Posts tagged TrêS Horas

Você conseguiria ler um livro em três horas?

0

Fast moving train leaving station

Pedro Lima e Pedro Dalboni, no Literatortura

A leitura dinâmica de um escritor finalista do prêmio Man Booker – com a ajuda de um aplicativo chamado Spritz – foi uma eletrizante viagem que me deixou em agonia

Semana passada, decidi tentar um experimento. Precisamente ao meio dia, eu sentei no meu sofá para ver se eu conseguiria ler uma obra de um dos finalistas do prêmio supracitado antes do café da tarde.

Não foi tão simples quanto parece. O livro que eu escolhi foi “To Rise Again at a Decent Hour”, de Joshua Ferris (sem tradução para a língua portuguesa), cerca de 110 mil palavras, nada muito extenso, mas levando-se em conta o fato de que um adulto lê uma média de 250 a 300 palavras por minuto (De acordo com este estudo: aqui!), a leitura seria concluída dentro de, pelo menos, seis horas. E isso sem levar em consideração a densidade do seu enredo: um dentista de Manhattan em plena crise religiosa após um grupo religioso roubar a sua identidade. Obviamente, a ideia de lê-lo até as três ou quatro horas da tarde seria, no mínimo, ambiciosa.

Para me ajudar ao longo da leitura, contei com o ajuda do Spritz. Desenvolvido por uma companhia de Boston com o mesmo nome, trata-se uma ferramenta extra para e-readers que objetiva te fazer ler até mil palavras por minuto (ppm), uma rapidez comparável às leituras dinâmicas. A tecnologia por trás do Spritz é fascinante. Os seus criadores afirmam que cada palavra que lemos possui o que é conhecido como ponto ótimo de reconhecimento. Processe-o e você terá o significado da palavra muito mais rápido. Com o Spritz em funcionamento, cada palavra possuirá uma letra destacada em vermelho. As palavras são exibidas em tamanho grande na sua tela, aparecendo em rápida sucessão de acordo com a velocidade que você programar. Ele está em desenvolvimento há algum tempo, mas recentemente foi disponibilizado para celulares iOS e Android (ou, pelo menos, o Samsung S5 e o Gear 2).

O protagonista do romance, Paul O’Rourke, é um ousado tecnofóbico. O homem se orgulha de sua aversão à tecnologia, se recusa a ter um perfil no Facebook e nutre uma imensa desconfiança pelo Google. Logo, ler a sua história num iphone e usando um aplicativo de leitura dinâmica foi uma experiência um tanto quanto perversa.

De imediato, percebe-se que o Spritz muitíssimo bem. O grande problema da leitura dinâmica está na compreensão: Anne Jones, vencedora por seis vezes de uma competição de leitura dinâmica, ganhou uma disputa em 2001 com 2246 ppm e uma taxa de 60% de compreensão do conteúdo lido. Com o Spritz, isso não é problema. Iniciei “To Rise Again at a Decent Hour” com leves 350 ppm. Consegui terminá-lo com com nada menos que 650 ppm, e entendendo tudo.

Ferris é um escritor provocador, mas ele possui uma leve tendência a desviar-se para digressões sobre doutrinas religiosas, filosofando sobre a hostilidade de O’Rourke. De novo, nada demais: eu estava retendo tudo. E quando meu alarme apitou, eu já havia consigo chegar a 650 ppm.

Isso não significa dizer que o Spritz não tenha problemas. Os diálogos ficam confusos. Leia com ele um livro de Elmore Leonard ou George Pelecanos e você perderá o fio da meada em poucos minutos. O aplicativo possui sérias dificuldades com palavras repetidas. Num momento, O’Rourke está refletindo sobre os lazeres fúteis de New York, divagando a respeito de como poderia ir até um bar e “bebia Pinot até que a adoração à Billie Holiday saturou a minha alma e eu fiquei bêbado, bêbado, bêbado.” Quando o Spritz tentou mostrar essas três últimas palavras, o texto na tela parou temporariamente, pois exibia palavras idênticas com vírgulas após elas. Por um momento, o aplicativo pareceu bastante confuso, como se ele também tivesse tomado mais Pinot do que deveria.

Lá pelas três horas da tarde, eu estava começando a ficar incomodado. Eu continuava retendo tudo, mas em agonia. O Spritz demanda total concentração, principalmente ao ler em velocidades mais elevadas. Distraia-se por um segundo quando estiver beirando a 750 ppm e você perderá onze palavras – confie em mim, quando O’Rourke estiver investigando por que um grupo religioso de Ulm está utilizando o Twitter e Facebook em seu nome, você não vai querer perder nenhuma delas sequer. Meus olhos estavam doendo, meus dedos estavam enrijecidos em volta do iphone e, sempre que eu tentava fazer algumas pausas, meu pescoço perguntava pontualmente por que eu estava fazendo isso com ele.

Li o último quarto livro como que num teimoso estupor. O’Rourke havia terminado sua jornada em Israel e já era um homem muito diferente e eu tinha a sensação de ter caminhado todo esse tempo com ele – e não num bom sentido. Acrescentando as pausas à conta, o tempo total de leitura foi de quatro horas e 13 minutos.

Spritz é uma ferramenta fantástica, mas ainda não está pronta para ser usada na leitura de romances. Ler um livro – especialmente um complexo como esse de Ferris – não é somente uma questão de rapidez e compreensão. O Spritz não permite que você se estenda. Não foi possível parar para respirar durante os diálogos sofisticados de “To Rise Again at a Decent Hour”. Até o presente momento, ler uma ficção no Spritz é como ir de monociclo de Shepherd’s Bush a Brick Lane: é perfeitamente possível, no entanto você pode utilizar de meios mais prazerosos e lógicos para fazê-lo.

Se a ideia é utilizar o Spritz para ler romances, então a sua tecnologia precisa ser capaz de lidar com escritas mais elaboradas, dessas que contêm uma infinidade de nuances. Até agora, ele só é compatível com programas de leitura de segunda categoria (eu utilizei o “ReadMe!”, com um imenso ponto de exclamação). Ibooks, Kindle e Nook devem aderi-lo com o tempo. Para arquivos mais curtos ou leituras que você deve fazer às pressas, o Spritz é uma excelente e maravilhosa tecnologia. Mas ainda levará um bom tempo até que ele de fato modifique os hábitos de leitura das pessoas.

PS: O presente texto é um artigo de opinião escrito por Rob Bafford e publicado no site The Guardian, não contendo necessariamente a opinião da equipe do Literatortura.

Professor inglês vem ao Brasil para ‘ensinar’ autores iniciantes a escrever romances

0

Cassiano Elek Machado, na Folha de S.Paulo

Um dos grandes autores britânicos do século 20, Somerset Maugham revelou certa vez o supra-sumo de seus segredos literários, para os aspirantes a escritores que lhe pediam conselhos.

“Existem três regras para escrever um romance. Infelizmente ninguém sabe quais elas são”, disse o autor.

Nem todos concordam com o autor de “Servidão Humana” e “O Fio da Navalha”. O seu conterrâneo Richard Skinner, por exemplo.

Autor de três romances, já traduzidos em sete idiomas (não em português), o inglês de 51 anos tem uma porção de ideias para quem pretende se tornar um escritor. E, daqui a pouco mais de duas semanas, virá compartilhá-las, pela primeira vez, com o público paulistano.

Diretor da Faber Academy, escola criada pela prestigiada editora britânica Faber and Faber, em Londres, Skinner é um dos convidados do Pauliceia Literária, festival que acontecerá de 19 a 22 de setembro na Associação dos Advogados de São Paulo.

Além de debater com o escritor e cineasta francês Philipe Claudel, 51, sobre “Literatura e Cinema”, o britânico coordenará, no dia 21, uma oficina literária chamada “Da Ideia à Criação do Romance”. Serão três horas de atividades, em inglês.

E o que é possível ensinar nesse tempo a um aspirante a escritor?, a Folha perguntou a Skinner, por e-mail.

“Bons romances não são escritos com a cabeça ou com o coração, mas sim com o estômago. Meu objetivo para este workshop é tentar mostrar que um romance será muito melhor se o autor seguir seus instintos viscerais.”

Há quem torça o nariz para dicas do gênero. Um dos principais escritores vivos, o norte-americano Philip Roth, 80, é um deles.

O romancista chegou a dar aulas de “creative writing” no curso mais tradicional do ramo nos Estados Unidos, o da Universidade de Iowa, nos anos 1960, mas depois declarou achar isso uma “grande perda de tempo”. Autores de outras gerações e latitudes também fazem ponderações.

“Já dei oficinas de escrita. Minha primeira frase foi: ‘Não acredito que ninguém seja capaz de ensinar outra pessoa a escrever'”, conta o escritor João Paulo Cuenca, 35. “Sou absolutamente contrário a essa onda de pasteurização que vejo em alguns cursos.”

“Discordo completamente da ideia de ‘pasteurização'”, rebate Skinner. “Cursos de escrita criativa não devem servir para dizer o que os estudantes devem pensar ou escrever, mas para ajudá-los a desenvolver suas próprias fontes de criação.”

O principal professor de escrita criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, 58, está com o inglês. Escritor e atual secretário de Cultura do Rio Grande do Sul, ele dá aulas do gênero desde 1985, na PUC-RS, onde foi criado o primeiro mestrado do ramo.

“É só ver meus ex-alunos. A ficção de Daniel Galera é muito diferente da ficção da Letícia Wierzchowski, que é muito diferente da do Michel Laub, que é muito diferente da de Cintia Moscovich…”

Assis Brasil defende que há apenas um traço em comum entre sua longa lista de ex-alunos (que, gaba-se, “inclui cinco dos 20 eleitos pela revista ‘Granta’ como melhores autores jovens brasileiros”).

“Há uma unidade de narrador. Todos, sem exceção, escrevem em primeira pessoa. Mas isso é uma questão da nossa época, não de nenhum curso.”

Em seu livro teórico “Fiction Writing” (Hale Books, Inglaterra), do qual foram pinçadas as dicas ao lado, Skinner diz que não é propriamente a escolha da “voz” literária o maior problema dos escritores iniciantes. O professor sustenta, por sinal, que “encontrar a própria voz” é um dos grandes mitos literários. A grande inimiga é a pressa.

“Quando um autor novo tem uma ideia, ele começa a escrever de modo afoito e perde o gás depois de 50 páginas. Uma das partes mais difíceis do processo de escrever é o de sustentar e desenvolver a história”, diz à Folha.

Sem saber, um dos grandes escritores brasileiros em atividade, João Ubaldo Ribeiro, 72, já chegou a usar uma “técnica” também sugerida por Skinner. “Nunca cursei nada semelhante, mas o que fiz foi ler muito e até copiar trechos de livros, obrigado por meu pai, quando menino. Como tudo mais, acho que a escrita se aperfeiçoa com o ‘treino’, mas não acredito que se aprenda a ser um ficcionista dessa forma”, diz Ubaldo. “Assim como um músico ou pintor, tem que haver talento.” Nisso, Ubaldo, Skinner e companhia concordam.

*
DICAS DO PROF. SKINNER

1 – CTRL C + CTRL V
Pegue um livro que você admire e copie uma página. Observe o ritmo das frases. O que você nota nelas? Escreva usando os recursos

2 – BIG BROTHER
Vá a algum lugar cheio de gente, como uma estação de trem ou um café, e observe o que acontece no entorno. Observe as pessoas e tente criar pequenas histórias com o que vê

3 – 15 MINUTOS
Pense num amigo e escreva por 5 min. sobre ele. Depois pense no que fez no dia anterior e escreva por 5 min. Por fim, tente estabelecer um elo entre os textos, em 5 min.

4 – AÇÃO!
Um bom diálogo é uma impressão de como as pessoas realmente falam, não uma cópia. Restrinja os diálogos ao mínimo possível. Ações são sempre melhores do que diálogos

Fonte: “Fiction Writing – The Essential Guide to Writing a Novel”, de Richard Skinner

*
CINCO SUGESTÕES DE LEITURA DE RICHARD SKINNER

1) ‘Arte Poética’, de Aristóteles (várias edições disponíveis)
“A estrutura em três atos da maior parte dos filmes de Hollywood vem daí, e nesse texto aparecem conceitos familiares para a escrita, como ‘catarse’ e ‘catástrofe’.”

2) ‘Sobre Direção de Cinema’, de David Mamet (ed. Civilização Brasileira)
“As lições são originalmente para estudantes de cinema, mas se aplicam à escrita.”

3) ‘A Arte do Romance’, de Milan Kundera (ed. Companhia das Letras)
“O escritor tcheco descreve a arquitetura de seus romances e examina a história deste gênero, de Cervantes a Kafka.”

4) ‘As Entrevistas da Paris Review, vol. 2’, vários autores (ed. Companhia das Letras)
“Este volume inclui entrevistas longas com grandes escritores como Alice Munro, Gabriel García Márquez e Stephen King.”

5) ‘Projections 3’, de John Boorman e Walter Donohue (sem edição brasileira)
“O livro inclui entrevista com o diretor e cineasta Sydney Pollack que traz as melhores respostas que já li para a pergunta ‘O que é um personagem?’.”

Livros nas tubotecas se esgotam em menos de três horas após reposição

0

Com o crescimento da demanda, prefeitura prepara campanhas para aumentar doações de livros

Em menos de três horas, livros repostos somem das prateleiras das Tubotecas (Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Em menos de três horas, livros repostos somem das prateleiras das Tubotecas (Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Rafael Neves, na Gazeta do Povo

De segunda a sexta, perto da hora do almoço, equipes da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) percorrem a cidade repondo as prateleiras das sete Tubotecas – bibliotecas informais instaladas em estações-tubo do transporte coletivo.

Apesar de cada uma ter capacidade para guardar até 150 livros, o acervo de mais de 27 mil obras não tem sido suficiente. Menos de três horas após a reposição, segundo a FCC, as prateleiras já ficam vazias novamente

“No começo da campanha, imaginamos que o volume de retirada de livros por tubo, a cada dia, seria cerca de 30 livros. Hoje, mais de três meses depois – [as tubotecas foram instaladas no dia 28 de março] -, descobrimos que este potencial é três vezes maior”, explica o Presidente da FCC, Marcos Antonio Cordiolli. Segundo o presidente, esta demanda inesperada faz com que, às vezes, o usuário encontre as prateleiras vazias.

O objetivo da FCC, de acordo com Cordiolli, é chegar a um acervo de cem mil livros, que circulem nas mesmas sete tubotecas que já existem. Para isso, a prefeitura deve lançar em menos de um mês uma campanha para aumentar o número de doações de obras.

“Não sabemos exatamente quantos livros estão sendo adquiridos, já que muitos são depositados informalmente nos tubos e não é feita a contagem diária”, explica o presidente. “Mas sabemos que o número ainda não é muito alto”. No Prédio Central da Prefeitura, maior núcleo de doações, a FCC informa que recebe entre 20 e 30 livros por dia.

A campanha projetada pela fundação quer elevar as doações entre cidadãos e também com empresas. Entre as ações planejadas, a FCC vai implantar pontos de recebimento de livros em estabelecimentos comerciais, promover publicidade na internet e nos ônibus e colocar marcadores nos próprios livros incentivando as doações.

Cordiolli explica que o objetivo não é apelar para que os usuários devolvam os livros mais rapidamente. “Temos percebido que as pessoas demoram a restituir as obras justamente porque passam mais tempo com elas. As tubotecas foram pensadas de forma que o leitor possa ficar com o volume por quanto tempo desejar”, garante o presidente.

dica do Jarbas Aragão

Progresso

0
Imagem: Google

Imagem: Google

O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo em que não havia computadores.

O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada – e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar, encontrou-a dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preta e metade vermelha, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes, sem conta eles estiveram juntos.

“Como é que funciona, pai?”, o menino perguntou.

“É assim que funciona…”, respondeu o pai. A seguir, colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas.

Ao ver a máquina em ação, o menino fez um “oh” de espanto.

“Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar as letras que o texto sai impresso…” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortázar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece nçoa de trás para frente, mas da frente para trás.

A história começa num voo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, em vez de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de quinze quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim, poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e ver os rios, bosques e vilas…

E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor… Até que, depois de muito progresso, da invenção dos navios a vela não poluentes e das bicicletas que fazem bem ao coração, os humanos inventam a mais fantástica de todas as invenções: eles inventam o “andar a pé”…

Texto de Rubem Alves, no livro: “Pimentas – Para provocar um incêndio não é preciso fogo”, págs. 96/97

Go to Top