Professor Enéias Tavares (Foto Reprodução/A Razão)

Professor Enéias Tavares (Foto Reprodução/A Razão)

Cadão Volpato, na Folha de S.Paulo

“Num cenário retrofuturista, os heróis da literatura brasileira do século 19 investigam os crimes do ousado assassino serial Antoine Louison.”

Foi assim, em exatos 139 caracteres, que o escritor Enéias Tavares passou pela primeira etapa de um concurso de ficção científica promovido pela editora Casa da Palavra.

O desafio era resumir a trama de um romance num formato de Twitter, cujas mensagens são de no máximo 140 caracteres. Enéias acabaria vencendo mais de 1.500 concorrentes com o livro “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison”, um exemplar da corrente “steampunk”, surgida no final dos anos 80.

O “steampunk” é um subgênero retrofuturista da ficção científica, o oposto do cyberpunk, com um pé no século 19 e outro no amanhã.

O gaúcho Enéias Tavares, 32, é professor de literatura clássica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e especialista nos “Livros Iluminados” do britânico William Blake (1757-1827).

“A Lição de Anatomia…” mistura inúmeras referências da literatura brasileira do século 19, associando livremente as obras e personagens de Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913) e Lima Barreto (1881-1922) a serviçais-robôs e zepelins.

É um parente amalucado de Júlio Verne (1828-1905) e da série de televisão dos anos 1960 “James West”.

INFLUÊNCIAS

O Brasil já tem uma tradição no terreno da ficção científica, e Enéias Tavares conhece bem os autores brasileiros da área.

“Além de A Máquina Voadora’ (1994), de Braulio Tavares, sempre sugiro o primeiro livro de ficção científica nacional, que é O Doutor Benignus’ (1875), de Augusto Emílio Zaluar”, diz Tavares sobre suas preferências.

“Dos contemporâneos, adoro a obra de Fabio Fernandez, bem como os romances de Felipe Castilho (Ouro, Fogo & Megabytes’, de 2012) e Nikelen Witter (Territórios Invisíveis’, lançado no mesmo ano).”

Mas o idiossincrático roteirista de quadrinhos inglês Alan Moore (“Watchmen” e “A Liga Extraordinária”) é uma das fontes de inspiração mais palpáveis em “Lição de Anatomia”.

“Alguns amigos, quando leram pela primeira vez o meu romance, disseram que era A Liga Extraordinária’ com heróis brasileiros, o que foi o melhor elogio que eu poderia ter recebido”, conta o escritor.

“A Lição de Anatomia” traz uma espécie de “samba do crioulo doido” do mundo cibernético. Mas a graça está toda aí.

Faz muito tempo que a literatura brasileira contemporânea, tão comportada, não se deixa levar pela imaginação, conversando com o próprio passado.