

Aí um dia eu estou voltando de uma montanha, dirigindo e —pumba!— sinto uma presença ao meu lado que não quero nem olhar. Ela diz: “Ah, você quer ser famoso? Você sabe o que é ser famoso?”.

E começou a descrever tudo. Eu levei um susto, achei que ser famoso era todo mundo gostar de você. A presença disse: “Você tem que decidir amanhã. Você vai sonhar onde vamos nos encontrar e me dá uma resposta”.
Sonhei com uma montanha e um teleférico. No dia seguinte, fui lá. Na hora H, a presença se mostrou. “Decidiu?” Disse que eu queria pedir um favor, pedi mais três anos para decidir. “Volto aqui em 27 de setembro de 1992 e faço um compromisso.”
Quando voltei para o Brasil, “Brida” saiu em 1990, e a porrada veio. Antes eu tinha vendido muito, mas ninguém me conhecia. Eu me lembrava da presença e ria. Não levei a sério [as críticas] e não levo. Eu já sabia que isso ia acontecer.
Voltei em 1992 e assumi o compromisso. Para o resto da vida.
[Cristina: “Quando você me contou essa visão, é tão milagrosa, essa do anjo…”] Eu nem falei em anjo, falei em criatura.

Deus
O maior número de ocorrências, 16 a cada 1.000 palavras, é em “Maktub” (1994). O título do livro significa “estava escrito” e é o mesmo da coluna que o escritor manteve na Folha ao longo de um ano, com textos reunidos no volume.

Magia
A maior ocorrência é —coerentemente— em “O Diário de um Mago” (1987). São 11 menções a cada 1.000 palavras.


Para um autor associado a aspectos místicos, aparece relativamente pouco —quando muito, 2 menções a cada 1.000 palavras

Anjo
Em “As Valkírias”, aparece 17 vezes a cada 1.000 palavras. Fácil de entender: no livro de 1992, Paulo, o próprio, se dedica a tentar conversar com seu anjo da guarda. Para isso, passa, como Cristo, 40 dias num deserto —no caso, o do Mojave.

Deus e anjo
As palavras têm suas segundas maiores ocorrências no livro “O Monte Cinco”. “Deus” aparece 14 vezes a cada 1.000 palavras na obra. Natural. O protagonista da obra é o profeta Elias —profetas, diz a tradição, se comunicam com Deus. “Anjo” aparece 6 vezes a cada 1.000 palavras na obra —anjos são emissários de Deus.

7 livros leves e divertidos para devorar na beira da praia

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Veja nossa seleção de leituras para você curtir enquanto coloca o bronzeado em dia

Geiza Martins, na Revista Glamour

Como escreveu Fernando Pessoa, “ler é sonhar pela mão de outrem”. E nada como aproveitar a tranquilidade das férias de verão para embarcar em um sonho literário e divertido, né? Para provar que a nossa literatura não tem somente histórias massudas, buscamos 7 livros escritos por autoras brasileiras contemporâneas para renovar a sua cabeceira e a sua bolsa de praia!

Jeanne Damas (Foto: Instagram/Reprodução)

O mais bacana é que, por viverem na mesma época e no mesmo país que nós, elas abordam temas que estamos acostumados a vivenciar. Ou seja, a sensação de empatia é garantida. Vem ver (e devorar) em clima de #MulherBacanaLê!

“Depois a Louca Sou Eu”, de Tati Bernardi (Editora Companhia Das Letras)

Rir de si mesma é o melhor remédio para enfrentar essa coisa nada fácil chamada vida. Neste livro, Tati Bernardi escreve crônicas confessionais sobre ansiedade, crise de pânico, remédios tarja-preta e tudo o mais. Seria triste, se não fosse o seu estilo escrachado e ágil, que já é velho conhecido nosso. Tanto é que os textos têm uma pitada de humor que leva muita gente às gargalhadas e gera muita empatia, claro.

“Surtando”, de Gika Mendonça (Amazon Kindle)

Gika Mendonça vem ganhando leitores adeptos de e-books por suas crônicas – na mesma plataforma, ela já escreveu “O Guarda-Chuva Vermelho”. Aqui, a escritora fala, de forma leve, sobre os devaneios de ser uma mulher trintona, solteira e sem filhos. As 17 crônicas se passam no Rio de Janeiro e falam sofrência, relacionamentos e recomeços. Algumas leitoras podem achar o assunto muito clichê, outras podem se identificar com os pensamentos de Gika.

“Morri por educação”, de Nathalie Lourenço ( Editora Oito e Meio)

Se você curte tragicomédia (mistura de acontecimentos trágicos e risíveis), aqui está um livro de contos que foge do clichê. As mãos ágeis da escritora estreante Natalhie Lourenço nos levam por histórias com temas pesados, mas cheias de situações que, de tão inusitadas, despertam riso e choro. Assim como a autora, os personagens pensam de forma inesperada. São 17 histórias curtas contadas em uma linguagem gostosa e atualíssima.

“Breve passeio pela História do Homem”, de Ivana Arruda Leite (Editora Reformatório)

Recém-saído da gráfica, o romance da experiente e celebrada Ivana Arruda Leite chega para ampliar nossas personagens brasileiras fortes e, por que não dizer, atrevidas? A protagonista é Lena, uma viúva de 75 anos que ocupa a vida fazendo cursos e se diz “uma macaca velha de bom humor”. De forma irreverente, Ivana escreve sobre velhice, evolução e estupidez humana. Eis uma viagem para rir, mas também matutar da galhofa que envolve nós, a humanidade.

“Trinta e Oito e Meio”, de Maria Ribeiro (Editora Língua Geral)

A atriz Maria Ribeiro tem o costume de escrever cartas para amigos e desconhecidos, mas nunca as envia. Agora, elas estão reunidas em um livro de crônicas, cheio de reflexões, desabafos e também senso de humor e desconstração. Vale para quem é fã de Maria Ribeiro, ou para quem quer conhecê-la melhor, pois a atriz se coloca de corpo e alma nesses textos. Detalhe: o livro ainda traz ilustrações da ex-estilista Rita Wainer.

“Frango Ensopado da Minha Mãe”, de Nina Horta (Companhia das Letras)

Ainda não conhece as crônicas de Nina Horta? Saiba que elas são apaixonantes. Nina é considerada a grande cronista da gastronomia brasileira. Isso porque quando ela escreve sobre cozinha, na verdade ela fala de uma vida sem esnobismos. Seus textos reúnem quitutes e memórias. Não à toa, o livro foi vencedor do Prêmio Jabuti de Gastronomia de 2016. Recomendadíssimo!

“Calcinha no Varal”, de Sabina Anzuategui (Companhia das Letras)

Esse é um romance profundo que os leitores tendem a devorar. Lançado em 2005 e escrito por Sabina Anzuategui, o livro fala de juventude e amadurecimento, mas principalmente sobre a busca da identidade. Narrado em primeira pessoa (é bastante coloquial), tem como protagonista a universitária Juliana, que vive o primeiro ano na faculdade e passa por situações típicas dessa época, como o primeiro namorado, drogas, gravidez… O romance foi comparado com o clássico “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva.

Faltou pouco para passar no vestibular? Planejamento e leitura são fundamentais para sucesso nos estudos

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Publicado no O Diário

Preparar-se com antecedência para os vestibulares é fundamental para obter sucesso e a tão sonhada vaga na universidade. Que tal aproveitar o início do ano para elaborar um cronograma de estudos? Seguir esta primeira dica é um passo importante para conseguir bons resultados. É o que afirma Mariana Bruno Chaves, especialista em literatura infantil e gerente de desenvolvimento de material didático de Língua Pátria do Kumon, maior franquia de educação do país.

Mariana ressalta que estudar um pouco todos os dias, sempre no mesmo horário, e focar na leitura, independentemente do assunto, também são pontos importantes. “Para conseguir se desenvolver e aprimorar sua capacidade linguística, o candidato precisa estudar em um ambiente que estimule a concentração e também criar alguns hábitos e rotinas”, completa a profissional.

“Tanto para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), quanto para os vestibulares das mais conceituadas universidades do país, como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre outros, exigem que o candidato saiba administrar o tempo e a ansiedade para realizar uma boa prova”, diz Mariana.

Colocar em prática os ensinamentos da profissional pode ajudar nos enunciados dos exercícios, na narração de feitos históricos, nas descrições dos textos de geografia e química, que deixarão de ser “monstros enigmáticos” e se tornarão textos que poderão ser “decifrados” facilmente. “Os benefícios da leitura não se restringem somente aos estudos de língua portuguesa, pois levam o estudante a um universo de descobertas e aprendizagem por todas as áreas do conhecimento”, completa.

Com o grande número de candidatos, a redação do ENEM acaba sendo uma grande peneira, e somente os mais preparados conseguem a pontuação mínima desejada. Este ano, apenas 53 estudantes tiraram a nota máxima (1.000 pontos), e mais de 300 mil zeraram na redação. O número de participantes que conseguiram nota máxima, comparado com o ano de 2014, teve uma queda de quase 80%.

A estudante Clarissa Gosling Rancura Ribas Chaves, de Vila Velha/ES, ainda está comemorando o sucesso obtido no ENEM. Ela obteve 960 pontos na redação, o que lhe rendeu uma vaga para o curso de enfermagem, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Estudante do Kumon desde os 6 anos de idade, ela frequenta as disciplinas de português, matemática e inglês. “Todo o aprendizado me ajudou muito na parte objetiva da prova, pois é necessário muita concentração e raciocínio rápido. Como o tempo de prova é o curto, é importante aproveitar cada segundo. Antes de entrar para o Kumon, eu notava que esses eram meus pontos fracos”, diz Clarissa que, mesmo aprovada, optou por estudar mais um ano para conseguir entrar no curso de Medicina.

Confira mais dicas elaboradas pela especialista:

1. Reservar um tempo do dia para ler – Uma das maiores dificuldades de quem precisa ler muito é a falta de concentração. Seguir esta dica fará com que o estudante assimile com mais facilidade o conteúdo.

2. Ler o texto em voz alta sempre que sentir dificuldade – Essa prática auxilia muito na compreensão textual, já que, quando lemos em voz alta, não apenas decodificamos as letras visualmente, mas também escutamos aquilo que está sendo decodificado, podendo, assim, verificar o sentido do que está escrito ao mesmo tempo em que aguçamos nossa percepção. “Não é possível fazer isso nas provas, mas essa prática ajuda na compreensão durante os estudos”.

3. Ler primeiro os enunciados para saber o que está sendo pedido – Parece besteira, mas não saber o que pede a questão é um erro comum. Por isso, é preciso ler os enunciados e as alternativas com atenção, buscando fazer as possíveis conexões.

4. Durante o estudo, fazer anotações, paráfrases e comentários – Para conseguir compreender um texto, é recomendável fazer uma paráfrase, que nada mais é do que uma explicação ou uma nova apresentação do conteúdo, seguindo as ideias do autor. Comece sublinhando as ideias principais, selecione as palavras-chave que identificar no texto e, se precisar, desenhe o esqueleto do texto em tópicos ou em pequenas frases. Você pode usar setinhas, canetas coloridas para diferenciar as palavras do seu esquema. Depois de encontrar as ideias ou palavras básicas, reescreva o texto de acordo com seu entendimento, expressando sua opinião sobre o tema.

5. Procurar informações extras sobre os textos, livros ou matérias estudadas – Complementar com informações adicionais o material de estudo também auxilia na absorção do conteúdo que está sendo visto. Na Internet, grupos de estudos e páginas dedicadas aos vestibulandos, contém dicas de onde buscar esses materiais.

6. Ao ler os textos, ficar atento às ilustrações – Além de ajudar a formar a imagem do que está sendo lido, as ilustrações complementam o entendimento do texto.

7. Leia bastante, procure livros com assuntos preferidos, inclusive revistas e gibis – O estudante que desenvolve sua habilidade de leitura adquire um vocabulário mais amplo, tem mais facilidade em compreender os elementos textuais e, assim, consegue aplicar esse conhecimento em todos os tipos de textos.

8. Treinar fazendo muitas redações durante o ano pode garantir uma boa nota na redação – Quem lê bem escreve bem. Para redigir boas redações, não basta conhecer as técnicas de escrita, é preciso demonstrar que domina o conteúdo acerca do tema proposto. Portanto, é importante atualizar-se durante todo o ano, estar atento aos assuntos, notícias, pesquisas e temáticas da sociedade atual. Para isso, uma boa dica é ler jornais, sites de notícias nacionais e internacionais, ficar de olho nos lançamentos de livros, nos profissionais, cientistas e pesquisadores que estão se destacando, por exemplo. Com isso, ao menos uma vez por semana, é possível escolher um dos temas e escrever sobre ele.

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