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Mesmo em tempos de crise, mercado recebe duas novas editoras

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Publicado no Boa Informação

O livro digital ainda não tomou o lugar do impresso, e os conglomerados da indústria editorial. Foto: Internet/Reprodução

O mercado editorial sofre com a crise brasileira. Se em 2014 havia uma esperança de que os números do setor se alinhassem com um possível crescimento do PIB. Hoje, sabe-se que isso não vai acontecer. Pesquisa da Fipe demonstrou que o preço real do livro caiu em 36% em 2015 e o faturamento passou de R$ 1,6 bilhão para 1,4 bilhão.

O livro digital ainda não tomou o lugar do impresso, e os conglomerados da indústria editorial, com grupos que reúnem dezenas de selos e editoras, são uma realidade. Hoje, cinco grupos produzem 50% dos livros vendidos no mundo. Mesmo assim, Florência Ferrari, Gisela Gasparian e Elaine Ramos decidiram montar uma editora assim que saíram da Cosac Naify, cujas atividades foram encerradas em 2016.

Inaugurada em setembro do ano passado, a Ubu completou seis meses com uma surpresa: foi preciso fazer uma segunda tiragem de Os sertões (Euclides da Cunha), livro de estreia da editora feito em parceria com o Sesc. No total, a Ubu produziu 6 mil exemplares do livro, o dobro de uma tiragem inicial de uma editora independente.

Em janeiro, foi a vez de Flávio Moura e André Conti deixarem a Companhia das Letras para fundar sua própria casa. Com Leandro Sarmatz e Marcelo Levy, Moura e Conti pretendem dar corpo a uma editora de grande porte. Não é pequena nem independente, como a Ubu, e tem a ambição de publicar literatura de forma geral, num ritmo inicial de dois livros por mês. “Não é uma editora de nicho, é uma editora de público geral, contando que a gente vai fazer ficção literária estrangeira e brasileira, não ficção, que é um guarda-chuva grande dentro do espírito de qualidade literária e de livros para durar. Ou seja, não são livros de temporada”, avisa Conti.

Mesmo com o momento ruim da economia e os números desanimadores da leitura no Brasil – a pesquisa Retratos da Leitura demonstrou que 44% dos brasileiros não leem e os que leem não ultrapassam cinco livros por ano -, os editores são otimistas.

O Correio falou com os editores para saber o que os motiva, num momento complicado para a economia e a cultura do país, a criar uma empresa de livros.

O editor André Conti. Foto: Ranato Parada/Divulgação

O editor André Conti. Foto: Ranato Parada/Divulgação

 

Vocês têm uma meta de lançamentos?
Este ano, a gente deve lançar 25 livros. Ano que vem, entre 20 e 25, de novo. E, a partir do terceiro ano, devemos diminuir porque aí teremos lançado todos os livros do catálogo e vamos nos concentrar em fazer alguns livros, uns 15 por ano, do começo do processo.

Você faz questão de esclarecer que a editora não será independente. E vocês vêm da maior editora do país. Vai ter alguma conexão com a Companhia das Letras, será uma editora no mesmo formato?
A Companhia das Letras surgiu em 1986 e pertence a um outro universo, do qual a gente fez parte. A gente se criou dentro. Mas ter uma editora nova é a possibilidade de fazer as coisas um pouco diferentes. A gente tem a preocupação de pensar uma editora que está surgindo em 2017. Obviamente, as editoras grandes se tornaram digitais, sociais e tal. Mas a gente já nasce assim, essa é a vantagem. A gente não está com o trem andando e precisa incorporar rede social, e-book e estrutura. A gente já nasce dentro de uma coisa moderna, então, certamente, nesse sentido, é uma editora diferente. É uma editora horizontal, então, a maneira como as decisões são tomadas por nós são coisas que a gente está tentando fazer diferente.

Mas com ambição de ser uma grande editora?
Com ambição de ser uma editora literária, conhecida, uma casa onde os livros têm qualidade, que os leitores se identifiquem, que o leitor que pegue um livro da nossa editora saiba que vai ter uma boa edição, que a curadoria de títulos é interessante, que a gente tenta trazer novidades. Claro que tem uma ambição de concorrer com as grandes, com as editoras que publicam coisas de qualidade. A gente tem uma escala diferente, claro, mas o que a gente quer publicar certamente é concorrente para as literárias.

Você disse que tem a vantagem de nascer num momento em que a internet é um espaço importante. Por quê?
Quando você lançava uma editora, há alguns anos, você aparecia no jornal falando, dependia de uma matéria para comunicar ao mundo, tinha um monte de intermediários entre a editora e o público e as editoras floresceram dentro desse sistema. A gente não tem intermediário, a gente já nasce em contato com o público e muito mais livres para experimentar linguagens, comunicações, formas de chegar aos leitores. É uma situação muito propícia. A gente quer entender de linguagem digital, como se comunicar com os leitores, como eles vão participar da vida dessa editora. E tudo isso começa e termina no ambiente digital. Nosso tamanho e o fato de ser uma editora nova nos permite arriscar mais, testar. A gente tem uma liberdade neste momento de tatear um pouco esse mundo digital.

Vocês pretendem usar a rede para ir além da divulgação?
Claro. Isso tem a ver com produção de conteúdo. Literatura tem sempre uma coisa meio estanque: sai o livro, aí você pode ir ao lançamento, tem um release e uma resenha. Acho que nossa editora permite pulverizar esse limite, burlar esse limite. E isso tem a ver com produção de conteúdo não institucional, com agitar as redes. Não é ficar no Facebook fazendo posts engraçadinhos com memes. É tentar entender como a gente pode usar a internet para fazer com que o conteúdo legal chegue aos leitores. É uma tentativa de criar coisas legais para os leitores.

“A gente não tem intermediário, a gente já nasce em contato com o público e muito mais livres para experimentar linguagens”

André Conti, editor de livros

Editora Gisela Gasparian. Foto: UBU/Divulgação

Editora Gisela Gasparian. Foto: UBU/Divulgação

 

O que significa ser uma editora independente no Brasil hoje?
Significa pensar o mercado editorial de uma maneira mais flexível. Nossa equipe é a menor possível, a gente contrata pessoas por projeto, os editores são (mais…)

Ex-diretoras da Cosac Naify abrem uma nova editora

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Publicado no Hoje em Dia

“Só vamos sair daqui quando estivermos a ponto de matar alguém!” Florencia Ferrari, ex-diretora editorial da Cosac Naify, diz a frase e aponta para o cenário espartano à sua volta: pé-direito alto, estantes de metal, bancadas de madeira -o luxo é só uma varandinha.

É nesse lugar, em um prédio no largo do Arouche, que ela e Elaine Ramos, ex-diretora de arte da Cosac, botam de pé sua nova casa, a editora Ubu. Às duas, veio juntar-se Gisela Gasparian, ex-executiva de fundos de investimento -e neta de Fernando Gasparian, fundador da editora Paz e Terra.

O escritório minimalista -e a sócia que acha planilha “uma delícia”- já mostra a principal diferença entre a Ubu e a Cosac Naify: a nova editora precisa botar tudo na ponta do lápis, porque não há um mecenas para vir em seu socorro.

A Cosac acabou, como Charles Cosac fez questão de repetir quando anunciou o fim da empresa, mas suas ex-funcionárias não podem deixar de ser quem são. Assim, é claro que a Ubu lembra aqui e ali o trabalho da extinta editora. Não só pelos 35 livros que comprou da Cosac -selecionados entre os 200 mais vendidos-, mas pelo perfil editorial. O catálogo da Ubu, afinal, é parecido com o da Cosac: ciências humanas, literatura, crítica, artes visuais, cinema, livros de referência. “É interdisciplinar, como era o da Cosac. Não conseguimos fazer livros de uma única disciplina”, diz Florencia.

A qualidade visual, dizem as três sócias da Ubu, será de alto padrão -mas, por economia, o design não está solto para se refestelar no mundo mágico da produção gráfica.

O trio traz para a nova casa o conhecimento de quem viu a Cosac Naify funcionar por dentro. Lembrando dos números de lá, Elaine e Florencia sentaram com Gisela para ver se o projeto era viável. “Não é um mercado tão pessimista assim. O custo fixo da Cosac era gigante. Temos zero megalomania, com previsões modestas”, diz Gisela, lembrando que a nova editora não fará promoções agressivas em seu site.

Vale dizer que a Ubu tem Cristina Pinho de Almeida, investidora de vários ramos, que ajudou a botar o negócio de pé. Embora ela não fique com a faca no pescoço do trio, esperando que a empresa valha milhões para ontem, também não é um investimento a fundo perdido. É um dinheiro amigo, mas a Ubu precisa dar certo.

O primeiro lançamento, que chega às livrarias neste mês, é a edição crítica de “Os Sertões”, organizada por Walnice Nogueira Galvão, que a Cosac não teve tempo de lançar.

No prelo, também está “O Supermacho”, de Alfred Jarry (autor de “Ubu Rei”, que dá nome à editora), com uma tradução revisada de Paulo Leminski. Um livro infantil de Antonio Prata, “Jacaré, Não!”, também vem por aí em breve. “Vimos que havia um lugar vazio. E é um lugar de nicho. Nossa ideia é focar nisso. Precisamos trabalhar bem o nosdo público para conquistar o nosso lugar”, diz Florencia.

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