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Posts tagged Transporte

Empresário sai do prejuízo após oferecer livros a qualquer custo em máquinas no metrô

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Larissa Coldibeli, no UOL

O sucesso do empreendedor Fabio Bueno Netto, que criou as máquinas de livros das estações de metrô de São Paulo, veio quando ele já havia desistido do negócio. Para queimar o estoque e encerrar as atividades, resolveu fazer uma promoção inusitada: “Pague quanto acha que vale”. A ação fez as vendas crescerem oito vezes e tirou o negócio do vermelho.

A venda funciona da seguinte forma: os consumidores podem levar os títulos expostos na máquina a qualquer valor, a partir de R$ 2.

Com o sucesso da iniciativa, ele manteve as atividades e, aos poucos, converteu todas as máquinas a esse modelo de negócio. Atualmente, a empresa 24×7 possui 24 máquinas em várias estações do metrô paulista e uma no metrô carioca.

O negócio está em operação desde 2003, mas a nova forma de cobrança foi adotada no final de 2011, quando a empresa teve que retirar várias máquinas das estações por determinação da secretaria de transportes metropolitanos.

“Foi uma decisão arbitrária da secretaria e uma época difícil. Eu tinha acabado de fazer um empréstimo para uma grande importação de máquinas e nosso faturamento caiu 70%. Foram dois anos trabalhando no vermelho até tomar a decisão de encerrar a operação”, conta Netto. Mesmo com o aumento das vendas, a empresa ainda não conseguiu equilibrar as contas, mas espera fazer isso em até dois anos.

Inspiração veio das máquinas de café
A ideia de vender livros em máquinas de autosserviço surgiu enquanto o empreendedor passava em frente a uma máquina de café, muito comum nas empresas. Como não havia nada parecido no mercado, ele precisou adaptar os equipamentos para o produto, criar tecnologia para gerenciamento à distância e até equipamentos para fazer o transporte para dentro das estações.

Foram dois anos e meio de planejamento e investimento de tempo e dinheiro até a venda do primeiro livro. “No primeiro dia de operação, fiquei por perto observando a reação das pessoas. Todos ficavam curiosos, se aproximavam da máquina, mas não compravam. No fim da tarde, quando eu já estava frustrado, aconteceu a primeira venda. Foram quatro livros vendidos no primeiro dia.”

Não há no mercado serviço similar ao da 24×7 para venda de livros. Mas a empresa lucra também com a prestação de serviços relacionados aos equipamentos de autosserviço, como customização para empresas, transporte e fornecimento de meios de pagamento.

Maioria dos clientes paga R$ 2, mas lucro vem do volume
As operações da empresa são separadas e Netto garante que a venda de livros no sistema “Pague quanto acha que vale” dá lucro. “A maioria das pessoas paga R$ 2, mas lucramos por causa do volume. Compramos muita ponta de estoque de editoras, o segredo é comprar bem”, afirma o empreendedor.

A máquina não aceita moedas nem dá troco. Um equipamento que vende somente livros por R$ 10 está sendo testado na estação Trianon-Masp do metrô de São Paulo e, se for bem aceito, será incorporado aos negócios da empresa. Atualmente, são vendidos, em média, 80 mil livros por mês.

As máquinas são abastecidas e vistoriadas, no mínimo, duas vezes por dia e há o telefone do SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente) e o celular de um repositor que fica em trânsito no metrô, para corrigir eventuais falhas. O índice de erro dos equipamentos, entretanto, é pequeno, de 0,07%.

Imagem: Google
dica do Chicco Sal

Projeto distribui livros gratuitamente em SP

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Josilene Rocha, no Metrópolis

‘De mão em mão’ é inspirado em iniciativa colombiana de incentivo à leitura

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Todos os dias milhões de pessoas utilizam o transporte público na cidade de São Paulo. Para incentivá-las a aproveitarem parte do tempo gasto no transporte lendo, a Secretaria Municipal de Cultura, a Editora Unesp e a Imprensa Oficial fizeram uma parceria e lançaram a coleção ‘De Mão em Mão’, no início do ano passado. Agora ela já conta com oito títulos, dentre os quais coletâneas de contos de nomes como Machado de Assis e Antônio de Alcântara Machado.

A iniciativa é inspirada na colombiana ‘Libros al Viento’ e segundo José Castilho, presidente da Editora Unesp, ela já distribuiu cerca de 90 mil exemplares.

“A nossa metodologia é simplesmente oferecer o livro. A pessoa pega o livro com o compromisso de passar, depois de lido, para alguém. E esse alguém deve passar para outro alguém. Ou seja, é literalmente de mão em mão”, explica Castilho. Para adquirir um volume não é necessário dar nenhum dado, basta comparecer a um dos quatro postos de entrega, que ficam em terminais de ônibus da capital.

Caso a pessoa não queira dar o livro diretamente para alguém, há também a possibilidade de devolvê-lo em um dos postos. Mas a maioria opta pela primeira opção: “É muito bonito ver a pessoa pegar o livro e assumir o compromisso de passar. Porque não é com a gente que ela assume o compromisso: ela assume com a comunidade de leitores”.

Na hora de selecionar os títulos, alguns dos cuidados são: ter livros curtos, de fácil entendimento e com temas de interesse geral. “Não precisa ser intelectual para ler”, garante Jézio Hernane, editor-executivo da Editora Unesp. Outro critério para a maioria dos volumes é que o espaço da narrativa seja a própria cidade de São Paulo.

Pontos de retirada:

Terminal Mercado
Avenida do Estado, 3350 – Centro

Terminal Pirituba
Avenida Dr. Luís Felipe Pinel, 60 – Pirituba

Terminal Santo Amaro
Avenida Padre José Maria, 400 – Santo Amaro

Terminal Vila Carrão
Avenida Dezenove de Janeiro 884 – Vila Carrão

De segunda a sexta-feira, das 10h às 20h, e aos sábados das 10 às 18h.

Ex-morador de rua se forma em pedagogia na Universidade de Brasília

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O ex-morador Sérgio Reis Ferreira se formou em pedagogia pela UnBO ex-morador Sérgio Reis Ferreira se formou em pedagogia pela UnB

Publicado no UOL Educação

Os olhos de Sérgio Reis Ferreira têm um brilho intenso; o sorriso é de inesperada candura; as mãos evidenciam sofrimentos passados e um discreto nervosismo. A tentação de enxergá-lo como herói é grande –mas qualquer tentativa de apreender Sérgio na superfície é imediatamente frustrada: é preciso muito tempo e generosidade para reler o longo e árduo caminho que este ex-morador de rua percorreu até aqui, ao gabinete do reitor da UnB (Universidade de Brasília) nesse mês de novembro de 2012.

Foi no primeiro dia de novembro, então, que -com um sorriso tímido- o mineiro Sérgio enfim pôde entregou nas mãos de José Geraldo de Sousa Junior a monografia que atesta a conclusão do curso de pedagogia iniciado por ele na UnB há seis anos, em 2006.

O ineditismo do caso obrigou a instituição a se desdobrar para manter o estudante aqui após a surpreendente aprovação no primeiro vestibular de 2006. “A universidade que não lida com isto –que não acompanha esse aluno proveniente de situação adversa em todas as circunstâncias, até que complete o seu ciclo– é que fracassa, e não ele”, disse José Geraldo de Sousa Júnior, em referência à constante ameaça de descontinuidade que pairava sobre Sérgio durante os anos na UnB.

Institucionalmente, a universidade colaborou para a permanência de Sérgio com apoio sob a forma de alimentação, transporte, assistência social, orientação pedagógica etc.

“Não estamos aqui em torno do personagem Sérgio –mas, sim, do sujeito que, sobretudo, saiu da condição de vítima e trouxe sua vida até aqui, realizando uma ultrapassagem”, disse o reitor José Geraldo, para quem Sérgio é “alguém que, mesmo numa situação adversa, confiou”: “Se chegamos até aqui, é porque ele quis assim”.

O reitor revelou que vem acompanhando atentamente a trajetória do aluno, e que sabe das dificuldades que o percurso representou não só do ponto de vista econômico, mas também nos aspectos subjetivo, social e intelectual. “Ainda assim, Sérgio nunca tentou me atingir pelo sentimentalismo”, disse o reitor. “A rua não é mais o seu lugar!”, disse a Sérgio, que agradeceu: “Obrigado mais uma vez por me fazerem crescer”.

Sérgio Reis Ferreira entrega sua monografia para o reitor da UnB José Geraldo de Souza Jr.

Monografia

“As dificuldades dos moradores de rua do Distrito Federal de se inserirem por meio da educação formal”, trabalho de conclusão de curso de Sérgio, pulsa com a narrativa simples – movida por sua evidente inteligência e por uma candente sinceridade ao narrar sua trajetória. O trabalho ganhou menção máxima. “A universidade não passou a mão na cabeça do Sérgio, ele fez valer este título. Este trabalho é o Sérgio: as fraquezas são fruto de sua história educacional, mas as conquistas são dele”, frisou o professor Cristiano Muniz, o orientador.

Dedicada “a todos os moradores de rua do DF e a todos os que me ajudaram direta e indiretamente”, a monografia resgata o caso de Sérgio e de outros dois amigos em situação de igual vulnerabilidade social – um que conseguiu a inclusão e não mora mais na rua; e outro que, a despeito da grande capacidade crítica e conhecimento, não consegue entrar na universidade e ainda mora ao lado do restaurante Piantella, na Asa Sul, no Plano Piloto da capital federal. Na monografia, Sérgio faz também uma contundente crítica à universidade.

“Acredito que a universidade idealiza o estudante perfeito e se esquece da complexidade da existência humana, pois quando vem mendigo morador de rua para dentro da universidade, vem também com estes as doenças, os vícios, a falta de disciplina e, naturalmente, a dificuldade de se adequar à rigidez acadêmica. Sendo assim, é a academia que, em um primeiro momento, tem que se adequar para receber estes estudantes até que se adaptem à academia. Falo isto por experiência própria, pois tive muito dificuldade para me adequar aos horários, às regras acadêmicas escritas e não escritas, a exigência de produção e, principalmente, para me adequar à cultura acadêmica, ou seja, a maneira de se falar e de se comportar em grupo”, diz Sérgio em sua monografia.

O formando comentou com o reitor sobre o árduo esforço por ajustar-se e aprender a se limitar pelos parâmetros comportamentais que regem a vida na UnB: “Eu não tinha condições de estar dentro dessa sociedade; tive de aprender a falar, a esperar, a me vestir, a me adequar à Universidade”, disse. O professor Cristiano concordou: “De fato, a liberdade inerente às ruas é um grande obstáculo ao enquadramento destes alunos na academia”.

Livros sob um bueiro

“Senti tudo na pele: frio; não fome, mas vontade de comer; e o fato de estar privado do mínimo necessário à vida em sociedade”, disse Sérgio, lembrando que, muitas vezes, guardava os livros sob um bueiro. “Eu me envergonhava de dizer aos colegas que meu material havia sido roído por ratos e baratas”, disse, reclamando que, “no Brasil, não há políticas públicas direcionadas a esta população de rua – não há bebedouros nem banheiros e as pessoas são obrigadas a buscar locais em que há água gratuitamente disponível”.

Mas o caminho até a sala de aula não era feito apenas de percalços físicos – de longas caminhadas a pé, de banhos no Parque da Cidade e de roupas lavadas no lago Paranoá: a “inclusão excludente” de Sérgio na Universidade o fazia sofrer intensamente, levando-o muitas vezes a abandonar o abrigo da instituição para sentir-se paradoxalmente acolhido pelas ruas. “Às vezes a discriminação doía, e eu chorava por saber que eu era o invasor”, revelou Sérgio.

Há quase três meses, uma fatalidade – em meio ao mar de outras adversidades – ameaçou impedir a formatura de Sérgio de forma radical: no dia 28 de agosto de 2012, ao tentar roubar do pedagogo uma quentinha, outro morador de rua o esfaqueou. “Quanto à agressão física que quase me levou a óbito, eu somente aprendi uma dura lição: quando seres humanos ‘invisibilizados’ e silenciados pela sociedade – como os moradores de rua – lutam desesperadamente, eles utilizam até os meios mais vis e sorrateiros, no caso, a violência.”

No encontro com o reitor, Sérgio resumiu a surpreendente e notável trajetória com uma frase: “Eu não tinha mais nada em que me agarrar – só tinha a Universidade – e então me agarrei a ela com unhas e dentes”.

*Com reportagem de Grace Perpetuo, da Agência UnB

foto: Emília Silberstein/Agência UnB

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