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Um jeito rápido e barato de educar o Brasil

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Gilberto Dimenstein, na Folha de S.Paulo

Não apenas fácil e rápido. Não precisa sair de casa. E não é necessário gastar um único centavo.

Apenas um pouco tempo – e o resultado terá impacto.

Está surgindo um movimento pedindo a pessoas que falam inglês para traduzir as ótimas aulas produzidas em vídeo no exterior, principalmente Estados Unidos.

São aulas sobre tudo e para todas as séries, com professores renomados das melhores universidades do planeta. Tudo gratuito.

A barreira é a língua.

Ajudar a traduzir faria uma tremenda diferença. Além de dar reconhecimento, em cada vídeo do tradutor.

Mais informações aqui.

Para quem deseja ser escritor

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Paula Pimenta, na Veja

Na semana passada, falei pra vocês sobre a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e até dei dicas de livros que gostei, para quem fosse passear lá e estivesse sem ideias. Porém, agora, a pedido dos meus leitores que encontrei na Bienal no fim de semana passado, vou dar outras dicas. Dessa vez para quem quer ser… escritor!

Ler

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Conheço gente que diz que adora escrever, mas não gosta de ler… Acho isso tão estranho que é como se um dentista me contasse que não gosta de dentes! O escritor tem que ler muito, inclusive mais do que a maioria das pessoas. Quem lê estimula a imaginação, aumenta a criatividade, aumenta o vocabulário e adquire conhecimento. Tudo isso é muito importante para o trabalho do escritor.

Não tenha preguiça de reler seu texto

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Essa está ligada à dica anterior. O escritor precisa ler não apenas os livros de outros autores, mas o dele mesmo também. Inúmeras vezes. Eu, por exemplo, releio cada capítulo ou crônica que termino umas 20 vezes antes de considerá-los realmente finalizados. A cada leitura, descubro palavras repetidas ou desnecessárias, troco parágrafos inteiros de lugar, monto um verdadeiro quebra-cabeças até que tudo se encaixe. E só então mostro para alguém.

Tenha leitores críticos

Cada escritor acha que o seu livro é o melhor do mundo e o trata como um filho. Eu, por exemplo, se falam mal dos meus livros, tenho vontade de pular no pescoço da pessoa, assim como uma mãe que defende sua cria. Mas é importante ouvir a opinião de outras pessoas, que vão ler o seu texto sem tanto apego e dizer imparcialmente se ele é realmente bom. Por isso aconselho que quando terminar de escrever, mostre o livro para alguém antes de mandar para uma editora. Pode ser uma professora, uma amiga que goste de ler, ou até mesmo um parente. Mas é preciso pedir para essa pessoa ser sincera e apontar possíveis defeitos. E então você vai ter que passar para uma fase difícil, que é inclusive a próxima dica.

Aceite as críticas

Tem gente que odeia receber críticas. Confesso que sou uma delas, mas as críticas construtivas nos ajudam a crescer, então é fundamental escutá-las (e aceitá-las), senão ficamos parados no mesmo lugar. Claro que cada pessoa pensa diferente, o que você acha perfeito, a sua amiga pode achar desprezível. Mas quando várias pessoas criticam ou elogiam algo, é sinal de que aquilo merece uma certa atenção. Eu uso isso como termômetro. Quando escuto vários leitores elogiando alguma parte dos meus livros, sinto que acertei. Já quando recebo críticas de pessoas diferentes a respeito de um mesmo ponto da história, percebo que no próximo livro será melhor se eu não escrever nada parecido…

Desapegue

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O escritor precisa escrever e reescrever várias vezes até considerar o texto bom. Se você acha que aquele capítulo que passou a madrugada escrevendo não ficou legal, é porque provavelmente não ficou mesmo. Então apesar do trabalhão que você teve, o melhor é desapegar e começar novamente. Porque se nem você gostar do seu trabalho, pode ter certeza que as outras pessoas também não vão.

Escreva sobre o que você gosta

O escritor passa muito tempo com seu livro. Então, se ele não gostar do tema, aquilo vai se tornar uma tortura! Escrever sobre o que gostamos é prazeroso, não dá vontade de parar, sentimos vontade de morar naquelas páginas. E o leitor sente isso. Quando o escritor cria o livro com paixão, esse sentimento ultrapassa o papel e toca as outras pessoas também.

Escreva sobre o que você conhece

É preciso convencer o leitor. Quando abrimos um livro e temos a impressão de que o escritor não sabe do que estava falando, dá vontade de fechá-lo na mesma hora. Por isso é preciso ter muita segurança. Eu sempre recomendo contextualizar a história em um local que você conheça, assim você vai saber descrever muito bem os cenários e vai poder imaginar melhor as situações que vai colocar no papel.

Mantenha um bloco de anotações sempre por perto

As ideias podem aparecer nas horas mais estranhas, como de madrugada ou no meio do banho. E da mesma forma que elas aparecem, elas também vão embora… De repente. Por isso é importante ter sempre onde anotar, para que não tenha perigo de você esquecer até que possa colocá-las em prática (em uma hora mais propícia).

Tenha (muita) paciência

Infelizmente as editoras não são muito abertas para autores iniciantes. Mas isso é compreensível, afinal, é o trabalho delas, o livro precisa ter muito potencial de venda para compensar sua publicação. A editora tem muitos gastos para produzir um livro, então o retorno precisa ser garantido. Dessa forma, é muito mais seguro publicar autores que já tenham um público, que sejam garantia de vendas. Mas, apesar disso, não é impossível. Cada vez mais autores brasileiros têm aparecido e as pessoas têm percebido que os livros produzidos aqui são tão bons quanto os de fora ou até melhores. Por isso não vale desistir depois do primeiro “não”. Se você acredita que seu livro é bom, siga em frente! Antes de conseguir uma editora para o meu primeiro romance, passei por duas que nem quiseram ler o meu livro. Dizem que a J.K. Rowling passou por SETE! Imagina só o quanto essas editoras devem se arrepender hoje em dia?

Não fique de braços cruzados

Um erro de muitos autores é achar que depois que o livro é publicado, basta esperar os leitores aparecerem. Vai ter que esperar por muito tempo… O autor tem que ser o primeiro divulgador de sua obra. Lembro que quando comecei, peguei meus livros e os levei em várias escolas, pedi para as professoras lerem, perguntei se não gostariam de fazer algum trabalho com eles em sala de aula… Eu também divulguei muito em blogs literários e nas redes sociais, e faço isso tudo até hoje! Uma outra coisa que eu fazia no começo (momento confissão constrangedora) era pegar os meus livros que ficavam nas prateleiras mais escondidas das livrarias e colocá-los em destaque, para que pudessem ser vistos! Hoje eu acho graça, mas tenho certeza que algumas das minhas primeiras leitoras compraram meu livro por terem ficado encantadas com a “capa linda”, que eu estrategicamente deixei à vista! Ah, sim, e essa é a penúltima dica…

Se apaixone pelo seu livro

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Você tem que ser o primeiro a gostar dele. Desde a capa até o último ponto final. Já expliquei lá em cima… O seu livro é o seu filho! Ele veio de você e vai ter uma parte sua nele para sempre. Então, se encante por ele. Defenda-o, divulgue-o e faça o possível para que ele cresça cada vez mais. Assim, você vai ver como é gostoso o orgulho que dá quando o nosso “bebê” é elogiado.

Sorria

Quando vários leitores tiverem seu livro em mãos, você vai ter que dar muitos autógrafos e tirar várias fotos! Então, pode ir treinando o sorriso! 🙂

A Bienal do Livro vai até o dia 8 de setembro, no Riocentro. Ainda vou estar lá nos dias 6 e 7. Espero vocês!

Até a próxima!

 

Estudante do Diário de Classe sonha em ser jornalista e escrever livro

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 Isadora Faber, do blog Diário de Classe, participou da 16ª Bienal do Livro no Rio de Janeiro

Isadora Faber, do blog Diário de Classe, participou da 16ª Bienal do Livro no Rio de Janeiro

Fabíola Ortiz, no UOL

“Eu sou meio tímida, mas quando tem que falar eu falo”, disse ao UOL a adolescente catarinense Isadora Faber, 14, que ficou famosa com seu blog “Diário de Classe”.

Tímida e meiga, a adolescente foi estrela em um debate, neste domingo (1), que reuniu dezenas de estudantes, professores e curiosos por conhecer a menina que denunciou problemas de sua escola pública em Florianópolis.

“É direito nosso ter uma escola pública de qualidade. Muita gente diz que é de graça e por isso não pode cobrar. Mas a gente paga imposto todo dia”, falou Isadora que sonha em ser jornalista e tem ainda a meta de terminar de escrever seu primeiro livro contando suas experiências.

Convidada para ir à feira internacional do livro no Rio, Isadora disse ter ficado feliz mas, ao mesmo tempo, envergonhada. “Acho que as pessoas aqui estão também interessadas na educação, se preocupam e vem para conhecer a minha história. Devem ter feito algo parecido também”, comentou.

A estudante recebe diariamente 10.000 mensagens no Facebook e sua FanPage tem mais de 620 mil curtidas. “As críticas são poucas, todas as mensagens incentivam e me fortalecem”, destacou.

O blog “Diário de Classe” completou um ano em 11 de julho e o foco é denunciar os problemas ou dificuldades que a escola enfrenta. “Se o professor faltava eu ia lá (na diretoria), é direito nosso saber por quê o professor faltou. Assim como ele tem direito de saber por quê o aluno faltou. Eu publicava tudo o que acontecia, era mesmo um diário”.

A catarinense se inspirou no blog NeverSeconds da escocesa Martha Payne que reclamava das merendas das escolas britânicas.

“Minha irmã foi para uma particular, aí eu comecei a ver a diferença, por quê na escola dela tinha mais coisas e a minha não. Eu via mais problemas e decidi criar o Diário de Classe”.

Logo no início, Isadora convidou uma amiga para participar, “mas os pais dela ficaram com muito medo do diretor da escola que falava que nossos pais iam ser presos”.

A menina admite que não imaginava que seu blog se tornaria tão famoso. “Mas para mim faz sentido, várias escolas públicas têm muitos problemas e muita gente vê isso. Me apoiar ou fazer algo parecido é uma maneira de ajudar”, salientou.

Apesar de ameaças, inclusive uma de morte pelo Facebook, Isadora diz não temer. Ela conta que os professores incentivavam alunos a fazer ameaças. “Eles me olhavam com cara feia e me diziam que ia apanhar na saída, se eu não parasse iam me bater”.

A vida de Isadora deve mudar daqui em diante. Assim que voltar à Florianópolis, a menina irá tocar uma ONG que leva seu nome. A entidade oficializada, na última sexta-feira (30), terá o objetivo de ajudar a outras escolas e atender o apelo das milhares de mensagens de seguidores que desejam denunciar problemas de suas próprias escolas.

Ela diz que está atrás de voluntários de outras cidades para serem representantes de sua ONG.

Prestes a concluir a oitava série, Isadora terá que mudar de escola. Ainda não sabe se irá para uma pública ou privada, mas admitiu que pretende continuar publicando denúncias caso a próxima escola apresente problemas.

O mundo cabe em 196 livros

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A escritora britânica Ann Morgan decidiu que durante um ano leria uma obra de cada país do globo. Criou um site, escreveu sobre a experiência e prepara-se para publicar o resultado em livro. Diz que falta traduzir mais literatura lusófona.

Hélder Beja, no Ponto Final

ann2Ann Morgan fez a lista de países que queria visitar, ajustou planos de viagem para um ano, meteu o backpack às costas e partiu em direção à estante lá de casa. Sentou-se no sofá e pôs-se a ler.

Cada um viaja como quer e, no lugar de andar por aí nas aventuras do mundo, esta escritora britânica decidiu chamar a si as histórias dos 195 países reconhecidos pelas Nações Unidas, e ainda de Taiwan. “Descobri que os meus hábitos de leitura eram muito anglocêntricos. A maioria dos livros que lia eram de escritores britânicos e americanos, nunca lia traduções”, conta a autora por email. “Decidi passar um ano a ler um livro de cada país do mundo.”

A tarefa, pode imaginar-se, não foi fácil. Aos naturais constrangimentos de tempo – era preciso ler cada livro em menos de dois dias para atingir o objectivo de cumprir tudo num ano – houve também dificuldade em conseguir encontrar títulos de vários países. As ajudas chegaram através das redes sociais e do site criado pela autora (ayearofreadingtheworld.com), com vários escritores, tradutores e leitores a facilitarem o processo.

As nações africanas de expressão portuguesa, particularmente São Tomé e Príncipe, foram um grande desafio, já que “os países africanos francófonos e lusófonos têm muito pouca literatura traduzida”. São Tomé acabou por ser uma das experiências mais interessantes de todo o processo. Confrontada com a ausência de qualquer livro de ficção traduzido para inglês, e depois de muitas dicas de cibernautas, Ann Morgan acabou por comprar uma série de exemplares de “A Casa do Pastor”, livro de contos de Olinda Beja publicado pela Chiado Editora, e por reenviá-los para vários voluntários na Europa e nos Estados Unidos da América que se ofereceram para fazer a tradução propositadamente para este projeto, dando origem ao novo “The Shepherd’s House”. “Foi uma das mais extraordinárias experiências colaborativas que alguma vez tive o privilégio de testemunhar”, diz Morgan.

De Moçambique veio uma das boas surpresas desta maratona de leitura. “Ualalapi”, romance de Ungulani Ba Ka Khosa, foi a escolha pouco óbvia de Ann Morgan, num país com outros nomes grandes e traduzidos, como Mia Couto e Paulina Chiziane. “Estava a preparar-me para ler ‘A Varanda do Frangipani’, de Mia Couto, quando recebi um comentário no site em que me diziam que devia ler ‘Niketche’, de Paulina Chiziane, porque é um cliché ler apenas Mia Couto e ela precisa de mais atenção”, conta a autora.

Influenciada pela sugestão, e com vontade de fugir aos lugares comuns, Morgan contactou a Alfama Books em busca da tradução inglesa do livro de Chiziane. Só que a tradução nunca chegara a ser terminada, apesar de existir até uma capa do pretenso livro – a editora faliu antes de publicá-lo.

Foi o editor da Alfama, Richard Barlett, quem acabou por colocar esta aventureira dos livros no caminho de Ungulani Ba Ka Khosa, dizendo-lhe que tinha uma tradução inédita de “Ualalapi”, livro que consta da lista de 100 melhores obras africanas do século XX publicada pelo Modern Library Board dos EUA. “Ter sido uma das poucas pessoas que algumas vez leu este poderoso clássico em inglês foi um enorme privilégio. Deixou-me triste pensar em tudo o que devemos estar a perder na nossa pequena bolha da língua inglesa e fiquei zangada por a literatura moçambicana, que existe numa língua tão comumente falada como o português, não ser mais traduzida e lida.”

Portugal clássico

Quando chegou a hora de ler um livro português, Ann Morgan esteve tentada a escolher um dos romances do único Nobel da Literatura das nossas letras, José Saramago, mas, mais uma vez, os conselhos dos leitores e amigos que foram acompanhando o seu projeto conduziram-na a outras paragens e a uma das obras mais curiosas de Eça de Queiroz: “O Mandarim”. “Este livro foi-me emprestado por uma mulher portuguesa que trabalhava no Guardian, onde eu também estava nessa altura. Ela soube do que eu estava a fazer e deu-me o livro. Foi um dos primeiros livros que alguém me deu para este projeto e fiquei muito sensibilizada com esse gesto de alguém que não conhecia. Foi por isso que decidi lê-lo.”

Ao conhecer as desventuras da personagem Teodoro, que viaja até à China, Morgan deu de caras com um autor do século XIX que, no entanto, “tem uma frescura na linguagem que a faz parecer muito mais recente”.

A obra lida pela escritora britânica foi na verdade “The Mandarin and Other Stories”, com outros contos de Eça a juntarem-se ao texto principal. “O Eça é divertido e experimental, e delicia ao meter-se com os leitores em certas ocasiões, desafiando-os do mesmo modo que desafia as suas personagens”, continua Ann Morgan, que espera pegar noutra obra do autor de “Os Maias”. “Provavelmente em 2020, quando der conta do acumular de todas as outras coisas maravilhosas em que fui tropeçando durante esta tentativa de ler o mundo”, brinca.

Dos outros países lusófonos, o projecto Reading the World levou a autora britânica a títulos como “A Casa dos Budas Ditosos”, do brasileiro João Ubaldo Ribeiro; “O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo”, do cabo-verdiano Germano Almeida; “Unidade e Luta”, do guineense Amílcar Cabra; “O Assobiador”, do angolano Ondjaki; e “Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam”, do timorense Luís Cardoso.

Foi aqui, no livro de Cardoso, que Ann Morgan encontrou aquilo que descreve como um dos melhores cruzamentos entre realidade e ficção. “The Crossing”, título da obra em inglês publicada pela Granta, é uma espécie de auto-biografia em que o autor hoje a viver em Portugal recorda a sua infância e adolescência. Ao mesmo tempo que torna a narrativa o mais pessoal possível, Luís Cardoso vai também pintando um fresco do passado recente muitíssimo conturbado de Timor-Leste. “Este livro é tanto sobre esquecer como sobre recordar. Enquanto o pai de Cardoso, traumatizado e exilado, molda a narrativa, o próprio Cardoso tenta reconciliar-se com as versões parciais de acontecimentos que encontra através das próprias memórias fragmentárias que tem da sua terra natal”, explica Ann Morgan. Para a autora, “The Crossing” é um livro “tocante, lírico e às vezes divertido sobre a busca de identidade numa terra que pôde apenas fugazmente ser chamada sua”. Cardoso consegue criar “uma obra de arte convincente a partir de um caleidoscópio de mudanças e de alianças pessoais e políticas”.

A grande China

Pensar em encontrar um livro das ilhas Comoro ou de Madagáscar que seja interessante e esteja disponível em inglês não pode ser uma tarefa fácil. E a certa altura percebe-se que Ann Morgan deixou cair o primeiro critério, da qualidade, para simplesmente conseguir encontrar um título que lhe permitisse seguir em frente.

No caso de nações como o Brunei e o Bahrain, o caso foi diferente: Morgan confrontou-se com histórias de escritores que, não tendo o inglês como primeira língua, decidem escrever em inglês para chegarem a maiores audiências. As insuficiências gramaticais e vocabulares encontradas em títuilos como “QuixotiQ”, de Ali Al Saeed, fizeram Morgan “valorizar ainda mais o papel das traduções”, para que escritores não se sintam compelidos a usar uma língua que não lhes é natural.

Se houve casos de escassez, houve naturalmente vários outros de fartura de opções, como por exemplo a China. “O meu conhecimento sobre literatura chinesa era praticamente inexistente, e fiquei muito feliz quando a tradutora Nicky Harman se ofereceu para me guiar por algumas opções”, prossegue Morgan. Depois de muita conversa e sugestões, a leitora escolheu “Banished!”, de Han Dong, um romance sobre uma família, a família Tao, banida da cidade de Nanjing e obrigada a recolher-se na aldeia de Sanyu no final dos anos 1960.

A trama de “Banished!” acompanha todas as mudanças na vida de uma família enredada nas teias do maoismo e “o resultado é uma narrativa comovente sobre o poder dos seres humanos para assumirem as suas identidades”, mesmo nas circunstâncias mais sombrias. “Há países como a Índia e a China onde o desafio é selecionar apenas um livro quando há tantas histórias maravilhosas por onde escolher”, conclui Morgan.

A vez de escrever

Ann Morgan não consegue eleger um livro ou um autor entre os muitos que leu, da América Latina ao Sudeste Asiático, nem mesmo entre os títulos portugueses que selecionou: “É impossível responder a isso. Direi apenas que há histórias extraordinárias e excepcionais, que mudaram a minha forma de pensar em muitos aspectos”.

Depois de um ano em que o mais importante foram a disciplina e a capacidade de dormir poucas horas para continuar a ler, a autora está agora a trabalhar no livro que reunirá todos os textos que escreveu sobre esta experiência e que será publicado em 2015. “Será uma obra sobre a minha busca e sobre explorar a ideia de leitura e de cultura mundial, e no que isso pode ensinar-nos sobre a vida e as pessoas que nos rodeiam.”

O próximo projeto de Ann Morgan mantém o espírito de partilha de conhecimento e de apelo a outras pessoas para que participem daquilo que está a fazer – tudo porque “muitos cérebros são melhores que um”. Chama-se “If Women Ruled” e pretende ser um retrato de grupos de mulheres à volta do globo, que ocupem diferentes posições e tenham diferentes papéis nas sociedades em que estão inseridas. O site já existe (ifwomenruled.com) e o lema também: “What if History was Herstory?”.

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