Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged Thriller

A garota no trem, de Paula Hawkins

0

Cristine, no Cafeína Literária

A chamada na capa é um chamariz e tanto. Afinal, Garota exemplar, de Gillian Flynn, é um dos melhores thrillers que li nos últimos meses. E A garota no trem não decepciona. É parecido, mas é diferente e esta é uma grande vantagem, pois o inesperado da trama chega ao leitor de outra forma. E como se não bastasse a referência a Garota exemplar, George R.R. Martin (sim, ele mesmo – aquele senhor que está nos devendo os volumes finais de Game of thrones) indicou a leitura.

Todas as manhãs, Rachel toma o trem das 8:04 de Ashbury a Londres. Conhece o trajeto de cor, sabe os pontos em que o trem diminui a velocidade, e anseia pela parada num dos sinais, em que observa determinada casa e seus habitantes, um casal desconhecido a quem ela batiza de Jess e Jason. Numa das manhãs, presencia uma coisa que a faz mudar de opinião sobre a vida perfeita que ela creditou ao casal. E quando Jess é dada como desaparecida, o que Rachel viu pode se tornar relevante para entender o que aconteceu com ela.

a-garota-no-trem

Usando um recurso que virou modinha desde George R.R. Martin, o livro tem três linhas narrativas, três vozes femininas que contam a história: Rachel Watson, Jess (cujo nome verdadeiro é Megan Hipwell) e Anna Watson, atual esposa do ex-marido de Rachel. Interessante como, aparentemente, os homens – Tom Watson e Jason (na verdade, Scott Hipwell) são meros coadjuvantes na narrativa de cada uma delas.

A narração é toda em primeira pessoa, o que de imediato dá a dica de que o que é “contado” ao leitor pode não ser necessariamente o que aconteceu, mas sim a visão de cada personagem. E, levando em conta que Rachel é a que passa mais tempo narrando, é por seus olhos que acompanhamos a maioria dos fatos. Mas temos aí um problema, ou melhor, um recurso narrativo que oblitera a percepção do leitor propositalmente: o uso de um narrador não confiável. Se, em algumas obras, descobrimos apenas próximo do final que não deveríamos ter confiado no narrador, nesta, logo no início somos levados a questionar o quanto são verídicos e fidedignos os fatos que Rachel conta. Afinal, Rachel é alcóolatra e descobre-se que vem mentindo à sua amiga sobre estar desempregada há 3 meses – não é spoiler, já que está no começo da história e consta em várias sinopses. Como confiar no relato de alguém com amnésia alcoólica, se até mesmo a própria personagem duvida da veracidade de suas lembranças? Esse ingrediente a mais é o que deixa o leitor “com a pulga atrás da orelha”, sem saber direito em que se basear para montar a sequência dos fatos em sua cabeça à medida que a leitura avança.

“De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.”
(pag.144)

E não é apenas a situação atual de Rachel que a torna uma narradora pouco confiável. O ponto de vista de Anna reforça essa ideia, mesmo que – não se esqueçam – o que se lê é o que ela nos conta, da forma como ela vivenciou os fatos. Para Anna, Rachel é uma stalker que insiste em rondar e invadir sua nova vida com Tom e o bebê recém-nascido. Alguém que não consegue admitir que seu relacionamento com o ex terminou e que é incapaz de seguir em frente e deixá-los, efetivamente, em paz. E o leitor, ao se deparar com duas versões para o mesmo evento, tende a dar mais credibilidade a uma mãe de família do que a uma desempregada, mentirosa, que vive sob efeito do álcool. Dessa forma, mesmo quando Rachel começa a se recordar do que houve na noite em que Megan desapareceu, o quanto disso pode ser levado em consideração?

paula-hawkins

Paula Hawkins

Por fim, há a narrativa de Megan que, aos poucos, vai revelando ao leitor detalhes importantes sobre os eventos. Detalhes que tanto complementam o que Rachel presenciou de longe, da janela do trem, como revelam fatos desconhecidos tanto de Anna quanto de Rachel. Fatos que conduzem o leitor a conclusões totalmente diversas das que ele tira inicialmente sobre o que pode ter ocorrido a Megan.

É interessante notar que, a princípio, as vozes narrativas parecem muito semelhantes – algo que me incomodou um pouco, afinal as personagens são bem diferentes entre si. Mas, aos poucos, o estilo vai se modificando, se moldando à personalidade delas, de forma que em dado momento é possível saber quem é mesmo sem ter lido a identificação no início do capítulo.

Apesar de o texto de Hawkins não ser tão envolvente quanto o de Flynn, ela cria a necessidade de continuar lendo entrelaçando os fatos com engenhosidade. Conduzindo o leitor habilmente e induzindo-o a querer encaixar a próxima peça do quebra-cabeça o mais rápido possível. Apesar de as reviravoltas no enredo não serem tão intensas ou surpreendentes quanto em Garota exemplar – algumas são, mas a maioria a gente quase “vê chegando” mesmo que não conscientemente – a autora consegue manter o ritmo da narrativa mesmo em trechos mais amenos que, aparentemente, não agregam muito à trama. Digo aparentemente, pois Hawkins faz um bom uso do recurso de “pista/recompensa” – aquele detalhe que nos parece insignificante e às vezes até desnecessário, mas que capítulos adiante adquire todo um novo significado ao ser inserido em outro contexto.

Enfim, quem resolver ler por ter gostado de Garota exemplar não vai se arrepender. E tomara que a transposição do livro para a tela também seja tão eficiente, quanto foi com o livro de Gillian Flynn.

Vale um capuccino

Resenha: O Manuscrito

0

Karen, no Por essas páginas

Falou em thriller eu já quero ler! Por isso, quando vi O Manuscrito na lista de lançamentos da Editora Arqueiro sabia que precisava lê-lo. A sinopse, a capa, a chamada do livro, tudo é tão urgente. E, assim que o livro chegou, comecei a lê-lo com a mesma urgência. No entanto, apesar de consistente e bem escrito, o suspense não foi tão empolgante quanto pensei. Um tanto previsível e bastante descritivo, O Manuscrito poderia ter sido ótimo, mas foi apenas bom.

o-manuscrito“Não existe no mundo uma única pessoa que possa comprovar tudo o que está nestas páginas. Mas há uma pessoa que pode chegar perto disso. Há outras pessoas que poderiam, se devidamente motivadas, confirmar certos fatos. Talvez este livro seja a motivação para essas testemunhas, um impulso para revelarem suas verdades, para comprovarem esta história. Mas o autor não é uma dessas possíveis testemunhas. Porque, se o que você está lendo for um livro concluído, impresso, encadernado e distribuído para o mundo, é quase certo que eu já esteja morto.” Fonte

O Manuscrito tem uma peculiaridade interessante em relação aos demais thrillers que eu li; enquanto a maioria começa lenta e então acelera à medida que as páginas avançam, tornando-se enlouquecedores próximos do final, esse livro simplesmente faz o contrário. A leitura estava muito mais empolgante no início e, mais ou menos do meio para o final, tornou-se um tanto cansativa. E eu só ficava pensando: mas como, como assim, eu deveria estar louca para chegar ao final!

Um original de uma biografia polêmica chega às mãos de uma agente literária. O manuscrito, se publicado, acabará com a carreira de um figurão empresário e potencialmente destruirá sua empresa. É a partir dessa premissa que o livro se baseia, e então acompanhamos o desenrolar dos fatos desencadeados por isso. A agente, Isabel, fica alucinada pelo original e o oferece ao seu editor mais confiável, Jeff, e aí vocês já sabem: é claro que o manuscrito deixa de ser segredo. Várias cópias são feitas, todo mundo querendo um quinhão do sucesso. Ao mesmo tempo acompanhamos a perseguição alucinante aos manuscritos, com o lado dos “vilões” – mas na verdade ninguém é mocinho ou vilão por aqui -, que tentam destruir os originais a todo custo. Em meio a tudo isso, ainda temos partes do manuscrito dentro do livro, com a história do tal figurão, Charlie Wolfe.

o-manuscrito-capa

O grande ponto positivo desse livro talvez seja, além da originalidade da trama, os vários pontos de vista, até mesmo dos personagens mais perigosos do livro, que estão à caça do manuscrito. Ao mesmo tempo que temos a visão dos gatos, temos as dos ratos, e o livro se divide em trechos da adrenalina da fuga e da perseguição. Cada personagem tem seu próprio background, estão longe de meros figurantes na história; mas, como todos estão em perigo, cuidado, não se apegue a ninguém! Porém, ao mesmo tempo, essa qualidade pode se voltar contra a narrativa, que ficou excessivamente dividida e com muitos personagens. É difícil se lembrar de todos, é difícil se apegar a todos – ou à maioria.

Mas o maior pecado para mim nesse livro foi a sua previsibilidade. Desde o início já descobri uma porção de coisas – e quando cheguei ao final, percebi que estava correta em todas! O maior mistério que se sustentou na minha leitura foi algo não tão impactante e, mesmo ele, descobri cerca de 50 páginas antes do final, portanto, não foi assim uma grande revelação. No final, nada me surpreendeu. E o pior é que eram tramas inteligentes, que poderiam sim surpreender, mas o autor pecou na montagem das peças de sua narrativa, contando fatos importantes logo no início, o que prejudicou a leitura. Além disso, há trechos excessivamente descritivos, que tornaram tudo ainda mais cansativo.

A edição da Arqueiro está competente como sempre, e gostei bastante da capa, achei que teve tudo a ver com a história e foi bastante instigante. No final, o saldo da leitura de O Manuscrito foi positivo – há trechos definitivamente tensos, com sequências de ação angustiantes, mas o todo o mistério foi decepcionante. Diverte, mas não surpreende.

Ficha Técnica
Título: O Manuscrito
Autor: Chris Pavone
Editora: Arqueiro
Páginas: 336
Avaliação:

Suicidas, de Raphael Montes

0

Cristine, no Cafeína Literária

Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca – aparentemente sem problemas – a participar de uma roleta-russa? Um ano depois do trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender o que realmente aconteceu, e os motivos que levaram seus filhos a cometerem suicídio. Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, as mães são submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte de seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo maior começa a se revelar.
fonte: www.benvira.com.br

suicidas-capa

Há tempos esta resenha está em modo rascunho. E sempre, por um motivo ou outro, acabava ficando para depois. Desde que comecei a escrevê-la, Raphael Montes já publicou mais um livro – Dias Perfeitos, de que eu talvez fale em algum outro post -, já vendeu direitos de seus dois livros para ‘virarem’ filmes, já lançou seus livros em diversas outras praças e países. E, além disso, comprovando seu pendor para a escrita policial, Dias Perfeitos recebeu chancela de um dos maiores autores policiais da atualidade, Scott Turow. Talvez por isso, e por inúmeros outros sites e blogs já terem falado a respeito, eu fui procrastinando a escrita da resenha.

Ler e resenhar um YA policial – Jack, estripador em Nova York – reavivou a vontade de escrever sobre outro thriller que me fez algumas vezes perder a hora de ir dormir. Leitores inveterados sabem o quanto isso é agradável e o quanto é um indício forte de que a leitura vale muito a pena.

Utilizando-se de um artifício que George R.R. Martin usa e abusa nas Crônicas de gelo e fogo, o livro tem três linhas narrativas que se alternam. Uma delas não é exatamente uma linha narrativa, são as anotações feitas por um dos personagens, Alessandro, em primeira pessoa, como em um diário. Outra acompanha a turma de jovens nos dias que antecederam ao atráfico evento. E a terceira, um ano depois, acompanha as mães dos jovens durante a leituras das anotações de Alessandro. É um recurso que, bem utilizado, causa o suspense necessário para incutir no leitor uma necessidade premente de continuar a leitura.

Há que se relevar o fato de que a obra é o primeiro livro publicado pelo autor. E, sendo assim, há alguns detalhes que poderiam ter sido melhor trabalhados. Não chegam a prejudicar a leitura, nem a apreciação da obra, mas incomodam em alguns momentos. Um deles é a narrativa de Alessandro. Enquanto atem-se ao formato de diário, discorrendo sobre seu cotidiano na escola e com os amigos, está ok. O problema está quando passa a ser a transcrição dos acontecimentos em tempo real. Convenhamos, não faz muito sentido que em momentos de tensão extrema, como os vividos no porão da Cyrille’s House, alguém continue relatando calmamente por escrito o que está ocorrendo. Talvez funcionasse melhor se fosse uma gravação, em vez de anotações.

raphael-montes

Raphael Montes
(foto: diariodigital.sapo.pt/)

Outro problema talvez não fique tão perceptível, caso o leitor não seja um “habitué” de romances policiais. O desfecho talvez se apresente como surpreendente para a maioria dos leitores. Mas para os veteranos, a surpresa nem é tão grande assim. Possivelmente, faltando um terço ou mais para o final do livro, mata-se a charada. A exemplo de muitos livros famosos de mistério, o ocorrido é um típico exemplo do “mistério do quarto fechado”, um clássico howdunit (leia mais aqui). É um recurso tão recorrente na literatura policial que chegou a ser objeto de estudo, gerando um livro sobre o assunto – Locked Room Murders, de Robert Adey. Nele, Adey lista 20 formas possíveis de cometer um crime de quarto fechado. E, leitores inveterados, mesmo não tendo parado para listá-las, certamente conseguem identificar a solução rapidamente. Apesar de o final conseguir desviar do clichê total, é isso que acontece em Suicidas.

Montes é bastante habilidoso com as palavras e na construção de personagens. Se, no início, os nove jovens parecem variações sobre o mesmo tema, com linguajar e atitudes similares, vão se diferenciando à medida que a trama avança. Eventualmente, ocorre algum deslize, mas no geral, são todos bem estruturados e se desenvolvem bem no decorrer da narrativa. Incomoda um pouco a forma superficial com que os personagens secundários são abordados, quase como estereótipos. Mas não chega a atrapalhar a fluidez da leitura. A narrativa em primeira pessoa revela-se uma boa escolha, já que a intenção não é revelar todos os fatos ao leitores e deixá-lo tão às escuras quanto os demais personagens.

Sendo sua obra de estreia, há muito a se elogiar. E, quem já leu seu segundo livro, percebe nitidamente a evolução da escrita e da concisão da narrativa. Mesmo tendo detestado o final de Dias perfeitos, é inegável o progresso do autor. E que venham outros! O mote do próximo é bem promissor, veja na entrevista que o autor deu ao Jô.

Vale um capuccino

Scott Turow: ‘A Amazon quer tirar as editoras do mercado’

0

1

Meire Kusumoto, na Veja

O escritor americano Scott Turow, no Brasil para participar do Pauliceia Literária, evento da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp) que teve início nesta quinta e segue até domingo na capital paulista, divide a vida e a carreira entre dois mundos que, com muita frequência, se encontram: o direito e a literatura. Advogado formado em 1970 pela Amherst College, em Massachusetts, e atuante como tal, publicou seu primeiro romance, Acima de Qualquer Suspeita (Record), em 1987, pelo qual alcançou reconhecimento e foi considerado o criador de um gênero novo, o thriller jurídico, em que o tribunal de justiça é o principal cenário de acusações e reviravoltas.

Além de usar o conhecimento prático da profissão para construir suas histórias, Turow também usa o direito para defender seus colegas escritores no que ele chama de “ambiente de guerra”, em que o Google e a Amazon são os principais inimigos, atacados pelo escritor em um artigo publicado no jornal americano The New York Times em abril. “A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor”, disse em entrevista ao blog VEJA Meus Livros. Para ele, autor de onze livros – que venderam 30 milhões de cópias no mundo – e presidente do Sindicato Americano de Autores, as políticas agressivas de redução de preços de livros praticadas pela Amazon e as tentativas do gigante de buscas de digitalizar bibliotecas inteiras não deveriam ser aceitas pela justiça, já que colocam a sobrevivência dos autores em risco.

Apesar do embate contra as gigantes da internet, Turow é adepto da tecnologia e diz levar um iPad durante as viagens que faz, por questão de praticidade. “Eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira”, afirmou. Mas, coerente, não compra livros da Amazon por acreditar que a empresa pode ser o agente exterminador do modo de publicação tradicional. “Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam, negócio que rende à Amazon 30% dos lucros de venda da obra. O risco que vejo é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores.”

Scott Turow participa do Pauliceia Literária na mesa “Advogado, profissão: escritor”, nesta sexta-feira, às 19h, com mediação do jornalista Arthur Dapieve. Confira a entrevista do escritor.

Em 2011, você deu uma entrevista durante a sua passagem pela Bienal do Livro do Rio em que afirmou que o advogado Rusty Sabich era seu alter-ego. Você disse que não sabia se ele seria feliz eventualmente porque, talvez, você mesmo não soubesse como ser feliz. Isso mudou com o tempo? (Risos) É tão engraçado, minha namorada me faz essa pergunta o tempo todo, coisas do tipo: “Você aguenta ser feliz?”. Acho que a resposta é sim, é a recompensa por envelhecer.

Sabich voltará em breve em um de seus livros? Ele precisa aparecer mais alguma vez para ser feliz, também. Mas eu preciso de mais experiência sendo feliz para escrever essa história.

Nos seus livros, você mostra como a justiça pode ser falha. Foi algo que observou na prática do direito? A justiça não é perfeita e escrevi sobre como a lei, mesmo com seu propósito nobre, nem sempre é seguida.

No artigo The Slow Death of the American Author, publicado no jornal The New York Times, você diz que o valor dos direitos autorais está sendo depreciado. Podemos responsabilizar somente o mercado digital por isso? A revolução digital criou um ambiente de guerra de todos contra todos, em que muitos aliados tradicionais já não são mais aliados, como editores e autores, livrarias e autores. Um está no pescoço do outro, todos viraram competidores. As editoras querem pagar valores menores de royalties para autores por e-books. Escritores acadêmicos cujos livros não vendem defendem um mundo em que os livros são gratuitos porque eles são sustentados por universidades. E também temos forças novas, como Amazon e Google, que têm modelos diferentes para o funcionamento do mundo editorial. O Google quer copiar o conteúdo das bibliotecas das principais universidades e depois disponibilizar on-line para buscas, com o risco tremendo de que essa biblioteca seja hackeada. Para mim, o mais ridículo e injusto é que eles querem fazer uso comercial dos trabalhos de autores, lucrando em cima disso. A Amazon quer tirar as editoras do mercado e ser a única ponte entre o autor e o leitor. Eles defendem um modelo em que todos os escritores se autopublicam usando a plataforma da Amazon, negócio que rende à empresa 30% dos lucros de venda da obra. Além de tudo, há o problema muito sério dos livros piratas, distribuídos em vários sites. Meus livros foram pirateados depois de uma semana de publicação e estão sendo distribuídos gratuitamente na internet por sites sustentados por anúncios publicitários. Nem os anunciantes nem os mecanismos de busca que levam as pessoas a essas páginas são punidos por isso.

Você não acha que a autopublicação foi benéfica para novos autores? Os e-books e a Amazon não ajudaram nesse sentido? É ótimo para novos escritores, fico feliz que as dificuldades para entrar no mercado editorial tenham diminuído. Nos Estados Unidos, é difícil publicar um livro por uma editora, então é uma coisa boa que as pessoas consigam vender seu trabalho na Amazon. Não sou contra isso nem um pouco. Meu medo, no entanto, é que a Amazon use o modelo de autopublicação para todos os autores e tire as editoras da jogada. Vários executivos de editoras acreditam que esse é o objetivo da Amazon.

Como você vê o futuro do mercado editorial e de autores, nesse cenário? Sempre vão existir leitores, livros e novos autores. O risco é de que, quando a Amazon tiver efetivo controle do mercado, ela pague cada vez menos a autores para vender livros por preços menores para os consumidores. Vai ser cada vez mais difícil para autores que não os mais famosos ganhar a vida fazendo literatura. Muitos vão sumir em meio aos milhares de livros da Amazon. Com isso, a cultura literária americana será prejudicada, vai haver menos vozes. Essa não é a visão que os fundadores da nação tinham quando eles estabeleceram as regras de direitos autorais, criadas para a proteção do trabalho de um autor.

Você tem um leitor de livros eletrônicos? Tenho um iPad. Leio a maior parte dos meus livros no iPad, tenho três romances carregados no leitor e outros cinco guias turísticos por causa da viagem ao Brasil. É muito mais fácil viajar com o iPad, eu não considero o papel sagrado, mas as palavras e o texto, sim. Geralmente eu compro o livro digital e o físico, porque uma vez que você termina o e-book, não há nada para você colocar na prateleira. Você se cerca do status físico do livro, o que você leu é uma forma de lembrar quem você é. Eu não acho a experiência de leitura diferente, mas a experiência de vida diferente. Eu não sou contra a tecnologia, amo meu iPad, eu escrevo com o auxílio dele, faço compras com ele. Faço compras na Amazon! Compro coisas como a tigela do cachorro e brinquedos para o meu neto, mas não livros. Também não acredito em visitar lojas físicas e depois comprar os produtos na Amazon, os vendedores fizeram um investimento ao comprar e exibir aquilo. Mas os americanos, especialmente, são muito sensíveis ao preço, parece que é a única coisa que importa.

Qual a sua sugestão para proteger autores e editoras? Eu gostaria que as leis mudassem, que as pessoas que anunciam em sites piratas e que mecanismos de buscas que dão link para sites piratas pudessem ser responsabilizados pelo que fazem. É o mesmo quando alguém diz onde comprar heroína, ele está ajudando a vender a droga. É o sistema louco em que as empresas de internet encontraram uma forma de suspender nossas noções legais para benefício próprio.

O que você pode falar sobre seu novo romance, Identical? Vai ser publicado nos Estados Unidos no mês que vem e no Brasil em março (com o título Idênticos, pela Record). A história é sobre gêmeos idênticos, assunto que sempre me fascinou, mal consigo imaginar como é ter alguém idêntico a você. Minha irmã era gêmea, mas meu irmão morreu durante a infância. Como eu era criança, fiquei confuso, cheguei a pensar que, como era um irmão, um menino, ele era de certa forma meu gêmeo, não da minha irmã. O novo livro é baseado no mito de Castor e Pólux, uma releitura moderna de personagens da mitologia grega. Um irmão é um político de sucesso, que está concorrendo a prefeito, enquanto o outro irmão sai da prisão por ter matado sua namorada 25 anos antes. O irmão da vítima acusa o político de ter se envolvido no crime também.

Você está trabalhando em um novo projeto? Estou tentando escrever um livro do gênero young adult (para jovens adultos) baseado vagamente no meu relacionamento com o meu avô. Tive meu primeiro neto no ano passado e isso me fez pensar muito em meu avô. E depois vou voltar para um romance adulto que vai se passar na Corte Penal Internacional de Haia.

Mais uma semana de comemoração para a Saraiva

0

Selo Caramelo e ação promocional subiram a editora no ranking

Cassia Carrenho, no PublishNews

1Fazia tempo que não se via uma disputa tão apertada pelos primeiros lugares da lista. Com uma diferença de apenas 74 livros, Cinquenta tons de cinza (Intrínseca)- sim, parece que alguém tomou um remedinho azul – ficou a frente do surpreendente Sonho grande (Primeira Pessoa), que pulou do 9º para a 2º lugar na lista geral. A disputa foi tão grande que entre o 1º e 4º lugares a diferença foi de 310 exemplares.

Outro gol de placa foi marcado pelo livro Casagrande e seus demônios (Globo) que assumiu a liderança da tabela na lista de não ficção.

As novidades da semana foram: ficção, mais um thriller de Harlan Coben, Fique Comigo (Arqueiro) e mais um livro de Assassin’s Creed, Revelações (Galera); não ficção, Guia ilustrado Zahar de filosofia (Zahar); infanto juvenil, Brilhe estrelinha, Vai, equipe!, Voe, abelhinha! e Um dia de sol, todos da Caramelo.

No ranking das editoras o destaque continua para a Editora Saraiva, que com 10 livros do selo infantil Caramelo e 1 da Saraiva foi para a vice liderança. A editora se beneficiou também da ação promocional que fechou com a rede de Livrarias Saraiva para os produtos licenciados da Nickelodeon, que saíram pelo selo Caramelo. Acima da Saraiva, só a Sextante, com 16 títulos. Em 3º vem a Intrínseca, seguida da Ediouro e Record, com 8 cada.

Go to Top