Canal Pavablog no Youtube

Posts tagged trechos

Lázaro Ramos abre a Flip lendo trechos de biografia de Lima Barreto

0

Lázaro Ramos participa da cerimônia de abertura, que terá o lançamento de “Lima Barreto – Triste Visionário” ao lado da autora Lilia Schwarcz. O ator também estará em mesa na qual fala sobre sua autobiografia, “Na Minha Pele”

Publicado na Marie Claire

Flip – Lima Barreto começa nesta quarta (dia 26) com Lázaro Ramos realizando uma leitura da biografia Lima Barreto – Triste Visionário, na qual a escritora Lilia Schwarcz narra a trajetória do primeiro autor negro homenageado pela Feira Literária de Paraty. “Vai ser muito legal”, acredita Lázaro. “Adoro a Flip. Fui a primeira vez no ano passado para lançar um livro infantil, na Flipinha”, diz ele.

Lázaro Ramos (Foto: Bob Wolfenson)

Lázaro Ramos (Foto: Bob Wolfenson)

O ator leva consigo Na Minha Pele (Objetiva/Companhia das Letras), mescla de autobiografia e estudo sobre o racismo na qual Lázaro Ramos conta suas experiências pessoais, desde a infância. A obra foi lançada em junho e está na lista de livros mais vendidos: “A Flip será o primeiro grande evento em que vou poder experimentar o livro e ver como as pessoas o receberam”, acredita Lázaro. “Venho escrevendo já faz um tempo para crianças ou peças infantis… A Flip tem um lugar de reflexão importante para a literatura que eu não tinha acessado com um livro adulto. Vai ser muito importante”.

A edição deste ano do evento tem outra característica marcante: é a primeira vez que a maior parte da programação é dominada por mulheres, como um reflexo da curadoria de Josélia Aguiar, primeira mulher à frente do programa da feira. Entre os destaques, autoras africanas ou de origem afrodescentes como a franco ruandesa Scholastique Mukasonga, a brasileira Conceição Evaristo e a angolana Djaimilia Pereira de Almeida.

A seguir, confira a segunda parte da entrevista exclusiva de Lázaro Ramos à Marie Claire, na qual ele fala sobre sua iniciação sexual, a parceria com Wagner Moura e responde a pergunta: É bom ser negro no Brasil?

MC Você foi um adolescente feliz?
LR Não pensava sobre isso porque tinha urgência em ter trabalho, receber um salário mínimo, o ritmo da vida não permitia parar para ficar lamentando. Eu era muito tímido e sempre me cobrei muito. Eu não ia a festas, queria ser bom aluno na escola, sentar na cadeira da frente, ser responsável. Começar a fazer teatro, aos 15 anos, me trouxe um pouco mais de relaxamento. Me mostrou que ter prazeres não ia me atrasar em nada. A arte me salvou.

MC Usa drogas? Defende a legalização?
LR Não vou dizer que sou moderninho, que já usei, porque não é verdade. Quero dizer, eu bebo. Sobre legalização, não consigo ter uma opinião. Fui criado com medo de tudo, inclusive de maconha. Uma vez, um primo fumou e foi pego. Rolou reunião de família. Foi um drama. Convivo com amigos que fumam e não vejo alteração no comportamento deles.

MC Como foi sua iniciação sexual?
LR Com minha primeira namorada, aos 17 anos. Disse a ela que já tinha transado horrores, para parecer que era experiente, mas não tinha ideia do que fazer quando me vi no quarto. Lembro que caprichei na saliva pro beijo, porque li que dava mais tesão [risos], mas achei nojento e engoli. Não sabia se chupava as partes íntimas dela ou se aquilo era asqueroso.

MC Quem tomou a iniciativa de voltar?
LR Para mim, nunca me separei. Sempre disse a ela: “Isso é só um tempo, mas a gente volta”. Ficava enchendo o saco. Não parava de telefonar para ela.

MC O que foi fundamental para formar esse Lázaro que existe hoje?
LR A infância, tanto na casa de Dindinha, em Salvador, quanto na ilha do Paty, a uma hora dali. Crescer na ilha, um lugar lúdico, viver num quintal, que me protegeu da rua e me deu uma possibilidade criativa, definiram quem sou e a escolha da profissão. Quando vou trabalhar, ainda acho que estou naquele quintal, brincando nas ruas. Ao mesmo tempo, ao vir para o Rio, deixar uma família que me amava, o Bando de Teatro Olodum, no qual um ator negro não tinha limites para viver um personagem, me apresentou outros desafios. Ter encontrado diretores como Karin Aïnouz, que investiu num rapaz de 21 anos como protagonista de Madame Satã, foi uma loucura! Nunca tinha feito um homossexual e fui desafiado a fazer não cenas de sexo gay, mas de amor gay.

MC Você tinha preconceito antes?
LR O Zebrinha [José Carlos Arandiba, diretor do Balé Folclórico da Bahia], meu mestre artístico, é gay e casado há 25 anos. Um dos meus primeiros conceitos de família foi a dele. Por outro lado, ao ler o roteiro pensei: “Pô, tem cenas de sexo, vou ter de ficar nu…”. Tinha toque, tinha pele. Mas tenho a tendência a me envolver com os personagens e estava tão apaixonado por Madame Satã que fiz tudo com facilidade.

MC Você é movido pela paixão até hoje?
LR Sou ator há 27 anos, mas continuo me impondo desafios. Depois do Foguinho, só recebi convites para fazer comédias e neguei. Não fui para esse lugar seguro. Persigo até hoje a paixão que senti por Madame Satã.

MC No livro, você conta que recusou personagens importantes porque não segura uma arma. Como é isso?
LR Pelo jeito que mostram os negros em cena, decidi que não aceitaria viver esse tipo de personagem, virou uma regra. Não queria que as pessoas vissem um ator negro nessa situação. Isso fez diferença no meu processo criativo e na maneira como as pessoas me encaram como ator. Não contribuo para que o negro seja visto como bandido. (mais…)

Amazon promove feira de troca de livros no domingo (23)

0
Feira de troca de livros, 23 de abril (Mariana Krauss/MEON/Veja SP)

Feira de troca de livros, 23 de abril (Mariana Krauss/MEON/Veja SP)

 

Catherine Barros, na Veja SP

No próximo domingo (23), das 9h às 16h, a Amazon promove uma feira de troca de livros ao ar livre no Parque Villa Lobos. A empresa arrecadou doações dos funcionários e contou com o apoio de editoras, que doaram títulos para disponibilizar na feira. A ideia principal é promover a troca: para isso, cada visitante que quiser participar deve levar um ou mais títulos. O número de trocas por visitante é ilimitado.

A feira também terá contação de histórias para as crianças e a presença de autoras brasileiras – Bianca Sousa, Camila Fernandes Ohl Ferreira, Karen Alvares, Keila Gon, Mari Scotti e Gisele Mibarai – que lerão trechos de seus livros. Ao final do evento, os livros que sobrarem serão doados para instituições sem fins lucrativos que promovem a leitura.

O evento é uma comemoração do Dia Mundial do Livro. A data escolhida marca a morte de três importantes autores: o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), o dramaturgo e escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) e cronista peruano Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616).

Os 10 melhores começos de livros de autores brasileiros

1

Brasileiros

Carlos Willian leite, na Revista Bula

Dando sequência à série de melhores trechos de livros, pedimos aos leitores e colaboradores que apontassem quais eram os melhores começos de livros da literatura brasileira em todos os tempos. Mais de 100 livros foram citados, 17 obtiveram mais de cinco citações, são eles: “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa; “O Ventre” e “Quase Memória”, de Carlos Heitor Cony; “O Amanuense Belmiro”, de Cyro dos Anjos; “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; “A Maçã no Escuro”, de Clarice Lispector; “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida; “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar; “Deus de Caim”, de Ricardo Guilherme Dicke; “Macunaíma”, de Mário de Andrade; “A Morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado; “Com Meus Olhos de Cão”, de Hilda Hilst; “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo; “O Jardim do Diabo”, de Luis Fernando Verissimo e “A Lua Vem da Ásia”, de Campos de Carvalho. Abaixo, em ordem classificatória, a lista com os dez livros que obtiveram o maior número de citações.

A Lua Vem da Ásia
(Campos de Carvalho)

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.

Grande Sertão: Veredas
(Guimarães Rosa)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do cór­rego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo.

O Jardim do Diabo
(Luis Fernando Verissimo)

Me chame de Ismael e eu não atenderei. Meu nome é Estevão, ou coisa parecida. Como todos os homens, sou oitenta por cento água salgada, mas já desisti de puxar destas profundezas qualquer grande besta simbólica. Como a própria baleia, vivo de pequenos peixes da superfície, que pouco significam mas alimentam. Você talvez tenha visto alguns dos meus livros nas bancas. Todo homem, depois dos quarenta, abdica das suas fomes, salvo a que o mantém vivo. São aqueles livros mal impressos em papel jornal, com capas coloridas em que uma mulher com grandes peitos de fora está sempre prestes a sofrer uma desgraça.

O Amanuense Belmiro
(Cyro dos Anjos)

Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis. Florêncio propôs, então, um nono, argumentando que outro copo talvez trouxesse a solução geral. Éramos quatro ou cinco, em torno de pequena mesa de ferro, no bar do Parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.

Dom Casmurro
(Machado de Assis)

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

O Ventre
(Carlos Heitor Cony)

Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tor­tura seria interessante se eu a explorasse com critério — mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.

Lavoura Arcaica
(Raduan Nassar)

Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou para me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em dura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo.

Macunaíma
(Mário de Andrade)

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia, tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Sio incitavam a falar exclamava: If — Ai! que preguiça!… e não dizia mais nada.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água
(Jorge Amado)

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a Lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia.

O Tempo e o Vento
(Erico Verissimo)

‎Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério aban­donado. Era tanto silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão. Agachada atrás dum muro, José Lírio preparava-se para a última corrida. Quantos passos dali até a igreja? Talvez uns dez ou doze, bem puxados. Recebera ordens para revezar o companheiro que estava de vigia no alto duma das torres da Matriz.

11 trechos da literatura para nunca mais esquecer

0

eternamente

J. C. Guimarães, na Revista Bula

A alta literatura é uma mina encantada, onde se extrai joias dos mais variados quilates. Você vai lendo e, de repente, algo cintila. Você acaba de descobrir uma pepita considerável; uma frase ou um período que lhe toca sinceramente, além do conjunto. Trata-se de um trecho que lhe diz uma verdade ou traduz algo que você sente e não sabe exprimir ou gostaria de ter dito, a respeito de qualquer assunto: o amor, a amizade, a morte, o mistério deste mundo. Seja lá o que for: nada é completamente estranho aos escritores. É por isso que só escreve bem quem lê os mestres, porque para escrever bem é condição sine qua non ter os ouvidos educados, saber ler a entrelinhas. Segue uma amostra ínfima deste universo gigantesco de sabedoria.

Philip Roth, em O Animal Agonizante

“Quando volto a olhar para ela, já vestiu a jaqueta outra vez. De modo que você compreende que a moça tem consciência de seu poder, mas não sabe direito como usá-lo, o que fazer com ele, não sabe nem mesmo até que ponto quer todo esse poder. O corpo ainda é novo para ela, a moça ainda o está experimentando, tentando compreendê-lo, é um pouco como um menino que anda na rua com uma arma carregada, sem saber se está armado para se proteger ou se para dar início a uma carreira no crime.”

Marcel Proust, em Em Busca do Tempo Perdido

“Assim, os que produzem obras geniais não são aqueles que vivem no meio mais delicado, que têm a conversação mais brilhante, a cultura mais extensa, mas os que tiveram o poder, deixando subitamente de viver para si mesmos, de tornar a sua personalidade igual a um espelho, de tal modo que a sua vida aí se reflete, por mais medíocre que aliás pudesse ser mundanamente e até, em certo sentido, intelectualmente falando, pois o gênio consiste no poder refletor e não na qualidade intrínseca do espetáculo refletido.”

Herman Melville, em Moby Dick

“Chamai-me Ismael. Há alguns anos — quantos precisamente não vem ao caso — tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse na terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo.”

Graciliano Ramos, em Vidas Secas

“Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

“Com minha brandura, alegre é que eu matava. Mas, as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu, o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue, por este simples universozinho aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”

Cervantes, em Dom Quixote

“Para que vejas, Sancho, o bem que encerra a andante cavalaria, e quão a pique estão os que em qualquer ministério dela se exercitam, de virem em pouco tempo a ser nobilitados e estimados do mundo, quero que sentes aqui ao meu lado e em companhia desta boa gente, e que estejas tal como eu, que sou teu amo e natural senhor, que comas no meu prato, e bebas por onde eu beber, porque da cavalaria se pode dizer o mesmo que se diz do amor: todas as condições iguala.”

António Lobo Antunes, em Os Cus de Judas

“Porque, deixe-me confidenciar-lho, sou terno, sou terno mesmo antes do sexto JB sem água ou do oitavo drambuie, sou estupidamente e submissamente terno (mais…)

Iscas de leitura

0
iscas de leitura


“Leitura” (Reading), 1892
by Almeida Júnior (1850-99)

Em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: ‘E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno’

 

Ana Maria Machado em O Globo

Fim de ano e de governo, hora de balanços, promessas, esperanças. Uma encruzilhada dos tempos: também começo de ano e de governo. Em meio a tanta notícia ruim, sequestros, tiroteios, assaltos, massacres de escolares, números negativos e escândalos em série, tudo a alimentar nossa apagada e vil tristeza, o ritual de recomeço procura se nutrir de bons sinais aqui e ali . O reatamento de relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos. O encontro de uma canção inédita nos guardados de Dorival Caymmi. A empolgante vitória de Gabriel Medina como campeão mundial de surfe — e a elegância com que os adversários reconheceram sua grandeza.

O Ano Novo recorda a beleza de começos e recomeços. “Belo porque corrompe com sangue novo a anemia”, como já cantou João Cabral em “Morte e vida severina”. Que seja, então. Mas em meio à feiura efêmera da política e da violência, podemos seguir outro poeta e lembrar com Drummond: “E como ficou chato ser moderno, agora serei eterno.”

Convido então a buscar um pouco dessa beleza eterna. Para muita gente, verão é também tempo de férias, a oportunidade de mergulhar em leituras. Não vou sugerir novidades, isso já foi feito à exaustão nas páginas pré-natalinas. Mas proponho um passeio por começos instigantes. Hoje muita gente só compra livros pela internet, perdendo a oportunidade de folheá-los numa livraria. Então trago ao espaço comum de nosso jornal algumas frases iniciais de bons livros, iscas de romances. Talvez você reconheça algumas, talvez tenha saudades de outra e resolva reler. Pode também se deixar fisgar por uma desconhecida e então a busque para conferir. Os livros virão identificados ao final da coluna. Nenhum é novidade. Mas creio que, sem exceção, cada um poderá dar prazer e ajudar a pensar sobre o mundo que nos cerca — razão pela qual faço questão de trazê-los a esta página de opinião.

A — Em meus anos mais jovens e mais vulneráveis, meu pai me deu um conselho que, desde então, tenho feito virar e revirar em minha mente. “Sempre que tiver vontade de criticar alguém”, disse, “lembre-se de que nem todo mundo teve as vantagens que você teve.”

B — Alguém deve ter dito mentiras sobre Joseph K., pois, sem ter feito nada de errado, certa manhã ele foi preso.

C — No dia em que o matariam, Santiago Nazar levantou-se às 5h30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava um bosque de grandes figueiras onde caía uma chuva branca, e por um instante foi feliz no sonho, mas ao acordar sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros.

D — O homem me pede fogo. Ergo para ele o isqueiro aceso e noto contrariado que minha mão treme um pouco. Seus olhos cor de zinco se fixam nos meus dedos. Nervoso? Sacudo a cabeça negativamente, odiando-o como se pode odiar a pessoa que nos descobre o segredo que mais queremos ocultar.

E — Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

F — Se querem mesmo ouvir o que aconteceu, a primeira coisa que vão querer saber é onde nasci, como passei a porcaria da minha infância, o que meus pais faziam antes que eu nascesse, e toda essa lengalenga tipo David Copperfield.

G — Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou. Que ninguém se engane. Só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

H —Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

I — Ela ficou, mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo.

J — Foi um número errado que começou tudo, o telefone tocando três vezes, altas horas da noite, e a voz do outro lado chamando alguém que não morava ali.

K — Ai, me dá vontade até de morrer. Veja a boquinha dela como está pedindo beijo — beijo de virgem é mordida de bicho-cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz.

L — Foi no verão de 1998 que meu vizinho Coleman Silk — que, antes de se aposentar dois anos antes, tinha sido catedrático de literatura clássica no vizinho Athena College durante mais de vinte anos, além de acumular mais dezesseis como decano da universidade – me confidenciou que, aos 71 anos de idade, estava tendo um caso com uma faxineira que trabalhava na faculdade.

Graças a Scott Fitzgerald (“O Grande Gatsby”), Franz Kafka (“O processo”), Garcia Marquez (“Crônica de uma morte anunciada”), Erico Veríssimo (“Saga”), Machado de Assis (“Memórias póstumas de Brás Cubas”), J. D. Salinger (“O apanhador no campo de centeio”), Clarice Lispector (“A hora da estrela”), Leon Tolstoi (“Ana Karenina”), Lygia Fagundes Telles (“A noite escura e mais eu”), Paul Auster (“Trilogia de Nova Iorque”), Dalton Trevisan (“O vampiro de Curitiba”), Philip Roth (“A nódoa humana”).

Boas leituras.

Ana Maria Machado é escritora

Go to Top