Karla Monteiro, na Folha de S.Paulo

O escritor Amós Oz está feliz. “Plenamente satisfeito”, como ele próprio define o seu estado de espírito. Aos 75 anos, considerado a mais importante voz da literatura de Israel hoje, sempre cotado para o Prêmio Nobel de Literatura, ele quer mais é ver o circo pegar fogo.

“Muitas pessoas estão furiosas. É maravilhoso vê-las discutindo, indignadas. Estão sendo obrigadas a repensar a história”, comenta o autor à Folha, por telefone, de sua casa em Jerusalém.

O assunto em questão é o seu novo livro, “Judas” (Companhia das Letras), lançado simultaneamente em Israel e no Brasil. Na perspectiva filosófica da obra, o traidor não traiu. Judas seria o mais fiel e devotado, o primeiro e único verdadeiro cristão.

  Christian Charisius - 14.nov.2014/EFE  O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na alemanha O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na Alemanha

Christian Charisius – 14.nov.2014/EFE
O escritor israelense Amós Oz durante entrega de prêmio na alemanha

“O protagonista é obcecado por Judas. Ele questiona: A história de Judas é crível? Por que um homem rico venderia o seu mestre por 30 pratas? Se ele vendeu, por que se enforcaria na mesma noite? Por que alguém pagaria Judas para identificar Jesus, se Jesus nunca se escondeu?'”, enumera Oz.

A conclusão é, segundo o autor: “Os traidores são os que mais amam, são aqueles que estão à frente do seu tempo. Abraham Lincoln foi considerado traidor pelos americanos quando libertou os escravos. Churchill, quando desmembrou o Império Britânico. Charles De Gaulle, quando retirou os franceses da África do Sul. O time de traidores da história é glorioso.”

O cenário de “Judas”, o livro, é Jerusalém. O ano, 1959. Sob a chuva insistente de um rigoroso inverno, acontece o encontro de um velho inválido, Gershom Wald, uma mulher misteriosa, Atalia Abravanel, e o estudante Shmuel Asch –obrigado a abandonar a universidade e sua pesquisa, um tratado sobre a figura de Jesus sob a ótica dos judeus.

Vivendo sob o mesmo teto, refugiados do mundo por diferentes razões, num clima de mistério e silêncio, os três personagens protagonizam uma saga de amor ao próximo, conquistado aos poucos, no ritmo da prosa primorosa e cadenciada do escritor.

“Três pessoas reclusas, numa casa de pedra, durante um inverno maldito, com passados e ideologias distintos, começam a amar umas às outras. Este é o milagre deste livro”, explica o escritor.

A premissa de Judas, a traição, é um tema caro ao autor. O livro transita entre o romance e o ensaio, oferecendo um novo olhar para aquilo que espanta. Resgatando Judas, Oz resgata a si mesmo e desafia o conceito de traidor.

Desde a mais tenra idade, ele está no papel de Judas. Aos 14 anos, renegou o pai e foi viver num kibutz, as comunas de Israel, propriedades coletivas, regidas pelo lema da igualdade social e baseadas na produção agrícola.

“Eu me rebelei contra tudo que o meu pai representava. Ele era intelectual, decidi virar motorista de trator. Ele era acadêmico, decidi trabalhar na terra. Ele era de direita, eu me tornei de esquerda”, conta Oz. “Vivi num kibutz por mais de 30 anos. Foi onde tive meus filhos e publiquei meus primeiros oito livros.”

A vida coletiva foi, para o autor, a bênção da sua literatura: “O kibutz é uma universidade do comportamento humano. São umas 400 pessoas vivendo muito próximas. Você conhece os segredos, os medos, as fantasias de todos. Se eu tivesse dado a volta ao mundo cem vezes, saberia menos sobre a alma humana”.

Quando o assunto é o conflito entre Israel e Palestina, lá está ele de novo, Amós Oz, o traidor. Por defender a divisão do território em dois Estados distintos, é apedrejado por muitos de seus conterrâneos.

“Nunca acreditei que fosse uma guerra entre mocinhos e bandidos. É entre o certo e o certo”, diz.

“Os palestinos não têm outro lugar. Os israelenses também não. Os dois querem a mesma terra, e a terra é pequena. A paz só vai acontecer com compromisso.” Questionado sobre quando isto acontecerá, responde: “Não me peça para ser profeta numa terra de profetas”.