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Aos 73, Rogéria conta tudo na biografia ‘Uma mulher e mais um pouco’

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SC - A travesti Rogéria lança biografia / Pedro Curi / Divulgação -

SC – A travesti Rogéria lança biografia / Pedro Curi / Divulgação –

 

A autointitulada ‘travesti da família brasileira’ revela detalhes sexuais em livro de Márcio Paschoal

Liv Brandão, em O Globo

RIO – No elevador do prédio em uma famosa rua do Leme, na Zona Sul do Rio, um aviso lista algumas medidas para a boa convivência. No terceiro item, o condomínio recomenda “evitar andar de salto alto dentro de casa”. Pois Rogéria, a moradora mais ilustre daquele endereço, prova que não se atém às regras impostas pela sociedade e recebe a equipe do GLOBO em cima do salto.

— Não um salto 15, como antigamente, que eu não aguento mais, mas não deixo de usar — brincou a travesti mais famosa do país que, aos 73 anos, lança sua biografia, “Rogéria — Uma mulher e mais um pouco” (Sextante).

No livro, escrito por Márcio Paschoal, Rogéria repassa sua vida, desde quando nasceu Astolfo Barroso Pinto até descobrir que o que gostava mesmo era de se vestir de mulher. Ou de quando começou a trabalhar como maquiador das estrelas na extinta TV Rio, até se tornar ela mesma vedete, cantando e dançando em musicais e programas de TV. Rogéria é uma pessoa complexa: acolhida em sua homossexualidade pela família (“tive uma mãe maravilhosa”), não se deixava abater pelo bullying dos colegas (ao contrário, encarava todos no braço), não quis fazer cirurgia para mudar o sexo (“continuo com peru, acho mais fácil”) e, graças ao carisma inabalável, tornou-se a “travesti da família brasileira”, como gosta de dizer.

— Já não aguentava mais as pessoas me pararem na rua e me perguntarem quando eu faria uma biografia — conta Rogéria, que não impôs qualquer condição ao biógrafo, apenas combinou que só leria o livro depois de pronto e encerrado. — Só me arrependo disso, de não ler os capítulos conforme iam ficando prontos. Quando li, percebi que comi muita gente, mas é a mais pura verdade.

O livro é, de fato, bastante esclarecedor. Dona de uma memória impressionante, Rogéria escancarou suas experiências com sexo e até drogas, sem medo de chocar as senhorinhas que formam seu fã-clube.

— Procuramos entrar no bas-fond da minha vida, mostrar também meu lado mais homem. Sou Astolfo sempre, e Rogéria toujours (“todos os dias”) — brinca.

O único pudor (de processo, inclusive) foi na hora de dar nomes aos bois. A maioria dos homens (alguns heterossexuais e casados) com quem viveu casos — um deles, Múcio, o amor de sua vida, foi dispensado quando mandou Rogéria escolher entre ele e a carreira artística — tiveram suas identidades omitidas:

— Se não contasse tudo, não teria por que fazer isso. Já não conto os nomes dos meus casos, porque se contasse seria um escândalo, ia arrumar muito problema.

Rogéria, que diz nunca ter votado, não dá muita bola para a discussão de representatividade LGBT, tão em alta na TV e no cinema, e afirma que a melhor interpretação de personagem gay foi a de Lázaro Ramos, heterossexual, para Madame Satã, no filme homônimo, de 2002.

— Engajada? Eu preciso ser engajada? Eu sou o engajamento em pessoa, porra! Se as outras travestis estão aí, agradeçam a mim, que sou uma bandeira, e os brasileiros gostam de mim — diz ela, cantando: “ser mulher é muito fácil para quem já é, mas pra quem nasce para ser João é um sacrifício a transformação”, de João Roberto Kelly, para “Les girls”, primeiro espetáculo de transexuais do Brasil, em 1964.

‘LEIA TRECHOS DA BIOGRAFIA ‘ROGÉRIA’

As reinações de Tofinho

Astolfinho não gostava de brincar de bonecas (na verdade, tinha pavor delas), mas já se notavam nele alguns trejeitos femininos. Descia as escadas puxando um pano, como se fosse um vestido longo. Alguns comentários de que o filho parecia uma menininha não abalariam nem modificariam o comportamento de sua mãe.

Com espírito de liderança, Astolfinho logo se tornou chefe da sua turma de amigos. Falante e carismático, comandava o grupo que se aventurava pela vizinhança, descobrindo novidades. Havia uma ponte nas proximidades, e os meninos iam lá para pegar rã. Tofinho deu com uma cobra-d’água e ficou em pânico, histérico. Os meninos estranharam, mas ninguém se atrevia a zombar dele. Tinha faniquitos, mas era bom de braço. Todo mundo já desconfiava que ele era meio viadinho, mas ninguém falava nada. Pelo menos, na sua frente.

Adolescência

A cada dia aumentava nele a vontade de se vestir de mulher. Seria uma forma de se expressar, relacionada a roupas, sapatos, maquiagem, adereços e acessórios, enfim, com a caracterização feminina. Já se sentia meio mulher, e era como se, ao se vestir assim, acalmasse uma angústia com a qual ele mesmo não conseguia atinar. Era Carnaval, e Astolfinho, então com 14 anos, viu ali uma oportunidade única: colocou um maiô Catalina preto, uma saia amarela e um chapeuzinho para disfarçar o cabelo curto. Não se maquiou nem pôs peruca. Era o suficiente. Todos que passavam por ele mexiam “Que lindinha!”, “Vai aonde, gracinha?”. Astolfinho estava adorando. O azar foi sua tia Neusa o flagrar passando e logo contar a Eloah. Resultado: uma bronca daquelas e, como castigo, o fim do Carnaval para ele. Na realidade, a bronca da mãe não era propriamente por ele se fantasiar daquela maneira, mas sim por deixar-se ser visto.

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O padrasto

Astolfo vivia a postura mais neutra dos travestis. Não precisava sobreviverda venda de sexo, não se intoxicava de drogas e álcool, não deformava o corpo com injeções de silicone industrial ou óleo Nujol, não passava pelas agruras que eles passavam na tênue linha que separava o normal e o aceito da marginalidade. Astolfo era gay e adorava fantasiar-se de mulher, mas não praticava o estilo travesti de vida. Também se sentia feliz como homem. Especialistas em sexualidade entendem que os travestis, em sua grande maioria, são biologicamente identificados com o seu sexo de nascimento. O padrão comportamental é sentirem-se, ao mesmo tempo, como homens e mulheres, não cogitarem mudar o sexo biológico e terem, geralmente, atração por pessoas do mesmo sexo.

Vedete do Carlos Machado

A Boate Fred’s ficava na avenida Atlântica, próximo ao Leme, no local onde depois foi construído o Hotel Méridien, que hoje é o Windsor-Atlântica. Naquele tempo havia um posto de gasolina no lugar, e a boate ocupava o andar de cima. Sérgio Porto costumava brincar que “o cliente enchia o tanque do carro embaixo e a cara em cima”. E, quase que invariavelmente, tinha razão. Vivia-se um tempo de mudanças e inseguranças. Com o surgimento dos travestis, um novo e inusitado tipo de vedete aparecia. Isso em plena ditadura, período obviamente contraindicado a transgressões. Machado temia que suas relações com o governo anterior pudessem atrapalhar os negócios. Ainda assim, arriscou na montagem do Pussy Cats. À procura de nomes, o de Rogéria foi indicado pela atriz Irene Ravache, que a conhecia desde os tempos de maquiador na TV Rio.

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Teatro Rival

A censura mantinha-se presente. Para se ter uma noção, havia na primeira fila do palco do Rival três cadeiras reservadas aos censores. Quando eles apareciam, Gomes Leal avisava que, naquela noite, não se poderia falar em política, nada de cacos com segundas intenções ou críticas veladas ao regime. Várias vezes a censura proibiu os espetáculos, e os travestis tiveram que arrumar as suas coisas e se retirar do local. Depois, com a liberação do show, voltavam com suas malas de roupas. Isso porque não podiam sair na rua vestidos de mulher, somente no Carnaval, ainda assim somente se aparentassem ser homens com roupas femininas – se parecessem mulheres perfeitas seriam presos. Ainda havia o dinheiro curto, já que os travestis ganhavam menos do que gastavam com os figurinos. Mesmo assim, as “meninas” seguiam no seu ritmo e ditavam uma moda que ameaçava se firmar.

A transformação

Com os hormônios, cabelos louros, depilada e magra, unhas longas e quadradas (dica dos tempos de vedete com Carmen Verônica), só lhe faltava uma correção no nariz. A cirurgia de um dia foi realizada numa clínica no 6ème arrondissement. Pronto! O encontro de Astolfo com seu lado mulher estava terminado. Agora Rogéria passaria a incorporar o lado feminino em seu cotidiano parisiense 24 horas por dia. O teste final aconteceria no metrô de Paris, entre as estações de Pigalle e Montparnasse, na companhia da transformista Dany Dan e da transexual Capucine. “Vamos ver se você passa por mulher, vagabunda, bicha ou homem”, disseram. Rogéria, de rabo de cavalo, vestido simples e um salto não muito alto, recebeu alguns olhares de cobiça, mas ninguém riu nem debochou dela. A maioria das pessoas sequer tomou conhecimento. Rogériahavia passado no teste, com louvor. Estava pronta. Overedicto foi de Dany: “Tu es prêt à voler!” Você está pronta para voar.

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Drogas e prostituição

Com a prostituição, a relação de Rogéria sempre foi transparente. Não conseguia ter sexo com alguém pelo qual não sentia atração. Se transasse e gostasse, não via razão para cobrar nada. Uma vez, ainda no Hotel Ódeon, em pleno verão de Paris, viu um mecânico, sem camisa, consertando um caminhão. Na mesma hora foi até ele e o convidou para subir ao hotel. Ele se justificou o tempo todo, explicando que não tinha dinheiro, e foi um castigo até Rogéria conseguir convencê-lo de que era de graça. O homem, desconfiado, foi até o fim não acreditando no que acontecia.

Sexo sem amor

Rogéria sempre teve consciência dos riscos assumidos e dos enfrentamentos claros que sua opção traria. Ser travesti impunha certos limites intrínsecos que ela pretendia superar. E não havia maneira melhor para vencer essas barreiras do que se esmerar na arte. Nesse momento de vida começou, então, a busca por trabalhos que pudessem reafirmar sua escolha artística. Sabia que suas atuações como vedete e show-woman eram receitas de sucesso. Havia o escárnio, a curiosidade sobre sua figura dúbia e o humor escrachado. Mas sonhava em ousar mais. Já que a televisão e a música vetavam sua aparição, sob o ranço preconceituoso da censura, Rogéria voltava-se para o cinema e o teatro.

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Falas de Rogéria

“Todo mundo me atazanava, dizendo que eu devia arriscar e buscar meu espaço. Fernanda Montenegro estava fazendo uma novela na TV Rio, e eu a maquiava. Perguntei a ela:

– Será que um dia vou poder fazer teatro?

– Claro, por que não?

– Como é que eu vou para o palco vestida de mulher?

– Arte independe de sexo. Se você tem talento vai dar certo, nãocusta nada tentar – disse Fernanda. Aí eu fui e aconteceu.”

“Entrei no concurso do República, com uma fantasia que era só um espartilho preto bordado com flores, cinta-liga, salto alto e um chapéu com um rabo de galo verde em cima, e empatei em primeiro lugar com a bicha mais rica da festa, Suzy Wong, deslumbrante numa fantasia de canutilho, toda em dégradé, do verde ao branco, com um leque de pluma enorme. Quando anunciaram o resultado, fui falar com ela, meio que pedindo desculpas, e Suzy me disse:

– Você é uma estrela!

O locutor, então, anunciou meu nome:

– Ele é Rogério, maquiador da TV Rio.

E o povo começou a gritar:

– Ro-gé-ria! Ro-gé-ria! Quer dizer, meu nome artístico foi dado pelo público, melhor batismo não há…”.

“Foi uma sensação indescritível ver meu nome estampado no letreiro do fantástico Teatro Rival, coração da Cinelândia, rua Álvaro Alvim, 36. Me deu um arrepio e um frio na barriga. Era que ali eu me sentia no paraíso. A verdade é que ninguém é vedete pra valer sem passar pelo palco do Rival. O pessoal que ia ao Fred’s era esnobe e tinha vergonha de aplaudir forte. Mas no Teatro Rival era a glória, o melhor público do mundo”.

“Rogéria — Uma mulher e mais um pouco”

Travesti é 1º lugar em vestibular de universidade federal

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Amanda Palha, 28 anos, aprovada em 1º lugar em universidade federal: "não acho que é uma vitória ainda, é um começo"

Amanda Palha, 28 anos, aprovada em 1º lugar em universidade federal: “não acho que é uma vitória ainda, é um começo”

 

Caio Delcolli, na Exame [via HuffPost Brasil]

realidade das travestis no Brasil muitas vezes é associada a prostituição, uso de drogas, criminalidade e suicídio.

A presença delas em outras esferas, como nos ambientes acadêmico e corporativo, é fundamental para garantir a representatividade do grupo na sociedade como um todo.

Nesta semana, uma militante de São Paulo deu um passo importante na inclusão de trans no ensino superior.

Aos 28 anos, a travesti Amanda Palha foi aprovada em primeiro lugar pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada) no curso de Serviço Social da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

Amanda compartilhou a boa notícia no Facebook nesta segunda-feira (16).

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“Eu não via muito sentido em fazer uma faculdade”, disse em entrevista ao HuffPost Brasil. “A gente sabe que o mercado de trabalho é fechado para gente, independente de ser formada ou não.”

Amanda concluiu o ensino médio sem a ambição de continuar com os estudos, mas com o passar do tempo, mudou de ideia. Ao conseguir um emprego na área de serviço social em São Paulo e ajudar pessoas em situação de rua, percebeu que era naquilo que gostaria de seguir.

“Foi a primeira vez que uma carreira que me fez falar, ‘nossa, para isso eu estudaria. Me daria tesão para fazer uma faculdade’. Isso foi fundamental”, explica.

“Nos últimos dois, três anos, comecei a prestar o vestibular, mas me esforçando mesmo, sem muito sucesso. Até passei para a segunda fase da Fuvest no ano passado, mas acabei tendo uma crise de pânico e não fui fazer a prova.”

Também em 2015, Amanda fez um curso de formação política que foi essencial para fazer o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), prova que permite concorrer a vagas pelo Sisu.

A escolha de curso também é importante para o que virá no futuro dela: Amanda pretende seguir carreira acadêmica, com mestrado e doutorado.

“Eu tenho muito interesse em pesquisa. Tenho bastante proximidade com estudos de economia política e gênero”, disse.

Eis os planos da mais nova caloura:

“Os estudos de gênero carecem de uma perspectiva contemporânea das questões de transexualidades e travestilidade. Desenvolver esse conteúdo pode ser muito benéfico para que a gente possa pensar a situação política dessa população de outra forma. E na atuação profissional de fato, porque a gente sabe que transexuais são parte significativa da população de rua. A atuação profissional de assistentes sociais bem preparados para lidar com a questão é fundamental. Isso faz um diferencial gigante.”

Amanda não chegou a usar o nome social na inscrição para o Enem, mas isso não foi impeditivo de ser tratada pelo nome social e gênero correto enquanto a prova era aplicada.

Para Amanda, sua aprovação no vestibular não é exatamente uma vitória ampla – é mais pontual, um início de trajeto.

“Ela pode ser uma vitória para nossa população a partir do que a gente vai fazer com isso. A mera inclusão de pessoas trans na faculdade não significa muita coisa se existir isoladamente”, explica.

“O que pode efetivamente provocar mudança é o que essas pessoas [trans] que estão entrando na faculdade vão fazer com a ocupação desse espaço, produzir conhecimento para nossa população, capacitar profissionais que lidem com nossa população.”

“Sou bastante crítica a respeito disso. O que faz diferença é o que a gente faz dentro espaço. Por isso que eu não acho que é uma vitória ainda, é um começo. A partir daí, começa a batalha de verdade nesse espaço. E, talvez, as outras vitórias venham. Por enquanto, é um começo de trajeto.”

Professora travesti é preterida para cargo de reitora

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Estevão Bertoni, na Folha de S.Paulo

O ministro da Educação, Cid Gomes (Pros), frustrou na última sexta (13) parte dos alunos de uma universidade pública do Ceará que desejava ver uma travesti se tornar a primeira reitora do país.

Desde dezembro passado, um grupo de estudantes da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) pedia para que o ministro nomeasse Luma Andrade, professora travesti da instituição, como reitora. O movimento foi batizado de “Luma Lá”.

Luma é conhecida como a primeira travesti do Brasil a fazer um doutorado. Ela é autora de uma tese em educação na UFC (Universidade Federal do Ceará) defendida em 2012, sobre travestis nas escolas.

Para o movimento de estudantes, a escolha teria significado simbólico. “Nós já tivemos muitos nomes de homens importantes na história, de reitores, de presidentes. Essa escolha vai muito além, condiz com a questão da diversidade sexual”, defendeu o estudante Kaio Lemos, 35, que cursa bacharelado em humanidades e integra o centro acadêmico da faculdade.

Na sexta-feira, o nome do novo reitor foi publicado no “Diário Oficial” e não era o de Luma. Cid Gomes escolheu para o cargo Tomaz Aroldo da Mota Santos, 71, professor aposentado da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

A Unilab, criada em 2010 e instalada em maio de 2011 em Redenção (a 66 km de Fortaleza), ainda não possui um regimento que define uma consulta à comunidade acadêmica e a elaboração de uma lista tríplice que seja levada ao ministro na hora da definição de um novo reitor. Por isso, Cid Gomes podia escolher quem desejasse.

Luma diz que o nome anunciado foi uma surpresa. “Nós não o conhecemos, [Tomaz Aroldo da Mota Santos] é uma pessoa nova para a gente. Esperamos que dê tudo certo. Estamos torcendo, acreditando que é possível que ele faça um excelente trabalho e que se engaje no desenvolvimento da universidade. Acho que foi bem aceito, até agora não houve nenhum problema.”

Questionada sobre se ainda nutre o sonho de ser reitora, Luma desconversa e lembra que a iniciativa de ter o nome citado para o cargo partiu dos alunos. Sobre uma possível chance de ser lembrada nas próximas escolhas, ela responde: “A gente não tem como dar conta do futuro”.

NOVO REITOR

Formado em farmácia e doutor em ciências pela UFMG, da qual foi reitor de 1994 a 1998, Tomaz Aroldo da Mota Santos afirma que, por enquanto, não tem como saber como a comunidade acadêmica da Unilab recebeu seu nome, pois ainda não assumiu o cargo.

“Em geral, as comunidades iniciantes aceitam o fato de que é preciso a designação de um reitor temporário, que se constitui aos poucos junto com a comunidade e organize a universidade”, diz.

Para ele, a escolha do ministro está ligada à sua experiência na área da administração universitária. “É uma boa prática escolher alguém que já trabalhou na organização de outras universidades. Os professores contratados em universidades recém-criadas são também professores jovens. Não é comum que, entre eles, existam pessoas com essa experiência”.

Ele diz ter tomado conhecido do movimento “Luma Lá” pelos jornais e afirma acreditar que a Unilab deverá consultar sua comunidade acadêmica sobre os próximos reitores assim que o regimento for defindio. “Quanto ao desejo da comunidade universitária de escolher seu reitor, é absolutamente legítimo. É isso o que todas as universidades fazem e não será diferente com a Unilab.”

Segundo o Ministério da Educação, a universidade já enviou uma proposta de estatuto. Algumas adequações no texto, porém, foram solicitadas, mas a Unilab ainda não reencaminhou ao governo o documento com as alterações. O MEC afirma que decidirá sobre o estatuto após as mudanças finais terem sido feitas.

Aprovada na UFPE pelo Sisu, travesti recebe trote da mãe e posta manifesto no Facebook

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Maria Clara Araújo é a primeira pessoa da família a entrar na universidade e vai cursar Pedagogia

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Publicado em O Globo

RIO – “Hoje tive minha sobrancelha raspada por minha mãe, emocionada por ter sido a primeira pessoa de minha família a ser aprovada na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O que pra ela é uma realização pessoal de mãe que, diga-se de passagem, sempre me incentivou a estudar, para mim, uma travesti negra, é uma conquista com imenso valor simbólico.” Com estas palavras, a estudante Maria Clara Araújo, de 18 anos, inicia um manifesto que já teve mais de 7 mil compartilhamentos no Facebook. O texto foi a maneira escolhida por ela para comemorar sua aprovação no curso de Pedagogia pelo Sisu.

Ao longo do depoimento, acompanhado por uma imagem que mostra o trote aplicado pela mãe, Maria relembra toda a sua trajetória até chegar ao banco de uma universidade.

“Desde muito cedo, o âmbito educacional deixou o mais explicito possível suas dificuldades em compreender as particularidades de minha vida: aos 6 anos, desejando ser a Power Range Rosa , aos 13 usando lenços na cabeça, aos 18 implorando pelo meu nome social e, logo, o reconhecimento de minha identidade de gênero. Nenhuma foi atendida”, escreve.

A luta pelo reconhecimento dos seus direitos, como ela bem sabe, está longe de terminar. Uma das questões que tem pela frente, por exemplo, é garantir que será tratada pelo nome social na universidade. “Se ontem a professora tirou a boneca de minha mão, hoje o Reitor diz não ter demanda para meu nome social.”

Em entrevista por telefone, Maria contou que fez o manifesto ao observar que era a primeira travesti a passar na UPPE. Justamente por isso, queria fomentar o debate sobra a falta deste público no ambiente educacional.

– Estou muito feliz com minha aprovação e, por ser a primeira, quero levar essa reflexão às pessoas. Por que sou a primeira? Por que tantas outras não têm a mesma oportunidade que eu? – questiona a jovem, que tem se aproximado cada vez mais com a militância.

Em seu relato no Facebook, ela também faz questão de lembrar as violências que sofreu em função da sua identidade sexual durante toda a sua rotina escolar e as consequências dessa realidade sobre a vida das pessoas:

“Não era só comigo, mas fui a única que aguentei. Vi, de pouco em pouco, outras possíveis travestis e transexuais desaparecendo daquele ambiente, porque ele nunca simbolizou um espaço de acolhimento, educação e aprendizagem. Mas sim de opressão, dor e rejeição.”

Ao finalizar o texto, ela comenta que a própria escolha do curso parte da vontade de mudar essa realidade:

“Optei por Pedagogia com a esperança de poder ser um diferencial. De finalmente pautar a busca por uma educação que nos liberta e não mais nos acorrente”, afirma. “A escolha é apenas uma: lutar ou lutar. E eu, Maria Clara Araújo, escolhi ser um símbolo de força.”

Alunos pressionam pela nomeação de professora travesti como reitora no CE

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A professora trans Luma Andrade, cotada por estudantes para ser reitora no Ceará (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

A professora trans Luma Andrade, cotada por estudantes para ser reitora no Ceará (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Estêvão Bertoni, na Folha de S.Paulo

Alunos de uma universidade pública do Ceará lançaram uma campanha para que uma professora travesti seja nomeada reitora da instituição.

O movimento “Luma Lá”, iniciado no final de dezembro por estudantes da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) pede para que o novo ministro da Educação, Cid Gomes (Pros), nomeie a professora Luma Andrade para o cargo.

Luma é conhecida como a primeira travesti do Brasil a fazer um doutorado. Ela defendeu em 2012 uma tese em educação na UFC (Universidade Federal do Ceará) sobre travestis nas escolas.

O cargo de reitor na universidade está vago desde o dia 1º de janeiro porque a ex-reitora Nilma Lino Gomes assumiu a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República.

Nilma foi a primeira negra a se tornar reitora de uma universidade brasileira. Caso seja escolhida, Luma será a primeira travesti reitora do país.

A Unilab, em Redenção (a 66 km de Fortaleza), é uma autarquia vinculada à pasta ocupada desde 1º de janeiro por Cid Gomes, ex-governador do Ceará.

Cabe ao ministro da Educação escolher o reitor, que não precisa ser necessariamente docente da instituição. Antes de assumir a pasta, Cid foi governador do Ceará (2007-14).

Segundo o estudante Kaio Lemos, 35, que cursa bacharelado em humanidades e integra o centro acadêmico da faculdade, o movimento de alunos já enviou um apelo por carta a Cid Gomes, quando ele ainda era governador, pela nomeação da professora.

“Se ela tem capacidade acadêmica, não tem nenhum problema para ela como travesti ser reitora”, afirma.

“Nós já tivemos muitos nomes de homens importantes na história, de reitores, de presidentes. Essa escolha vai muito além, condiz com a questão da diversidade sexual”, defende o estudante.

Segundo ele, o movimento gerou resistência de um grupo pequeno, “de oito a dez alunos”. “Mas isso é natural.”

Luma afirmou que foi pega de surpresa pela campanha e que recebeu a iniciativa como “um presente”. “Não foi uma afirmação minha. Fiquei muito feliz porque a campanha veio do grupo mais forte de estudantes da universidade e eles confiaram no meu trabalho”, diz.

Segundo ela, a campanha foi vista como uma afronta por muitas pessoas de dentro da Unilab. “Em todos os espaços temos pessoas conservadoras. É um espaço de disputa, uma relação de poder, e existem pessoas que querem essa função e que tinham certeza de que iriam ocupar esse espaço. De repente, surge o nome de uma travesti e isso veio da comunidade de estudantes, então foi um surpresa para todos.”

Cid Gomes ainda não definiu quem será o novo reitor da Unilab. O Ministério da Educação foi procurado, mas não se manifestou sobre o assunto até o início da tarde desta terça.

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