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10 livros para ler num domingo de manhã

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Filipe Larêdo, no Papo de Homem

Domingo de manhã. Sete horas. Apesar de todo o cansaço que a rotina semanal de trabalho lhe trouxe, você não consegue continuar dormindo. Sendo casado, olha pro lado e percebe que sua companheira – ou seu companheiro – não está nem perto de querer se despertar. Sendo solteiro, não tem coragem de acordar seus amigos com um telefonema tão cedo. Assim, o domingo de manhã lhe envolve em seus feitiços silenciosos e tranquilos, fazendo com que você não sinta mais vontade de fazer mais nada. E eis que surge uma excelente oportunidade de ler.

Sim. Uma boa leitura num domingo de manhã é algo inestimável na vida de um mortal que quer curtir seu dia deitado, sentado, em pé ou de qualquer forma que seu corpo desejar, contanto que seja na frente de um livro.

E para deixar esse dia tão especial, separamos algumas excelentes leituras para se fazer num domingo de manhã. Todos são ótimos livros e certamente poderão ser lidos numa tacada só, às vezes por serem curtos ou por terem uma ótima fluidez.

Preparados?

A Pérola (John Steinbeck – Record, 128 páginas)

John Steinbeck, A Pérola

Ganhador do Prêmio Nobel de 1962, esse autor americano ficou conhecido por suas tramas simples, mas marcantes e intensas.

Em A Pérola, Steinbeck apresenta ao leitor um casal de pescadores que descobre a maior pérola do mundo no litoral do México.

Tamanha riqueza desperta neles e em seu povoado sentimentos vis como a inveja, a ira e o egoísmo. A história se desenrola em cima do mito da sorte grande, porém vai muito mais além, usando metáforas morais que levam o leitor a se questionar se tudo aquilo vale realmente a pena.

O livro foi adaptado para o cinema em 1946 e contou com a ajuda do próprio Steinbeck no roteiro. Na tevê brasileira, coube a Dias Gomes fazer a adaptação.

O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry – Agir, 96 páginas)

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“O quê? Um livro infantil?”. Respondo que sim, senhores, O Pequeno Príncipe é um livro infantil tão fascinante, que deve ser lido por todos, inclusive adultos. Isso porque ele transporta o leitor para o mistério da infância, para uma época que os sonhos se misturavam com a realidade constantemente.

De leitura ágil e sensível, é uma obra que comoveu milhões de pessoas de diversas nações em todos os continentes. Até hoje ela continua sendo uma referência em literatura e o fato de ter sido traduzida para mais de oitenta línguas é uma prova disso.

E se você não tem esse livro em casa – o que eu acho difícil –, ficará impressionado com a facilidade que terá de encontrar em qualquer livraria ou sebo perto da sua casa.

Leitura perfeita para um domingo de manhã.

Bartleby, o Escriturário: uma história de Wall Street (Herman Melville – L&PM Pocket, 96 páginas)

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Para aqueles que estão um pouco insatisfeitos com a rotina de trabalho e não sabem o que fazer, essa pode, ou não, ser uma boa receita literária. Tudo porque a história começa quando um bem-sucedido advogado contrata Bartleby como auxiliar de escritório.

Muito solícito e proativo, ele tem todas as qualidades de um funcionário modelo. Mas tudo mudo quando, do dia pra noite, ele resolve responder a um pedido do chefe com um desconcertante “prefiro não fazer”.

Essa insubordinação com o chefe foi aclamado por intelectuais como Albert Camus e Jorge Luis Borges, que a consideraram como uma metáfora iconoclasta de destruição das morais do mundo, principalmente aquelas construídas dentro de uma realidade sistemática que é a dos tempos modernos.

A festa de Babette (Karen Blixen – Cosac Naify, 64 páginas)

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Um livro cuja adaptação cinematográfica ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro (1988) só pode ter uma qualidade digna de recomendação.

Fugitiva do massacre à Comuna de Paris em 1871, Babette aparece misteriosamente num vilarejo na costa da Noruega, durante uma noite de tempestade. Em troca de abrigo, ela oferece seus serviços de cozinheira para duas irmãs protestantes, que prontamente aceitam.

Acontece que um dia, Babette ganha uma bolada na loteria e, em vez de deixar pra trás aquelas que a acolheram, prefere organizar um suntuoso banquete em homenagem ao pai das benfeitoras, um respeitado pastor puritano.

Lisístrata: A greve do Sexo (Aristófanes – L&PM pocket, 128 páginas)

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Cansadas das guerras e sem nenhuma representação na política ateniense, as mulheres decidem fazer a única coisa que está ao seu alcance para acabar com os conflitos na Grécia do séxulo V a.C.: recusam-se a fazer sexo com seus maridos. E declaram que vão permanecer com essa postura até que seja assinado um tratado de paz.

Que coisa, não?

Em forma de teatro, essa comédia apresenta a heroína Lisístrata, líder da revolta feminina, que comanda as mulheres contra a destruição que vem sendo feito pelos homens. De caráter pacifista, é uma obra que merece ser lida.

A Arte de Produzir Efeito sem Causa (Lourenço Mutarelli – Companhia das letras, 208 páginas)

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Como já é de seu estilo, Mutarelli não perde tempo com cenas desnecessárias e imprime um ritmo rápido e alucinante em suas narrativas. E é esse o caso de A arte de produzir efeito sem causa.

Com diálogos longos e intensos, o livro conta a história do infeliz Júnior, que depois de abandonar o emprego e o casamento, pede abrigo ao pai. Sem ânimo para recomeçar, passa os dias no sofá da sala, no bar onde bebe com seus antigos amigos desocupados ou nas conversas com Bruna, uma bela estudante que também mora no apartamento do pai.

Rapidamente o leitor vai penetrando na consciência distorcida de Júnior e descobre que o personagem está no limite de sua própria sanidade.

Como se Preocupar Menos com Dinheiro (John Armstrong – Objetiva, 168 páginas)

como se preocupar menos com dinheiro

Dinheiro é um negócio complicado. Normalmente, quanto mais temos, mais queremos ter, e nunca ficamos satisfeitos com o que conquistamos. Além disso, quando olhamos pro lado e vemos aquele antigo amigo da escola esbanjando sucesso financeiro, sentimos inveja e frustração. E é pra resolver esse problema que John Armstrong nos entrega o seu livro.

Diferente da maioria dos livros sobre o assunto, que insistem em indicar caminhos para ganhar mais e viver com menos, esse vai direto ao ponto e analisa a maneira como nos relacionamos com o dinheiro e qual o seu significado em nossas vidas.

Com uma perspectiva mais humana, que debate temos como a necessidade e o querer, o apego e o desapego, o livro é uma excelente indicação para aqueles que se preocupam demais com dinheiro e acordaram no domingo de manhã se perguntando sobre como resolver seus problemas financeiros.

A Metamorfose (Franz Kafka – Companhia das Letras, 104 páginas)

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Se sente estranho? Acordou bem nessa manhã de domingo? Tem certeza que não nasceu uma dura carapaça em suas costas?

Desculpem a brincadeira, caros leitores, mas a intenção era mostrar a sensação que Gregor Samsa teve ao acordar de um sono intranquilo e descobrir que havia se transformado num monstruoso inseto. No início, pensou que estivesse sonhando, mas aos poucos foi descobrindo que aquela condição ainda lhe traria muitos problemas.

A mais popular de todas as novelas de Kafka, A Metamorfose também é uma das mais importantes obras da história da literatura. Suas pitadas de humor associam o inverossímil ao trágico da existência humana e levam o leitor a uma obra-prima de um mestre da ficção universal.

Azul é a cor mais quente (Julie Maroh – Martins Fontes, 160 páginas)

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Infinitamente mais dramático que o filme, essa bande dessinée — como os franceses chamam os quadrinhos — traz o selo de qualidade que os quadrinhos feitos na França costumam receber. A obra impressa guarda algumas relações com sua versão cinematográfica, mas no fim, a experiência é completamente diferente.

Por meio de textos do diário de Clémentine — que no filme se chama Adèle –, vamos acompanhando seus passos, desde o primeiro encontro com Emma, uma jovem de cabelos azuis por quem se apaixona, até as primeiras descobertas, prazeres, tristezas e tragédias que essa relação reserva.

De sensibilidade aguda, a obra foi merecidamente premiada no Festival d’Angoulême, o mais respeitado evento de quadrinhos do mundo.

Um Copo de Cólera (Raduan Nassar – Companhia das Letras, 88 páginas)

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Um verdadeira clássico da literatura brasileira, esse livro sintetiza o estilo intenso e vibrante de Raduan Nassar.

Depois de uma noite de amor, o homem se irrita com as formigas que destroem sua cerca-viva, e a mulher brinca com o fato de seu amante querer destruir nervosamente o formigueiro. A partir daí o embate entre eles cresce em agressividade, levando-os a um ciclo de destruição e de recriação que se renova no final do livro.

Apesar de sua prosa complexa, com uma oralidade muito próxima da poética e longos períodos, seu ritmo é instigante do começo ao fim. Ao final das 88 páginas, o leitor terá a sensação que pode facilmente reiniciar a leitura, pois tudo volta de onde partiu.

Agora é esperar os domingos que virão e acordar mais cedo de propósito. Claro, temos espaço aberto para mais livros serem comentados aqui nos comentários.

Obs.: algumas capas são de outras editoras e outras possuem versões atualizadas. Ao correr atrás de um desses livros, vale verificar qual é a edição mais recente.

Tudo o que sempre quisemos saber sobre Hemingway e nunca tivemos coragem de perguntar

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O telegrama em que Academia Sueca comunica a Ernest Hemingway a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em Outubro de 1954 ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

O telegrama em que Academia Sueca comunica a Ernest Hemingway a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em Outubro de 1954
ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

Da receita do hambúrguer favorito do escritor ao telegrama em que Ingrid Bergman lhe dá os parabéns pelo Nobel da Literatura: 2.500 novos documentos estão agora disponíveis para consulta em Boston.

Inês Nadais, no Público

“Não há nenhuma razão para que um hambúrguer na sertã fique cinzento, gorduroso, fino como uma folha de papel e sem sabor. Podemos acrescentar todo o tipo de gulodices e sabores à carne picada – cogumelos cortados, molho cocktail, alho e cebola aos quadradinhos, amêndoas moídas, uma grande colher de Picalilli, ou o que quer que chame a nossa atenção. O ‘Papa’ prefere esta combinação.” Começa assim – e a isto segue-se uma lista de ingredientes que inclui duas colheres de sopa de alcaparras, outra de salva picada e um terço de chávena de vinho branco ou tinto – um dos documentos do espólio de Ernest Hemingway (“Papa”, para os que lhe foram verdadeiramente chegados) que a Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, em Boston, pôs no início desta semana à disposição dos investigadores.

Ao todo, são 2.500 novas possibilidades de espreitar pelo buraco da fechadura para a vida de um escritor que se diz ter sido muito maior do que ela – incluindo, além da receita do seu hambúrguer favorito dactilografada pela sua última mulher, Mary, a factura do Buick Super Station Wagon que comprou em 1959 num stand automóvel em Key West, a licença de porte de arma emitida pelo Governo cubano nove anos antes, vários bilhetes de touradas a que assistiu em Espanha, e os telegramas em que Spencer Tracy, John Huston (“Grande, Papa, grande”) e Ingrid Bergman (“Afinal os suecos não são assim tão estúpidos”) o felicitam pela atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1954 (além do próprio telegrama em que a Academia Sueca lhe comunica a deliberação).

Armazenado durante décadas na cave da casa onde o escritor viveu entre 1939 e 1960 nos arredores de Havana – a Finca Vigía, em San Francisco de Paula –, o espólio que a Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy agora torna acessível depois de uma extensa operação de digitalização constitui a segunda parte da verdadeira arca do tesouro que Jenny Phillips, neta do editor Maxwell Perkins, ali encontrou praticamente ao abandono em 2001, juntamente com uma biblioteca pessoal de mais de nove mil livros anotados à mão, uma grafonola com um disco de Glenn Miller e várias garrafas abertas de Cinzano.

Em 2008, uma primeira remessa deste espólio inédito, reunindo cerca de três mil documentos (correspondência pessoal, diários, manuscritos originais) fora já colocada ao dispor dos estudiosos; desta vez, é sobretudo a memorabilia pessoal de Hemingway que se torna pública, pronta a segredar-nos tudo o que sempre quisemos saber sobre o autor de Por Quem Os Sinos Dobram (1940) e nunca tivemos coragem de perguntar.

Cartas, postais de Natal, telegramas, passaportes e outros documentos pessoais, facturas, contas da mercearia, da oficina, da livraria e do bar, notas de encomenda, receitas, anotações, extractos bancários – é todo um Hemingway de carne e osso, um Hemingway do dia-a-dia, que se revela, notava Tom Putman, o director da biblioteca, no comunicado distribuído à imprensa na passada terça-feira. “Congratulamo-nos por disponibilizar aos investigadores cópias destes materiais que permitem um vislumbre único do quotidiano de Hemingway. Tratando-se, como se trata, de uma figura literária frequentemente retratada como maior do que a vida, este acervo serve para humanizar o homem e para compreender o escritor”, acrescentava na mesma nota o responsável pela instituição norte-americana.

Deve-se sobretudo à Finca Vigía Foundation, que Jenny Phillips criou em 2002 para preservar o que Hemingway deixou para trás em Cuba e a sua viúva não pôde ou não quis trazer para os EUA, a preservação e a digitalização deste imenso espólio, feita em colaboração com o Conselho Nacional do Património Cultural de Cuba – tal como se deve a Jenny Phillips o restauro da casa onde Hemingway viveu a maior parte da sua vida, e da qual saiu em 1960 para uma viagem sem regresso (acabaria por suicidar-se em Julho de 1961 na sua casa de Ketchum, Idaho).

“Não há nenhuma verdadeira bomba [neste grupo de 2.500 novos documentos].  O valor que têm está na sua textura de quotidiano, na forma como compõem um retrato de Hemingway. Quando partiu de Cuba, ele não sabia que não ia voltar. Os seus sapatos ainda lá estão. É como se tivesse saído para voltar dentro de momentos”, apontou ao New York Times Sandra Spanier, que dirige o Hemingway Letters Project.

Foi na Finca Vigía, de resto, que Hemingway escreveu obras tão importantes para o cânone literário do século XX como Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar (1952), além dos já póstumos Paris é uma Festa (1964), Ilhas na Corrente (1970), Verão Perigoso (1985), O Jardim do Éden (1986) e Verdade ao Amanhecer (1999).

Em Boston, esta nova remessa vem engrossar a Ernest Hemingway Collection da Biblioteca e Museu Presidencial John F. Kennedy, na qual estão depositados mais de 90 por cento dos materiais do espólio do escritor. Apesar de o escritor e o presidente assassinado em 1963 nunca terem chegado a conhecer-se pessoalmente – Kennedy convidou-o para a sua tomada de posse, mas Hemingway estava já demasiado doente para viajar –, a viúva do Nobel da Literatura quis agradecer com a doação iniciada em 1972 a intervenção da Casa Branca junto das autoridades cubanas logo após a morte do marido.

Estando então suspensas, na sequência da crise da Baía dos Porcos, as viagens entre Cuba e os EUA, o regime de Fidel aceitou o pedido de Kennedy para que Mary Hemingway pudesse deslocar-se a Havana e recolher documentos e bens pessoais do autor – em troca, o Governo cubano reclamou a Finca Vigía e o recheio remanescente, que agora começa a abrir-se ao mundo para que possamos finalmente saber que mesmo nos anos terminais em que a vida começava realmente a tornar-se mais pequena do que ele, Hemingway continuava a mandar vir de Nova Iorque azeitonas, caracóis franceses e sopa de tartaruga.

Passaporte norte-americano de Ernest Hemingway ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

Passaporte norte-americano de Ernest Hemingway
ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

Receita do hambúrguer favorito de Hemingway, dactilografada pela sua última mulher ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

Receita do hambúrguer favorito de Hemingway, dactilografada pela sua última mulher
ERNEST HEMINGWAY PAPERS COLLECTION/MUSEUM ERNEST HEMINGWAY FINCA VIGÍA

 

Forest Whitaker pode dirigir filme baseado no livro “A Cabana”

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Antônio Tinoco no Cinema em Cena

De acordo com o site da Variety, Forest Whitaker (O Mordomo da Casa Branca) está na fase final de negociações para dirigir, roteirizar e estrelar The Shack (“A Cabana”, em português). O filme será uma adaptação do best-seller homônimo de William P. Young, que vendeu mais de 10 milhões de cópias desde sua publicação (veja foto abaixo).

A história apresentará um homem cuja filha mais nova é sequestrada durante as férias familiares. A partir de evidências encontradas em uma cabana abandonada, as autoridades concluem que a menina foi assassinada. Anos depois, o pai recebe uma mensagem aparentemente de Deus que o convida a retornar ao local.

Whitaker tem experiência como diretor, pois assumiu a função em produções como Falando de Amor, Quando o Amor Acontece e A Filha do Presidente. Se as negociações derem certo, essa será a primeira vez que ele vai dirigir, roteirizar e estrelar um longa.

Ainda não há previsão para o início das filmagens de The Shack.

Recentemente, o ator foi cotado para se juntar a Liam Neeson (Fúria de Titãs 2) em Busca Implacável 3. Ele poderá ser visto nos cinemas ao lado de Christian Bale (O Grande Truque) e Woody Harrelson (Zumbilândia) em Tudo por Justiça, que estreia no dia 7 de março.

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40 frases impagáveis do Barão de Itararé

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Euler de França Belém na revista Bula

Barão de Itararé

Um grande humorista ganhou uma biografia alentada, “Entre Sem Bater — A Vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé” (Casa da Palavra, 480 páginas), de Cláudio Figueiredo. Criador do jornal “A Manha”, o Barão ridicularizava ricos, classe média e pobres. Não perdoava ninguém, sobretudo políticos, donos de jornal e intelectuais.

Ele não era barão, é claro. Mas deu-se o título de nobre e nobre se tornou. O primeiro nobre do humor no Brasil. Debochava de tudo e de todos e costumava dizer que, “quando pobre come frango, um dos dois está doente”. Ele é um dos inventores do contra-politicamente correto.

Há muito que o gaúcho Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971) merecia uma biografia mais detida. Em 2003, o filósofo Leandro Konder lançou “Barão de Itararé — O Humorista da Democracia” (Brasiliense, 72 páginas). O texto de Konder é muito bom, mas, como é uma biografia reduzida, não dá conta inteiramente do personagem, uma espécie de Karl Kraus menos filosófico mas igualmente cáustico.

Quatro depois, o jornalista Mouzar Benedito lançou o opúsculo “Barão de Itararé — Herói de Três Séculos (Expressão Popular, 104 páginas). É ótimo, como o livrinho de Konder, mas lacunar. No final, há uma coletânea das melhores máximas do humorista, que dizia: “O uísque é uma cachaça metida a besta”.

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva.

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer.

Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar.

Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas.

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro.

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Quem empresta, adeus.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa.

O fígado faz muito mal à bebida.

O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.

A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis.

Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo…

Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está.

Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra!

Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!

Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta…

Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.

As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único.

Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados.

Quem não muda de caminho é trem.

A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

Dois sucos e a conta com Manoel Andrade

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O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará

O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará Hélio Sousa / Divulgação

O sertanejo que está revolucionando o ensino no interior do Ceará Hélio Sousa / Divulgação

Mauro Ventura em O Globo

Tudo começou em 1994, com sete jovens — seis rapazes e uma moça — estudando numa casa de farinha desativada ou debaixo de pés de juazeiro, sentados em cadeiras velhas. Moravam em Cipó, comunidade rural de apenas dez famílias a mais de cem quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Hoje eles são milhares e estão provocando uma pequena revolução educacional no estado. É o Prece, o Programa de Educação em Células Cooperativas, que em 2014 completa 20 anos. Por trás de tudo está Manoel Andrade, de 53 anos, doutor em Química da Universidade Federal do Ceará (UFC). Um dos dez filhos de um casal de agricultores, o pai mal sabia ler e a mãe tinha apenas a quarta série primária. Como em seu lugarejo não havia escola, Manoel foi aos 9 anos morar com os avós em Fortaleza para estudar. Quando começou a pós-graduação, passou a voltar todo fim de semana a Cipó, onde teve a ideia do Prece. No programa, não há professor. Cada estudante ensina aos demais sua disciplina favorita. Juntos, esses alunos do interior compartilham conhecimentos, apoiam-se mutuamente, superam deficiências de aprendizagem e passam no vestibular.

O GLOBO: Quem eram esses sete estudantes pioneiros?
MANOEL ANDRADE:
Eram todos excluídos educacionalmente e hoje, dos sete, só um abandonou os estudos. Os demais se graduaram. Um que na época havia parado na quarta série e estava com 20 anos virou doutor em Química e pesquisador na Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Outro que tinha 20 anos e cursava a sexta série está terminando o doutorado em Fitopatologia. Tem ainda um agrônomo, uma professora de História, um mestre em Educação e um graduado em Teologia.

Na época, houve reação dos pais dos jovens da região?
Sim. Os pais eram agricultores analfabetos. Na visão deles, os filhos precisavam trabalhar para ajudar a sustentar a família. Como aqueles jovens, que liam e escreviam de forma precária, entrariam na universidade? Mas, dois anos depois, um dos estudantes, Francisco Antônio, o Toinho, foi aprovado em primeiro lugar no vestibular de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Seis meses depois, outro também passou. Em 1988, eram quatro na UFC. O sucesso deles atraiu outros jovens.

Como surgiu a ideia do Prece?
Tem origem num episódio que me ocorreu aos 16 anos. Um jovem, Flávio Tabosa Barroso, me convidou para participar de um grupo de estudos. Perguntou o que mais eu gostava de estudar. “Biologia.” E ele: “Então você vai nos ensinar Biologia.” Cada um ensinava aquilo de que mais gostava. Foi uma revolução na minha vida. Quando comecei a voltar a Cipó, resolvi repetir a experiência. Eu botava os meninos para estudar juntos e os levava no meu carro para conhecer a universidade. Eles se animavam ao ver que alguém da região teve sucesso graças ao estudo.

O que essa metodologia de aprendizagem em grupo mostra?
A experiência dos grupos de estudo (também chamados de células de aprendizagem cooperativa) deu certo. Não pode ser só o professor dando aula, uma transferência impositiva de um lado para o outro. Você aprende muito mais interagindo, cooperando, compartilhando conhecimentos e trocando saberes com os outros do que apenas recebendo informação.

Aqueles sete iniciais hoje são milhares…
Estamos influenciando a rede pública do Ceará. A secretaria de Educação do estado me chamou para montar um programa para cada escola estadual. Já preparamos cerca de 2.500 estudantes para organizarem grupos de estudo. Eles estão se proliferando por todo o estado e já há um programa em Mato Grosso inspirado no nosso. Graças ao Prece, cerca de 500 jovens de origem popular entraram na universidade. E mais de 30 cursam ou já cursaram a pós. E não é um êxodo rural, porque, ao ingressarem na universidade, eles passam a retornar às suas comunidades e fundam novos grupos de estudo no interior, transformando a realidade de suas regiões. Nossa utopia é contribuir para a construção de uma escola pública de qualidade.

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