Anita Raja, a mulher por detrás do pseudónimo Elena Ferrante

Anita Raja, a mulher por detrás do pseudônimo Elena Ferrante

 

A escritora Elena Ferrante, que nunca aceitou revelar a sua identidade, pode ter visto o seu anonimato desfeito. O jornalista italiano Claudio Gatti garante que descobriu o verdadeiro nome da autora.

João Francisco Gomes, no Observador

A misteriosa escritora italiana Elena Ferrante, autora da tetralogia A Amiga Genial, de quem nunca se viu uma fotografia ou se soube o verdadeiro nome, pode agora ter visto a sua identidade revelada. Apesar de ter dado várias entrevistas nos últimos anos — todas por escrito, e através da mediação da Edizione e/o, a editora que publica os seus livros –, Ferrante sempre preferiu o anonimato para poder escrever em liberdade. Agora, num artigo publicado na The New York Review of Books, o jornalista italiano Claudio Gatti garante que a verdadeira identidade de Elena Ferrante é Anita Raja, uma tradutora ligada à editora que publica os livros da escritora.

De acordo com Gatti, Anita Raja trabalhou durante anos como tradutora de literatura alemã para a Edizione e/o, e chegou a coordenar uma coleção que incluiu obras de Ferrante. Um porta-voz da editora explicou ao jornalista italiano que a tradutora trabalhava como freelancer, não sendo funcionária da casa. N0 entanto, Gatti teve acesso aos registos dos pagamentos feitos pela editora a Anita Raja, que terão aumentado exponencialmente ao longo dos últimos anos, correspondendo aos lançamentos de sucesso dos livros de Ferrante.

Registos imobiliários consultados pelo jornalista italiano mostram que em 2000, depois da adaptação ao cinema do primeiro livro de Ferrante, Anita Raja comprou um apartamento de luxo em Roma. Um ano depois, comprou uma casa de campo na Toscânia. Já depois do sucesso comercial dos romances de Ferrante, que só chegou em 2014 e 2015 quando os livros foram traduzidos para dezenas de línguas e vendidos em vários países, o marido de Raja, Domenico Starnone (que, aliás, tinha sido apontado como um dos possíveis nomes por detrás do pseudónimo de Ferrante), comprou um apartamento em Roma, avaliado em cerca de dois milhões de dólares.

Já em relação aos rendimentos de Raja, referidos pelo jornalista italiano, parecem estar diretamente relacionados com o sucesso das obras de Ferrante. Em 2014, os rendimentos da tradutora subiram 65% em relação ao ano anterior, ultrapassando os três milhões de euros. No ano seguinte, a subida foi de 150%, passando dos 7,5 milhões de euros. De acordo com Claudio Gatti, a editora não teve, nesses anos, outros bestsellers de sucesso comparável com os de Ferrante. Além de estes valores não se enquadram com os pagamentos habitualmente feitos aos tradutores, e correspondem aos direitos de autor arrecadados pelos livros de Ferrante naqueles anos.

Nem Anita Raja nem o seu marido, Domenico Starnone, responderam aos pedidos do jornalista italiano para confirmar a história. Sandro Ferri, um dos donos da editora, disse a Gatti que “se este é um artigo que pretende fazer revelações sobre a identidade de Ferrante, digo-lhe desde já que não daremos respostas”.

Anita Raja, uma napolitana de 63 anos, é filha de Golda Frieda Petzenbaum, uma judia alemã, que teve de fugir para Milão em 1937 com a família. Já em Itália, após Mussolini ter entrado na Segunda Guerra Mundial, a família acabou por ser enviada para um campo de concentração. Os pais de Golda ainda conseguiram, contudo, enviar a filha para a Suíça. No fim da guerra, a mulher foi viver para Nápoles, onde conheceu um magistrado italiano, Renato Raja. Os dois tiveram Anita em 1953, e mudaram-se para a capital italiana em 1956. Desde que escreveu o primeiro romance, em 1992, que a autora nunca aceitou desfazer o seu anonimato.