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Vilão, O Herói da História

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Maik Barbara, no Homo Literatus

Em tramas sempre aparecem os personagens clássicos! Hora personagem bonzinho, hora personagem malzinho. Personagens planos, e redondos. Aos autores que se dedicam a criar personagens redondos (criatura + meio em que vive + psicológico + transformação durante a trama), e acima de tudo personagens redondos maléficos, antagonistas com fortes propensões a mudarem a forma em que o leitor é atingido e mudado: a esses autores a boa sorte os acompanha, Caso tenham a destreza de tramarem uma ótima história e trabalharem bem o enredo.

Sim, esse é um tema complexo que cabe estudos mais profundos. Para tanto, se for pego a raiz da palavra antagonista teremos: antagonista: o que se opõe! Essa seria uma ótima breve conclusão para o que resume uma personagem como esta. Do grego: ἀνταγωνιστής, ou antagonistes, significando: rival, oponente, competidor, aquele ou aquilo que dificulta.

Pois bem, tomaremos então a linha de raciocínio sobre personagens de livros e filmes, ou filmes inspirados em livros, haja vista que para o jovem escritor o exemplo cinematográfico fica muito mais viável de entendimento e de fácil e rápida assimilação – bastar ver o filme se não o conhece. Entretanto há de se entender que mesmo filmes têm seus autores por trás, roteiros e ideias divisoras de águas não brotam do chão, vêm também de alguém que teve que escrever para ser lido!
Antes, no entanto, há de se questionar sobre duas questões:

1. Na literatura o antagonista seria exatamente o oposto do protagonista! Correto?
Resposta: Sim, seria.

2. Ele, portanto, seria o vilão, o malzão. O que só quer destruir, atrapalhar, fazer mal, dominar o mundo, assassinar, enfim, fazer o que é julgado “mal” pelo protagonista?
Resposta: NÃO.

Pois bem, a resposta dois é abrangente em dezenas de respostas que podem ser ponderadas, ainda mais se considerar as mudanças que a personagem pode ter durante a trama, tanto mudanças psicológicas, de convicção, físicas, entre outras. Ou até mudança de ponto de vista. Pensando da seguinte maneira, se uma personagem enxerga que a bandidagem organizada está tomando conta de um sistema corrupto de leis e policiais, o que fazer? Talvez seria o ideal quebrar o sistema econômico para que o dinheiro não valha mais como “moeda” de suborno e, sendo assim, não haveria mais como corromper o corrupto que se vende mediante suas ambições. Correto?

Talvez seja correto, mas como “quebrar” esse sistema? Vejam o exemplo que a completa personagem do Coringa dá no HQ (quadrinhos) e posteriormente em sua adaptação cinematográfica Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Um antagonista tanto na literatura quanto no cinema, artes, teatro, música, e até em medicamentos, é aquele que representa o contrário do que a personagem principal se dedica e propõe a fazer, seja em uma história, romance, peça teatral, música, ou receita farmacológica. Seja fazer o bem, o mal ou ambos (anti-herói). Isso tudo considerando o véu da perspectiva da narrativa. Ele dá o equilíbrio, o balanço exato.

Ainda, o antagonista não se resume apenas a uma pessoa, mas também pode ser definido por um grupo de pessoas, ou uma instituição, uma máquina, um animal, um objetivo, uma parte da paisagem, e até mesmo por um lugar. Ou seja, se torna aquilo que se opõe ao objetivo do protagonista.

Num breve exemplo atípico: se uma trama narra a história de um vilão – julgado assim pela sociedade –, sob o ponto de vista de tal malfeitor, aquilo que é feito e tomado como maléfico talvez não seja algo mal, ou esse mal não chegar a ser tomado pelo leitor conscientemente, todavia continua a desempenha-lo devido a algum fator externo. O publico por sua vez fará seus julgamentos e conclusões.

Já por outro lado, o antagonista da trama se tornaria o vilão, pois o protagonista da história seria o contrário e opositor dos objetivos do foco da narrativa, dessa forma aquele que faz o mal se torna o herói, ou o protagonista. Tal como no exemplo acima do Batman: O Cavaleiro das Trevas, se a trama fosse narrada a partir do ponto de vista do Coringa, ele estaria fazendo o certo julgado sob seu ponto de vista, fazendo o melhor para a cidade (sob métodos nada ortodoxos), e o Batman seria seu inimigo, seu antagonista, seu vilão.

Desconstruindo ideias!

LOCAIS

Há enredos e tramas que se passam em locais tão hostis que não é necessário encarnar um personagem para que o mal aconteça ao(s) protagonista(s).

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De certa forma, o ambiente hostil e totalmente anormal de Alice no País das Maravilhas (1ª Ed. 1865 – Charles Lutwidge Dodgson/Lewis Carroll) carrega sua carga de vilão da história narrada devido justamente ao que o autor fez quanto colocar o cenário na perspectiva da heroína e personagem principal, Alice. Sob os olhos da protagonista, acima de seu desejo de sair daquele lugar estava o medo pelo ambiente que estava, haja vista os perigos que a aguardavam a cada passo dado rumo ao desconhecido.

Em outro exemplo mais popular e de fácil visualização está a ilha do seriado televisivo chamado LOST, escrito, adaptado e dirigido por J. J. Abrams. No início, a ilha por si só já era o suficiente para ser o vilão da história.

Em O Parque dos Dinossauros, ou Jurassic Park em seu título original (1ª Ed. 1990) do autor Michael Crichton, há algumas ambições humanas envolvidas no enredo, mas a trama foca-se sobre a ilha, seus perigos mortais e, enfim, nas criaturas diversas que ali vivem. O ambiente novamente é o foco maléfico da narrativa.

GRUPO | INSTITUIÇÃO

Já em outros momentos o protagonista vê-se diante de conspirações, corrupção ideológica, politicagem internacional, interesses capitalistas, batalhas intergalácticas por dominação, entre muitos outros tipos de conflitos. Estes dos quais são frutos de um fator antagônico que pode se definir pelo interesse e ação de um grupo e não de um personagem em específico.

Nesses casos, quando um personagem desse grupo deixa de existir, o perigo, a oposição ao enredo ainda continua.

PERSONAGENS

Mas, vamos ao que a maioria dos escritores se interessa mais: ao antagonista encarnado, reto ou redondo, seja lá a forma que ele tenha!

Um antagonista tem várias características e facetas, pode seguir inúmeras vertentes, e cada um tem sua ideia de certo e/ou errado. Alguns têm a ilusão de fazerem o melhor, o bem. Mas, é analisando o tipo de sentimento que está envolvido na causa de cada objetivo que se consegue ter uma visão primaria da situação geral que se encontra o “vilão”.

Sentimentos são foco de exploração literária desde sempre, sejam em histórias contadas pelos homens das cavernas aos seus meninos das cavernas sobre os perigos do Tigres Dente-de-Sabre, incitando o medo e promovendo a autopreservação, seja pela coragem necessária para encarrar um oceano e seus perigos mortais a fim de matar uma obsessão, Moby Dick, mostrando a superação e enfrentamento pessoais.

Se egoísmo, ganância, ódio, prazer, ou qualquer outra paixão desse tipo estiver envolvido no objetivo final do personagem, logo esse sentimento se define por ser a causa, e por consequência esse “mal” desempenhado pelo antagonista seria o efeito. Simples lei da troca equivalente segundo os antigos escritos alquimisticos, ou a atual lei de causa e efeito. Claro que há também muitos outros tipos e classificações a se considerar.

Tomando ainda, por exemplo, os psicóticos como alvo de estudo: tal como o Coringa já citado anteriormente, este da nova trilogia Batman dirigida por Christopher Nolan.

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Não seria um grande problema ele ser um louco maníaco, mas o agravante é: ele é um louco maníaco com motivos, diga-se de passagem até muito interessantes e úteis se conseguirmos eliminar o olhar hipócrita da sociedade sobre seus ideais.

No filme The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas – 2008) ele apenas queria abrir os olhos dos gananciosos da cidade e desregular a economia de Gothan. Seu objetivo era dar um tapa na cara dos moradores da cidade para acordarem e tomarem alguma atitude contra a putrefação social que tudo se encaminhava. Claro que o Coringa é muito mais complexo que isso, há também o fato dele não querer matar o Batman. Sim, de fato o Coringa nunca quis matar seu inimigo, matar o Batman, mas sim DERROTÁ-LO ou até destruí-lo (por dentro). Joguetes e decisões de vida ou morte são exemplificados claramente no HQ, já no filme isso pode ser visto também, mas deve-se ter certo senso e percepção para colocar em palavras aquilo que está se vendo.

Partindo desse pressuposto, ou seja, que nem todos têm um senso crítico apurado para enxergar aquilo que vê, os livros e escritos estariam à frente dos filmes, mas apenas se o escritor fizer esse papel de colocar nas linhas lidas pelo público aquilo que ele deseja plantar na trama e objetivos do enredo. Parece uma ideia simples e lógica, mas nem sempre tão claro para o escritor em meio aos seus objetivos ao escrever o livro. Inspiração, talento, criatividade podem ser o principal, mas técnica se torna essencial.

Outro destaque que fica mais claro nos escritos do HQ que no filme é: o Coringa ainda tem um elemento maior a se destacar, ele é um agente do caos, sendo assim não precisa de motivos para fazer o que faz! Tal como em sua descrição: louco maníaco, distúrbio psicológico grave com psicopatias acentuadas.

Nesse exemplo pode-se perceber a magnitude e tamanho que o antagonista tem mediante a também magnitude e tamanho, complexidade do protagonista, ou seja, o que seria do Batman sem seu vilão.
Ou seja, o autor deu a devida atenção à intensidade e dimensão de uma personagem a fez ser ser proporcional ao seu oposto. O Batman foi moldado de uma forma a ser gigantesco em significado, inteligência, astucia e, principalmente, em simbologia. Da mesma forma não poderia ser colocado em seu caminho um antagonista medíocre, e isso não foi feito!

Partindo para outra visão, há de se questionar se existem arquétipos a serem usados na construção de um antagonista. Há sim arquétipos na psicologia que podem, e são usados na formação da personagem, mesmo inconscientemente pelo autor, o qual carrega esse fardo numa trama. Mas, esse é um extenso tema a abranger em outro post. Ou para ser lido no livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell. Diga-se de passagem, a magnitude de Darth Vader e a mitologia de Star Wars deve muito à longa consultoria feita por Campbell à George Lucas enquanto Lucas desenvolvia esse roteiro.

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Dentre os arquétipos antagônicos há os mais conhecidos, e usados, tais como: tirano, bastardo, demônio, trickster, traidor, proscrito, gênio do mal, sádico, terrorista. Cada qual com sua característica e formação clássica. Aliás, quaisquer arquétipos podem ser usados, e até combinados para a construção de uma personagem, haja vista que para ter-se um opositor às ações do protagonista, não é necessariamente uma regra que o antagonista seja mal! De fato nem todo antagonista é mal, mas de certa forma é o vilão.

O sistema de inteligência artificial Hal 9000, da série Odisseia Espacial, de Sir Arthur C. Clarke, aparecendo primeiramente em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1ª Ed. 1968), é dado como o ilustre e inusitado protagonista da história, mas ao cometer um erro no primeiro livro tudo muda, e o que segue é uma angustiante batalha entre Homem e máquina. Julgado por alguns até como antagonista.

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Na série televisiva intitulada Dexter. Apesar da trama justificar seus assassínios como ele sendo um serial-killer de serial-killers, o herói protagonista não deixa de ser um assassino em série. Mata não para livrar a sociedade de serial-killers, mas também para saciar seu próprio vício. A série é narrada do ponto de vista de Dexter.

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Portanto, na história ele é o personagem principal. Sim é! Na história ele é o protagonista. Sim é! Na história ele é bom. Não, não é. Por que não? Por que a sociedade e leis que a regem condena o ato de assassinar pessoas, não importando o tipo de pessoa.

Quem é o antagonista no seriado? Esse seria o papel da polícia, ou qualquer pessoa de bem que ameace descobrir sobre seus atos. Haja vista que a série tem sua trama sob a perspectiva do “vilão”. Portanto, em Dexter, a polícia seria ironicamente o antagonista!

ANTI-HERÓIS

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Os que mais gostamos! Fazem tudo que queríamos, da forma que queríamos e não se importando muito com as consequências.

Ainda em outro exemplo, exemplifica-se os anti-heróis.

Geralmente um tipo de personagem que pratica a “justiça” de sua própria forma e sob seu julgamento, segundo sua ideia de certo ou errado, sob métodos próprios e nada normais (para não citar justos ou corretos tal como poderia ser julgado pela sociedade), tudo baseado em motivos egoístas, pessoais, vingança ou qualquer gênero que não seja altruísta (quando as ações de um individuo beneficiam outrem). Em resumo são manipuladores, imprevisíveis, social e emocionalmente desapegados, mas acima de tudo são sinceros e não hipócritas, e esse é um dos motivos pelo qual conquistam e cativam tanto o publico: eles fazem o certo tal como muitos gostariam de fazê-lo.

Qualquer personagem que tiver em si um perfil muito bem traçado terá um resultado excepcional quanto à empatia do público aos seus escritos. Sendo assim, qualquer anti-herói é o protagonista de sua história, e do outro lado o antagonista seria quem quer o impedi-lo de fazer o que se propõe a fazer.

O Doutor House da série já encerrada que carregava o nome do protagonista é um excelente exemplo de anti-herói. Ele era um asshole – como muitos o chamavam no seriados –, um babaca, ou ao pé da letra como baixo calão um “cuzão”, todavia salva vidas aparentemente sob circunstâncias enigmáticas e impossíveis, tudo devido sua genialidade. Além de ser ótimo no que fazia. Seu defeito: subestima as pessoas, suas inteligências, emoções e profissionais à volta. Também era excessivamente acido e amargo em seus comentários. Falava o que pensava e dizia o que muitos não falariam, mas gostariam infinitamente de dizerem, se não, gritar! Sim, um babaca que todos adoram.

Esse exemplo deixa bem claro que nele era feita a projeção das vontades do publico de como gostariam de ser em certos aspectos e momentos.

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O Wolverine, personagem adorado por muitos, principalmente devido à imagem que a franquia de filmes lançados nos últimos anos o deu. Já nos HQs ele sempre foi traçado como um sem-rumos, andarilho condenado pelos outros heróis por sua selvageria, atos e instintos animalescos, sem mencionar o temperamento estourado, paciência quase zero, e garras de adamantium para arrancar o sorriso de rosto de qualquer um que o irrite… ou arrancar o rosto todo!

Alguém que resolve tudo como qualquer homem da idade do público-alvo destinada as história gostaria de resolver. Escrito e direcionado com foco, criado com objetivos e criativamente.

Outra projeção bem sucedida das vontades do publico quanto à personagem principal.

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Jack Sparrow
Ele sorri para você, mas não se iluda. Ele também pensa em te trair, extorquir, chantagear, estuprar,
e atirar a qualquer momento – não necessariamente nessa mesma ordem! Afinal de contas, ele é um pirata!

Jack Sparrow também pode ser citado. Conhecido pirata desastrado e primordial da franquia cinematográfica Piratas do Caribe. Ele é um pouco de tudo listado acima, ou seja, características de um vilão, mesmo assim os espectadores o adoram. Um trickster e traidor que revela uma personagem redonda, ou esférica, a qual muda e oscila durante toda a trama.

Ele foi quisto e a empatia aconteceu, e até detalhes importantes sobre a persona de um pirata foi esquecida mediante a destreza do escritor que fez o roteiro do filme. Ou seja, o publico se espelhou tanto e até crianças desejaram ser um pirata sem nem mesmo pensar que mesmo Jack Sparrow: saqueia, estupra, rouba, assassina, decapita, enforca, mente, engana, mata a sangue frio, extorque, iludem, ludibria, embebeda, etc.

A fama foi tanta que lhe rendeu um filme solo, o quarto da franquia. E em um ano e meio aproximadamente será lançado o quinto filme ainda mantendo Jack na trama. Uma série de livros infantis/ infanto-juvenis foi lançada sobre o jovem Jack Sparrow. O autor é Rob Kidd.

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E isso não seria o perfil de um herói, seria? Ou de alguém que merece admiração, seria?

Não é por que um personagem é engraçado que não pode ser um vilão, ou no mínimo um anti-herói.

Loki da mitologia nórdica e também destaque nos HQs e ultimamente nos filmes de ação envolvendo seu meio-irmão Thor (Loki é adotado por Odin), e até antigamente em filmes tal como a comédia O Máscara (1994) – do qual tem um objeto, uma máscara que era munida de poderes que o Deus Loki havia conferido a ela e a qualquer usuário da mesma. Ele que não deixa dúvidas, o maior trickster de todos e ainda admirado!

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Por fim, ao jovem escritor não há fórmula para se criar uma personagem, assim como para se escrever um livro. Mas sim! Existe bom senso e metodologia. Se acompanhar a série de vídeo instrutivos e para discussão no canal do Homo Literatus intitulado “A Arte de Contar Histórias por Escrito” voltado para jovens autores (e até alguns veteranos mau instruídos), verá que não basta apenas talento e criatividade, mas há a necessidade de muita teoria por trás da criação e desenvolvimento continuo do autor e escritor!

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O preponente a escritor deve pensar bem na construção de cada personagem. Eles podem se tornarem ainda maiores que a própria trama e/ou enredo. Talvez para alguns facilite usar a estratégia dos jogadores de RPG que fazem fichas onde há todas as características físicas, psicológicas, comportamentais, etc., de seus personagens. E até colocarem a descrição do tipo de personagem, reto/ linear ou redondo/esférico, sem mudanças durante a trama, ou com mudanças durante a trama, respectivamente. Ou talvez seja interessante traçar uma linha do tempo e definir como o personagem estará em cada momento do enredo, criando assim uma meia de mudanças.

Enfim, há inúmeras metodologias de criação… mas, o mais importante é: não deixe a criatividade de lado! O potencial do novo autor brasileiro é colossal e o mercado/ público vem reconhecendo-o e dando o devido valor que merece cada vez mais! A mitologia nacional é inexplorada. Um território que há ainda muito a se desbravar com enredos alocados pelas terras tupiniquins.

Sempre há um novo e original para se descobrir, criar, desconstruir e construir…

Modelo colaborativo cria novo cenário no mercado literário

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Publicado por Observatório da Imprensa

Alguma coisa está muito fora do padrão quando a maior livraria online do mundo abraça uma causa que há mais de uma década cresce às margens do mercado e à revelia de alguns de seus autores mais vendidos. Isso aconteceu duas semanas atrás, quando a Amazon estreou a plataforma Kindle Words, pela qual fãs que gostam de criar histórias baseadas em best-sellers – a chamada fan fiction, que reaproveita cenários e personagens de outros escritores – podem não só fazer isso legalmente como vender suas criações.

Para criar a plataforma, a Amazon obteve licenças de séries como Gossip Girl, de Cecily Von Ziegesar, e Pretty Little Liars, de Sara Shepard. Com isso, tramas que chegavam a ser vistas como plágio agora podem render frutos ao fã, ao escritor que o inspirou e, é claro, à livraria. Nesse cenário, o autor da história original deixa de ganhar especificamente pela venda de livros e sua obra vira uma marca, licenciada e multiplicada pelas mãos de vários outros escritores.

Esse é o recorte de um momento que o editor americano Richard Nash retrata no provocativo ensaio “Qual o negócio da literatura?”, no mais recente número da Serrote, revista do Instituto Moreira Salles, que será lançado em São Paulo neste domingo. É um cenário em que autor e editor vão além dos livros para virar produtores de cultura. “A cultura do livro não é fetichismo com o texto impresso; é o movimento da ideia e do estilo na expressão de histórias”, escreve Nash.

O texto põe em cheque o direito autoral – justo o que hoje garante a sobrevivência do mercado. Defende que esse direito não foi criado para proteger o autor, mas “nasceu de um interesse meramente corporativo”. O editor explica à Folha: “Uma parcela mínima de escritores faz dinheiro. O direito autoral existe para facilitar ao editor o retorno sobre seu investimento e impedir cópias do seu produto.” Isso num mundo analógico. No digital, defende Nash, “a receita não virá de fazer cópias, virá de serviços, palestras, produtos associados. São formas de gerar receita que independem do faturamento com vendas de livros”.

Nesse contexto, entram iniciativas como a plataforma de fan fiction da Amazon, festivais literários como a Flip e romances colaborativos, como The Silent History, um aplicativo lançado há pouco no iTunes e que permite aos leitores expandir a história.

Nash, que ganhou em 2005 um prêmio de criatividade da Associação de Editores Americanos pela editora independente Soft Skull, criou em 2011 um site que explora essas alternativas no que diz respeito ao mercado.

Com 10 mil títulos à venda, o Small Demons é uma enciclopédia de referências literárias: você acha desde uma lista de livros que abordam Bob Dylan até todos os famosos citados em Infinite Jest, de David Foster Wallace.

Fora da curva

No que diz respeito ao autor, o engenheiro de software brasileiro Silvio Meira enxerga ainda mais possibilidades.

Autor de palestra que, no Congresso do Livro Digital, em junho, lhe rendeu uma emboscada de bibliotecários (insatisfeitos com seu questionamento sobre a importância de bibliotecas físicas no futuro), Meira diz que o escritor já vive cenário multifacetado. “Conheço dezenas de escritores, mas não conheço nenhum que viva dos livros que escreve. Alguns são colunistas, outros fazem roteiros, outros atuam em editoras”, diz. Apesar disso, no centro de tudo está o livro. “Se alguém pirateia meu livro e o lê inteiro, posso acreditar que estará interessado o suficiente para ir a alguma palestra que eu vá ministrar”, exemplifica.

Para ele, os direitos autorais serão vistos no futuro como um ponto fora da curva na história da literatura.

“O autor foi criado pela prensa. Antes de Gutenberg, não existia copyright. As histórias pertenciam às comunidades. Vemos agora uma volta ao coletivo, com mixagem, apropriação de textos. O conceito de autor fica difuso.”

É uma visão que editores de grandes casas ainda entendem como algo distante.

Confiança

“O livro digital ainda está na margem de 2% a 2,5% no faturamento de editoras no Brasil. Pode ser que aconteçam mudanças radicais envolvendo direitos autorais, mas só quando esse mercado for suficientemente grande”, diz Pascoal Soto, da LeYa.

Tomas Pereira, da Sextante, estranha a visão de que o direito autoral interesse mais às editoras que aos autores. “Nossa atividade nasce da confiança do autor. O que pagamos a ele representa nosso maior custo de produção.”

Ele concorda que quase nenhum autor vive da venda de livros, mas não vê nisso justificativa para o abandono do valor que o leitor se dispõe a pagar pelo livro. Saber por quanto tempo, no modelo que se impõe, haverá disposição para pagar por algo que se pode ter de graça, como lembra Nash, é o mistério.

Ficção feita por fãs vira negócio para a Amazon

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Ronaldo Lemos, na Folha de S.Paulo

Todo mundo já sabe. Os livros da trilogia “Cinquenta Tons” foram escritos como fanfiction da série “Crepúsculo”. A autora E. L. James redigiu a trama na internet a partir do universo criado pela escritora Stephenie Meyer, tratando dos recatados vampiros Bella e Edward.

Com o sucesso na rede, James mudou o nome dos personagens e a série vendeu 70 milhões de livros, aumentando em 75% o lucro da editora Random House em 2012.

Esse acidente vira agora modelo de negócios oficial para a Amazon. Na semana passada a empresa anunciou o serviço Kindle Worlds, que transforma a fanfiction em atividade profissional.

Funciona assim: a Amazon está adquirindo direitos não apenas sobre livros em si, mas também sobre seus universos ficcionais, como as séries “Gossip Girl” e “The Vampire Diaries”.

Quem entrar no Kindle Worlds pode escrever tramas baseadas nesses universos, mudando o destino dos personagens e criando novas possibilidades.

Se a narrativa vender, a Amazon paga 35% do valor para o fã que fez o texto e um valor não revelado para o autor original do universo. É uma aposta que enxerga a criação literária como processo coletivo.

O problema é a pasteurização da fanfiction. As diretrizes da Amazon vedam conteúdo “ofensivo” ou “pornográfico” e a mistura de universos ficcionais diferentes.

Considerando que essa é a essência da fanfiction (como demonstra “Cinquenta Tons”), autores mais ousados vão permanecer nos fóruns underground. Em todo caso, a Amazon dá mais uma sacudida no mercado literário.

Autora da lucrativa saga “Crepúsculo” planeja nova trilogia

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Imagem: Google

Imagem: Google

Publicado por Valor Econômico

O livro “A Hospedeira”, de Stephenie Meyer, tem pouco a ver com a famosa tetralogia “Crepúsculo”, mas compartilha o mesmo potencial para se converter em uma lucrativa série de filmes. A autora está trabalhando na continuação do romance, lançado em 2008 e que nasceu da tentativa de Stephenie de escapar um pouco do processo de edição de “Eclipse”, terceiro livro da saga “Crepúsculo”. E agora que “A Hospedeira” está a prestes a estrear no cinema, ela tem mais romances em mente. “Uma vez que você cria personagens que têm vida própria, sabe para onde vão suas histórias, a menos que mate todos eles. Você sempre está consciente do que ocorre depois”, disse a escritora à Associated Press. “Tenho as tramas dos próximos livros. Espero que seja uma trilogia, mas veremos.”

Em “A Hospedeira”, Stephenie troca os vampiros e lobisomens de seus livros anteriores por alienígenas. Uma raça extraterrestre se apodera da mente dos seres humanos, com o intuito de aperfeiçoar o planeta. Porém uma jovem, chamada Melanie Stryder, se nega a ter sua mente invadida. A atriz Saoirse Ronan interpreta a personagem, que é disputada por dois rapazes, vividos por Max Irons e Jake Abel. “Crepúsculo” também tinha seu triângulo amoroso, formado por Bella, o vampiro Edward e o lobisomen Jake, vividos no cinema por Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner – os cinco filmes baseados na saga arrecadaram mais de US$ 1,3 bilhão ao redor do mundo.

O relacionamento amoroso não deve ser, porém, foco do novo romance, diz Stephenie. A autora também espera que “A Hospedeira” atraia um público mais velho que o de sua popular tetralogia e considera a história mais acessível ao público masculino, por explorar laços que vão além do amor romântico. “Sem mencionar todas as explosões e disparos”, disse o ator Jake Abel, que interpreta Ian O’Shea, um dos humanos rebeldes da história.

“A Hospedeira” tem estreia mundial em 29 de março.

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